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Por Ciberdúvidas da Língua Portuguesa

1. Era um jogo de futebol, e o desportivismo deveria ser inerente aos gestos e às palavras. Não foi o que aconteceu em 16 de fevereiro de 2020, no jogo entre o  o Vitória de Guimarães e o Futebol Clube do Porto, durante o qual o jogador franco-maliano Moussa Marega foi insultado por adeptos da equipa minhota. A deceção pela derrota levou várias pessoas a dar voz a palavras e expressões de ódio, testemunhos verbais de práticas e visões racistas de um passado para não repetir. Fazendo a crónica deste triste incidente na rubrica O nosso idioma, a linguista Carla Marques, consultora permanente do Ciberdúvidas, dá conta de como o racismo, entre outras atitudes ofensivas da integridade humana, se inscreve na língua – e deixa um aviso: «[A] linguagem que usamos pode colocar-nos acima ou abaixo da linha da humanidade. A escolha é nossa!»

2. De histórias antigas de preconceito e discriminação se fala também no Consultório, a propósito da expressão tradicional «ruço de mau pelo». Mas os tópicos relativos à análise interna da língua igualmente estão igualmente de regresso na presente atualização: como se classifica o complemento do verbo pertencer? E a que subclasse gramatical pertencem, afinal, os advérbios efetivamente, efetivamente e decerto? Por último, uma resposta volta a abordar um uso do advérbio onde: deve apenas dizer-se «aonde vamos?», e «onde vamos?» é erro crasso?

3. Em vários pontos do mundo, o divertimento, a alegria esfuziante e a  imaginação das máscaras marcam o Carnaval, tempo também de excessos e abusos que nenhuma tradição pode legitimar. No Brasil, país onde a festa é especialmente assinalada, a campanha Não É Não, começada em 2017, atinge, em 2020, 15 estados contra o assédio sexual, que cresce durante este período tão popular. Num artigo de 19/02/2020 da publicação digital Tornado, o jornalista brasileiro Marco Aurélio Ruy faz a reportagem da ação do referido movimento, que sublinha que «assédio é diferente de paquera» e «xingar de vagabunda» é evidente abuso – tudo isto se pode ler no título bem brasileiro que o autor dá ao texto: "Não seja um babaca no Carnaval e leve a lição contra o assédio para a vida toda". Recorde-se que babaca é termo muito utilizado no português brasileiro para designar, de forma insultante, uma pessoa tola, ingénua, boba, idiota ou de baixo intelecto.

Leia-se, ainda a reportagem No Carnaval brasileiro vale tudo, menos assediar, da autoria do jornalista João Ruela  Ribeiro, no jornal "Publico" do dia 26/02/2020. Texto escrito segundo a norma ortográfica de 1945.

Na imagem à esquerda, Carnaval, de Candido Portinari (1903-1962).

4. Convém ainda lembrar que o Entrudo, nome mais tradicional desta festa, tinha e ainda tem uma função precisa no calendário de tradição cristã: trata-se de um introito, isto é, da preparação para a entrada no período de jejum e de abstinência da Quaresma. Sobre o Carnaval e a Quaresma, é já longa a lista de artigos e respostas em arquivo no Ciberdúvidas, mas aqui se deixa uma seleção: "Portugal, Alentejo, no Carnaval", "'Enfezar o Carnaval': etimologia", "'Enfezar o Carnaval', mais uma vez", "Entrudo, novamente", "Natal, Carnaval, Páscoa: palavras variáveis", "A palavra confete", "Do Carnaval ao futebol", "O Carnaval e o futebol são o ópio do povo»", "Partidas de Carnaval", "Sobre a origem de Quaresma"., "Etimologia de Quaresma, Pascoela, micareta, advento, educar e inteligente", "/Quarèsma/", "Quarta-Feira de Cinzas". E serve esta chamada de atenção também para informar que, devido à quadra festiva, a próxima atualização fica marcada para sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020.

5. Comemora-se na presente data o Dia Internacional da Língua Materna, e vem, portanto, a propósito o artigo que a publicação em inglês The Visual Capitalist dedicou em 15/02/2020 às 100 línguas mais faladas no mundo. Baseando-se numa infografia divulgada pelas páginas do Wordtips, por sua vez, apoiado pela 22.ª edição do Ethnologue, o texto salienta alguns dados interessantes sobre o estatuto do português na história e na atualidade linguística mundiais: é uma das línguas da família linguística mais difundida no mundo, a indo-europeia; encontra-se entre as 10 mais faladas mundialmente, ocupando a 9.ª posição quanto ao número total de falantes nativos e não nativos; mas ascende à 6.ª posição, quando se conta o número de falantes nativos. Uma conclusão entre várias é que, em comparação com o inglês ou o espanhol, o chamado idioma de Camões precisa de ser mais dinâmico para se tornar 2.ª língua de muitos milhões de falantes.

6. No âmbito da promoção do português como língua internacional e de conhecimento, assinala-se a eleição de Margarida Mano, docente da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC), para presidente da direção da associação FORGES-Fórum da Gestão do Ensino Superior nos Países e Regiões de Língua Portuguesa. Trata-se de uma instituição criada em 2011 que tem como principal objetivo promover uma rede de estudo e investigação na área da gestão e das políticas de ensino superior no espaço da língua portuguesa. Em nota de imprensa da Universidade de Coimbra (UC), data de 14/02/2020, a nova presidente da FORGES considerou que «[o] português é a língua mais utilizada no hemisfério sul e a sexta língua mais falada do globo», acrescentando que «o ensino superior tem particulares responsabilidades de um compromisso ativo na defesa da língua portuguesa e do seu papel na preservação da civilização e da cultura humanas» (ler também aqui no jornal regional As Beiras).

7. Nos programas que a Associação Ciberdúvidas da Língua Portuguesa produz para a rádio pública portuguesa, o tema comum é a leitura, em conversa com dois convidados:

♦ No programa Língua de Todos,  transmitido pela RDP África, na sexta-feira, dia 21 de fevereiro, pelas 13h20*, entrevista-se Ana Sousa Martins, linguista e coordenadora da Ciberescola da Língua Portuguesa, a propósito da edição da obra Contos com Nível, especialmente dirigida a alunos de português língua estrangeira com cerca de um ano na aprendizagem do idioma.

♦ No programa Páginas de Português, emitido pela Antena 2, no domingo, 23 de fevereiro, pelas 12h30, convida-se o professor João Luís Lisboa, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa a falar da necessidade que a atual sociedade do conhecimento tem de adquirir competências de leitura de diferentes textos – literários, informacionais, mediáticos.

