Carla Marques - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carla Marques
Carla Marques
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Doutorada em Língua Portuguesa (com uma dissertação na área do  estudo do texto argumentativo oral); investigadora do CELGA-ILTEC (grupo de trabalho "Discurso Académico e Práticas Discursivas"); autora de manuais escolares e de gramáticas escolares; formadora de professores; professora do ensino básico e secundário. Consultora permanente do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacada para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pela autora

Formalmente, não existe um substantivo do qual o adjetivo tácito derive (ou vice-versa).

Nem sempre a língua se organiza segundo processos previsíveis ou regulares. Há com efeito inúmeros casos de adjetivos que correspondem a substantivos até porque se formaram, por derivação, a partir desses mesmos substantivos. É isto que acontece nos casos que apresenta:

(1) vantajoso – de vantagem + sufixo -oso

(2) desleal – prefixo des + leal

(3) prejudicial deriva do latim praejudicialis e prejuízo da forma latina praejudicium, o que mostra que eram palavras da mesma família já no latim.

Por fim, o adjetivo tácito deriva diretamente do latim da forma tacitus, que já era uma forma de particípio do verbo tacěo. Os dicionários não registam nenhum nome derivado deste verbo (ou vice-versa), o que se mantém até aos dias de hoje, embora se registe que o nome taciturno é da mesma família. A relação entre as palavras estabelece-se no âmbito dos significados relacionados com os traços “silencioso”, “calado”, mas, atualmente, tácito e taciturno especializaram os seus sentidos e usam-se em contextos bastante distintos.

Disponha sempre!

A classe dos advérbios é muito heterogénea, o que tem, desde sempre, dificultado a construção de uma proposta de divisão em subclasses coerente e suficientemente abrangente. São conhecidas interpretações que fazem assentar a subdivisão da classe em critérios estritamente sintáticos, outras em critérios semânticos e outras ainda numa mescla dos dois critérios.

Esta breve introdução serve para explicar que a classificação de uma palavra enquanto advérbio de tempo assenta na significação que a palavra introduz na frase, ao passo que a classificação de uma palavra na qualidade de advérbio de ordem (ou advérbio conectivo, segundo a terminologia escolar em Portugal) se centra no seu funcionamento na frase. Devemos acrescentar, ainda, que uma mesma palavra pode integrar diferentes subclasses em função do seu comportamento na frase.

Desta forma, depois poderá ser classificado como advérbio de tempo numa frase em que incida sobre um constituinte (à partida o sintagma verbal) com um valor de tempo:

(1) «Eles só chegaram a Lisboa depois.» (= mais tarde)

Poderá ser classificado como advérbio de ordem / conectivo numa frase em que contribua para o estabelecimento de uma determinada ordenação entre situações:

(2) «Primeiro, li as instruções. Depois, fiz a receita.»

Disponha sempre!

Nas frases apresentadas, se o sujeito for recuperável em contexto ou é subentendido por um processo anafórico.

O sujeito indeterminado refere uma entidade não especificada, não recuperável em contexto, sendo parafraseável por alguém, como acontece em (1) ou (2):

(1) «Diz-se que o João já chegou.»

(2) «Dizem que o João já chegou.»

O sujeito subentendido é recuperável em contexto ou por um processo anafórico, ou seja, é recuperável por ter uma referência presente num momento anterior do texto:

(3) «Os rapazes fizeram a festa. Ontem, comeram o bolo.»

Como se vê, se as frases apresentadas permitirem a recuperação do sujeito, estaremos em presença de um sujeito de tipo subentendido.

Disponha sempre!

A frase apresentada inclui um caso de dativo ético (ou pronome de interesse). Este é um caso em que o pronome pessoal aparece na forma dativa (me, te, lhe…) não constituindo um argumento do verbo, nomeadamente um complemento indireto.

Bechara, na Moderna Gramática Portuguesa, apresenta como exemplo uma frase com dativo ético que inclui um complemento indireto, o que permite concluir que o pronome lhe não desempenha esta função sintática:

(1) «Não me enviem cartões a essas pessoas.»1

O dativo ético é usado sobretudo em contextos informais ou de comunicação oral e, de acordo com Bechara, ainda, é uma estratégia usada pelo locutor para tentar «captar a benevolência do seu interlocutor na execução de um desejo».2

Pelas razões expostas, o pronome lhe, na frase apresentada, não tem qualquer função sintática.

Disponha sempre!

 

1. Bechara, Moderna Gramática Portuguesa. Ed. Lucerna, p. 350.

2. Id., ibid.

Os atos de fala e a modalidade constituem duas perspetivas de análise linguística particulares, que se integram em plano distintos da reflexão gramatical. Assim, a modalidade expressa «por meios linguísticos, atitudes e opiniões dos falantes ou das entidades referidas pelo sujeito sobre o conteúdo proposicional dos enunciados que produzem»1. Por seu turno, os atos de fala constituem ações linguísticas que têm lugar através de um dado enunciado que um locutor dirige a um dado ouvinte num determinado espaço e num determinado tempo. Este enunciado é sempre associado a uma intenção comunicativa com uma determinada força ilocutória (informar, exclamar, pedir…). Deste modo, a análise dos atos de fala situa-se no plano da pragmática enquanto o valor modal se associa a uma análise situada no plano semântico.

Em particular, a modalidade deôntica envolve duas entidades: aquela que dá uma ordem ou uma permissão e aquela sobre a qual recai a obrigação, como se observa em (1) e (2):

(1) «A Rita permitiu ao João que fosse à festa.»

(2) «Vai buscar uma folha.»

Nestas frases, a modalidade expressa-se através da seleção do verbo permitir ou do recurso ao modo imperativo, recursos linguísticos que exprimem a atitude do locutor ou sujeito do enunciado. Esta análise pode dispensar a consideração do contexto em que decorreu a interação linguística.

No plano de análise dos atos de fala, considera-se sempre o contexto comunicativo de uso do enunciado e procura avaliar-se a intenção do locutor, responsável pela produção do enunciado e, logo, pela intenção que a ele se associa. Neste contexto, a frase (1) pode ser produzida pelo locutor com a força ilocutória de informar, pelo que configura um ato ilocutório assertivo. Já a frase (2), poderá ser associada à força ilocutória de uma ordem, pelo que poderá configurar ...