Carlos Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carlos Rocha
Carlos Rocha
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Licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Linguística pela mesma faculdade e doutor em Linguística, na especialidade de Linguística Histórica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi leitor do Instituto Camões na Universidade de Oxford e no King's College de Londres. Professor do ensino secundário, coordenador executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pelo autor

 O uso de qual, tal como se ilustra na pergunta, não é impossível em Portugal, mas não nas mesmas condições:

(1) Qual (é) o país em que moram vocês?

(2) Qual (é/será) a fruta de gostam mais?

(3) Qual (é) o motivo?

Em todas as frases, é possível omitir o verbo ser conforme o uso correto de Portugal.

Que, no Brasil e em Portugal, qual nem sempre se usa da mesma maneira é constatação assinalada na Gramática do Português (vol. III, Fundação Calouste Gulbenkian, 2020, p. 2542), onde se lê:

«No português do Brasil, é mais comum do que em português europeu a ocorrência de qual em construções não partitivas[1], à semelhança de que (cf. qual livro você comprou?); em português europeu, qual tende a ocorrer mais frequentemente em contextos particulares: (a) quando a interrogativa é um fragmento frásico (cf. iB)); (b) quando tem a função de sujeito do verbo ser em orações copulativas cuja resposta é uma oração copulativa identificadora [...], como em (ii) ; ou (c) combinando-se com um nome explícito, quando o constituinte interrogativo ocorre em posição pós-verbal, como em (iii):

(i)   A –Traz-me aí os livros!
      B – Quais livros?

(ii) a. Qual foi o livro que compraste?
    b. Quais são os teus escritores preferidos?

(iii) O teu pai deu-te qual livro?»

 

1 O uso partitivo de

A locução «por virtude de» é variante «em virtude de», e ambas têm valor causal, sendo, portanto, equivalentes a «por causa», expressão que é hoje bastante corrente.

A locução «em virtude de» encontra registo em várias fontes, mas menos frequente parece a presença de «por virtude de», sobretudo em dicionários mais recentes1. A menor presença de «por virtude» na dicionarística contemporânea é correlativa do reduzido número de ocorrências da locução em textos do séculos XX e XIX, conforme evidencia o Corpus do Português, de Mark Davies. Não obstante, em séculos anteriores, observa-se que no mesmo corpus há um ligeiro aumento de exemplos de «por virtude de», o que sugere que esta é uma forma arcaica ou arcaizante de «em virtude de». Atendendo a que a Gramática Filosófica da Língua Portuguesa foi escrita por uma pessoa que viveu há mais de duzentos anos, é natural que os usos aí patentes sejam algo diferentes dos de hoje.

1 dicionário da Academia das Ciências de Lisboa inclui ambas as locuções em subentrada a virtude, com a indicação de que são sinónimas, tal como se  faz no dicionário de Caldas Aulete; e o Dicionário Estrutural, Estilístico e Sintático da Língua Portuguesa de Énio Ramalho, define-as do mesmo modo, como equivalentes a «devido a» e «por causa de». Contudo, em dicionários mais recentes, a forma «por virtude de» prima pela au...

É um hipocorístico, isto é, trata-se de uma forma que se emprega para demonstrar carinho, fazendo maiores ou menores alterações a um nome próprio, geralmente mediante sufixos de diminutivo (ex.: Manuela > Manuelinha ou, a partir da forma popular, Manela/Manelinha) ou por redução de nomes próprios (Beatriz > Bia, Conceição > São, Joaquim > Quim, José > ).

No caso de Manucha, que é um hipocorístico estável no uso (tem, portanto, tradição), operou-se por truncação para isolar o elemento Man- de Manuela, e depois associar-lhe o sufixo -ucho/-ucha.

O Dicionário Houaiss considera que este sufixo – do latim -cŭla-, -cŭlu-, que também formava diminutivos (particŭla, donde o português partícula, por via erudita) – tem baixa frequência em português no que ao léxico comum se refere (capucho, falucho, felucho, galarucho, galucho, gorducho, machucho, mangucho, negrucho, papelucho, pequerrucho, pertucho, portucho, trancucho, trapucho).

O uso do artigo definido com topónimos sujeita-se muitas vezes ao critério da atribuição ao léxico comum (ver Textos Relacionados). Por outras palavras, se o topónimo tiver origem num substantivo comum, é previsível que a sua ocorrência tenha associado o artigo definido:

(1) Porto – «o Porto» (de porto, nome comum)

(2) Costa Nova – «a Costa Nova» (de costa, nome comum)

Sobre (1) e (2), dir-se-á ainda que são topónimos transparentes, isto é, topónimos interpretáveis por palavras do léxico comum, de uso mais ou menos corrente1. Como sempre, deve recordar-se também que há exceções quanto ao critério enunciado, pois há topónimos com origem em nomes comuns sem artigo definido associado, como acontece com os compostos de vila e castelo: «vivo em Vila Real de Santo António», «moro em Castelo de Paiva».

Examinando os casos em apreço, é de considerar que Arruda tem artigo definido, porque resulta da conversão do substantivo comum arruda (aparentemente, um fitónimo, isto é, o nome de uma planta) em nome próprio (cf. José Pedro Machado, Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa). Daí que, sem surpresa, o uso corrente inclua o artigo definido: «comprei pão da Arruda».

Quanto a Calhandriz, como é pouco ou nada clara a sua relação com o vocabulário comum, diz-se que é um topónimo opaco – cujo significado não é interpretável pelo de um nome comum –, e em tal caso o que se observa é o nome empregar-se sem artigo definido. Sendo assim, «vinho da Calhandriz» seria uma anomalia ou incorreção, mas não é isto verdade. Com efeito, há que ter em ...

A palavra pregão denomina qualquer forma de anúncio vocal associado à venda, por vendedores ambulantes,  de géneros ou produtos de qualquer tipo – de tachos e panelas à sardinha e ao carapau.

Começando por recordar os versos do famoso fado cantado por Carlos do Carmo (1939-2021):

Lisboa menina e moça, menina
Da luz que meus olhos vêem tão pura
Teus seios são as colinas, varina
Pregão que me traz à porta, ternura

Nestes versos, ocorre o nome pregão sem referência concreta, podendo,portanto, aludir a qualquer tipo de pregão.

Os pregões podiam ser (e ainda são,os que restam) de vários tipos em função do que se vendia no comércio ambulante. Exemplos:

(1) Quem quer figos, quem quer almoçar! (hoje em desuso)

(2) Olha a fava-rica! (hoje desaparecido, porque já não é hábito preparar a fava-rica1).

(3) Quentes e boas! (para a venda de castanha assada)

(4) Olhà bolinha! (hoje corrente entre vendedores de bolas de Berlim, nas praias da região de Lisboa, durante o verão)

Encontram-se vários outros exemplos em Pregões de Lisboa Antiga.

A palavra pregão terá origem no latim praecoōnis «pregoeiro público, arauto, o que proclama, anuncia ou diz em público» (Dicionário Houaiss; ver também Infopédia). Poderia pensar-se que é um derivado de pregar, cuja primeira sílaba tem e aberto átono; se assim fosse, o vocábulo em causa soaria "prègão", também...