Aberturas - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
 
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Por Ciberdúvidas da Língua Portuguesa

1.  A 68.ª edição do Festival da Eurovisão da Canção teve lugar em Malmö, na Suécia, no dia 12 de maio, e os factos mais marcantes deste evento não estiveram relacionados com a música, mas sim com a política. Este festival reúne, em competição, canções de diferentes países (25 nesta edição), definindo-se como apolítico. No entanto, este ano, o facto de a organização ter suspendido a participação da Rússia, ao mesmo tempo que permitiu a de Israel desencadeou inúmeras manifestações motivadas pelo conflito israelo-palestiniano, tendo vários representantes políticos e artistas feito apelos para que a participação de Israel fosse vetada, o que não aconteceu. Esta decisão levou a que se apontasse a incoerência da atuação da organização, tendo ainda existido denúncias de imposições censórias aos concorrentes. A este rol de acusações veio ainda juntar-se o facto de o vídeo da atuação da cantora portuguesa Iolanda, que exibia unhas de gel com padrões alusivos à Palestina e à resistência palestiniana, ter sido substituído por outro onde a concorrente trazia unhas pintadas de branco, situação que só foi corrigida depois de a RTP se ter manifestado. Em termos lexicais, as palavras que estes acontecimentos convocam mostram a importância da ação dos prefixos na formação de palavras e na alteração do valor de base das palavras. Assim, em apolítico, o prefixo a- associa ao lexema um valor de negação. O mesmo valor é introduzido pelo prefixo in- em incoerência. Há, com efeito, um conjunto de prefixos que associa este valor de negação ou de privação à forma de base, como é o caso também de des-, dis- ou an-, cuja ação se traduz num processo de economia linguística por evitar o recurso a construções perifrásticas para expressar a negação.

No Ciberdúvidas, são vários os textos que tratam aspetos relacionados com prefixos de negação: «O uso da palavra não como prefixo de negação», «O prefixo in-», «A utilização dos prefixos in- e des-», «Os adjectivos atemporal e não-espacial», « Aconfessional» e «A palavra ininteligente», entre outros.

2. O termo unido será sempre um particípio passado independentemente do seu comportamento da frase ou em determinadas ocasiões converte-se em adjetivo? Esta questão é analisada nesta resposta onde se abordam as várias possibilidades associadas a este fenómeno sintático. Na atualização do Ciberdúvidas podem ainda ler-se respostas para as seguintes questões: ««Bolo de laranja», «bolo de ovos»», «Preposição: «ausente ao serviço»», «Postergação e postergamento»,  «O complemento do nome síndrome», «Uso do futuro composto do indicativo», «Chance», «O adjetivo deráchico». 

3. O novo canal noticioso português terá a designação News Now, uma opção questionada, no Pelourinho, pelo cofundador do Ciberdúvidas José Mário Costa, que não encontra justificação para a adoção de um termo inglês para um meio de comunicação português. 

4. A formação da língua talian, num percurso desde a chegada de emigrantes italianos ao Brasil à criação de uma língua franca que permitisse a comunicação entre falantes de diferentes dialetos italianos, constitui a base do artigo publicado no Diário de Notícias (aqui partilhado com a devida vénia).

5. O que é ser professor de português? Com base no contexto escolar angolano, o professor e linguista Adilson Fernando João passa em revista alguns dos aspetos fundamentais para o desempenho da função docente na área da língua portuguesa e desfaz algumas ideias que não são pertinentes nesta realidade (artigo partilhado com a devida vénia).

6. Entre os acontecimentos dignos de registo, destaque para:

– O banquete temático em homenagem a Camões, no âmbito das comemorações dos 500 anos do seu nascimento, que terá lugar no dia 17 de maio, em Coimbra, e que abre com uma conferência proferida pelo professor universitário José Cardoso Bernardes intitulada "O banquete de Camões";

– A atribuição do prémio literário Glória de Sant'Anna 2024 ao escritor José Luís Barreto Guimarães, com a obra Aberto todos os dias

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1. Em Portugal, além das alegrias e das tristezas do futebol, nota-se certo clima emocional na vida política e não só. Por exemplo, têm ampla projeção mediática a exoneração da provedora da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e o comportamento mais recente do presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, alvo de numerosas críticas. Entre estas, conta-se a de um antigo governante português, hoje comentador televisivo, que considera que os Portugueses precisam de «um presidente sério e "à séria"». É irónico que quem critica também mereça reparo, por usar «à séria» em lugar  de «a sério», forma correta da locução, conforme aponta o jornalista e cofundador do Ciberdúvidas José Mário Costa, na rubrica Pelourinho.

2. Cresce o número de publicações dedicadas à implantação e ao ensino do português nos países africanos onde este idioma tem estatuto oficial. É o caso de Políticas linguísticas educacionais em contextos africanos, organizada por Cristine Gorski SeveroEzra Alberto Chambal Nhampoca e Ezequiel Pedro José Bernardo, obra apresentada na Montra de Livros.

A propósito da dinâmica do português em África, leia-se a notícia referente às declarações de Francisco Ramos, presidente do Observatório da Língua Portuguesa, no contexto da celebração do Dia Mundial da Língua Portuguesa.

3. Na frase «Esqueça aquela garota, afinal ela não merece seus sentimentos», afinal é uma conjunção? Não, é um marcador discursivo, por razões explicadas na presente atualização do Consultório, a qual inclui outras sete novas questões: antibiótico é hiperónimo de penicilina? Qual é o gentílico de Porto de Mós? Diz-se «passear pela praia» ou «na praia»? O que é mais correto: «ao fim da tarde» ou «no fim da tarde»? Donde vem o nome escritor? A oração «com você olhando assim para mim» está correta? E que vem a ser um ponto continuativo?