O programa Língua de Todos é repetido no sábado, dia 22 de fevereiro, depois do noticiário das 09h00; e o  Páginas de Português  tem repetição no sábado, dia 29 de fevereiro, às 15h30). Hora oficial de Portugal continental, ficando ambos os programas disponíveis posteriormente aquiaqui.

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1.  Ao contrário dos eufemismos, cujo conteúdo suaviza a alusão a certas realidades – caso de «ir desta para melhor», em vez de morrer –, fala-se de disfemismos quando em discurso se usam palavras e expressões desagradáveis e depreciativas que acentuam e dão vazão a sentimentos de amargura, rancor ou ódio. São bons exemplos as metáforas inspiradas no mundo natural: «seu burro!», «grande camelo!», «este tipo é um cepo». Sobre a criatividade linguística mobilizada e fixada ao longo de gerações, frequentemente para ofender e insultar, a professora Carla Marques, consultora permanente do Ciberdúvidas, desenvolve na rubrica O nosso idioma um curioso apontamento sobre as diferentes injúrias e imprecações do português.

2. Na rubrica Pelourinho, um erro indesculpável em televisão é tema de comentário: o uso da forma popular "tar" em lugar de estar, levando na escrita a confusões escusadas com o verbo ter. Recorde-se que esteve é a forma de estar na 3.ª pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo; mas teve  é a flexão correspondente do verbo ter.

3. No Consultório, cinco novas perguntas: haverá algum adjetivo equivalente a «(pessoa) que tem memória de elefante»? O que é um não expletivo? Numa pergunta, a palavra ou a expressão interrogativas são seguidas de vírgula? Como distinguir casos de coesão lexical? E quando se torna obrigatório empregar a locução pronominal relativa «o qual»?

4. O escritor angolano Pepetela é o vencedor do prémio Prémio Literário do festival Correntes d’Escritas 2020, conforme o anúncio feito neste dia na cerimónia de abertura oficial deste encontro (ler também aqui). Trata-se de um acontecimento cultural que reúne escritores africanos, brasileiros e de expressão ibérica na cidade portuguesa da Póvoa de Varzim e se prolonga até 22 de fevereiro.

Além de outros escritos do escritor angolano Pepetela disponíveis no arquivo do Ciberdúvidas, vale a pena (re)ler, na rubrica Antologia, o  texto "Uma língua que aceita brincadeiras" – especialmente escrito para uma sequência que envolveu  o cabo-verdiano Germano Almeida, o guineense Carlos Lopes, o moçambicano Mia Couto e o português José Saramago.

5. Um comportamento recorrente na história de qualquer língua é empregar velhas palavras para aplicar a novos referentes. Foi o caso de faia, que, nos Açores e na Madeira, passou de denominação da Fagus sylvatica a termo identificativo da Myrica faya; ou, entre os topónimos, o de Santarém, nome latino-romance de uma cidade portuguesa de origens romanas e de uma cidade brasileira fundada no século XVII. A expansão e colonização europeias a partir do século XV marcaram uma época fértil em situações destas, bem conhecidas na evolução do português. A propósito deste tema, assinale-se o artigo que, no blogue Travessa do Fala-Só, o  tradutor Vitor Lindgaard dedica, em 17/02/2020, a nomes como milho e feijão, de etimologia europeia bastante antiga, mas que hoje denotam plantas importadas do continente americano há mais de trezentos anos.

6. Entre iniciativas académicas com interesse para a promoção da língua portuguesa, merecem registo:

– Neste dia, 19 de fevereiro, o conjunto de atividades abertas à comunidade que a Universidade de Aveiro organiza, focando a importância da diversidade cultural para as relações humanas e para a sociedade. É uma iniciativa que se insere na comemoração, em 21 de fevereiro p. f., do Dia Internacional da Língua Materna.

– O colóquio Línguas de Camões. O que pode e o que quer o português língua estrangeira?, a realizar em 11 de março de 2020 na Faculdade de Ciências de Humanas da Universidade Católica Portuguesa. A conferência de abertura é do professor Roberto Vecchi, especialista de literatura portuguesa na Universidade de Bolonha. As inscrições são até 4 de março (mais informação aqui).

7. Sobre os programas de rádio que a Associação Ciberdúvidas da Língua Portuguesa produz para a rádio pública portuguesa, uma chamada de atenção para o programa Língua de Todos,  transmitido pela RDP África, na sexta-feira, dia 21 de fevereiro, pelas 13h20*, e para o Páginas de Português, que tem mais uma emissão na Antena 2, no domingo, 23 de fevereiro, pelas 12h30.

O programa Língua de Todos é repetido no sábado, dia 22 de fevereiro, depois do noticiário das 09h00; e o  Páginas de Português  tem repetição no sábado, dia 29 de fevereiro, às 15h30. Hora oficial de Portugal continental, ficando ambos os programas disponíveis posteriormente aquiaqui.

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1. De onde vêm as palavras? Que percursos realizaram para chegar até nós com a roupagem que hoje trazem? Dúvidas desta natureza ocorrem muitas vezes aos falantes e algumas delas chegam ao Consultório do Ciberdúvidas. Na nova atualização, ocupamo-nos da etimologia do substantivo noite, que se explica vir de uma forma do latim vulgar. As palavras que se apresentam como novas aos falantes que as pretendem converter à forma escrita são, por vezes, feitas de sons que parecem resistir à grafia. Como selecionar, então, a melhor solução ortográfica? Hoje, fazemos essa reflexão a propósito da palavra ianomâmi, referente a uma tribo indígena brasileira, à procura de uma forma que a torne clara para as diferentes variantes do português. Em palavras como mares, rapazes, dores luzes, o e que surge antes da consoante s faz parte do sufixo de plural ou pertence ao radical da palavra? As conjunções, ao estabelecerem nexos entre segmentos textuais, podem não traduzir sempre o mesmo valor. É o que sucede com a conjunção enquanto na frase «Enquanto não trouxermos o estrangeiro até à nossa língua, teremos ficado apenas a meio do caminho», na qual se afasta do seu valor típico de localização de um intervalo de tempo que inclua a situação descrita na oração subordinante. Por fim, uma reflexão sobre as diferenças entre a modalidade epistémica e a modalidade apreciativa.

