Carla Marques - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carla Marques
Carla Marques
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Doutorada em Língua Portuguesa (com uma dissertação na área do  estudo do texto argumentativo oral); investigadora do CELGA-ILTEC (grupo de trabalho "Discurso Académico e Práticas Discursivas"); autora de manuais escolares e de gramáticas escolares; formadora de professores; professora do ensino básico e secundário. Consultora permanente do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacada para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pela autora

Pergunta:

Nesta frase, excerto de um texto de Saramago, «Naturalmente, a sua vida era feita de dias, e dos dias sabemos nós que são iguais», a oração «que são iguais» é substantiva completiva, mas, tratando-se de Saramago, eu dei voltas à oração e parece-me que poderia ser adjetiva relativa restritiva, sendo «que» um pronome relativo cujo antecedente é «dias»: «Nós sabemos dos dias que são iguais.» («que são iguais» pode ser substituído pelo adjetivo iguais – «Nós sabemos dos dias iguais»).

Não sei se faz sentido a minha dúvida. Isto deixou-me baralhada porque eu vejo «dias» como o antecedente.

Obrigada.

Resposta:

No caso em apreço, a oração «que são iguais» é uma subordinada substantiva completiva.

O verbo saber pode ser usado como transitivo direto1:

(1) «Ela sabe duas línguas.»

Também pode funcionar como transitivo indireto1:

(2) «Ele sabe dos resultados do exame.»

No caso da frase de José Saramago2, o autor usa o verbo saber como transitivo direto e indireto, como se pode observar pela reorganização dos elementos da oração em questão:

(3) «Nós sabemos dos dias que são iguais.»

Trata-se de um uso não habitual do verbo saber. Não obstante, é possível verificar que em (3), a oração «que são iguais» desempenha a função de complemento direto, como se comprova pela possibilidade de pronominalização:

(4) «Nós sabemos isso dos dias.»

A oração «que são iguais» não é, por esta razão, uma subordinada adjetiva relativa que assume como antecedente o grupo nominal «os dias».

Disponha sempre!

Pergunta:

Na frase «Os Judeus eram perseguidos por professarem uma religião diferente», «por professarem uma religião diferente» desempenha a função sintática de complemento agente da passiva ou modificador do grupo verbal?

Resposta:

O constituinte «por professarem uma religião diferente» desempenha, na frase em apreço, a função sintática de modificador do grupo verbal.

Se a frase (1) correspondesse a uma frase passiva, poderíamos colocá-la na forma ativa, o que a frase (2) demonstra não ser possível:

(1) «Os Judeus eram perseguidos por professaram uma religião diferente.»

(2) «*O professaram uma religião diferente perseguia os Judeus.»

Assim concluímos que o constituinte «por professaram uma religião diferente» não desempenha a função de complemento agente da passiva.

A preposição por pode introduzir constituintes com a função de complemento agente da passiva, mas também pode introduzir constituintes com valor de causa em orações que não são passivas:

(3) «Falei com ele por saber que ele estava triste.»

É esta a situação presente na frase em análise. Por esta razão, o constituinte «por professaram uma religião diferente» desempenha a função sintática de modificador do grupo verbal.

Disponha sempre!

 

*assinala a construção agramatical.

Pergunta:

«João, apresento-te a Maria. Acho que vão gostar muito de se conhecer(em).»

O que está entre parêntesis é necessário, opcional ou um erro?

Resposta:

Ambas as frases são possíveis. No entanto, a frase com infinitivo flexionado será menos aceitável para alguns falantes.

A frase transcrita em (1) inclui um verbo que seleciona uma oração completiva ou um constituinte:

(1) «Acho que vão gostar muito de se conhecer.».

A oração subordinante («acho que») constrói-se com uma oração completiva («vão gostar muito de se conhecer») que é introduzida por um complexo verbal, formado pelo auxiliar ir e pelo verbo nuclear gostar, que por seu turno seleciona a completiva «se conhecer». O verbo gostar rege a preposição de, pelo que os seus argumentos serão sempre sintagmas preposicionados:

(2) «Ele gosta de música.»

(3) «Ele gosta de ir a concertos.»

