Carla Marques - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carla Marques
Carla Marques
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Doutorada em Língua Portuguesa (com uma dissertação na área do  estudo do texto argumentativo oral); investigadora do CELGA-ILTEC (grupo de trabalho "Discurso Académico e Práticas Discursivas"); autora de manuais escolares e de gramáticas escolares; formadora de professores; professora do ensino básico e secundário. Consultora permanente do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacada para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pela autora

A frase em análise é uma construção copulativa, que poderia ter a seguinte realização:

(1) «Ela ficou grata ao João.»

Em (1), observamos, antes de mais, que grata é um adjetivo que rege a preposição a e que é complementada pelo constituinte «ao João», o qual desempenha a função de complemento do adjetivo. Esta será também a função desempenhada pelo pronome lhe na frase original.

Por outro lado, o constituinte «grata ao João» funciona como um todo que predica sobre o sujeito, tendo a função sintática de predicativo do sujeito. Esta mesma função é desempenhada por «lhe grata» na frase apresentada pela consulente.

Disponha sempre!

Na frase apresentada, quando é uma conjunção subordinativa temporal, que introduz uma oração subordinada temporal.

Note-se, porém, que esta oração temporal, quando descreve uma situação genérica ou habitual, como parece ser o caso, adquire um sentido equivalente ao de uma oração condicional com interpretação factual1, sendo, deste modo, a frase em análise equivalente a (1):

(1) «Os serviços profissionais de advogado são, por sua natureza, técnicos e singulares, se comprovada sua notória especialização, nos termos da lei.»

Disponha sempre!

 

1. Situação descrita por Lobo em Raposo et al., Gramática da Língua Portuguesa. Fundação Calouste Gulbenkian, p. 2021.  

Na frase apresentada, o constituinte «a correr e a cantar» é composto por duas orações subordinadas infinitivas coordenadas pela conjunção e.

A estrutura em análise é formada pela preposição a seguida de verbo no infinitivo e recebe o nome de construção do infinitivo preposicionado (CIP)1. Este constituinte relaciona-se diretamente com o sintagma nominal eles, que constitui o seu sujeito semântico («eles correm e eles cantam») e introduz uma predicação sobre este mesmo sujeito, pelo que, numa visão mais profunda da realidade gramatical, se considera que estamos perante um predicativo do sujeito, tal como acontece em (1), onde o constituinte «a resmungar com a mãe» é um predicativo do sujeito:

(1) «As crianças saíram de casa a resmungar com a mãe.»2

Não obstante, uma visão mais escolar do fenómeno aqui em análise poderá apontar para este constituinte a função de modificador do grupo verbal, uma vez que poderá ser eliminado da frase e tem um valor de modo associado a uma temporalidade de duração. Por esta razão também o constituinte é equivalente a uma estrutura com o gerúndio:

(2) «Lá foram eles, correndo e cantando.»

Disponha sempre!

 

1. Proposta presente em Raposo et al. Gramática do Português. Fundação Calouste Gulbenkian, p. 1969.

2. Exemplo apresentado em id,. ibidem, p. 1971.

A primeira frase apresenta uma oração subordinante («Ela não foi atendida») seguida de uma oração subordinada adverbial causal («porque chegou tarde»). Esta relação de subordinação pode ser confirmada pelo facto de a oração subordinada poder ser anteposta à subordinante:

(1) «Porque chegou tarde, ela não foi atendida.»

Em termos semânticos, a oração subordinada apresenta a causa real da situação descrita na oração subordinante:

(2) «O facto de ela ter chegado tarde fez com que ela não fosse atendida.»

A segunda frase é elítica, pois o seu sentido depende de uma construção de negativa alternativa1, que, na sua forma completa, corresponde à frase apresentada em (3):

(3) «Ela não foi atendida porque chegou tarde, mas (sim) porque não apresentou o necessário requerimento.»

Do pondo de vista semântica, estamos perante uma estrutura que apresenta a causa real da situação descrita na oração subordinante através de uma estrutura retificativa (não x, mas y). No plano sintático, identificamos uma coordenação adversativa de duas orações subordinadas adverbais causais, na qual a primeira é a negação da causa e a segunda a sua retificação.

Disponha sempre!

 

1. Designação proposta por Quirk et al. 1985, apud Lobo in Raposo et al., Gramática do Português. Fundação Calouste Gulbenkian, p. 203.

A frase apresentada é constituída por uma oração subordinante complementada por duas orações subordinadas completivas que se coordenam entre si, tal como se evidencia na segmentação da frase em (1):

(1) «[Ele disse]oração subordinante [que o desastre tinha ocorrido de madrugada]oração subordinada substantiva completiva [e que não havia sobreviventes.]oração subordinada substantiva completiva»

De acordo com o enquadramento teórico proposto na Gramática da Língua Portuguesa, de Maria Helena Mira Mateus et al.,  as orações completivas são constituintes frásicos que têm como núcleo o complementador, que corresponde à palavra que. Este complementador, por seu turno, seleciona um constituinte frásico. Ao conjunto formado pelo complementador e pelo constituinte frásico que este seleciona dá-se a designação de «sintagma complementador», ou seja, SCOMP.

Na frase em apreço, estão presentes dois SCOMP, que correspondem às duas orações subordinadas substantivas completivas.

Disponha sempre!