4. Em O Nosso Idioma, o linguista Jefferson Evaristo refere-se à flexibilidade de certos elementos da frase para uma boa escrita. Trata-se da transcrição de um texto deste autor, publicado em 27/04/2024 no mural Língua e Tradição (Facebook).

5. O poeta cabo-verdiano Daniel Filipe (1925-1964), autor de A Invenção do Amor e Pátria, Lugar de Exílio, faleceu há 60 anos. Na rubrica Literatura, transcreve-se, com a devida vénia, o texto evocativo que o jornalista Nuno Pacheco lhe dedicou no jornal Público em 09/05/2024.

6. Registos diversos, relacionados com a língua portuguesa:

– O lançamento, nos cinemas brasileiros, do documentário Verissimo, um filme realizado por Angelo Defanti, que acompanha 15 dias da rotina do escritor e humorista Luis Fernando Verissimo, antes do seu 80.º aniversário, em 2016 (ver Nexo, 02/05/2024).

– O apelo do secretário executivo da CPLP, Zacarias da Costa, no sentido de um educação de qualidade, em que o ensino da língua portuguesa nos Estados-membros tenha o reforço de investimentos na formação de professores e em infraestruturas (Sapo, 06/05/2024).

– Do professor universitário e divulgador Marco Neves, dois episódios do programa Pilha de Livros: "O nome da língua do Brasil e os dois alfabetos do sérvio" (07/05/2024)   e "Dois livros sobre o 25 de Abril" (08/05/2024).

– Na Universidade de Pádua, a realização em 07/05/2024, da jornada Os Prodígios da Liberdade e da Língua Portuguesa. Nos 50 anos de Abril com Lídia Jorge, em torno dos 50 anos da Revolução dos Cravos, do Dia Mundial da Língua Portuguesa e da obra e do pensamento de Lídia Jorge.

– O escritor angolano João Melo é o vencedor do Prémio de Literatura stdAngola/Camões (Empreendedor, 08/05/2024).

7. Relativamente a três programas dedicados à língua portuguesa na rádio pública portuguesa:

– Em Língua de Todos, difundido na RDP África, na sexta-feira, 10/05/2024, às 13h20* (repetido no dia seguinte, c. 09h05*), transmite-se uma entrevista com Margarita Correia, linguista e professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, sobre o estatuto do português nos países africanos de língua oficial portuguesa.

– Em Páginas de Português, transmitido na Antena 2, no domingo, 12/05/2024, às 12h30* (repetido no sábado seguinte, 18/05/2024, às 15h30*), participa igualmente a professora e linguista Margarita Correia, para se referir ao estatuto internacional do português na atualidade, na sequência da instauração do regime democrático em Portugal, em abril de 1974.

– Refira-se ainda o programa Palavras Cruzadas, realizado por Dalila Carvalho, de segunda à sexta-feira, às 09h50 e 18h50*, na Antena 2. O tema dos episódios de 13 a 17 de maio é a linguagem castrense.

 *Hora oficial de Portugal continental.

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1.  Na madrugada de sexta-feira, dia 3 de maio, no Porto, grupos de homens encapuzados atacaram imigrantes, na sua maioria de nacionalidade argelina. Esta situação com contornos de uma preocupante violência traz consigo duas palavras nucleares: racismo e xenofobia, que têm sido usadas tanto para descrever a orientação de discursos conotados com a extrema-direita como fenómenos pontuais associados a maior ou menor violência física e verbal contra imigrantes. Um conjunto de acontecimentos que têm deixado um lastro de preocupação num país que habitualmente se pauta pelos brandos costumes e pela tolerância relativamente à diferença. Do ponto de vista linguístico, convém aqui estabelecer a distinção entre as duas palavras do ponto de vista da sua significação. Assim, racismo é usado para referir o «preconceito extremado contra indivíduos pertencentes a grupos ou etnias diferentes, geralmente considerados inferiores».* Note-se que o lexema racismo não deve ser associado à noção de superioridade racial, uma vez que o conceito de raça não tem bases científicas. Para referir diferenças desta natureza, preferem-se os termos etnia, povo ou grupo étnico. Xenofobia, por seu turno, é uma palavra que refere a «aversão ou hostilidade a pessoas estrangeiras». Deste modo se conclui que racismo e xenofobia descrevem sentimentos de rejeição associados a realidades distintas. Em termos etimológicos, racismo forma-se pela junção do sufixo -ismo à palavra raça, ao passo que xenofobia resulta da junção dos elementos compositivos gregos xénos, que significa «estrangeiro, estranho, insólito», e phóbos, que significa «medo, pavor, temor». A este propósito, justifica-se recordar alguns dos textos relacionados com o tema disponíveis no Ciberdúvidas: «Que nos contam as palavras racismo e xenofobia?», «O âmbito do termo xenofobia», «Raça e expressões racistas», «Xenofobia linguística», «A pronúncia de racismo», «Pronúncia do x: xenofobia e sintaxe».  

* Foram consultados o Dicionário Houaiss e o Dicionário da Língua Portuguesa, da Academia das Ciências de Lisboa.

2. O termo aceiro que surge na toponímia na freguesia de Pinhal Novo (concelho de Palmela) e também no concelho de Montijo é abordado do ponto de vista da sua significação ao mesmo tempo que se ensaia uma justificação para o seu uso. Esta explicação integra uma das oito novas respostas que poderão ser consultadas na atualização do Consultório, que inclui ainda as seguintes: «Processos de coesão, correferência não anafórica», «A expressão «como se fosse ontem»», «O verbo usar e o modificador do grupo verbal», «A locução conjuntiva adversativa «só que»», «Valores de pois», «Ordenar alfabeticamente avô e avó», «Oração condicional contrafactual e imperfeito do conjuntivo».

