Carla Marques - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carla Marques
Carla Marques
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Doutorada em Língua Portuguesa (com uma dissertação na área do  estudo do texto argumentativo oral); investigadora do CELGA-ILTEC (grupo de trabalho "Discurso Académico e Práticas Discursivas"); autora de manuais escolares e de gramáticas escolares; formadora de professores; professora do ensino básico e secundário. Consultora permanente do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacada para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pela autora

A palavra geodestino não se encontra averbada nos dicionários de língua portuguesa de referência. Não obstante, uma pesquisa na Internet mostra que a palavra é usada com alguma frequência, sobretudo em contextos relacionados com destinos turísticos.

Trata-se de uma palavra bem formada, composta por geo + destino, que inclui o radical geo, elemento que integra inúmeras palavras compostas em língua portuguesa, pelo que poderá ser utilizada com toda a propriedade.

Disponha sempre!

A opção por uma das formas, singular ou plural, traduz sentidos distintos.

De acordo com o Dicionário Houaiss, a palavra conhecimento, na forma singular, pode significar, entre outros sentidos:

(i) «ato ou efeito de apreender intelectualmente, de perceber um facto ou uma verdade, cognição, perceção»: «o conhecimento das causas de um fenómeno»1;

(ii) «coisa que se conhece, de que se sabe, de que se está informado, ciente, consciente»: «o nosso conhecimento sobre o lugar não é muito grande».

Na forma plural, conhecimento poderá significar:

(i) «erudição, sabedoria, cultura, sapiência»: «sem muitos conhecimentos, mas profundamente capaz na sua profissão»;

(ii) «a coisa conhecida; noções, informações, fundamentos, base»: «os conhecimentos geográficos dos antigos».

Assim, a seleção da forma plural ou singular deverá estar de acordo com os sentidos que se pretendem mobilizar em cada contexto específico.

Desta forma, não sendo possível determinar com exatidão qual a intenção do enunciado apresentado, poderemos apenas afirmar que se o significado buscado se relaciona com o ato cognitivo de construção de saber numa determinada área, então será de optar pela forma singular. Se se pretender referir um conjunto de saberes técnicos, de noções numa área, então a forma a adotar será o plural.

 Disponha sempre!

 

1. Os exemplos aqui apresentados são retirados do

No caso particular apresentado pelo consulente, pretende-se determinar se é possível substituir um complemento do nome pela forma dativa do pronome pessoal, como se observa na frase (1a)1:

(1) «Ele faz uso da violência

(1a) «*Ele faz-lhe uso.»

Ora, de acordo com a norma padrão, a substituição do constituinte «da violência» por lhe é incorreta, devendo, antes, usar-se a forma tónica do pronome:

(1b) «Ele faz uso dela

Note-se, porém, que, noutros contextos, é possível assinalar usos do verbo fazer acompanhado do pronome lhe:

(i) quando lhe substitui um complemento indireto: «Ela fez um desenho ao amigo / Ela fez-lhe um desenho»

(ii) em substituição de alguns complementos oblíquos: «Faça uns cortezinhos na carne/nela. / Faça-lhe uns cortezinhos.2»

(iii) em situações de dativo de posse: «O livro é um sucesso. Ele fez-lhe a capa.»

 

Disponha sempre!

* Assinala uma frase agramatical.

 

1. Para facilitar a análise, simplificamos a frase apresentada pelo consulente.

2. Exemplo analisado nesta resposta.

Na frase apresentada pelo consulente estão descritas duas situações que contrastam entre si: o facto de o transporte ser público contrasta com o facto de o corpo da mulher não ser público. Isto significa que o contraste existente na frase não depende da palavra , mas antes do conteúdo semântico da cada uma das orações.

Note-se, ainda, que este contraste poderia ser tornado explícito pela presença da conjunção coordenativa adversativa mas, cuja presença não impede a utilização de .

(1) «O transporte é público, mas já o corpo da mulher não.»1

Este é um uso que é também possível identificar na literatura. Veja-se, a título de exemplo2:

(2) «A irritação ditava-lhe uma violenta resposta, mas já lho não permitia a consciência.» (Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais. 1860)

Ora, uma vez que a coordenação entre dois termos só pode ser assegurada por uma, e apenas uma, conjunção3, esta construção vem mostrar que não é uma conjunção.

Na verdade, neste contexto, é um advérbio que tem como função marcar o contraste entre «uma entidade A com outra entidade B relativamente à maneira como o falante encara a part...

 A substituição de portanto por pois está correta.

No contexto apresentando, portanto e pois funcionam como conectores conclusivos, na medida em que «explicitam uma relação causa-efeito entre dois termos, sendo atribuído ao constituinte afectado pelo conector, o valor de efeito ou consequência da situação reportada pelo outro termo» (Gabriela Matos in Mira Mateus, Gramática da Língua Portuguesa. Caminho, p. 569).

Estas palavras são consideradas conectores e não conjunções por diversos autores (cf. ibidem, p. 565) porque estas apresentam propriedades que as distinguem das conjunções. Entre elas está a possibilidade de não ocuparem a posição inicial de oração, como acontece na frase apresentada pelo consulente.

Refira-se, ainda, que pois só será conector conclusivo em situações em que se encontra posposto (cf. ibidem, p. 573), ou seja, em contextos em que não surge em início de oração (ou frase).

A pontuação é também um fator importante para o uso correto destes conectores. Assim:

(i) quando colocados no início da oração (à exceção de pois), devem levar uma virgula antes: «O Manuel telefonou, logo deve querer ir passear.»

(ii) se forem colocados no interior da oração, devem levar vírgula antes e depois: «O Manuel telefonou, deve, pois, querer ir passear.»

(iii) se colocados no final da frase, devem levar vír...