Paulo J. S. Barata - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Paulo J. S. Barata
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Paulo J. S. Barata é consultor do Ciberdúvidas. Licenciado em História, mestre em Estudos Portugueses Interdisciplinares; curso de especialização em Ciências Documentais (opção Biblioteca e Documentação) e curso de especialização em Ciências Documentais (opção Arquivo).

 
Textos publicados pelo autor

Ligatura é, como diz o consulente, o termo usado para designar os carateres que combinam duas letras num único sinal gráfico. É um termo técnico do socioleto das artes gráficas, daí que apareça, em regra, em dicionários, glossários e vocabulários especializados, mas possa não aparecer em obras de referência mais gerais, como algumas das que refere. António Vilela, no seu Prontuário de artes gráficas, define ligatura como o «traço que, na escrita e em certos carateres de imprensa, liga uma letra a outra, dentro da mesma palavra» (2.ª ed. Braga, 2008, p. 53). Ligadura não é sequer nele referido. É, aliás, residual a utilização deste termo em artes gráficas.

Registe-se, porém, que os vocábulos ligadura e ligatura têm a mesma etimologia latina, ligatura, significando «ação de ligar». Ligatura é, assim, um decalque perfeito do étimo latino e ligadura um termo mais afeiçoado à língua portuguesa. Por esta razão, ligatura é um vocábulo dado por muitos dicionários gerais como sinónimo de ligadura.

O termo ligadura é, aliás, também usado na linguagem musical para simbolizar uma ligação entre duas notas musicais. A ligadura é, neste contexto, a linha curva que se usa por cima ou por baixo das notas de música de modo a ligá-las entre si, e que indica ao executante que aquelas notas devem ser cantadas ou tocadas sem interrupção.

Ligatura/Ligadura musical

 

Ligatura/Ligadura manuscrita (ae)

Há editores que usam o que alguns chamam «composição à inglesa», em que a primeira linha do primeiro parágrafo de cada capítulo não está sangrada, isto é, indentada ou recuada em relação à margem1, mas as restantes primeiras linhas dos demais parágrafos estão.

Este é, por exemplo, o caso da História da Língua Portuguesa (Lisboa, Edições Sá da Costa, 1982, pág. 21), de Paul Teyssier, de que se reproduz o início de um dos capítulos:

O propósito da indentação nas primeiras linhas dos parágrafos é gráfico e visa orientar o leitor e facilitar a leitura. É possível que na origem da primeira linha não sangrada do primeiro parágrafo de um capítulo com «composição à inglesa» esteja o facto de justamente se tratar da primeira linha a seguir a um título, e por isso mesmo não carecer de qualquer marcação tipográfica adicional – dada pelo recuo do parágrafo – para a orientação do leitor.

 

1 Este preceito vem mencionado, por exemplo, no New Oxford style manual (2.ª ed. Oxford: Oxford University Press, 2014, p. 16): «The first line of text after a chapter, section, or subsection heading is set full out to the left-hand margin, with no paragraph indentation. The first line of every subsequent paragraph is normally indented; the style in which paragraphs are separated by a space and the first line of every paragraph is set full out is characteris...

Há diferenças. A barra oblíqua (/) é mais comum e tem múltiplos usos. Um dos mais frequentes é o seu uso na linguagem corrente com o significado de ou em palavras aparentadas (ex.: óleo/azeite) ou em oposição (ex.: água/vinho). É igualmente usada com o valor simultâneo de e e de ou na comummente utilizada expressão e/ou (ex.: «pode utilizar lápis e/ou esferográfica», ou seja, pode utilizar lápis, esferográfica ou ambos). Integra o símbolo das percentagens (ex.: 1%) e das permilagens (ex.: 1‰) e é também usada como sinal de separação em frações (ex.: ½), em abreviaturas (ex.: A/C – «ao cuidado de»; R/C - «rés-do-chão»), ou em datas (ex.: «dia/mês/ano», a ordem mais comum entre nós; ou «ano/mês/dia», a ordem mais comum nos países anglo-saxónicos). É também usada como substituto de por em expressões numéricas (ex.: «a velocidade máxima são 120 Km/h»). Ainda com o valor de ou é utilizada para indicar números de telefone alternativos (ex.: 21 798 20 00/01). E na referenciação de leis, decretos-lei e outras tipologias jurídicas usa-se para separar o número do diploma do respetivo ano (ex.: «Decreto-lei n.º 3/2017»).

Tem ainda usos em áreas mais específicas. Por exemplo, na catalogação de documentos é utilizada para separar o título da obras do(s) respetivo(s) autor(es) e de outras menções de responsabilidade (ex: Os Maias / Eça de Queirós), e nas pesquisas mais complexas em bases de dados bibliográficas – assentes na álgebra booleana, baseada na teoria dos conjuntos – um dos operadores booleanos é «OU» («OR»), por vezes representado por «/» ou por «|». Este operador «OR» permite combinar di...

Réchampir usa-se em pintura, nas artes decorativas e também na construção civil, para referir a pintura de contornos, de pormenores, de detalhes, de elementos decorativos, em cor contrastante com o fundo em que se integram. Não existe – que conheçamos – uma tradução que exprima com precisão o conceito de réchampir. A que mais se pode aproximar será talvez «realçar». Teríamos assim de cunhar uma expressão composta – por exemplo: «pintura de realce», ou similar – que, porém, não parece ter uso em português. O que é de uso para exprimir a ação de réchampir é fazer menção do elemento que se quer destacar e eventualmente de um verbo como pintar, decorar ou outro, por exemplo: «com filetes pintados a branco», «com frisos pintados a branco», «com bordadura pintada a branco», «com elementos decorativos pintados a branco», «com barras pintadas a branco», «com cimalha pintada a branco».

Imagem de destaque do artigo

«Dirija-se à caixa automática para pagamento ou contato com a EMEL».

Um destes dias, no parque de estacionamento junto à estação de Metro de Entrecampos, em Lisboa, dei com o aviso da EMEL, cujo texto se reproduz acima. (...)