3.  As frases «Maria é uma das vencedoras» e «Maria é um dos vencedores» colocam um problema de concordância. Estará uma das frases incorreta ou estas abrangem realidades extralinguísticas distintas? Este é o tema do apontamento da responsabilidade da professora Carla Marques, desenvolvido em colaboração com o programa Páginas de Português, na Antena 2

4. Um registo com a forma incorreta "fique-mo-nos" motiva o apontamento do consultor Paulo J. S. Barata para a rubrica Pelourinho, onde se explica o processo de formação e as regras gramaticais envolvidas na estrutura fiquemo-nos (esta, sim, correta). 

5. O abismo entre os usos da oralidade e os da escrita envolve muitas vezes questões complexas relacionas com escolarização e letramento. O contraste entre o caso brasileiro e, por exemplo, o sueco parece exemplificar de forma clara esta tese, tal como argumento o linguista brasileiro Aldo Bizzochi no artigo que aqui partilhamos com a devida vénia. 

6. Entre os eventos de interesse para a língua portuguesa, destaque para a terceira edição do Congresso Internacional Dia Mundial da Língua Portuguesa: A Sintaxe do Português no Século XXI, que pretende refletir sobre os aspetos linguísticos da língua portuguesa no contexto global, com lugar nos dias 7 e 8 de maio na Universidade Roma Tre e no Instituto Guimarães Rosa, em Roma.

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1. A data de 5 de maio é dedicada internacionalmente ao português, desde que em 27/11/2019 a 40.ª sessão da Conferência Geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) decidiu  proclamá-la em cada ano como Dia Mundial da Língua Portuguesa. O Ciberdúvidas não tem deixado de registar a celebração*, que dá ampla projeção ao português como idioma de escala global e fator de afirmação cultural e geopolítica dos países e das comunidades que nele se exprimem. Na rubrica O Nosso Idioma, a consultora do Inês Gama sublinha, num texto elaborado a propósito deste dia, que a língua portuguesa é «portadora de uma longa história [e] não se pode esgotar na descrição do seu sistema linguístico, devendo ser também entendida como um veículo de comunicação por excelência e um forte laço de união dos povos que a utilizam».

* Ler as Aberturas de 05/05/202303/05/2022, 04/05/2021 e 06/05/2020.

2.  A locução «sendo que» continua a levantar dúvidas e, por isso, é retomada com mais pormenor no conjunto de sete novas perguntas que fazem a atualização do Consultório. São ainda abordados os seguintes tópicos: a referência bibliografia de uma seleção de textos de um mesmo autor; o advérbio insinuadamente; o uso intransitivo do verbo encurvar; a correspondência entre adjuntos adverbiais e as orações subordinada adverbiais; os adjetivos neural e neuronal; e o uso da anáfora num texto da escritora Luísa Costa Gomes.

3. Uma «doença do fórum psiquiátrico» ou do «foro psiquiátrico»? Há quem confunda, e a questão motiva um apontamento disponível no Pelourinho, do consultor Carlos Rocha, que se refere às relações etimológicas, semânticas e lexicais entre as palavras fórum e foro.

4. Na rubrica Ensino, dois artigos de opinião transcrito com a devida vénia de jornais portugueses:

– Num artigo de opinião transcrito da edição de 25/04/2024 do jornal Público, a socióloga Cristina Roldão, professora na Escola Superior de Educação-Instituto Politécnico de Setúbal, critica a ocultação das vítimas africanas na narrativa da guerra colonial portuguesa (1961-1974) que se encontra em alguns manuais de História dos ensinos básicosecundário de Portugal.

– Noutro artigo de opinião, publicado no Observador, em 28/04/2024, a professora Maria Regina Rocha identifica quatro aspectos que prejudicam o ensino português: a escala de classificação; a dimensão das turmas; a duração dos tempos letivos; os horários letivos semanais.

Sobre o ensino e o papel social da escola ler também, no jornal Público,  "A escola como antídoto contra a xenofobia" (30/04/2024) e "A IA chegou às salas de aula. Onde entra o professor?" (01/05/2024).

5. Entre publicações académicas com interesse para o aprofundamento de temas da língua portuguesa, salientam-se:

– em inglês, Decolonizing Linguistics («Descolonizar a Linguística»), da Oxford University Press, uma obra que visa intervir no condicionamento exercido pela mentalidade colonial na linguística e nas áreas relacionadas;

Políticas linguísticas educacionais em contextos africanos (Belo Horizonte, Mazza Edições, 2024), um volume organizado por Ezequiel Pedro José BernardoEzra Alberto Chambal Nhampoca e Cristine Gorski;

– e, da Galiza, centrado no debate acerca de norma linguística, A estandarización das linguas da Península Ibérica: procesos, problemas e novos horizontes (Consello da Cultura Galega), um volume organizado pelo linguista Henrique Monteagudo (Universidade de Santiago de Compostela), que é também o autor de  Galiza mater, raíz anterga. Manuel Rodrigues Lapa na lingua e a cultura galega (Editorial Galaxia), à volta do decisivo contributo do filólogo Manuel Rodrigues Lapa (1897-1989) para as relações culturais luso-galegas.

6. Outros registos da atualidade:

– No Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, nos dias 4 e 5 de maio, realiza-se o FeLiCidade – Festival da Língua e da Liberdade na Cidade, para assinalar os 50 anos da Revolução dos Cravos e questionar «a língua como casa» (ver programa). Este evento inclui uma aula do professor universitário e classicista Frederico Lourenço sobre Luís de Camões, no contexto da comemoração do 5.º centenário do nascimento do poeta.

– Ainda no âmbito da celebração do Dia Mundial da Língua Portuguesa, refira-se o evento organizado pela Universidade Aberta (UAb) com o título "A língua portuguesa como espaço de cidadania e de liberdade", a ter lugar no Palácio Ceia (Lisboa) no dia 6 de maio, das 16h30 às 17h45 (ver programa).

