Carla Marques - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Carla Marques
Carla Marques
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Doutorada em Língua Portuguesa (com uma dissertação na área do  estudo do texto argumentativo oral); investigadora do CELGA-ILTEC (grupo de trabalho "Discurso Académico e Práticas Discursivas"); autora de manuais escolares e de gramáticas escolares; formadora de professores; professora do ensino básico e secundário. Consultora permanente do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacada para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pela autora

As duas propostas de classificação são corretas.

A coesão lexical é um processo de coesão textual que assenta na repetição de uma mesma palavra ao longo do texto ou então na sua substituição por outras palavras que mantenham com ela uma relação semântica. No caso apresentado, existe, de facto, uma relação lexical entre as palavras Orpheu e revista. Trata-se de uma relação semântica de hiperonímia-hiponímia, como a consulente refere, e bem.

Para assegurar a sua coesão, os textos socorrem-se também de mecanismos gramaticais. Entre eles, inclui-se a coesão referencial que assenta em processos que permitem a referência a entidades textuais que surgiram antes na linearidade textual (anáfora) ou que surgirão depois (catáfora). As expressões que constroem este tipo de coesão são referencialmente dependentes, ou seja, o seu sentido depende do dos termos a que se referem (cf. Mira Mateus et al., ...

Não encontrámos registos de usos normativos da expressão «Faz-me sentido», usada como equivalente a «ter significado (para mim)», «ser compreensível (para mim)» ou «ser lógico (para mim)». A expressão a que se recorre comummente para expressar este valor é «Faz sentido» (cf. Dicionário Houaiss). Se o locutor quiser reforçar a ideia de que está a expressar uma avaliação estritamente pessoal, poderá dizer «faz sentido para mim».

Acresce ainda que o verbo fazer pode ter usos pronominais que se associam a diferentes sentidos, como:

(i) “agir livremente, segundo o seu próprio arbítrio”: «na calada da noite, eles fizeram-se e hoje estão ricos»;

(ii) “espalhar-se por completo”: «fez-se silêncio»;

(iii) “ficar reduzido a”: «o copo fez-se em pedaços» (sentidos e exemplos retirados do Dicionário Houaiss).

Os dicionários não apontam, porém, um valor semelhante ao que se pretende transmitir com o uso pronominal em «faz-me sentido».

Assim, pelo que ficou exposto, a opção mais adequada ao que se pretende afirmar será «(não) faz sentido (para mim)».

Relativamente ainda à interpretação que o consulente faz de sentido, usado como adjetivo com o valor de “está magoado com alguém ou alguma coisa” (Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea), diga-se que as expressões mais comuns para exprimir este valor são «ficar sentido» ou «deixar alguém sentido». Logo, a ser usada com este ...

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Palavras-modismo feias

A família de palavras derivadas do verbo engajar é mais um modismo que está um pouco por todo o lado. Palavras feias que facilmente poderiam ser substituídas por outras, como nos mostra Carla Marques numa pequena crónica sobre a memória das palavras e sons. 

Podemos considerar que a expressão em causa, para além de uma apóstrofe, evidencia também uma antonomásia e uma perífrase . 

antonomásia é, de facto, apontada nalguns compêndios como uma variedade de metonímia, sendo descrita como um recurso «que consiste em substituir o nome de um objeto, entidade, pessoa, etc. por outra denominação, que pode ser um nome comum (ou uma perífrase), um gentílico, um adjetivo, etc., que seja sugestivo, explicativo, laudatório, eufémico, irónico ou pejorativo, e que caracterize uma qualidade universal ou conhecida do possuidor» (Dicionário Houaiss). Assim sendo, a expressão «ó gente ousada» pode ser entendida como um constituinte laudatório usado em lugar de portugueses, sendo, portanto, interpretada como uma antonomásia.

Quanto à associação de expressão à perífrase, parece-me também ser possível, uma vez que a perífrase descreve a realidade de forma mais analítica. Neste caso, descreve-se a qualidade dos portugueses. Acresce que, como se observa na definição acima, a perífrase é uma das estratégias de operacionalização da antonom...

Na frase

(1) «Ele veio acompanhado do fidalgo.»

o constituinte «do fidalgo» desempenha a função sintática de complemento do adjetivo.

Na frase

(2) «Ele fez-se acompanhar do fidalgo.»

podemos analisar o constituinte «fazer-se acompanhar» como um núcleo verbal complexo formado por um verbo causativo e por um verbo no infinitivo. Nestes casos, estamos perante uma situação designada união de orações, que corresponde à «amálgama de duas orações numa só» (in Raposo et al., Gramática do Português. Fundação Calouste Gulbenkian, p. 1963). Este fenómeno identifica-se por não permitir a flexão do infinitivo e por o verbo no infinitivo não poder ter sujeito sintático (cf. Id., ibidem)

As frases originais que compõem a frase seriam então:

(2a) «Ele fez-se»

(2b) «O fidalgo acompanhou-o.»

Ora, ao procedermos à junção das duas orações, não é possível manter o sujeito da segunda, «o fidalgo», pelo que este sujeito semântico passa a ter a função de complemento agente da passiva (noutras situações, pode surgir como complemento indireto) (cf. id. Ibidem). Assim, a junção de orações poderia corresponder a uma destas duas possibilidades:

(2c) «Ele fez-se acompanhar pelo fidalgo.»

(2d) «Ele fez-se acompanhar do fidalgo.»

Nestas frases, o constituinte «do/pelo fidalgo» desempenha, como ficou dito, a função de complemento agente da passiva.