Paulo J. S. Barata - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Paulo J. S. Barata
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Paulo J. S. Barata é consultor do Ciberdúvidas. Licenciado em História, mestre em Estudos Portugueses Interdisciplinares; curso de especialização em Ciências Documentais (opção Biblioteca e Documentação) e curso de especialização em Ciências Documentais (opção Arquivo).

 
Textos publicados pelo autor

Tenho memória de me ter cruzado com SEXA, para significar «S. Ex.ª» ou «Sua Excelência», e também com VEXA, para significar «V. Ex.ª» ou «Vossa Excelência», em documentação administrativa com pelo menos mais de 20 ou 30 anos. Penso que quer o SEXA quer o VEXA tiveram uso mas depois terão perdido curso. O que neste momento vejo, isso sim, em registo informal e irónico, designadamente nas redes sociais, é o uso de "Vexa", com maiúscula inicial, no que me parece ser uma forma polida de evitar aquilo a que vulgarmente se designa por o «você estrebaria», ou seja, um uso de você tido como indelicado e rude. É possível que este "Vexa" seja uma espécie de «filho bastardo» do VEXA.

A permanência de SEXA, que refere, e eventualmente também de VEXA, ademais «gritados» pelo uso das maiúsculas, parece-me algo esdrúxula, por existirem S. Ex.ª e V. Ex.ª. É possível que tenham começado a ser usados e depois, por tradição administrativa, replicados acriticamente. Esse que viu pode ser ainda uma sobrevivência desses tempos…

Admito que possam ter sido cunhados como uma particular forma de distinção, mas, a ser assim, o uso das maiúsculas, equivalente no texto escrito a um grito, rompe "gritantemente" com o protocolo tradicional de escrita.

O uso de abreviaturas é – como se sabe – uma área algo fluida, pouco regulamentada e onde ocorrem com frequência situações abstrusas. Estes dois casos parecem-me particularmente danosos e agravados pela conexão óbvia entre SEXA e sexo e VEXA e o presente do indicativo do verbo vexar, violando também aqui uma regra de ouro das abreviações de palavras, e por analogia extrapolável para as siglas, abreviaturas e acrónimos, evitar maximamente leituras espúrias.

Ou seja, SEXA e VEXA violam os protocolos de escrita:

•    por, pela sua formação, não configurarem uma abreviatura imediatamen...

A expressão scare quotes pode ser traduzida por «aspas irónicas», ou seja, as aspas que se utilizam para expressar dúvida, ironia ou escárnio em relação ao uso de uma palavra ou expressão. «Aspas irónicas» é uma expressão com algum curso no Brasil, mas sem curso em Portugal.

Em Portugal, e em particular na gíria tipográfica, apenas se usam as designações de aspas, plicas, ou, mais raramente, comas. Não creio ainda que exista uma «designação oficial» para as aspas ou plicas, ou uma regra que regulamente o seu uso.

Assim, quer para a designação, quer para o uso, o critério oscila e há várias práticas. Eu costumo chamar aspas às aspas angulares (« ») e plicas às aspas elevadas (“ ’). As aspas angulares são também chamadas aspas em linha, aspas latinas, aspas francesas, aspas espanholas ou aspas portuguesas. Também já ouvi, no socioleto universitário, chamar às aspas angulares sargentos, ao que creio pela similitude entre a sua forma e a configuração das divisas militares, no caso, do posto de sargento do exército. Quanto às plicas, há as plicas duplas (“) e as plicas simples (‘).

As aspas angulares e as plicas usam-se para distinguir graficamente as transcrições, os estrangeirismos, as expressões metafóricas, os títulos de livros e filmes, os cognomes, as designações de marcas, as designações de navios, ou os nomes de animais, por exemplo.
As aspas angulares são mais comuns na tradição portuguesa, francesa e espanhola, por exemplo, as plicas são mais comuns na tradição anglo-saxónica.

Entre nós, em tipografia, em «obra de livro», usam-se comummente as aspas angulares, mas em jornais e revistas são mais comuns as plicas, como é visível, por exemplo, no Expresso

Os títulos de publicações – monografias, artigos de publicações periódicas, etc. – citados no texto, em nota ou na bibliografia devem ser mantidos de acordo com as respetivas páginas de rosto, páginas de título ou páginas de títulos substitutas, o mesmo é dizer na ortografia da época em que foram produzidos. Também não é necessário, nesses casos, a indicação [sic] que só se aplica em caso de gralha ou erro manifesto. Esta situação é análoga ao que se passa com as publicações em língua estrangeira em que também não se traduzem os títulos, mas se reproduzem tal e qual constam no original.