– O Brasil considera prioritário o projeto de tornar o português língua oficial da ONU, de acordo com declarações do ministro das Relações Exteriores brasileiro, Mauro Vieira (mais informação no Observatório da Língua Portuguesa).

– O abaixo-assinado lançado por um grupo de investigadores de Inteligência Artificial e tecnologia da língua portuguesa, apelando à intervenção das autoridades no desenvolvimento de um plano de preparação tecnológica do português para enfrentar os desafios dessa área (mais informação aqui).

7. Dos programas que, na rádio pública de Portugal, versam sobre língua portuguesa, salientam-se:

– No programa Língua de Todos, difundido na RDP África, na sexta-feira, 03/05/2024 às 13h20* (repetido no dia seguinte, c. 09h05*), conversa-se com a escritora e antiga ministra da Educação Isabel Alçada, sobre o poder e valor da leitura no século XXI.

– No programa Páginas de Português, transmitido pela Antena 2, no domingo, 05/05/2024, às 12h30* (repetido no sábado seguinte, 10/05/2024 às 15h30*), entrevista-se a professora Maria Aldina Marques, investigadora do Centro de Estudos Humanísticos (Universidade do Minho), sobre o discurso académico e científico, com especial foco nas competências linguísticas dos estudantes do ensino superior. Ainda um apontamento gramatical da consultora do Ciberdúvidas Inês Gama.

– Igualmente na Antena 2, refira-se ainda Palavras Cruzadas, programa realizado por Dalila Carvalho, de segunda a sexta, às 09h50* e às 18h50*.

 *Hora oficial de Portugal continental.

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1. A palavra reparação encontra-se na ordem do dia. O termo foi usado pelo Presidente da República português Marcelo Rebelo de Sousa no decurso de um jantar com jornalistas estrangeiros (no dia 23/04/24), onde defendeu que os portugueses deveriam pagar os custos do colonialismo como forma de reparação histórica dos seus atos passados. Neste contexto, o substantivo reparação não foi usado no seu sentido denotativo, que aponta para o «ato ou efeito de consertar, restaurar» e que já se encontra no seu étimo latino reparatĭo, onde já se encontrava o sentido de «renovação, remodelação». Com a evolução dos usos e o enriquecimento semântico, a palavra reparação passou também a incluir valores como «restabelecimento ou recuperação de forças, após esforço físico; ação de corrigir o que está mal; compensação, indemnização por danos ou prejuízos causados». É nesta última aceção que o termo restauração foi usado pelo Presidente da República e é esta a significação que está a desencadear um debate aceso na sociedade portuguesa, suscitando posições muito contrárias e mesmo extremadas, que, de alguma forma, emergiram no espaço público associadas às comemorações do 25 de Abril. Este ano, o evento ficou marcado por desfiles em várias cidades, onde se reuniu um número muito alargado de pessoas, como há muito não se via. Um «mar de gente» que recordou a importância de se continuar a lutar pela liberdade conquistada, e cujos valores, tal como a língua portuguesa, se espalham pelos corações, como nos recorda no seu artigo a professora universitária e linguista Margarita Correia (partilhado com a devida vénia). 

Primeira imagem: Fundação da cidade de Rio de Janeiro, de Antônio Firmino Monteiro (1855-1888).

2. A expressão «ainda em cima», cuja correção atualmente deixa reservas, tinha plena vitalidade no século XIX, uma importância que perdeu posteriormente para a expressão «ainda por cima». Este é o panorama que se traça na resposta que se encontra incluída na atualização do Consultório, onde se poderão encontrar também respostas para a seguintes questões: Qual a concordância correta: «pai e filha assomaram a cabeça» ou «pai e filha assomaram as cabeças»? A expressão «aos pejelhos» existe?  Qual a função sintática de «na serra» na frase «Eles decidiram ficar na serra»? Como construir uma enumeração que envolve verbos com regências diferentes? Quais as interpretações da frase «Ela deixou a plateia emocionada»? O constituinte «à Pelé» em «Ele fez um gol à Pelé» associa-se a uma crase?

3. Sobretudo na oralidade, registam-se casos de confusão entre as palavras tráfico e tráfego, o que motiva a consultora Inês Gama a apresentar um apontamento onde se esclarecem as dúvidas relacionadas com esta questão (divulgado no programa Páginas de Português, na Antena 2).

4. O regresso à Guiné-Bissau e a recordação de traços característicos do crioulo aí falado conduzem a professora Arlinda Mártires numa evocação sobre a poética da língua guineense em que, nas suas palavras, «a própria língua se reveste de uma tónica carinhosa e nos abraça como os seus falantes nos abraçam».

5. Os resultados obtidos pelos alunos portugueses em estudos como o PISA, o TIMSS ou o PIRLS levam Maria Regina Rocha, professora e antiga colaboradora do Ciberdúvidas, ao desenvolvimento de uma análise crítica da atual situação e à apresentação de um conjunto de propostas que visam encontrar soluções e conduzir à melhoria dos resultados da aprendizagem (artigo publicado no jornal digital Observador aqui partilhado com a devida vénia). 

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1. Há meio século, em 25 de abril de 1974, desencadeou-se um processo de enorme impacto político e social em Portugal, traduzido na instauração da democracia e na descolonização. O tropel de acontecimentos e as transformações sucessivas – a chamada Revolução dos Cravos – teria consequências forçosas na língua, uma das quais foi a de os países africanos anteriormente controlados por Portugal participarem hoje ativamente na mudança e projeção do português, reforçando o estatuto que o Brasil já lhe conferia como idioma cimeiro entre os mais falados no hemisfério sul. O Ciberdúvidas da Língua Portuguesa junta-se igualmente à comemoração do 25 de Abril de 1974, com dois novos textos disponíveis na rubrica O Nosso Idioma:

– "50 palavras nos 50 anos no 25 de Abril em Portugal", um balanço léxico-semântico feito pelo jornalista José Mário Costa, cofundador do Ciberdúvidas, que assim recolhe palavras, expressões e tropeções linguísticos emblemáticos destes cinco decénios em Portugal, com destaque para os usos mais marcantes da primeira década da restauração da democracia em Portugal.

