Carla Marques - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carla Marques
Carla Marques
19K

Doutorada em Língua Portuguesa (com uma dissertação na área do  estudo do texto argumentativo oral); investigadora do CELGA-ILTEC (grupo de trabalho "Discurso Académico e Práticas Discursivas"); autora de manuais escolares e de gramáticas escolares; formadora de professores; professora do ensino básico e secundário. Consultora permanente do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacada para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pela autora

Com efeito, nas construção em apreço, o determinante possessivo desempenha a função de modificador do nome restritivo.

Em certos casos, o modificador de nome introduzido pela preposição de é equivalente a um determinante possessivo:

(1) «o livro do João» = «o seu livro»

Mas nem sempre esta equivalência é possível, como se observa em (2):

(2) «os sapatos de Itália» ≠ «os seus sapatos»

Não obstante, quando o determinante possessivo incide sobre um nome com um valor semântico de posse, este tem a função sintática de modificador do nome1.

Esta é a situação que tem lugar na construções apresentadas pelo consulente, nas quais os constituintes «do João» e «suas» desempenham ambos a função de modificador do nome:

(3) «Eu tenho as chaves do João.» = «Eu tenho as suas chaves.»

Disponha sempre!

 

1. Para mais informações, cf. Raposo et al. Gramática do Português. Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 729-730.

A questão que o consulente apresenta envolve diferentes planos de análise. Antes de mais, é importante esclarecer que a estrutura «a gota de água», que significa «aquilo que ultrapassa os limites de alguém» (Infopédia), é dotada de algum grau de cristalização, na medida em que não é possível substituir água por vinho ou o artigo definido por um artigo indefinido, por exemplo.

Quando integra uma construção copulativa, o constituinte «a gota de água» pode veicular uma avaliação sobre o sujeito da frase. Em (1)

(1) «A queda do João foi a gota de água.»

o locutor avalia a situação descrita como «queda do João» como algo que constituiu o fator que ultrapassou determinados limites estabelecidos. Deste modo se conclui que a expressão «a gota de água» é usada como estrutura avaliativa da entidade apresentada como sujeito.

Assim, a mesma situação parece ter lugar na frase apresentada pelo consulente

(2) «Depois de todo o terror, assistir àquilo foi a gota d´agua.»

«ser a gota de água» constitui a avaliação sobre a situação descrita como «assistir àquilo», pelo que este último constituinte desempenha a função sintática de sujeito e «gota d’água» a de predicativo do sujeito.

Refira-se, ainda, que algumas construções copulativas permitem a inversão dos seus termos,  adotando ora a estrutura SUJ+VERBO+PREDSUJ ora PREDSUJ+VERBO+SUJ, pelo que se designam construções equativas. Esta possibilidade de inversão dos termos não altera, todavia, as funções sint...

O ponto de referência é a oração subordinada adverbial temporal.

Os enunciados estabelecem a sua localização temporal em relação a um tempo de referência. Esta referência pode ser constituída pelo momento da enunciação. Assim, o enunciado (1)

(1) «O Luís visitou Lisboa.»

tem uma leitura temporal de anterioridade relativamente ao momento de enunciação, ou seja, a ação de visitar Lisboa teve lugar num intervalo de tempo anterior ao momento em que o enunciado foi produzido.

Em frases complexas, constituídas por duas ou mais orações, as situações descritas pelos verbos articulam-se temporalmente entre si, isto é, organizam-se no eixo temporal em intervalos de tempo que poderão coincidir, ser anteriores ou posteriores. Neste caso, será a oração adverbial que expressa o valor temporal que funcionará como ponto de referência, relativamente ao qual se localiza a situação expressa na oração subordinante. Desta forma, em (2), (3) e (4)

(2) «O Luís almoçou quando a Rita chegou.»

(3) «O Luís almoçou antes de a Rita chegar.»

(4) «O Luís almoçou depois de a Rita chegar.»

A ação de «o Luís almoçar» é localizada no eixo temporal como coincidente com a chegada da Rita (2), como anterior à chegada da Rita (3) ou como posterior à chegada da Rita (4). Note-se ainda que todas as frases são apresentadas como anteriores ao momento da enunciação, se tomarmos como referência o tempo da enunciação.

Na frase apresentada pela consulente, a situação «o escritor sentir-se ansioso» é apresentada como tendo lugar num momento anterior à situação descrita como «o escritor escrever». Deste modo se conclui que a

Conta-me uma «narrativa»
Um modismo que ganhou asas

A conversão da palavra narrativa em modismo, num alargamento quase impensável da significação original da palavra, motiva este apontamento da professora Carla Marques

A frase, extraída do conto “Sempre é uma companhia”, de Manuel da Fonseca, configura a modalidade deôntica.

Na frase não está presente a modalidade apreciativa, porque esta ocorre quando o locutor expressa uma apreciação sobre o conteúdo da sua frase, como em (1):

(1) «Felizmente, o João acabou o trabalho.»

Também não estamos perante um caso de modalidade epistémica, pois esta está relacionada com o grau de certeza que o locutor associa ao conteúdo da sua frase. Assim, poderá usar o valor de certeza quando afirma o conteúdo da frase como certo, como em (2), ou o valor de probabilidade, quando o locutor não se compromete com a certeza do que afirma, como em (3):

(2) «É certo que o João terminou o trabalho.»

(3) «Talvez o João tenha terminado o trabalho.»

Como se pode concluir do que ficou dito atrás, a frase apresentada não configura nenhuma das modalidades referidas. É, antes, um caso de modalidade deôntica, na medida em que o locutor expressa, através do seu enunciado, um valor de obrigação, procurando agir sobre o seu interlocutor.

Disponha sempre!