A este respeito, a NP-405-1 (Norma portuguesa. Referências bibliográficas: documentos impressos) refere: «a informação dada na referência bibliográfica é transcrita como se apresenta na publicação» (1994, p. 31), podendo haver alterações no que se refere ao emprego de maiúsculas, minúsculas, pontuação e abreviaturas. E mais adiante: «O título deve ser reproduzido como aparece na fonte, aplicando-se, se necessário, as normas de transliteração, de abreviaturas, de utilização de maiúsculas, etc.» (p. 36).

No mesmo sentido, as Regras portuguesas de catalogação (RPC) referem: «Os elementos das zonas 1, 2, 4 e 6 [sendo a 1 a zona de Título e menção de responsabilidade] são normalmente transcritos da própria publicação e, por consequência, apresentados na língua e na escrita em que ali aparecem» (4.ª reimp. Lisboa: Biblioteca Nacional de Portugal, 2010, p. 115). Ainda nas RPC, refere-se: «Os erros de impressão são reproduzidos e podem ser seguidos de [sic<...

Do ponto de vista bibliográfico, idem e ibidem são dois vocábulos latinos usados em notas ou no próprio corpo de um texto para evitar a repetição completa de uma referência bibliográfica que geralmente ocorre dessa forma a primeira vez que é referida e/ou na bibliografia final.

No que se refere ao seu uso, a "doutrina" diverge. Há autores que defendem um uso e outros que defendem outro. E não há, em Portugal, uma norma – criticável ou não – que possa servir de arrimo e que claramente estabeleça o uso correto e "legítimo" dos dois termos no que se refere à referenciação bibliográfica, pelo que apenas enunciamos a prática que seguimos. Este é, pois, apenas um critério[1]. Porém, no que se refere à referenciação bibliográfica, ainda que o critério possa ser discutível, o fundamental é que seja uniforme e coerente ao longo do texto. É isso que lhe dá consistência.

Ainda que genericamente idem signifique «o mesmo, a mesma coisa», especificamente, no que se refere à referenciação bibliográfica, idem, cuja forma abreviada é id., convencionou-se significar «do mesmo autor». O mesmo se passa com ibidem, cuja forma abreviada é ibid., que genericamente significa «aí mesmo, no mesmo lugar», mas que, no que se refere à referenciação bibliográfica, se convencionou significar «na/da mesma obra».

Assim, e para sintetizar, idem, significa «do mesmo autor» e ibidem «da mesma obra».

Ibidem pode usar-se isoladamente no caso de a obra ser anónima.

Ex.:

«Romagem ao cemitério do Alto de S. João por ocasião do primeiro centenário do nascimento de X». O Primei...

Ligatura é, como diz o consulente, o termo usado para designar os carateres que combinam duas letras num único sinal gráfico. É um termo técnico do socioleto das artes gráficas, daí que apareça, em regra, em dicionários, glossários e vocabulários especializados, mas possa não aparecer em obras de referência mais gerais, como algumas das que refere. António Vilela, no seu Prontuário de artes gráficas, define ligatura como o «traço que, na escrita e em certos carateres de imprensa, liga uma letra a outra, dentro da mesma palavra» (2.ª ed. Braga, 2008, p. 53). Ligadura não é sequer nele referido. É, aliás, residual a utilização deste termo em artes gráficas.

Registe-se, porém, que os vocábulos ligadura e ligatura têm a mesma etimologia latina, ligatura, significando «ação de ligar». Ligatura é, assim, um decalque perfeito do étimo latino e ligadura um termo mais afeiçoado à língua portuguesa. Por esta razão, ligatura é um vocábulo dado por muitos dicionários gerais como sinónimo de ligadura.

O termo ligadura é, aliás, também usado na linguagem musical para simbolizar uma ligação entre duas notas musicais. A ligadura é, neste contexto, a linha curva que se usa por cima ou por baixo das notas de música de modo a ligá-las entre si, e que indica ao executante que aquelas notas devem ser cantadas ou tocadas sem interrupção.

Ligatura/Ligadura musical

 

Ligatura/Ligadura manuscrita (ae)