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1. Era um jogo de futebol, e o desportivismo deveria ser inerente aos gestos e às palavras. Não foi o que aconteceu em 16 de fevereiro de 2020, no jogo entre o  o Vitória de Guimarães e o Futebol Clube do Porto, durante o qual o jogador franco-maliano Moussa Marega foi insultado por adeptos da equipa minhota. A deceção pela derrota levou várias pessoas a dar voz a palavras e expressões de ódio, testemunhos verbais de práticas e visões racistas de um passado para não repetir. Fazendo a crónica deste triste incidente na rubrica O nosso idioma, a linguista Carla Marques, consultora permanente do Ciberdúvidas, dá conta de como o racismo, entre outras atitudes ofensivas da integridade humana, se inscreve na língua – e deixa um aviso: «[A] linguagem que usamos pode colocar-nos acima ou abaixo da linha da humanidade. A escolha é nossa!»

2. De histórias antigas de preconceito e discriminação se fala também no Consultório, a propósito da expressão tradicional «ruço de mau pelo». Mas os tópicos relativos à análise interna da língua igualmente estão igualmente de regresso na presente atualização: como se classifica o complemento do verbo pertencer? E a que subclasse gramatical pertencem, afinal, os advérbios efetivamente, efetivamente e decerto? Por último, uma resposta volta a abordar um uso do advérbio onde: deve apenas dizer-se «aonde vamos?», e «onde vamos?» é erro crasso?

3. Em vários pontos do mundo, o divertimento, a alegria esfuziante e a  imaginação das máscaras marcam o Carnaval, tempo também de excessos e abusos que nenhuma tradição pode legitimar. No Brasil, país onde a festa é especialmente assinalada, a campanha Não É Não, começada em 2017, atinge, em 2020, 15 estados contra o assédio sexual, que cresce durante este período tão popular. Num artigo de 19/02/2020 da publicação digital Tornado, o jornalista brasileiro Marco Aurélio Ruy faz a reportagem da ação do referido movimento, que sublinha que «assédio é diferente de paquera» e «xingar de vagabunda» é evidente abuso – tudo isto se pode ler no título bem brasileiro que o autor dá ao texto: "Não seja um babaca no Carnaval e leve a lição contra o assédio para a vida toda". Recorde-se que babaca é termo muito utilizado no português brasileiro para designar, de forma insultante, uma pessoa tola, ingénua, boba, idiota ou de baixo intelecto.

Leia-se, ainda a reportagem No Carnaval brasileiro vale tudo, menos assediar, da autoria do jornalista João Ruela  Ribeiro, no jornal "Publico" do dia 26/02/2020. Texto escrito segundo a norma ortográfica de 1945.

Na imagem à esquerda, Carnaval, de Candido Portinari (1903-1962).

4. Convém ainda lembrar que o Entrudo, nome mais tradicional desta festa, tinha e ainda tem uma função precisa no calendário de tradição cristã: trata-se de um introito, isto é, da preparação para a entrada no período de jejum e de abstinência da Quaresma. Sobre o Carnaval e a Quaresma, é já longa a lista de artigos e respostas em arquivo no Ciberdúvidas, mas aqui se deixa uma seleção: "Portugal, Alentejo, no Carnaval", "'Enfezar o Carnaval': etimologia", "'Enfezar o Carnaval', mais uma vez", "Entrudo, novamente", "Natal, Carnaval, Páscoa: palavras variáveis", "A palavra confete", "Do Carnaval ao futebol", "O Carnaval e o futebol são o ópio do povo»", "Partidas de Carnaval", "Sobre a origem de Quaresma"., "Etimologia de Quaresma, Pascoela, micareta, advento, educar e inteligente", "/Quarèsma/", "Quarta-Feira de Cinzas". E serve esta chamada de atenção também para informar que, devido à quadra festiva, a próxima atualização fica marcada para sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020.

5. Comemora-se na presente data o Dia Internacional da Língua Materna, e vem, portanto, a propósito o artigo que a publicação em inglês The Visual Capitalist dedicou em 15/02/2020 às 100 línguas mais faladas no mundo. Baseando-se numa infografia divulgada pelas páginas do Wordtips, por sua vez, apoiado pela 22.ª edição do Ethnologue, o texto salienta alguns dados interessantes sobre o estatuto do português na história e na atualidade linguística mundiais: é uma das línguas da família linguística mais difundida no mundo, a indo-europeia; encontra-se entre as 10 mais faladas mundialmente, ocupando a 9.ª posição quanto ao número total de falantes nativos e não nativos; mas ascende à 6.ª posição, quando se conta o número de falantes nativos. Uma conclusão entre várias é que, em comparação com o inglês ou o espanhol, o chamado idioma de Camões precisa de ser mais dinâmico para se tornar 2.ª língua de muitos milhões de falantes.

6. No âmbito da promoção do português como língua internacional e de conhecimento, assinala-se a eleição de Margarida Mano, docente da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC), para presidente da direção da associação FORGES-Fórum da Gestão do Ensino Superior nos Países e Regiões de Língua Portuguesa. Trata-se de uma instituição criada em 2011 que tem como principal objetivo promover uma rede de estudo e investigação na área da gestão e das políticas de ensino superior no espaço da língua portuguesa. Em nota de imprensa da Universidade de Coimbra (UC), data de 14/02/2020, a nova presidente da FORGES considerou que «[o] português é a língua mais utilizada no hemisfério sul e a sexta língua mais falada do globo», acrescentando que «o ensino superior tem particulares responsabilidades de um compromisso ativo na defesa da língua portuguesa e do seu papel na preservação da civilização e da cultura humanas» (ler também aqui no jornal regional As Beiras).

7. Nos programas que a Associação Ciberdúvidas da Língua Portuguesa produz para a rádio pública portuguesa, o tema comum é a leitura, em conversa com dois convidados:

♦ No programa Língua de Todos,  transmitido pela RDP África, na sexta-feira, dia 21 de fevereiro, pelas 13h20*, entrevista-se Ana Sousa Martins, linguista e coordenadora da Ciberescola da Língua Portuguesa, a propósito da edição da obra Contos com Nível, especialmente dirigida a alunos de português língua estrangeira com cerca de um ano na aprendizagem do idioma.

♦ No programa Páginas de Português, emitido pela Antena 2, no domingo, 23 de fevereiro, pelas 12h30, convida-se o professor João Luís Lisboa, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa a falar da necessidade que a atual sociedade do conhecimento tem de adquirir competências de leitura de diferentes textos – literários, informacionais, mediáticos.

O programa Língua de Todos é repetido no sábado, dia 22 de fevereiro, depois do noticiário das 09h00; e o  Páginas de Português  tem repetição no sábado, dia 29 de fevereiro, às 15h30). Hora oficial de Portugal continental, ficando ambos os programas disponíveis posteriormente aquiaqui.

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