Primeira imagem: Noite Estrelada, pintura de Vincent van Gogh,1889

2. Adotando como tema central a questão da expansão e afirmação da língua portuguesa no plano internacional, o jornalista, escritor e ex-ministro da Comunicação Social angolano João Melo advoga que a defesa da língua deve constituir um objetivo comum a todos os países de língua portuguesa, que têm de conseguir ultrapassar os seus "traumas" de fundo histórico para se unirem em torno deste objetivo estratégico, fundamental para a sua afirmação no plano internacional. Defende, ainda, que a existência de um acordo ortográfico, comum a todos os países é vital para se atingir com sucesso esta meta  (artigo originalmente publicado no Diário de Notícias, aqui transcrito com a devida vénia). 

3. Ainda a propósito do mundo cinematográfico e dos seus prémios e festivais, a lexicógrafa Ana Salgado organizou um pequeno apontamento onde se esclarecem as regras a adotar para grafar títulos de documentários, de eventos cinematográficos, de prémios e de categorias de prémios, um texto divulgado na plataforma Gerador

4. Numa altura em que Portugal parece estar próximo de atingir a média europeia em termos de abandono escolar, há outro problema estruturante que emerge: os alunos que, estando na escola, não aprendem quase nada. Refletindo sobre o tema, no artigo O perfil dos que não aprendem, divulgado no jornal Público, Isabel Flores, secretária-geral do IPPS-ISCTE, analisa os indicadores ligados à família destes alunos muito fracos, comparando-os com a média nacional. Assinala ainda as razões justificativas do insucesso apontadas por diretores e pelos próprios alunos. Uma reflexão importante para a definição de caminhos suscetíveis de integrar estes alunos, que não podem viver à margem da escola sob pena de estarem condenados a permanecer à margem da sociedade. 

5. No plano das notícias relacionadas com a língua e cultura, destacamos:

– A cerimónia de apresentação pública do Programa Indicativo de Ação Cultural Externa para 2020, que tem lugar no próximo dia 19 de fevereiro, pelas 11h30, no Ministérios dos Negócios Estrangeiros;

– O projeto da TDM rádio Macau, que, a partir de Macau, China, produz uma emissão de 24 horas com conteúdos totalmente em português. Trata-se de uma rádio com milhares de ouvintes, pelo que o projeto tem relevância para a promoção da língua portuguesa (notícia). 

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1. Na atualização do Consultório, a pontuação volta a motivar uma questão, desta feita relacionada com as expressões «ave Maria» e «salve Maria», relativamente às quais se pretende determinar se deveriam ter vírgula antes dos nomes próprios, que têm a função de vocativo, apesar de na tradição religiosa tal não fazer parte dos usos. Uma resposta esclarece que a concordância do verbo haver com sentido temporal com o verbo principal é considerada de regra pela linha mais tradicional de gramática. Todavia, parece verificar-se alguma tendência para a cristalização do verbo no presente do indicativo. Ainda neste contexto, há situações de especialização de usos que importa considerar, uma vez que o verbo haver tanto pode contribuir para a expressão da duração («Ele faz este trabalho há dois anos.») como para a localização («Ele fazia este trabalho há dois anos.») e, nestes casos, como aqui se explica, a concordância pode interferir nos sentidos veiculados. Esclarece-se ainda o significado da expressão latina «in Liborium», usada por Camilo Castelo Branco na obra A queda de um anjo. Por fim, uma questão sobre a compatibilidade do adjetivo quieto com o verbo ser e uma outra sobre a regência do adjetivo coetâneo

Primeira imagem: Ave Maria, de Paul Gauguin, 1891. 

2.  A despenalização da morte assistida será discutida na Assembleia da República portuguesa no próximo dia 20 de fevereiro (ver notícia). Este debate traz à atualidade vocábulos e expressões como «suicídio assistido», «morte assistida» ou eutanásia, cujos significados importa esclarecer. A eutanásia significa, etimologicamente, "morte sem sofrimento" ou "morte boa". Este termo é utilizado para referir um ato praticado por alguém com o objetivo de proporcionar uma morte sem sofrimento a um paciente terminal, afetado por dores intoleráveis, a pedido deste último, que deseja intencionalmente pôr fim à vida. O «suicídio assistido» é um ato praticado pelo paciente, que, encontrando-se numa situação de doença terminal, com dores insuportáveis, decide pôr termo à vida. Neste caso, a função de um terceiro será a de facilitador/colaborador, pois apenas ajuda, de forma indireta, o paciente a autoadministrar os fármacos letais. Em termos sintéticos, a diferença entre os dois termos reside no agente responsável pela ação de pôr termo à vida. O conceito de «morte assistida» engloba a eutanásia e o «suicídio assistido». Pode usar-se, ainda, o termo ortotanásia, que se refere à situação de suspensão ou de minimização dos tratamentos destinados a prolongar a vida de um paciente em situação terminal. O contrário de ortotanásia é a distanásia, que designa a ação de prolongar a vida de um paciente terminal através do recurso desproporcionado a tratamentos ou máquinas. 

O Ciberdúvidas abordou já questões linguísticas relacionadas com esta temática, como se pode recordar nas respostas «Eutanásia», «Eutanásico» e «Bioética». 

3. COVID-19 é a designação atribuída pela Organização Mundial de Saúde à doença provocada pela ação do coronavírus. O nome escolhido é um acrónimo formado a partir do inglês "coronavirus disease". Trata-se de um nome próprio que deve ser escrito com letras maiúsculas e com um hífen antes de 19, opção que segue as indicações da Classificação Internacional de Doenças. O vírus, por seu turno, foi designado oficialmente SARS-CoV-2. Isto significa que afirmações como «contágio por coronavírus Covid-19» não são corretas, devendo ser substituídas por «contágio por SARS-CoV-2». Tal como indica a Fundéu, para o espanhol, o que também se aplica ao português, se se preferir lexicalizar o nome da doença, usando-o como substantivo comum, a palavra deverá ser escrita em minúsculas, não usando maiúscula inicial (covid-19). Quando se designa a doença pelo nome, será correta uma afirmação como «(A doença) COVID-19 continua a fazer vítimas».Cf. A locução «à tona de», o verbo discriminare o termo infodemia – campo aberto para manifestações de sinofobia

4. O professor universitário e tradutor Marco Neves lança, no dia 18 de fevereiro, um novo livro intitulado Almanaque da Língua Portuguesa (ed. Guerra e Paz). Trata-se de uma publicação que, segundo a editora, é «uma homenagem feliz à língua portuguesa. Aqui se contam histórias deliciosas, curiosidades e efemérides incríveis. Aqui se resolvem dúvidas e erros. Um livro divertido e inspirador». A obra inclui ainda as listas de erros mais irritantes e palavras mais feias e bonitas do português, na opinião dos leitores do blogue Certas Palavras

5. «Se ti sabir, ti respondir; se non sabir, tazir, tazir»1. Esta frase retirada do Burguês gentil-homem, uma comédia ballê, de Molière, de alguma forma, soa-nos familiar, ao mesmo tempo que traz estranheza. Isso acontece porque está escrita não em francês mas em sabir, uma língua franca que se falou no Mediterrâneo durante séculos e que desapareceu completamente. Tratava-se de uma língua oral, usada como facilitadora por diplomatas, comerciantes e marinheiros e que resultava, julga-se, de uma mescla do italiano, com os seus dialetos, com espanhol, provençal, português, árabe, turco e línguas berberes. Seria falada no Mediterrâneo oriental e nos portos de Tripoli, Tunes e Argélia e ainda, possivelmente, em Marrocos. Estes e outros pormenores relacionados com o sabir poderão ser lidos no artigo da BBC News, redigido em espanhol (aqui).