– Liberdade conta-se certamente entre os vocábulos mais reiterados em manifestações e discursos políticos nos primeiros anos da democracia portuguesa. Igualmente a propósito das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, a consultora Inês Gama explora o significado da palavra liberdade.

Na imagem, instalação no átrio principal da Escola Artística António Arroio (Lisboa) realizada por alunos em 2024 no âmbito das comemorações do 25 de Abril.

2. Aproximam-se as eleições europeias, a ter lugar entre 6 e 9 de junho de 2024, e a comunicação social portuguesa dá relevo ao acontecimento, nem sempre da melhor forma. É o caso de uma transmissão da RTP, em 18/04/2024, na qual o verbo vacilar figurava incorretamente como "vassilar". No Pelourinho, a consultora Sara Mourato dá conta do erro e explica a origem de uma confusão comum na língua portuguesa.

3. Deve dizer-se homófobo ou homofóbico? A resposta faz parte do conjunto de seis que atualizam o Consultório e que abrangem ainda outros tópicos: a sigla TVDE; uma oração com a função de agente da passiva; um modificador do nome restritivo; a sintaxe do verbo levar; e a diferença aspetual, no modo indicativo, entre o pretérito perfeito e o pretérito imperfeito.

4. Voltando à rubrica O Nosso Idioma, transcreve-se, com a devida vénia, da autoria do revisor Gabriel Lago, um apontamento sobre os usos expressivos do ponto final, que foi publicado em 20/04/2024 no mural Língua e Tradição (Facebook).

5. Está disponível um novo episódio de Ciberdúvidas – o podcast, desta vez dedicado ao uso do imperfeito de cortesia, nem sempre bem compreendido entre os falantes e que, em Portugal, é o mote para uma piada velha: «Queria? Já não quer?»

6. Dois registos da atualidade com relação direta e indireta com a língua portuguesa:

– O abaixo-assinado lançado em 21/04/2024 pela Conferência Internacional do Processamento Computacional da Língua Portuguesa (PROPOR) para solicitar aos países lusófonos que se juntem e invistam em modelos de Inteligência Artificial (IA) generativa, de modo a evitar que a língua portuguesa dependa das grandes empresas tecnológicas (cf. Expresso, 24/04/2024).

– O debate de alto nível que a ONU News realizou para marcar os 50 anos da Revolução dos Cravos, reunindo o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, e os representantes permanentes nas Nações Unidas de Angola, Brasil, Cabo Verde, Moçambique, Portugal e Timor-Leste.

7.  Finalmente, refiram-se três dos programas que a rádio pública de Portugal dedica à língua portuguesa:

Língua de Todos, programa difundido na RDP África, na sexta-feira, 26/04/2024, às 13h20* (repetido no dia seguinte, c. 09h05*);

Páginas de Português, transmitido pela Antena 2 no domingo, 28/04/2024, às 12h30* (repetido no sábado seguinte, 04/05/2024 às 15h30*);

– e também na Antena 2, o programa Palavras Cruzadas, realizado por Dalila Carvalho, de segunda a sexta, às 09h50* e às 18h50*.

*Hora oficial de Portugal continental.

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1. No Dia Mundial da Terra, assinalado a 22 de abril, foi apresentando o relatório sobre o Estado do Clima na Europa em 2023, no qual se destaca a expressão nuclear: «stress térmico extremo», que refere situações em que o calor é equivalente a uma temperatura superior a 46 ºC, situação que exige a tomada de medidas para evitar riscos para a saúde, como a insolação. A Europa registou em 2023 um número recorde de dias de stress térmico, que se associou a ondas de calor fortíssimas, incêndios florestais, secas e inundações, um conjunto de fenómenos registados na Europa entre junho e setembro de 2023. Esta é uma realidade que se verificou em 41% do Sul da Europa no pico da onda de calor que ocorreu em julho de 2023. A noção de situação limite convocada pela expressão é acompanhada, nos textos que tratam este assunto, por expressões como «precipitação recorde», «efeitos catastróficos», «ano mais chuvoso», «onda de calor marítimo mais forte de sempre», «maior incêndio florestal jamais registado na União Europeia». Em todas as construções, assinala-se a ideia de um limite que se ultrapassa no sentido de uma realidade desastrosa. Isto significa que também a linguagem denota a situação extrema que o planeta está a viver e regista os perigos crescentes que ameaçam a existência das espécies. A propósito da questão do aquecimento global, recordamos que o símbolo dos graus Celsius é ºC, devendo escrever-se, por exemplo, 45 ºC (e não 45º C, 45ºC ou 45 º C). 

2. Quando procedemos ao relato do discurso por meio do discurso indireto, o uso de tempos verbais deve obedecer a princípios rígidos ou verifica-se flexibilidade nas opções? As regras de transformação de discurso direto em discurso indireto ensinadas em contexto pedagógico devem ser aplicadas em todos os contextos? A atualização do Consultório inclui uma resposta que aborda estas questões que colocam frequentemente dúvidas relacionadas com os usos do discurso indireto. Entre as novas respostas, encontra-se tratada a natureza da partícula se em diversos contextos («Pronome pessoal recíproco e expressões de reforço» e «Pronome se: reflexivo vs. apassivador») e apresentamos várias respostas relacionadas com a correção/pertinência de usos (««Escrever no papel» e «sobre o papel»», ««Sob a égide» e «sob os auspícios»», «Mentoriamentorado», «Redundância: «sozinho para si mesmo»» e «Os significados de «dar conta de»»). Tratam-se ainda questões do âmbito da sintaxe: «Concordância com «a metade de ...»» e «Adjunto adnominal: «criei um grupo com os meus amigos»». 

