Carla Marques - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Carla Marques
Carla Marques
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Doutorada em Língua Portuguesa (com uma dissertação na área do  estudo do texto argumentativo oral); investigadora do CELGA-ILTEC (grupo de trabalho "Discurso Académico e Práticas Discursivas"); autora de manuais escolares e de gramáticas escolares; formadora de professores; professora do ensino básico e secundário. Consultora permanente do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacada para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pela autora

A integração de quanto entre as palavras relativas nem sempre foi consensual entre os gramáticos, não obstante, as modernas gramáticas de língua portuguesa consideram a palavra como pertencente às relativas (cf. Bechara, Moderna gramática portuguesa. Nova Fronteira, p. 144; Mira Mateus et al., Gramática da Língua Portuguesa. Caminho, p. 664; Raposo et. al., Gramática do Português, p. 2099). Também Cunha e Cintra a incluem entre as palavras relativas (cf. Nova Gramática do Português Contemporâneo. Ed. João Sá da Costa, p. 342). Estranhamos, todavia, a não inclusão nesta última gramática da forma do relativo no feminino singular, quanta, sem qualquer justificação que permita compreender a opção dos autores.

Quanto, ao integrar uma oração relativa, pode funcionar como pronome relativo ou como especificador relativo1. Nas situações em que funciona como um pronome relati...

 O adjetivo único não é graduável. Por essa razão, não integra estruturas comparativas e não é compatível com advérbios de quantidade e grau:

(1) «*Ele é mais único do que tu.»

(2) «*Ele é tão único quanto tu.»

(3) «*Ele é menos único do que tu.»

Para além disso, este adjetivo também não é normalmente compatível com expressões de intensidade ou de valor quantitativo:

(4) «*Ele é muito único.»

Esta incompatibilidade tem lugar com adjetivos que, semanticamente, representam extremos, como único ou, por exemplo, fechado ou último:

(5) «*A porta está tão fechada.»

(6) «*Ele é tão último.»

Apenas em situações extremas em que único significa «excecional, singular» poderá surgir, ocasionalmente, associado ao advérbio tão. Estamos perante usos que visam realçar o valor extremo da propriedade denotada (neste caso a qualidade de «ser único, ímpar») que serão semelhantes aos verificados em:

(7) «Ela está tão grávida.»

(8) «Ele é tão inglês.»

Estas frases evidenciam casos em que adjetivos não graduáveis são forçados a uma interpretação graduável que ganha um sentido específico num determinado contexto e que não deixam de ter algo de pleonástico no seu sentido. Por essa razão, numa construção mais cuidada, será aconselhável o uso de expressões como «tão raro», «tão singular», «tão excecional», que seguem de perto a norma.

O antecedente de cuja, na frase apresentada, é «um poeta».

Cujo é um determinante relativo que aponta para uma interpretação possessiva, estabelecendo uma relação entre uma entidade possuidora, que ele retoma no interior da oração subordinada, e uma entidade possuída, que ele determina, colocando-se à sua esquerda. Cujo necessita de um antecedente nominal que corresponde à referida entidade possuidora e é equivalente a um complemento preposicional introduzido pela preposição de.

Como é sabido, as orações adjetivas relativas admitem uma paráfrase que corresponde à substituição da palavra relativa pelo seu antecedente, o mesmo acontece com a frase em apreço:

(1) «D. Dinis foi um poeta cuja atividade decorreu nos séculos XIII-XIV.»

(2) «D. Dinis foi um poeta. A atividade do poeta decorreu nos séculos XIII-XIV.»

Disponha sempre!

A deixis pessoal assinala o estatuto do participante numa interação verbal. Na comunicação apenas participam um eu, que corresponde ao emissor, e um tu, que corresponde ao destinatário. Por esta razão, consideram-se deíticos os pronomes pessoais de 1.ª e 2.ª pessoa. A 3.ª pessoa, ele/eles, refere alguém que não participa na interação, pois não corresponde nem «àquele que fala» nem «àquele com quem se fala».

Se nos centrarmos na atual organização do sistema pronominal português, percebemos que os pronomes você e vocês assinalam, inequivocamente, «aquele a quem se fala», ou seja, correspondem à 2.ª pessoa do singular e do plural, pelo que são deíticos:

(1) «Você quer vir comigo?» (o pronome você assinala o interlocutor da comunicação)

(2) «Vocês querem vir comigo?» (o pronome vocês assinala os interlocutores)

Assim, do ponto de vista dos usos linguísticos, embora o par você/vocês determine a flexão gramatical do verbo na 3.ª pessoa, do ponto de vista pragmático, corresponde a uma 2.ª pessoa. Esta mesma ideia defende

A questão colocada ilustra um caso de coesão referencial atípico.

A coesão referencial estabelece-se entre entidades que se se referem a outras no discurso. Estas entidades, designadas expressões referenciais, incluem pronomes pessoais e demonstrativos, entre outros. No texto, estas palavras funcionam de forma anafórica, ou seja, a sua significação depende de outras palavras, os seus antecedentes, como se observa em (1), onde se sublinha o antecedente e se coloca em itálico a expressão referencial:

(1) «O João é meu primo. Ele trabalha comigo.»

Quando se estabelece este tipo de relação, diz-se que as expressões destacadas são correferentes, isto é, designam a mesma entidade, pelo que formam uma cadeia referencial.

Todavia, no processo de coesão referencial, é possível assinalar situações peculiares, como a presente em (2):