6. A vida e a obra de João Malaca Casteleiro constituem o tema central dos programas produzidos pela Associação Ciberdúvidas da Língua Portuguesa para a rádio pública portuguesa. O linguista, recentemente falecido, é aqui evocado pelas palavras de Margarita Correia, professora da Faculdade de Letras de Lisboa e presidente do Conselho Científico do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, e pelo gramático brasileiro Evanildo Bechara

O programa Língua de Todos é repetido no sábado, dia 15 de fevereiro, depois do noticiário das 09h00; e o  Páginas de Português  tem repetição no sábado, dia 22 de fevereiro, às 15h30). Hora oficial de Portugal continental, ficando ambos os programas disponíveis posteriormente aqui e aqui.

1. «Se sabes, responderás; se não sabes, silêncio, silêncio.»

Por Ciberdúvidas da Língua Portuguesa

1. Associando as denominações de cargos políticos e governativos aos nomes dos seus titulares, como se deve pontuar a seguinte frase: com vírgulas – «o primeiro-ministro de Portugal, António Costa, fez uma visita oficial» –, ou sem elas – «o primeiro-ministro António Costa fez uma visita oficial»? Neste caso, justificar-se-ão as duas vírgulas a ladear o nome pessoal, se este tiver a função de aposto, isto é, de modificador apositivo, como se explica numa das novas respostas em linha no Consultório. Outros tópicos abordados nesta atualização dizem respeito à legitimidade do uso do adjetivo perfilístico, à identificação da referência exata de «um par de calças» e à relação do composto porta-chaves com o nome porta. Por último, comenta-se a repetição do pronome se no mesmo complexo verbal – ex.: «deve-se conformar-se» ou, simplesmente, «deve-se conformar»?

2. Fala-se de discurso académico, mas que características e géneros tem ele, afinal, e que vantagem se tira do seu estudo para a promoção da literacia nos contextos escolar e científico? Procurando dar resposta a estas interrogações, publicou-se em 2019 um volume em formato eletrónico intitulado Discurso Académico: uma área disciplinar em construção. É um conjunto de 18 artigos nos quais se dá um panorama sobre a investigação que a linguística aplicada em Portugal desenvolve atualmente em torno do discurso académico. Na Montra de Livros, a consultora permanente do Ciberdúvidas, Carla Marques, dá pormenores na apresentação que faz desta obra.

3. Ainda a propósito de coisas menos simpáticas mas já não diretamente gramaticais ou linguísticas, refira-se a procura de um termo que, em português, denote a discriminação social com base na idade. Há diferentes formas em circulação, mas, entre as compatíveis com padrões de correção morfológica e de coerência semântico-referencial, contam-se as palavras idadismo (de idade), etarismo (de etário), a que se junta uma solução menos concisa, «discriminação etária».O tema tem sido abordado no Ciberdúvidas: em "Idadismo e idadista",  "O neologismo idadista", "Etarismo" e "Etarismo: preconceito contra idosos". E, dado que convém sempre estar atento ao que é prática nas línguas próximas do português, assinale-se a recomendação que a Fundéu BBVA emitiu relativamente ao termo a empregar em espanhol – edadismo, um derivado de edad, «idade», que é, portanto, homólogo de idadismo quanto à sua formação.

Na imagem, foto de Christian Newman (Unsplash).

4. A identificação do que é e não é correto tem uma importante componente social, pois frequentemente resulta de atitudes perante usos do idioma, umas bem fundadas, outras com critérios nem sempre congruentes. Tendo em conta o  interesse que há em conhecer os juízos dos falantes sobre os erros linguísticos,  o tradutor e professor universitário Marco Neves pediu a várias pessoas que indicassem os mais irritantes. A lista, divulgada em 9 de fevereiro na plataforma Sapo 24 e no blogue deste autor Certas Palavras, é também transcrita com a devida vénia na rubrica O nosso idioma. Para compensar a irritação, leia-se, também de Marco Neves, outro breve e muito mais apaziguador elenco vocabular: "Cinco expressões deliciosas da língua portuguesa" (em Certas Palavras, 26/09/2020).

5. Na rubrica Notícias, divulga-se o agradecimento  da família que o filólogo e académico português  João Malaca Casteleiro dirigiu a quantos manifestaram pesar pelo seu desaparecimento, ocorrido no dia  7 de fevereiro de 2020. Foi, entre muitos, o caso do Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa

 6. Falando ainda do mundo académico e, em particular, da linguística, registo para:

– o anúncio do colóquio Norma e Cidadania Linguística, promovido pela Academia das Ciências de Lisboa, que o realiza em 5 de maio, Dia Mundial da Língua Portuguesa (inscrição de até 12 de março; mais informação aqui);

– a multiplicação do lançamento de obras científicas em formato eletrónico, como é o caso do livro acima mencionado, mas também de outras publicações recentes, como A linguística na formação do professor: das teorias às práticas, uma obra com organização e participação dos linguistas António Leal, Fátima Oliveira, Fátima Silva, Isabel Margarida Duarte, João Veloso, Purificação Silvano, Sónia Valente Rodrigues, entre mais nomes.

7. O tema principal dos programas de rádio que a Associação Ciberdúvidas da Língua Portuguesa produz para rádio pública portuguesa  foca a  vida e da obra do filólogo João Malaca Casteleiro, evocado em depoimentos prestados por Margarita Correia, professora da Faculdade de Letras de Lisboa e presidente do Conselho Científico do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, e pelo gramático brasileiro Evanildo Bechara

O programa Língua de Todos é repetido no sábado, dia 15 de fevereiro, depois do noticiário das 09h00; e o  Páginas de Português  tem repetição no sábado, dia 22 de fevereiro, às 15h30). Hora oficial de Portugal continental, ficando ambos os programas disponíveis posteriormente aquiaqui.

