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1. «Nenhuma vacina é 100% efetiva» – leu-se na legenda ao lado* com certa estranheza ou pronta rejeição nas redes sociais desse dia, pois esperar-se-ia da vacina que fosse eficaz, e não "efetiva". Uma pesquisa eletrónica depressa facultou algumas «vacinas efetivas» em artigos científicos, e instalou-se a dúvida: não se trataria de interferência semântica do inglês effective, de configuração tão semelhante a efetivo, mas equivalente a eficaz? Na verdade, o dicionário Aurélio XXI, apesar de aplicar efetivo ao que se diz de alguma coisa «que se manifesta por um efeito real, positivo», não apresenta este adjetivo como sinónimo de eficaz. Outras fontes, entre elas, o dicionário da Academia das Ciências de Lisboa (2001) ou o dicionário de Artur Bivar (1948), registam efetivo no sentido de «que produz efeito» – afinal, o significado básico de eficaz. E em dicionários mais recentes, quer de Portugal, quer do Brasil, subentende-se ou chega a explicitar-se decididamente que efetivo pode, afinal, ser usado como sinónimo de eficaz. Que fazer? Aceitar efetivo, quando queremos dizer «eficaz»? Não ignorando o registo dicionarístico da sua sinonímia com eficaz, o aumento da frequência de efetivo afigura-se-nos por vezes transposição preguiçosa do inglês effective. Para evitar esta e outras confusões induzidas pelos falsos amigos do inglês, sempre empobrecedoras, reserve-se efetivo sobretudo para qualificar algo que existe concretamente («foram tomadas medidas efetivas», ou seja, «reais, concretas»), ou que é permanente («conseguiu um lugar efetivo»), e deixe-se eficaz produzir efetivamente (=«realmente») «vacinas eficazes». Sobre casos inequívocos e mais clamorosos de anglicismos semanticamente traiçoeiros, leiam-se, por exemplo: "O recorrente erro do realizar (por perceber)",  "'Falso amigos': frase e o inglês phrase", "Do transpacífico aos 'falsos amigos' do inglês", ou "A praga dos vocábulos estrangeiros que não sabemos usar. Está Portugal perdido na tradução?".

* in Bom dia, Portugal, RTP 1, 28 de janeiro p.p.

2. No consultório, três respostas sobre a sempre problemática mesóclise («absolver-me-á», «absolver-me-ia»), a expressão «boas práticas» e o adjetivo «azul e branco».

3. O tema do bom e do mau tempo... também no português que falamos e escrevemos é o que trata o segundo programa da nova série do magazine Cuidado Com a Língua!, que a RTP 1 emite nesta terça-feira, dia 24, depois das 21h00**. Por exemplo: qual é a diferença entre chuva, nevegranizo e saraiva? E entre tufão e furacão? E o que é, na verdade, um aguaceiro? E qual é a palavra que designa o aparelho que mede o vento? E, em Angola, o que quer dizer «chuva de caju»? Finalmente: porque é errada a frase «condições climatéricas»?

** Hora de Portugal Continental. Esta nova série do Cuidado com a Língua!, como qualquer das anteriores oito, fica igualmente disponível na página oficial da RTP. Outras informações, aqui.

4. Se durante muito tempo se pensou que o liberalismo era uma das dimensões inerentes à democracia, hoje vive-se uma situação absurda: como é possível falar de «democracia iliberal»? Uma tentativa de resposta acha-se no artigo intitulado "Há uma nova linguagem política quando falamos de democracia?", que a jornalista Teresa de Sousa assinou no jornal Público, em 22/1/2017. É uma reflexão em torno de vocábulos como democracia, nacionalismo, xenofobia e racismo, cujo uso e significado dão sinais de preocupante mutação.

5. Finalmente, na rubrica Acordo Ortográfico fica disponível um artigo saído no jornal Observador em 22/1/2017 e a que o seu autor, Carlos Maria Bobone, deu o título "História dos acordos e desacordos ortográficos", lançando o desafio sereno de pôr a ortografia do português em perspetiva, para identificar os sucessivos enquadramentos culturais em que se foi inscrevendo.