Sara Leite - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Sara Leite
Sara Leite
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Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Português e Inglês, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa; mestre em Estudos Anglo-Portugueses; doutorada em Estudos Portugueses, especialidade de Ensino do Português; docente do ensino superior politécnico; colaboradora dos programas da RDP Páginas de Português (Antena 2) e Língua de Todos (RDP África); autora do livro Indicações Práticas para a Organização e Apresentação de Trabalhos Escritos e Comunicações Orais e coautora dos livros SOS Língua Portuguesa, Quem Tem Medo da Língua Portuguesa?, Gramática Descomplicada e Pares Difíceis da Língua Portuguesa e Mais Pares Difíceis da Língua Portuguesa.

 
Textos publicados pela autora
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«Baseado nas fontes por mim adoptadas (Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, no S.O.S. Língua Portuguesa, da autoria de Sandra Duarte Tavares e Sara de Almeida Leite) escreveu o provedor do jornal “Público”, na edição do dia 24/08 –, malogrei na convicção de que a forma correcta era “precariedade”. Afinal, as duas formas são admitidas.»

Lamento se ofendi o(s) consulente(s) brasileiro(s) com a minha ignorância sobre o Brasil. O que eu quis dizer foi simplesmente que a cultura influencia o uso que fazemos da língua, pelo que, naturalmente, Portugueses e Brasileiros têm formas diferentes de usar a língua portuguesa.

O uso da preposição em antes de um determinante (ou de um pronome) pode ser necessário ou dispensável, conforme o contexto, dependendo, por exemplo, do facto de o verbo utilizado reger ou não preposição. Assim, tanto em Portugal como no Brasil há contextos em que a preposição antes do demonstrativo é obrigatória. Por exemplo: «Deixei a carta nesta gaveta», «Estava pensando nisso mesmo».

Nos exemplos que apresenta, a questão da regência verbal não se põe. Trata-se antes de optar entre usar ou não a preposição em no adjunto adverbial de tempo: «esta semana» e «nesta semana» são ambas possíveis, mesmo em Portugal (ainda que a primeira opção seja mais comum).

Na oração «tem de se telefonar», o se é pronome clítico que exprime o sujeito indeterminado (cf. Mira Mateus et alii, Gramática da Língua Portuguesa, Lisboa, Caminho, 2003, p. 445), pois o se representa o agente de telefonar (alguém que tem de telefonar).

Não se trata de partícula apassivante, pois não exerce funções de complemento agente da passiva. Se assim fosse, seria possível a estrutura passiva “alguém é telefonado”. Quando o se é partícula apassivante, o sujeito vem normalmente a seguir ao verbo. Por exemplo: «dão-se cãezinhos», «fazem-se chaves», «vendem-se terrenos», etc.

Telefonar é considerado um verbo tanto transitivo como intransitivo.

É um prazer ajudar!

Respondo pela mesma ordem:

1. A escolha entre os auxiliares ter/haver nos tempos compostos prende-se sobretudo com o tipo de registo utilizado. Nos registos menos formais (familiar, corrente) emprega-se o auxiliar tertinha sonhado»); nos registos mais formais (cuidado, literário) pode optar-se pelo verbo haverhavia sonhado»), que no entanto parece estar a cair em desuso – como os próprios registos a que corresponde, infelizmente!

2. «Ter sonhado» é forma do infinitivo composto. Se é impessoal ou pessoal, depende do contexto, pois pode não estar associado a uma pessoa (impessoal), por exemplo na frase «ter sonhado é melhor do que não sonhar nunca»; ou corresponder à 1.ª ou 3.ª pessoa do singular (pessoal), por exemplo na frase «o facto de eu ter sonhado não significa que me lembre do sonho». Não se trata de nova terminologia, tanto quanto sei.

3. «Havia sonhado» é o pretérito mais-que-perfeito composto do modo indicativo, como refere. Corresponde à forma simples sonhara.

4. «Estava sonhando» – neste caso não temos um tempo composto, mas um complexo verbal de valor aspetual1.

5. «Ter estado» – aqui aplica-se a explicação dada no ponto 2, a propósito de «ter sonhado».

1 A gramática tradicional, na categoria do aspeto, chama a este tipo de construção verbal de «perífrase durativa», ou seja, a «perífrase de estar + gerúndio (ou infinitivo precedido da preposição ...