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1. O filólogo e académico português  João Malaca Casteleiro faleceu em Lisboa (no dia 7 de fevereiro), aos 83 anos. Professor catedrático com uma longa carreira na docência universitária, Malaca Casteleiro distinguiu-se nos estudos no âmbito da sintaxe, do léxico e da didática da língua, tendo orientado mais de meia centena de teses de mestrado e doutoramento. Foi também membro da Academia de Ciências de Lisboa, diretor de investigação do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa e presidente do Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Língua Portuguesa. Participou em vários trabalhos conducentes à unificação da ortografia em língua portuguesa, sendo um dos autores do texto do Acordo Ortográfico de 1990. Deixa uma vasta obra científica, na qual se destaca a coordenação científica do Dicionário de Língua Portuguesa Contemporânea, obra que não conseguiu atualizar, como pretendia, e o Dicionário de Língua Portuguesa Medieval (brevemente a ser publicado), coordenado por si, por Maria de Lourdes Crispim e por Maria Francisca Xavier (também recentemente falecida). Em jeito de homenagem e despedida, Margarita Correia, presidente do conselho científico do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, partilha um texto in memoriam, que transcrevemos em O Nosso Idioma: «Até sempre, Professor Malaca». A informação do falecimento de João Malaca Casteleiro, noticiada pela agência Lusa,  mereceu um justificado destaque nas páginas de diversos jornais portugueses  – como o Expresso, o Observador, o Correio da Manhã, o Jornal de Notícias, entre outos.. Na rubrica Notícias,  deixamos transcrito, com a devida vénia, o obituário escrito pelo jornalista Vítor Belanciano, no jornal Público«João Malaca Casteleiro (1936-2020), mais do que obreiro do acordo ortográfico». Registe-se, ainda , a evocação do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, num comunicado  colocado sua página oficial.

Juntamente com o gramático e académico brasileiro Evanildo Bechara, João Malaca Casteleiro  foi alvo de uma homenagem  promovida pela equipa central do Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa (VOC), com apoio do IILP e da Universidade do Porto, por ocasião da 1.ª Reunião Ordinária do Conselho de Ortografia da Língua Portuguesa (COLP), realizada no Porto, nos dias 7 e 8 de outubro de 2019.

2.  A atribuição dos Óscares 2020 da Academia de Hollywood, que decorreu durante a madrugada de 10 de fevereiro, trouxe surpresas que fizeram história, sobretudo pela atribuição do Óscar de Melhor filme a Parasitas, filme sul-coreano que conquistou ainda as categorias de Melhor realizador, Melhor argumento original e Melhor filme internacional (ver notícia). Como acontece em muitas ocasiões, falar do vencedor implica também falar do derrotado. E, de facto, é previsível que, nos próximos dias, muito se fale do filme que era considerado o grande favorito: 1917, de Sam Mendes. O que já não é tão certo é que o apelido do realizador britânico seja bem pronunciado no espaço mediático português,  como assinala a professora Carla Marques, num  apontamento intitulado «É "Mendch" e não "Mendèsh"». 

A cerimónia de atribuição dos Óscares justifica que aqui se recorde que a palavra Óscar é um nome próprio (que pode também ser usado como nome comum) que tem como plural Óscares. Este lembrete, já por diversas vezes recordado, mantém a sua pertinência uma vez que continuamos a encontrar textos onde se usa o termo inglês "Oscar/Oscars": «A lista de vencedores dos Oscars 2020» ou «Oscars 2020: Estes são os vencedores da noite». Esta opção não tem justificação dado que a tradução da palavra já entrou na língua portuguesa, estando mesmo dicionarizada, como se recorda na resposta «Oito "oscars" / oito óscares». Desta palavra têm derivado outras, num processo de criação lexical, como é o caso do verbo oscarizar, do particípio oscarizado ou do adjetivo oscarizável (como se recordou, por exemplo, na Abertura de 25 de fevereiro de 2019). É ainda de referir que o verbo nomear rege a preposição para, como se  esclareceu em «Nomeado para 10 óscares». 

3. O léxico científico próprio de cada área do saber pode mobilizar palavras de maior complexidade, tanto no domínio da ortografia como no da ortoépia. Exemplo disso são os pares de palavras assimptota/assintota e assímptota/assíntota, que aqui se analisam para determinar se se trata de uma palavra grave (paroxítona) ou esdrúxula (proparoxítona)  e qual a grafia correta antes e depois do Acordo Ortográfico de 90. No Consultório, determina-se ainda a origem e evolução do regionalismo escolateira. Já no plano semântico, trata-se uma questão sobre a correção do uso das palavras alvoobjeto em referência a seres humanos. Uma outra questão pretende determinar a correção do uso do verbo ter com significado existencial. Por fim, regressamos aos relativos. Desta feita para identificar a função sintática desempenhada por quem no interior de uma oração subordinada substantiva relativa. 

4.  No âmbito das notícias relacionadas com a língua portuguesa, destacamos o Encontro de Escritores Lusófonos, organizado pelo Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora, que terá lugar no dia 13 de fevereiro, na Biblioteca Camões, em Lisboa (notícia). 

Por Ciberdúvidas da Língua Portuguesa

1. O verbo dizer é seguido muitas vezes de uma oração que o completa, como acontece na frase «ela diz que não quer isso». Geralmente essa oração tem o verbo no modo indicativo, embora também possa ocorrer o modo conjuntivo – «ela diz que lhe abram a porta» – , só que alterando o significado de dizer – de que maneira? A resposta está na presente atualização do Consultório, onde igualmente se fala de outro verbo, alastrar. Sobre a alteração, em Portugal, do nome de um serviço de atendimento, comenta-se o caso de «Loja do Cidadão», que em 2017 passou a chamar-se «Loja de Cidadão». Fala-se ainda de classes de palavras a propósito de outro e distingue-se sequência textual de tipo de texto.