3. A frase «Ele é amicíssimo meu» está correta? É possível flexionar um substantivo em grau usando o sufixo -íssimo? Estas questões dão matéria ao apontamento da professora Carla Marques, divulgado no programa Páginas de Português, na Antena 2. 

4. Os consulentes do Ciberdúvidas estabelecem com os consultores uma comunicação diária intensa, que se visa sobretudo o esclarecimento de dúvidas relacionadas com a língua. Não obstante, também há ocasiões em que chegam ao nosso correio palavras de apreço pela atividade que aqui se desenvolve diariamente, sempre ao serviço da língua e dos seus falantes.  

5.  A comemoração dos 500 anos do nascimento do poeta Luís de Camões continua a motivar reflexões. Desta feita, partilhamos o texto do professor universitário, escritor e tradutor Frederico Lourenço dedicado à poesia lírica camoniana e à sua celebração da mulher, em particular de Bárbara escrava. 

6.  No âmbito das comemorações dos 50 anos do 25 de abril, destaque para o encontro 50 Anos, 5 Visões, promovido pelo Núcleos de Estudantes do Departamento de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa – FLUL, que terá lugar dia 23 de abril, no Anfiteatro 3 da FLUL, das 14h às 19h. 

7. Na presente semana, excecionalmente, a próxima atualização e a respetiva Abertura são antecipadas para quinta-feira, dia em que se comemora em Portugal o cinquentenário do 25 de Abril de 1974.

Por Ciberdúvidas da Língua Portuguesa

 1. A pressão da língua inglesa em Portugal dá sinais de intensificar-se na vida quotidiana e nos consumos culturais, tendência que se nota, por exemplo, no crescimento da venda de livros em língua inglesa em detrimento da tradução portuguesa. A Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) manifesta-se através do seu presidente, Pedro Sobral, o qual, não negando o lado positivo de haver novas gerações competentes em inglês, alerta para a prioridade da defesa da língua portuguesa (ver Comunidade Cultura e Arte, 18/04/2024). Nos media, é imparável o impacto anglófono, e, na CNN Portugal, separadores e espaços informativos têm denominações inglesas como Breaking News, Latest News, CNN Prime Tiime, GTI Plus e Teach For Portugal, como aponta o jornalista José Mário Costa, cofundador do Ciberdúvidas, no Pelourinho, a propósito de um novo canal de notícias em Portugal, o News Now, paradoxalmente dirigido a portugueses e lusófonos, apesar do nome inglês.

2. É com enorme preocupação que se acompanha a situação no Médio Oriente, agravada pelo ataque do Irão a Israel. O desenrolar dos acontecimentos é muito comentado nos canais de televisão em Portugal, em direto, só que a qualidade do português das intervenções deixa muito a desejar. Também no Pelourinho, um apontamento da consultora Sara Mourato dá conta de três tropeções ouvidos numa transmissão da CNN Portugal: «Israel está sobre ameaça», «todas as casualidades» e, em vez das formas vernáculas Cisjordânia ou «Margem Ocidental», «West Bank».

3. Entretanto, sobre o programa do novo governo português, há debate acalorado na Assembleia da República, sobretudo, entre os partidos mais votados, PSDPS e Chega. E o moderador de um programa televisivo pergunta: pode falar-se num «duelo a três»? Em O Nosso Idioma, a consultora Inês Gama explica que duelo só se entende como «combate a dois». Abordando a competição na área desportiva, o consultor Paulo J. S. Barata regista e descreve o uso da expressão «ir a campo», ainda na mesma rubrica.

4. Qual é a frase correta: «as filhas aprendiam a serem» ou «aprendiam a ser»? A esta pergunta somam-se seis, totalizando sete novas questões a compor a atualização do Consultorio: há forma portuguesa para o topónimo hebraico Beersheva? Os nomes dos povos indígenas do Brasil seguem a regras da ortografia comum? Como se denomina uma loja onde se vendem doces? Que função sintática desempenha «entusiasmada» na frase «entusiasmada, a professora sorriu»? Como se emprega adjetivalmente o particípio passado atento? Que relação existe entre compasso e «compasso de espera»?

5. Uma ordem política mundial capaz de assegurar a paz internacional é preocupação antiga de políticos e pensadores. Um filósofo que também lhe dedicou atenção foi Immanuel Kant, nascido em 22 de abril de 1724, em Könisberg, na antiga Prússia, cidade hoje conhecida como Kaliningrad, na Federação Russa (em português, Caliningrado ou Calininegrado; ver Abertura de 24/06/2022). Assinala-se, portanto, o tricentenário deste importantíssimo filósofo alemão, observando que o apelido Kant tem etimologia incerta, oscilando entre uma tese escocesa e uma hipótese báltica. Sobre o topónimo Könisberg, o equivalente vernáculo é Conisberga; e, a respeito de Prússia, é originalmente designação da região habitada pelos Prussianos, grupo étnico de língua báltica e de nome historicamente obscuro, embora a variante ou o sinónimo borusso (ou brússio) sugira uma expressão eslava que significaria «perto dos russos» (cf. Dicionário Houaiss). Em português, atesta-se o topónimo Prússia a partir do século XV (ver José Pedro Machado, Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa). Recorde-se que, de Kant, se deriva o adjetivo kantiano, que mantém a grafia estrangeira do nome próprio, como acontece aos vocábulos derivados de nomes próprios estrangeiros.

6. Registos vários, todos relacionados com a língua portuguesa:

– O pedido do presidente do parlamento português, José Pedro Aguiar-Branco, aos deputados portugueses, para que usem as formulações «senhor deputado» e «senhor presidente» e evitem o tratamento por tu ou você, «de forma a dignificar o debate parlamentar sem coartar o conteúdo do mesmo, dignificando a casa da democracia» ( in Diário de Notícias, 16/04/2024).

