Carla Marques - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carla Marques
Carla Marques
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Doutorada em Língua Portuguesa (com uma dissertação na área do  estudo do texto argumentativo oral); investigadora do CELGA-ILTEC (grupo de trabalho "Discurso Académico e Práticas Discursivas"); autora de manuais escolares e de gramáticas escolares; formadora de professores; professora do ensino básico e secundário. Consultora permanente do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacada para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pela autora

A forma nominativa do pronome pessoal está correta.

Na frase apresentada, a palavra menos é considerada uma preposição “atípica”, a par de senão, salvo, exceto e fora1. Estas preposições, em termos semânticos, «servem para excluir uma entidade ou um grupo de um conjunto universal ao qual se aplica a predicação; por outras palavras, servem para apresentar essa entidade (ou grupo) como exceção à predicação veiculada pela frase»2. Assim, na frase apresentada pelo consulente, a preposição menos exclui a entidade referida como eu do conjunto designado como «todo o mundo» e sobre o qual se predica que «está aparecendo», o que não se verifica, portanto, com eu.

Em termos sintáticos, estas preposições têm uma particularidade que as distingue das preposições canónicas: quando se combinam com um pronome pessoal, este não assume a forma oblíqua (mim, ti), antes mantém a forma nominativa (eu, tu), como se observa nos seguintes exemplos:

(1) «Ninguém fala, senão tu.»

(2) «Todos foram, exceto eu.»

(3) «Todos escrevem, salvo tu.»

(4) «Ninguém quer ir, fora eu.»

(5) «Todos ficaram contentes, menos eu.»

Disponha sempre!

 

O caso em apreço é uma frase copulativa na qual o predicador é o sintagma adverbial «mal/bem da cabeça».

Neste caso, o grupo preposicional «da cabeça» estabelece com o advérbio mal/bem uma função de complemento do advérbio, na linha do que está previsto no ensino da gramática em Portugal, em contexto escolar não superior (Cf. Dicionário Terminológico) ou em gramáticas como a Gramática do Português, coordenada por Raposo et al. Como aí se explica, ««Tal como os complementos do nome, do verbo ou do adjetivo, os complementos do advérbio ocorrem à sua direita e completam-lhe o sentido» (Gramática do Português. Fundação Calouste Gulbenkian, p. 1583).

Refira-se, porém, que na linha gramatical tradicional brasileira considera-se, de forma indistinta, complemento nominal aquele que é argumento de nome, adjetivo ou advérbio.  Pelo que, neste quadro, justifica-se a classificação de complemento nominal para a função desempenhada por «da cabeça».

Disponha sempre!

 

N.E. Alterou-se a resposta em 27/05 na sequência de uma observação do consulente Fernando Bueno (Belo Horizonte), a quem se agradece a atenção.

O nome comum infodemia tem como significado «excesso de informação sobre determinado tema, por vezes incorreta e produzida por fontes não verificadas ou pouco fiáveis, que se propaga velozmente» (Dicionário Priberam). No dicionário enciclopédico Infopédia, define-se o termo como «fluxo excessivo de informações sobre determinado assunto (sobretudo se veiculada por fontes não fidedignas, tornando o esclarecimento mais difícil)». No Dicionário inFormal, é definido como «universo de informação falsas, muitas fake news». E, a Real Academia Galega define-o como «propagación rápida e abundante de información falsa entre as persoas e os medios informativos». No wiktionary, encontramos a seguinte definição «an excessive amount of information concerning a problem such that the solution is made more difficult».

A todas estas definições, oriundas de dicionários diferentes e de diferentes países é comum o traço semântico de «excesso de informação». Alguns associam à palavra também o traço «informações falsas». Ora, se adotarmos esta perspetiva que relaciona os dois traços semânticos à palavra infodemia, a sua combinação com desinformação estabelece uma relação de certa redundância que permite conceber a expressão «infodemia de desinformação» como pleonástica, pois  o significado de desinformação,  «ato ou efeito de desinformar, de suprimir uma informação, de minimizar a sua importância ou de modificar o seu sentido” ou «informação c...

No caso apresentado, deve optar-se pela locução «como que». 

De acordo com o Dicionário Houaiss, a locução «como que» indica «uma certa semelhança ou proximidade». Já a locução «como se» pode referir modo (equivalente a «da mesma maneira que») ou condição hipotética (equivalente a «contanto que», «desde que»).

Assim sendo, partindo do princípio que, na frase apresentada pelo consulente, se pretende estabelecer uma semelhança entre a forma como a linha azul apareceu e um fenómeno de magia, deve usar-se a locução «como que».

Se, por outro lado, se se pretendesse destacar que a «linha azul» apareceu do mesmo modo que, por exemplo, uma estrela no céu, já se usaria «como se»:

(1) «A pequena linha azul apareceu devagar como se fosse uma estrela. (=da mesma maneira que apareceria uma estrela).»

Para equacionar outros aspetos relacionados com esta questão, leia-se esta resposta.

Disponha sempre!

Os enunciados C) e D) configuram atos ilocutórios assertivos, enquanto o enunciado A) apresenta um ato ilocutório compromissivo e B) um ato ilocutório expressivo.

O ato ilocutório assertivo expressa a crença do locutor na verdade do conteúdo proposicional do enunciado produzido. É o que acontece nos enunciados C) e D), nos quais o locutor se compromete com a realidade de um estado de coisas (enunciado D)) ou a apresenta como provável (enunciado C).

O ato ilocutório compromissivo tem como objetivo comprometer o locutor a realizar a proposição expressa no enunciado. Assim, o locutor manifesta, por meio do seu enunciado, a intenção de praticar uma determinada ação. É o que acontece no enunciado A), no qual o locutor se compromete a não escolher a opção de processar alguém. Sem outro contexto que possa induzir outra interpretação, o enunciado A) é semelhante a (1):

(1) «Comprometo-me a não optar por processá-los.»

O ato ilocutório expressivo expressa o estado de espírito do locutor relativamente à situação descrita no enunciado. Entre as várias emoções possíveis, o locutor pode exprimir emoção, aprovação, desejo, arrependimento. Na frase C), o locutor faz um juízo de valor sobre uma situação apresentada como factual («as coisas funcionam assim»). É o advérbio de modo mal que expressa a avaliação apreciativa do falante (neste caso, uma depreciação).

Para terminar, fica uma precisão: o que se pretende saber não é a tipologia do atos de fala (esta expressão aplica-se para designar os cinco tipo estudados), mas o tipo de ato de fala presente no enunciado. 

Disponha sempre!