2. De vez em quando, em referência às relações culturais e institucionais entre a língua portuguesa e a espanhola, salienta-se o importante grau de intercompreensão (discutível e com muitas assimetrias, é certo) entre os falantes dos dois idiomas. Na rubrica Diversidades, apresenta-se o resumo de uma publicação digital intitulada Iberofonía e Paniberismo – Articulación y Definición del MundoIbérico (em português, Iberofonia e Pan-Iberismo – Definição e articulação do Mundo Ibérico). Trata-se de um ensaio de Frigdiano Álvaro Durántez Prados, especialista em Ciências Políticas, que considera que os países de língua espanhola ou portuguesa formam um espaço linguístico de mais de 700 milhões de falantes – a iberofonia – com potencial para promover a cooperação horizontal entre diferentes países da América, África e Ásia, bem como para alcançar grande visibilidade e influência no plano internacional (ver entrevista que este politólogo concedeu em 09/02/2015 à agência de notícias espanhola EFE, disponibilizada nas páginas da Fundéu BBVA).

3. Ainda nas Diversidades, transcreve-se com a devida vénia um curioso artigo saído no Público de 5 de fevereiro 2020,  no qual se resenha um estudo em inglês sobre as origens e as linhagens das línguas gestuais – "Evolutionary dynamics in the dispersal of sign languages" (literalmente "A dinâmica evolutiva a dispersão das línguas textuais"), publicado em 22/02/2020 na revista digital Royal Society Open Science (volume 7, n.º 1, janeiro de 2020). Assinale-se que o artigo menciona a língua gestual portuguesa, defendendo que esta procede da língua gestual sueca.

4. A atualidade internacional da semana que finda é marcada pela absolvição de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos da América, no final do processo de impeachment, anglicismo que frequentemente se deixa por traduzir, dada a sua especificidade na ordem político-jurídica norte-americana. Observe-se, porém, que não é impossível encontrar-lhe equivalente – a palavra impugnação é boa opção –, como já explicou o tradutor português Marco Neves  em áudio disponível no canal Cinco Palavras. Sobre o termo impeachment, leia-se igualmente, do arquivo do Ciberdúvidas, a resposta "Impeachment = impugnação".

5. Ainda da atualidade, mas já no plano do quotidiano que foi notícia, em Portugal, a vitória da ucraniana Halina Dyakun, residente em Viseu ), na edição de 2019 do maior concurso realizado em Portugal para o setor das barbearias*. É de lembrar que esta e outras profissões, tradicionalmente tidas como domínios masculinos, passaram a abranger as mulheres, configurando uma mudança social com repercussão linguística, de que o Ciberdúvidas tem repetidamente dado testemunho em repostas e outros artigos, a saber: "Mulheres... barbeiras", "Palavras à procura do feminino", "Maléfica: Mestre do Mal", "O sexo das profissões","Sobre o uso da forma presidenta no Brasil e em Portugal", "O sexo e a língua", "Poetisa inferioriza?", "O feminino da palavra bispo", "Qual a regra gramatical que permite a forma presidenta?", "A propósito do feminino de procurador-geral da República".

* O concurso tem nome inglês: Challenge CACP Barbershop 2019. A sigla CACP está pela bem vernácula expressão Clube Artístico dos Cabeleireiros de Portugal. Porque não se deu nome também em português ao certame?

6. Regista-se com pesar o falecimento em 23/01/2020 do Sebastião Tavares de Pinho, professor catedrático da Universidade de Coimbra (UC) e reputado autor de uma obra repartida por vários temas, dos estudos clássicos greco-latinos ao legado clássico nas literaturas de língua portuguesa e dos estudos camonianos ao Humanismo à literatura neolatina do Renascimento em Portugal. Nas exéquias, celebradas em 25/01/2020, em Rocas do Vouga, terra natal do docente, o também classicista Carlos Ascenso André pronunciou, conforme é norma na UC, um elogio fúnebre, do qual se retiram as seguintes palavras:«[...] foi no Humanismo renascentista que [Tavares de Pinho] mais se deteve, esse tempo em que o homem se indagou e indagou o mundo que o rodeava e o seu lugar nesse mesmo mundo. Nesse estudo, tinha um prazer especial na busca da palavra, a sua raiz, o seu sentido sempre renovado, a sua identificação com o devir cósmico de que o homem é parte» (o texto integral está disponível no arquivo de mensagens públicas da UC).

7. Entre publicações recentes, com interesse para o estudo e o ensino da língua portuguesa, referência a um volume editado pelo Instituto Politécnico de Santarém em 2019: Estudos de Língua Portuguesa: a União na Diversidade, uma obra que teve coordenação de Madalena Teixeira, docente na Escola Superior de Educação de Santarém.

8. Temas principais da presente semana, nos programas que a Associação Ciberdúvidas da Língua Portuguesa produz para a rádio pública portuguesa: no programa Língua de Todos,  transmitido pela RDP África, na sexta-feira, dia 7 de fevereiro, pelas 13h20*, a africanização do português em Moçambique; e, no programa Páginas de Português, transmitido pela Antena 2, no domingo, 9 de fevereiro, pelas 12h30, um curso de Escrita Criativa sobre o conto que decorreu em janeiro de 2020 na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

O programa Língua de Todos é repetido no sábado, dia 8 de fevereiro, depois do noticiário das 09h00; e o  Páginas de Português  tem repetição no sábado, dia 15 de fevereiro, às 15h30). Hora oficial de Portugal continental, ficando ambos os programas disponíveis posteriormente aquiaqui.

Por Ciberdúvidas da Língua Portuguesa

1. A palavra  tona, vinda do fundo dos tempos – atribui-se a sua origem ao céltico *tunna, «pele, crosta» –, é hoje sobretudo usada em locuções como «vir à tona», no sentido de «vir à superfície», e «à tona de», como em  «à tona de água» – ou será melhor «à tona da água», com o artigo definido a? A resposta integra a atualização do consultório, onde o mote céltico se prolonga noutra questão a respeito de nomes irlandeses começados pela partícula O' – caso de O'Connor ou, ainda, de O'Neill, que o poeta português Alexandre O'Neill (1924-1986) tornou conhecido em português. Além disso, reflete-se sobre a correção do termo «insuficiente renal », para referir os pacientes com insuficiência renal. Por último, regressa a análise sintática: como reconhecer o sujeito das chamadas frases copulativas identificadoras? E, em português, será que só a conjunção se pode marcar o valor condicional, ou existem outras construções?

2. Discriminar a descriminação é o resultado paradoxal a que chega quem confunde discriminar com descriminar. A esta troca incorreta mas recorrente na nossa língua, a professora Carla Marques, consultora permanente do Ciberdúvidas, dedica um novo apontamento, em linha na rubrica O nosso idioma.

3. Na Montra de Livros, apresenta-se Novo Vocabulário Ortográfico – Com Prontuário Anexo, um novo livro de D´Silvas Filho, sob a chancela da editora Guerra & Paz. Ponto de partida desta obra, segundo o próprio autor: «aproveita[r] o que o AO 90 tem de positivo e mant[er] o que da equilibrada norma de 1945 pode ou deve conservar-se».

4. A saúde mundial continua na ordem do dia por causa do contágio do novo coronavírus, o nCoV-2019 (ver as Aberturas de 24/01/2020 e 03/01/2020). A China tem sido até agora a protagonista desta grave situação. Por toda a parte, os media têm dado cobertura da propagação da doença entre a população mundial, nem sempre da melhor forma, com notícias imprecisas ou falsas. Tanto mais grave quanto o alarmismo provocado e, pior, fomentador de reações de medo,  descamba em formas inaceitáveis de sinofobia. Para denominar este vertiginoso fluxo informativo, em que é difícil distinguir fontes credíveis das que o não são, surge o novo termo infodemia, que começa a ter circulação, por exemplo, em italiano e facilmente se adapta ao português sem alteração gráfica – tal como para o espanhol. O termo faz parte do livro que o investigador Giancarlo Manfredi publicou em Itália em 2015, com o título original Infodemia. I meccanismi complessi della comunicazione nelle emergenze (literalmente, «os mecanismos complexos da comunicação nas emergências). Do ponto de vista da sua formação, diga-se que infodemia é composto de  info-, um prefixo relativamente recente que resulta da truncação de informação, e do elemento -demia, que figura nas conhecidíssimas palavras epidemia e pandemia

Cf. La OMS entra en guerra contra la 'infodemia' + Coronavirus: ¿epidemia o "infodemia"? + "Infodemia", o termo que descreve a grave epidemia de informações falsas sobre o coronavírus + Infodemia Coronavirus: l'epidemia più pericolosa sono le fake news + Enquanto o coronavírus avança, a xenofobia alastra-se pelo mundo + As duas pestes de 2020: coronavírus e racismo

5. Nas Controvérsias, transcrevem-se dois textos publicados no jornal Público em 4 de fevereiro de 2020: um, da autoria da professora Maria do Carmo Vieira, que critica as mudanças curriculares em Portugal, levando ao escasso ou nulo tratamento dos temas da 2.ª Guerra Mundial e do Holocausto nas diferentes disciplinas; noutro, a secretária-geral do Sindicato dos Professores das Comunidades Lusíadas, Teresa Duarte Soares, tece também duras críticas à gestão da rede de Ensino do Português no Estrangeiro (EPE), desmentindo as afirmações que o deputado português Paulo Pisco, do Partido Socialista, produziu em artigo saído igualmente no jornal Público (também disponível na mesma rubrica).

6. Morreu George Steiner (1929-2020), um dos grandes ensaístas e historiadores da cultura das últimas décadas, e, com ele, parece também ir-se fechando um capítulo da memórias do Ocidente renascido das cinzas da 2.ª Guerra Mundial (ler aquiaqui e aqui). Steiner não ficou alheio às literaturas de língua portuguesa, havendo testemunho deste seu interesse, como acontece com o vídeo a seguir, que regista o encontro que teve com o escritor António Lobo Antunes em outubro de 2011,  graças à iniciativa do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias (CLEPUL) e da revista Ler.

 

 

7. Nos programas que a Associação Ciberdúvidas da Língua Portuguesa produz para rádio pública portuguesa, têm relevo os seguintes temas: no programa Língua de Todos,  transmitido pela RDP África, na sexta-feira, dia 7 de fevereiro, pelas 13h20*, a africanização do português em Moçambique, a propósito do uso transitivo do verbo nascer, numa entrevista à professora Sandra Duarte Tavares; e, no programa Páginas de Português, transmitido pela Antena 2, no domingo, 9 de fevereiro, pelas 12h30, convida -se o professor José Ferreira GomesN para falar do curso de Escrita Criativa sobre o conto, que este especialista orientou em janeiro de 2020 na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

O programa Língua de Todos é repetido no sábado, dia 8 de fevereiro, depois do noticiário das 09h00; e o  Páginas de Português  tem repetição no sábado, dia 15 de fevereiro, às 15h30). Hora oficial de Portugal continental, ficando ambos os programas disponíveis posteriormente aquiaqui.

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1. A concordância entre o sujeito e o verbo nem sempre é um processo gramatical inequívoco. O facto de o sujeito poder assumir diferentes naturezas e a possibilidade de incluir combinações diversificadas de palavras podem abrir espaço a concordâncias distintas. O caso particular dos sujeitos introduzidos por um pronome interrogativo seguido do sintagma preposicional «de nós» ou «de vós» tem suscitado posições distintas entre os gramáticos: o verbo deve concordar com quais ou com nós/vós? Esta é uma das respostas disponibilizadas no Consultório, onde também se analisa a questão da pertença da expressão corrrelativa «seja... seja» à classe das locuções conjuncionais disjuntivas. A ortografia volta a ser um tema central nas questões colocadas no espaço do consultório, por um lado, a propósito da grafia de palavras introduzidas pelo prefixo trans-, e, por outro, relativamente ao uso de hífen na expressão «casa editora». Para concluir, regressamos à etimologia  e significado dos topónimos. Desta feita, analisa-se o substantivo próprio (que também tem uso como substantivo comum) Rocim

2. A colocação de vírgulas pode condicionar a interpretação de toda uma frase. No Pelourinho, explica-se como, no concurso televisivo Joker, da RTP1, um mau uso da vírgula conduziu à afirmação de que Abraham Lincoln é o atual presidente dos Estados Unidos.  

3. A propagação do coronavírus continua imparável com mais de 17 000 pessoas infetadas e cerca de 362 mortos (cf. dossiê sobre o assunto no jornal Público e aqui). No plano linguístico, este fenómeno está a motivar um uso muito frequente de palavras como quarentena que, embora na sua origem apontasse para um intervalo de tempo de 40 dias, no contexto atual significa «período de isolamento necessário de pessoas portadoras ou supostas portadoras de doenças contagiosas, como forma de proteção contra a propagação da doença», o que poderá não corresponder, portanto, a 40 dias (cf. Infopédia). Verifica-se também o uso de assintomático em expressões como «propagação assintomática», «pacientes assintomáticos», «incubação assintomática» ou «infeção assintomática». Em todos estes contextos, o adjetivo significa «que não revela sintomas percetíveis de doença» (cf. Priberam). Destaque também para a expressão «período de incubação», que se refere ao período que medeia entre a exposição, neste caso, ao vírus até ao aparecimento da doença ou dos seus primeiros sintomas, período este que é variável de doença para doença. Outra palavra muito recorrente no espaço mediático é epicentro, termo que se refere ao núcleo do acontecimento, pelo que não deve ser utilizado na expressão «epicentro do foco», que será redundante.  Neste contexto linguístico, recordamos ainda respostas relacionadas com o tema, disponíveis no Consultório: «Os vírus», «Um vírus nem sempre foi um vírus», «Viral, virótico e vírico», «Pandemia, epidemia e endemia», «Patologia» e «Zica: como nomear um vírus e um mosquito, entre outras dúvidas».