– O XIV Congresso da Associação Internacional de Estudos Galegos, que decorre de 17 a 20 de abril, na Universidade do Minho.

– O anúncio de FeLiCidade – Festival da Língua e da Liberdade na Cidade, uma iniciativa a ter lugar no Centro Cultural de Belém (Lisboa), para assinalar o Dia Mundial da Língua Portuguesa, celebrado em 5 de maio.

– A Jornada "Variação Linguística, Educação e Cidadania", promovida pela Associação de Professores de Português (APP) e pela Associação Portuguesa de Linguística (APL) e a ter lugar em 3 de junho p.f., na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

– O vídeo "Por que expressões típicas do Brasil estão pegando em Portugal?", um trabalho da jornalista Julia Braun para a BBC Brasil (igualmente disponível em "O português de Portugal está ficando mais brasileiro?").

7. Entre os programas que a rádio pública de Portugal dedica à língua portuguesa, salientam-se:

– Em Língua de Todos, programa difundido na RDP África, na sexta-feira, 19/04/2024, às 13h20* (repetido no dia seguinte, c. 09h05*), a professora Sandra Duarte Tavares analisa a etimologia e sinonímia de certos termos como positividade, positivismo e agnotologia. Discorre ainda sobre e significado da palavra pleonasmo, dando vários exemplos.

– Em Páginas de Português, transmitido pela Antena 2 no domingo, 21/04/2024, às 12h30* (repetido no sábado seguinte, 27/04/2024 às 15h30*), entrevista-se a professora Gilda Santos, atual vice-presidente cultural do Centro de Estudos do Real Gabinete Português de Leitura. Para além de apresentar este centro e as suas funções, das quais se destacam a promoção da literatura e cultura portuguesa no Brasil, refere também os eventos planeados pelo Real Gabinete para celebrar os 500 anos do nascimento de Luís de Camões. A professora e consultora do Ciberdúvidas Carla Marques traz ainda um apontamento gramatical.

– Igualmente na Antena 2, refira-se ainda Palavras Cruzadas, programa realizado por Dalila Carvalho, de segunda a sexta, às 09h50* e às 18h50*.

*Hora oficial de Portugal continental.

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1. O recente aumento da tensão entre Israel e o Irão colocou o Médio Oriente no centro das atenções devido ao perigo de vir a desencadear uma nova guerra com consequências imprevisíveis. Esta situação motivou uma reunião de emergência dos líderes do G7 e levou tanto a presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, como o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, a deixarem um apelo de «máxima contenção» às partes envolvidas. A palavra contenção, aqui usada com o valor de «ato ou efeito de conter(-se)»1, levanta, por vezes, dúvidas relativamente à sua grafia, sendo confundida com a forma contensão. A este propósito, convém aqui esclarecer que a palavra contenção, com o significado acima referido, é resultante da junção do verbo conter (na forma conten-) ao sufixo -ção e não se pode grafar como contensão. Existe, sim, registo de uma outra palavra, também grafada contenção, que advém do étimo latino contentĭo ou de contensio, ōnis, que significa «ato ou efeito de contender; 1. Desforço físico; briga, luta; 2. Desentendimento verbal ou da ordem das ideias, altercação, debate, disputa»1. É a palavra com esta etimologia e com este significado que tem como variante a forma contensão. Esta situação resulta do facto de as palavras terem origem nas variantes latinas já mencionadas, o que gerou uma flutuação ortográfica, que se verifica apenas no caso desta última palavra.

  1. As aceções apresentadas constam do Dicionário Houaiss.

Primeira imagem: mapa do Médio Oriente, com destaque, a cor para Israel (a laranja) e Irão (a verde).  

2. Quando entre o verbo e o seu complemento se coloca um advérbio, este deve ser isolado por vírgulas? A resposta a esta questão considera o caso dos advérbios curtos colocados junto da forma verbal. Na atualização do Consultório poderão ainda ser consultadas respostas sobre os seguintes aspetos: a pronúncia de R depois das letras S, N ou L; a grafia da expressão «autor matriz»; a grafia da expressão «há um ror de dias»; a natureza do verbo fazer numa construção passiva; a colocação do clítico com orações infinitiva; uso do verbo sujar como pronominal reflexo; a relação semântica entre supor e pressupor; uma possível tradução do anglicismo misnomer e os gentílicos de Buenos Aires e de Cidade do México.

3. Tal é uma palavra polifuncional, que pode pertencer a várias classes de palavras. Partindo da frase «Não tenho conhecimentos para tal», a professora Carla Marques analisa o comportamento deste vocábulo na língua (apontamento divulgado no programa Páginas de Português, da Antena 2). 

4. O consultor do Ciberdúvidas Paulo J.S. Barata apresenta um apontamento sobre dois neologismos: conspiritualidade e conspiracionar.

5. A má qualidade de alguns aspetos da tradução do docudrama Recordo a Piazza Fontana é aqui assinalada por José Mário Costa, cofundador do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, na rubrica Pelourinho

6. A comunidade brasileira em Portugal tem vindo a crescer de forma significativa, devido ao movimento de emigração. Este facto gera proximidade entre variantes linguísticas e levanta a questão relacionada com as possíveis influências de marcas do português brasileiro no português europeu. No artigo, de autoria da jornalista brasileira Julia Braun, aqui transcrito com a devida vénia, vários especialistas abordam a questão.

7. Destaque para as seguintes notícias:

Manuel Alegre, escritor e político português, foi condecorado com a Grã-cruz da Ordem de Camões pelo Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, no dia 15 de abril, após o lançamento e apresentação da obra Memórias minhas, de Manuel Alegre, que decorreu na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

– Exposição A revolução em Marcha — os cartazes do PREC, na Biblioteca Nacional de Portugal, com inauguração a 19 de abril, ficando patente ao público até 21 de setembro de 2024. 

