Carla Marques - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Carla Marques
Carla Marques
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Doutorada em Língua Portuguesa (com uma dissertação na área do  estudo do texto argumentativo oral); investigadora do CELGA-ILTEC (grupo de trabalho "Discurso Académico e Práticas Discursivas"); autora de manuais escolares e de gramáticas escolares; formadora de professores; professora do ensino básico e secundário. Consultora permanente do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacada para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pela autora

O adjetivo social desempenha, na expressão em apreço, a função sintática de complemento do nome.

O nome classe é um coletivo, na medida em que significa «conjunto de indivíduos, animais ou objetos com características comuns» (Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea). Os nomes coletivos são geralmente nomes dependentes1, ou seja, necessitam de um complemento para denotar um conjunto concreto. No caso do constituinte «classe social», o adjetivo social vem permitir ao nome que designe «um conjunto de indivíduos que partilham interesses ou afinidades culturais, económicas…» (Idem).

Refira-se, ainda, que normalmente, o complemento do nome tem a forma de um grupo preposicional introduzido pela preposição de, no entanto, este pode também ter uma natureza adjetival, como acontece, por exemplo, em «agrupamento escolar», «assembleia estudantil» ou «equipa médica» (exemplos retirados de Raposo et al., Gramática do português. Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 746). É este o caso do adjetivo social ao associar-se ao nome classe.

 

1.

O constituinte «pelas ruas» desempenha a função sintática de complemento oblíquo.

O verbo pronominal com o sentido de «lançar-se em todas as direções» (cf. Dicionário Houaiss) pede um complemento com informações de lugar introduzido pela preposição por (cf. Busse, Dicionário sintáctico dos verbos portugueses. Almedina, pp. 215-216), papel que, na frase em análise, é cumprido pelo constituinte «pelas ruas» com a função de complemento oblíquo, como se disse.

Note-se ainda que num uso familiar com o sentido de «cair», o verbo já não pede este complemento:

(1) «Ia a andar de bicicleta e espalhou-se.»

Sem pronome, o verbo usa-se sobretudo como transitivo direto, pedindo, portanto, um complemento direto:

(2) «Ele espalhou a notícia.»

Em nome do Ciberdúvidas, agradeço as suas palavras finais que muito nos estimulam.

Prestar é um verbo transitivo direto e indireto, ou seja, pede como argumentos um complemento direto e um complemento indireto, como fica claro nas construções seguintes:

(1) «Ele presta ajuda a alguém»

(2) «Ele presta homenagem a alguém»

(3) «Ele presta culto aos deuses» (exemplos adaptados de Dicionário Houaiss)

Nestas construções, é possível substituir o complemento indireto pelo pronome clítico lhe, como se observa nas frases:

(1a) «Ele presta-lhe ajuda.»

(2a) «Ele presta-lhe homenagem.»

(3a) «Ele presta-lhes culto.»

Estes casos são semelhantes ao que é apresentado, no qual o constituinte «à leitura» também é substituível por lhe, o que indica tratar-se de um complemento indireto:

(4) «Prestei atenção à leitura. / Prestei-lhe atenção»

Já no caso do verbo ceder, em construções como «ceder ao sentimento» (significando “dar-se por vencido; não resistir” (Dicionário Houaiss)), a substituição do argumento do verbo 

Todos os constituintes podem ser considerados complementos do nome.

Nos três casos apresentados, os nomes nucleares do grupo nominal, fala, voz e rumor, assumem-se como nomes dependentes, ou seja, que «denotam tipicamente entidades do mundo que só podem ser apreendidas quando postas em relação com outras entidades» (cf. Raposo et al., Gramática do Português. Fundação Calouste Gulbenkian, p. 715). Assim, a fala é de algo ou de alguém e o mesmo se aplica a voz  e a rumor.

A expressão «a fala dos pinhais» corresponde à construção «os pinhais falam», o que nos permite concluir que fala, ao converter-se em nome, levou a que o sujeito do verbo falar («os pinhais») assumisse a forma de complemento do nome.  

As expressões «rumor dos pinhais» e «voz da terra» podem ser interpretadas como construções possessivas equivalentes a «os pinhais têm (produzem) um rumor» ou «a terra tem uma voz», pelo que o grupo preposicional introduzido por de desempenha a função de complemento do nome.

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