4.  Fernando Pessoa, um dos poetas maiores da língua, foi convertido em herói de banda desenhada pelas mãos de Miguel Moreira e de Catarina Verdier, autor e ilustradora da obra As aventuras de Fernando Pessoa, escritor universal (da Parceria A. M. Pereira). Um livro que trata a biografia pessoana e enquadra alguns dos poemas do autor mais divulgados entre os leitores (vídeo disponível aqui). 

5. A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) fez saber que estão abertas as candidaturas ao «Prémio José Aparecido de Oliveira», um prémio bienal que vai na sua 5.ª edição e que visa homenagear pessoas ou instituições que se distingam na defesa e promoção dos objetivos e valores da CPLP. Este prémio agraciou já individualidades como Xanana Gusmão, antigo presidente de Timor-Leste, em 2014, ou o secretário-geral da Organização das Nações Unidas António Guterres, em 2018. 

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 1. A saída do Reino Unido da União Europeia, conhecida como Brexit ou "Exit day" (expressão preferida pelo primeiro-ministro britânico Boris Johnson), acontece hoje, dia 31 de janeiro, às 23h locais (mesma hora de Lisboa), depois de ter sido ratificada pelo Parlamento Europeu  (jornais Observador, Público, Jornal de Notícias  e Expresso). O termo Brexit tem levantado inúmeras questões linguísticas relacionadas com a sua grafia ou com a possibilidade de o traduzir para outras línguas, mas uma vez que a palavra parece ter-se instalado nos meios de comunicação social portugueses (e internacionais), poderemos seguir as sugestões da Fundéu BBVA, que recomenda que o termo se escreva de uma de duas formas: com letra minúscula e itálico (brexit), opção que toma a palavra como um nome comum, ou com letra de imprensa com maiúscula inicial (Brexit), uso que toma a palavra como um substantivo próprio que refere um facto histórico. 

2. O Brexit é um acontecimento que alterará o funcionamento da União Europeia, mas esta mudança implicará também consequências a nível linguístico? Por exemplo, deixará o inglês de ser falado na instituições da União? Esta questão é analisada pelo professor universitário e tradutor Marco Neves, na sua crónica «O que vai acontecer ao inglês na União Europeia depois do Brexit?», divulgada no seu blogue Certas Palavras

3. No Consultório, há questões que ciclicamente se voltam a colocar. É o caso da pronúncia do antropónimo Félix, que se deve realizar como "félis" e não "féliquesse", como aqui se explica de novo. A nova atualização centra-se em questões a propósito do significado das palavras «Ladravaz e ladravão» e do «adjetivo relativo e o verbo relativizar». Mais uma vez também se aborda a questão da colocação de pronomes clíticos na frase e ainda o problema da concordância com um sujeito composto com constituintes de géneros diferentes. 

4. Entre as publicações relacionadas com a língua, destacamos, na Montra de Livros, a obra ABC da Tradução, de Marco Neves (editora Guerra & Paz), que trata, em estilo coloquial, alguns dos problemas da tradução, numa abordagem didática que privilegia a proximidade com o leitor. No plano das publicações, foi também lançada a obra Novo vocabulário ortográfico com prontuário anexo, da autoria de D'Silvas Filho, docente universitário aposentado, das edições Guerra & Paz. Uma publicação que visa estabelecer um percurso de conciliação entre o Acordo Ortográfico de 90 e a Norma de 45.  

5. A atualidade está embrenhada na própria língua que a diz, e cada facto novo é suscetível de criar novos problemas a quem fala ou escreve. Desta feita, as dúvidas advêm da situação que afetou a cidade chinesa de Wuhan, com o aparecimento do coronavírus. Ora, de acordo com as recomendações da Fundéu BBVA, que adaptamos para a língua portuguesa, o substantivo coronavírus escreve-se como uma só palavra com acento agudo na letra -i-. É desaconselhada a expressão « doença do coronavírus», visto que a palavra em causa refere um tipo de vírus e não uma doença. Para referir a propagação do vírus, deve utilizar-se o termo pandemia, que significa "surto de uma doença com distribuição geográfica alargada" (Dicionário Priberam), uma vez que já há infetados em diversos países, sendo de rejeitar o termo epidemia, cujo significado é "doença que, numa localidade ou região, ataca simultaneamente muitas pessoas" (Ibidem). Por fim, a pronúncia correta da cidade de Wuham e da província de Hubei pode ser consultada aqui

6. O problema de determinar se o ano de 2020 inicia ou fecha uma década continua a gerar controvérsia, como damos conta com a publicação da posição de Guilherme de Almeida, autor e professor aposentado de Física, que se funda em critérios matemáticos, rejeitando o argumento das convenções. 

7.  Marco Neves, professor universitário e tradutor, tem uma predileção por contar histórias relacionadas com a língua. Desta feita, foi em busca da história da letra -s-, desde a sua origem fenícia até aos sons que atualmente representa em português. Uma crónica publicada no blogue Certas Palavras, que aqui reproduzimos com a devida vénia. 

8.Camões - Instituto da Cooperação e da Língua e o Instituto Cervantes apresentaram um projeto de lançamento de um livro que visa promover as línguas portuguesa e espanhola, através da demonstração do seu poder e potencial (notícia).

9.  Os programas que a Associação Ciberdúvidas da Língua Portuguesa produz para a rádio pública portuguesa abordam, nesta semana, os temas da influência das línguas bantas no português oral falado1 em Luanda (Angola) e de um projeto didático de ensino interdisciplinar do português(notícia).

1. Programa Língua de Todos, da RDP África, difundido na sexta-feira, dia 31 de janeiro, pelas 13h20 (repetido no sábado, dia 30 de janeiro, depois do noticiário das 09h00);

2. Programa Páginas de Português, transmitido pela Antena 2, que vai para o ar no domingo, 2 de fevereiro, pelas 12h30, (com repetição no sábado, dia 8 de fevereiro, às 15h30).

Hora oficial de Portugal continental, ficando ambos os programas disponíveis posteriormente aqui e aqui.