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1. Em Portugal, discute-se o programa do novo governo – XXIV Governo Constitucional – saído das eleições legislativas de 10 de março. Programa é, portanto, palavra recorrente na comunicação social portuguesa, muito presente no contexto político e noutros âmbitos («programa de rádio», «programa de televisão», «programa de computador»), mas cuja história merece um breve comentário. Refira-se, portanto, que o vocábulo programa está atestado, pelo menos, desde 1789, no conhecido dicionário de Morais, com a seguinte definição (mantém-se a ortografia e pontuação originais): «escrito, que se affixa, ou publica para convidar a fazer alguma coisa, v. g. os que publicão as Academias para se dissertar sobre alguma materia, resolver algum problema &c.» Programa não alterou substantivamente a sua significação e, continuando a aludir a uma atuação pública, pode hoje ser sinónimo de projeto e plano. Terá sido introduzido no idioma provavelmente pelo francês programme, forma com registos desde finais do século XVII (cf. Dicionário Houaiss). Este termo é afrancesamento do latim tardio programma, programmătis, que significa «publicação por escrito, edital, cartaz»; e este, por sua vez, é adaptação do grego prógramma, prográmmatos, «ordem do dia, inscrição», um derivado do verbo prográphō, formado por pró- («diante de») e gráphō, «escrever, inscrever»,  e que tem as aceções de «escrever anteriormente, descrever publicamente» (cf. ibidem). Programa faz parte, portanto, do léxico de cunho internacional, visto encontrar formas semelhantes, com a mesma origem e com o mesmo radical (cognatas) em espanhol, francês, italiano, inglês, alemão e muitas outras.

Na imagem, o programa de um recital de poesia que teve lugar em 1963, na Sociedade Nacional de Belas Artes (Lisboa).

2. Revolução e revolta serão sinónimos? Em O Nosso Idioma, num apontamento escrito a pensar nas comemorações dos 50 anos do 25 de Abril de 1974, a consultora Inês Gama analisa as subtis diferenças semânticas entre estas duas palavras. Ainda na mesma rubrica:

–  Sara Mourato explora a origem e o significado do neologismo pele-limpa, surgido em referência a questões de defesa e espionagem;

– e, transcrito com devida vénia do mural Língua e Tradição (Facebook, 29/03/2024), disponibiliza-se um apontamento do linguista Jefferson Evaristo sobre o excesso de que, induzido pela recorrência da locução «é que» entre os falantes do Brasil (e certamente dos outros países de língua portuguesa).

3. A forma «copia-lo» está correta? Não deveria ser «copia-o»? A dúvida faz parte do conjunto de seis questões que constitui a atualização do Consultório. Outros tópicos são abordados: a explicação da próclise na frase «na tua irreverência se vê a tua singularidade»; a expressão «mais e mais»; o nome muçum; o feminino de piloto; e o termo translocação.

4. À volta de fraseologia pitoresca, estrangeirismos, curiosidades linguísticas e neologismos, são de realçar:

– No jornal Público, as crónicas que o escritor Miguel Esteves Cardoso tem dedicado a certas fraseologias do português falado em Portugal, como «e já vai com sorte...» e «não digas que vais daqui...», sendo também de mencionar «Enough said, Mr Mamede», sobre o uso anglicista de quão e suficiente.

– No podcast Pilha de Livros, o professor universitário Marco Neves prossegue no seu trabalho de divulgação linguística, destacando-se os episódios dedicados à origem de OK (episódio 222); à palavra pirilampo, com uma evocação de Bluteau (episódio 223); à diferença entre língua e dialeto, a propósito do quimbundo, uma importante língua nacional de Angola (episódio 224); e ao suaíli, língua possuidora de sistema peculiar de representação das horas (episódio 225).

– No Diário dos Açores, o neologismo trumpinoma é o mote de um artigo do médico, político e empresário António Simas Santos, que o apresenta como «termo que, de uma forma criativa, descreve a malignidade ou impacto negativo que muitos sectores, americanos e internacionais, associam à figura de Donald Trump» (mantém-se a ortografia original).

5. Uma chamada de atenção para uma publicação académica que, embora já conte com dois anos de publicação, mantém toda a atualidade: trata-se de Descrição Linguística , Educação e Cultura em Contextos Pós-Coloniais, um livro em PDF organizado pelos linguistas Ezra Alberto Chambal Nhampoca, David Alberto Seth Langa e Alexandre António Timbane.

6. Iniciativas e eventos com interesse linguístico:

– em 11 de abril, em Miranda do Douro, a realização do 3.º Encontro de Línguas Minoritárias (OWL+), promovido pela União Europeia;

– a intenção do novo governo português de retomar a proposta de a língua portuguesa se tornar língua oficial na ONU;

– a disponibilização em formato digital do arquivo da Academia das Ciências de Lisboa, fundada em 1779.

7. Quanto aos temas de três dos programas que a rádio pública de Portugal dedica à língua portuguesa, salientam-se:

– No programa Língua de Todos, difundido na RDP África, na sexta-feira, 12/04/2024 às 13h20* (repetido no dia seguinte, c. 09h05*), a linguista Sandra Duarte Tavares fala sobre a didática necessária ao desenvolvimento da competência linguística dos alunos.

– O analfabetismo em Portugal é o tema de uma entrevista à professora e investigadora Carmen Cavaco (Instituto de Educação da Universidade de Lisboa), transmitida em Páginas de Português (Antena 2, domingo, 14/04/2024, 12h30*; repetido em 20/04/2024, 15h30*). O programa inclui um apontamento gramatical da professora Carla Marques, acerca da palavra tal.

– Igualmente na Antena 2, refira-se ainda Palavras Cruzadas, programa realizado por Dalila Carvalho, de segunda a sexta, às 09h50* e às 18h50*.

*Hora oficial de Portugal continental.