Quando o verbo gostar (e outros verbos que selecionam oração completiva introduzida por preposição) se constrói com uma oração infinitiva, prefere-se normalmente o infinitivo simples, como acontece em (1) e (3). Neste caso, o verbo que se encontra no infinitivo assume como sujeito o da oração a que se subordina: no caso da frase (1) trata-se de um sujeito de 2.ª pessoa do plural, realizado como «vocês», que se constrói com 3.ª pessoa do plural.

Tal como explicam Barbosa e Raposo, «com a grande maioria destes verbos [construídos com preposição e com oração infinitiva], e mantendo a leitura de correferencialidade entre os dois sujeitos, o infinitivo flexionado também é possível, embora seja sentido como menos natural por alguns falantes»1.

Disponha sempre!

 

1. Barbosa e Raposo in Raposo et al., Gramática do Português. Fundação Calouste Gulbenkian, p. 1936.

Pergunta:

No seguinte parágrafo:

«No início, alguns professores apresentaram um pouco de resistência com o recurso digital, por ser algo novo, tiveram receio de que pudesse dificultar o trabalho, entretanto, em pouco tempo os benefícios promovidos pelo recurso se sobressaíram, o que levou os professores a abraçar o projeto.»

O verbo abraçar está corretamente conjugado? Não deveria ser abraçarem?

Gostaria de entender a regra gramatical nesse caso, pois é algo que sempre me deixa em dúvida!

Obrigado!

Resposta:

As duas opções são aceitáveis: abraçar e abraçarem.

A regra geral para o uso do infinitivo pessoal (ou seja, infinitivo flexionado) é a seguinte:

emprega-se o infinitivo pessoal ou flexionado quando este tem um sujeito próprio, diferente do verbo da oração da qual depende ou na qual se integra, como acontece em (1), onde se destacam os sujeitos de cada verbo (no caso da subordinada, «os alunos» funciona como sujeito semântico):

(1) «Eu convidei os alunos a concluírem o exercício.»

Não obstante, no caso das orações infinitivas, há casos particulares a ter em consideração. Um deles é o caso de verbos que selecionam um sujeito, uma oração infinitiva completiva regido pela preposição a e um complemento direto, como acontece com o verbo convidar em (2):

(2) «Ele convidou os amigos a vir a sua casa.»

Ora, no caso destes verbos, é aceitável tanto não flexionar o verbo no infinitivo, como em (2), como optar pela sua flexão, como em (3):

(3) «Ele convidou os amigos a virem a sua casa.»

Neste caso, o verbo vir tem um sujeito nulo (não expresso), mas este assume como referente o sintagma «os amigos», que é complemento direto de convidar1.

O mesmo sucede no segmento «o que levou os professores a abraçar(em) o projeto», no qual é possível optar por uma oração completiva infinitiva não finita (que não flexiona) ou infinitiva finita (que flexiona, concordando esta última com o sintagma «os professores»).

Disponha sempre!

 

Pergunta:

A oração subordinada presente na frase «O poema desenvolve a ideia de que o mito pode explicar a realidade» é uma oração subordinada substantiva completiva ou adjetiva relativa restritiva?

Grata pela colaboração.

Resposta:

A oração «de que o mito pode explicar a realidade» é uma oração subordinada substantiva completiva de nome. Esta desempenha a função sintática de complemento do nome ideia.

As orações subordinadas completivas podem ser argumentos de várias classes de palavras (sublinha-se a palavra que pede a completiva e destaca-se a negrito a oração subordinada completiva):

(i) de um verbo:

    (1) «Ele referiu que o mito explica a realidade

(ii) de um nome/substantivo:

    (2) «Encontro a prova de que o mito explica a realidade

(iii) de um adjetivo:

     (3) «É muito possível que o mito explique a realidade

O caso apresentado pela consulente corresponde ao caso (ii), sendo a subordinada completiva uma oração finita. Nalguns casos é possível realizar estas orações como subordinada completiva não finitas, como em (4):

(4) «É importante a ideia de o mito explicar a realidade

Refira-se ainda que a oração apresentada pela consulente não é uma relativa porque a palavra que não substitui o nome ideia na oração que introduz, o que indica que não se trata de um pronome relativo, mas de uma conjunção. Veja-se a agramaticalidade que resulta da tentativa de inserir o nome ideia na oração subordinada: