Carla Marques - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Carla Marques
Carla Marques
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Doutorada em Língua Portuguesa (com uma dissertação na área do  estudo do texto argumentativo oral); investigadora do CELGA-ILTEC (grupo de trabalho "Discurso Académico e Práticas Discursivas"); autora de manuais escolares e de gramáticas escolares; formadora de professores; professora do ensino básico e secundário. Consultora permanente do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacada para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pela autora

As frases apresentadas estão ambas corretas, embora constituam realidades distintas, que passamos a analisar.

O caso colocado envolve uma questão de coesão referencial, na qual um pronome depende de uma expressão referencial colocada antes na frase (o seu antecedente). Nos casos em apreço, encontramos duas relações referenciais distintas.

Na frase

(1) «Eu sou a Camila do conto. Mas não a sou agora.»

o pronome a tem como referência o nome próprio Camila, que retoma na segunda frase. Este uso será sinónimo de (2)

(2) «Eu sou a Camila do Conto. Mas não sou ela agora.»

Na frase

(3) «Eu sou a Camila do conto. Mas não o sou agora.»

o pronome o é um clítico invariável, considerado em algumas gramáticas como um pronome demonstrativo invariável, que tem como referência a parte predicativa da frase anterior, ou seja, «ser a Camila do conto».

 

Em nome do Ciberdúvidas, agradeço e retribuo os simpáticos votos que nos endereça.

 

1 Obs. [atualização em 15/12/2018]: Considera-se a existência de dois tipos de frase copulativa (entre outras menos expressivas): a identificacional e a predicativa. Quando o predicativo do sujeito funciona com o verbo ser identificacional pode ser substituído por um pronome nominativo:

(1) «O médico é o João.  = O médico é ele»

Note-se que a interpretação destes casos de estrutura dita equativa não é consensual, havendo quem defenda tratar-se de um sujeito invertido. Aliás no caso de<...

Ambas as opções estão corretas.

Na variedade europeia do português, a posição habitual dos pronomes clíticos é a enclítica, ou seja, o pronome é colocado depois da forma verbal:

(1) «Eu ofereço-te o livro.»

Esta é considerada a posição não marcada, ao contrário da próclise (colocação do pronome antes do verbo), uma posição marcada que é determinada por certos contextos sintáticos. Assim, a colocação do pronome em posição proclítica pode ser induzida pelo aparecimento de determinadas palavras, designadas atratores de próclise1. Entre elas, destacamos, a título de exemplo, o advérbio não (2), as palavras-Q2 (3), as conjunções / locuções conjuncionais subordinativas, quando colocadas antes do pronome (4), alguns advérbios (5), e algumas palavras que exprimem quantificação(6):

(2) «Eu não te ofereço o livro.»

As duas frases estão, de facto, corretas pelas razões que se apresentam de seguida.

Os enunciados em apreço resultam da junção de duas frases simples, que passamos a apresentar, para facilitar a análise:

(1) «A seguradora faliu.»

(2) «Pagamos o seguro do carro à seguradora.»

Quando as duas frases se unem formando uma frase complexa, o pronome relativo selecionado vai substituir a palavra que se repete nas duas frases (neste caso, seguradora), passando a desempenhar a função que esta palavra desempenhava na sua frase de origem. No caso em apreço, na segunda frase, «à seguradora» desempenha a função de complemento indireto, sendo introduzida pela preposição a. Esta preposição acompanhará o pronome relativo que vier a substituir a palavra repetida. Por essa razão, no caso de se selecionar o pronome relativo que, a frase resultante da junção das frases (1) e (2) será a apresentada em (3):

A questão colocada não se enquadra no plano da correção gramatical. Evoca antes o fenómeno que tem vindo a ser designado por linguagem inclusiva, que pugna por uma igualdade de género na língua, tal como acontece no plano social. Este fenómeno tem desencadeado inúmeras reações que têm alimentado uma controvérsia que está bem viva no panorama nacional1.

No plano estritamente gramatical, poderemos dizer que, de facto, em português, o género masculino é o género selecionado para designar entidades do mundo extralinguístico pertencentes tanto ao género feminino como ao masculino. Por esta razão, na ótica gramatical, o quantificador todos tem a capacidade de se referir simultaneamente a pessoas do género masculino e feminino. A expressão «todos e todas» é, assim, do ponto de vista estritamente gramatical, redundante.

Numa perspetiva social, a opção por verbalizar as palavras no género masculino e feminino é um ato de intervenção e de manifestação de uma posição que vai muito além da linguística e das suas convenções, ou seja, neste plano, a língua é um instrumento ao serviço não só da comunicação mas também da assunção de posições. 

1. Poderá consultar algumas dessas posições na rubrica

As frases apresentadas estão ambas corretas, embora denotem diferenças em termos de sentido.

Assim, a seleção do modo indicativo na subordinada causal indica que se está a negar um facto verdadeiro:

(1) «Vou à praia, não porque me apetece, mas porque me faz bem.» (a primeira oração causal expressa uma causa que embora seja real, neste caso, não é a causa real que justifica a ação de «ir à praia»; a causa encontra-se expressa pela segunda oração causal)

Note-se que, nesta frase, pode não ser negado o facto de «apetecer ir à praia», o que se nega é a relação de causalidade entre «apetecer» e «ir à praia». Por essa razão, a frase permite a introdução da oração contrária, em comentário parentético, como se observa em (2):

(2) «Vou à praia, não porque me apetece – que apetece –, mas porque me faz bem.»

A seleção do modo conjuntivo aponta para ...