Carlos Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carlos Rocha
Carlos Rocha
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Licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Linguística pela mesma faculdade e doutor em Linguística, na especialidade de Linguística Histórica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi leitor do Instituto Camões na Universidade de Oxford e no King's College de Londres (entre 1992 e 1997). Professor do ensino secundário, coordenador executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pelo autor

Há duas maneiras corretas de pronunciar e escrever o termo em questão: clítoris, que é palavra esdrúxula (proparoxítona); e clitóris, palavra grave (paroxítona).

Não há, por enquanto, a resposta cabal pedida pela consulente, porque a palavra tem assumido pelo menos três formas nos últimos 100 anos. Atualmente, aceitam-se duas formas: clítoris, recorrente na dicionarística, e clitóris, que parece ter começado por ter circulação no Brasil e acabou por se tornar corrente em Portugal, encontrando-se também dicionarizada (cf. dicionário da Academia das Ciências de Lisboa e vocabulários ortográficos). Ambas as formas estão corretas, mas clítoris tem precedência histórica sobre a forma concorrente. Cumpre, no entanto, observar que, do ponto de vista filológico – isto é, do ponto de vista da transposição criteriosa da forma grega original (mesmo esta é uma forma criada tardiamente, já no contexto da linguagem científica internacional, a partir do século XVI) –, a forma mais correta é clitóride1, que hoje tem poucas ou nenhumas ocorrências.

Sobre clitóride, clítoris e clitóris, que significa «pequeno órgão erétil do aparelho genital feminino, situado na junção dos pequenos lábios, na parte superior da vulva» (Infopédia), lê-se no Dicionário Houaiss (2001, s. v. clitor(o)-):

«[...] há quem empregue didaticamente a pronúncia clitóris, ...

Não existe um nome (gentílico) que neste caso se possa prever como correto.

Nem todos os topónimos têm gentílicos derivados que conservem o radical da forma de base (tradicionalmente, a chamada palavra primitiva). Na verdade, quando se torna necessário denominar e referir naturais e moradores de lugares cujo nome não tem tido gentílico associado de forma estável, o mais seguro será empregar perífrases como «os de Meãs», «os naturais de Meãs», «os moradores de Meãs».

Muito depende também da tradição local, e nesse caso há margem para uma criatividade que o registo oficial dos topónimos nem sempre é capaz de abranger. Nesta perspetiva, "meãseiro" é forma aceitável, se corresponder a um uso local.

Teoricamente, poderia formar-se "meãsense" ou, com pretensão erudita, "medianense", aceitando que Meãs vem do latim vulgar medianas. Trata-se, porém, de formas que não encontram registo nas fontes consultadas para elaboração desta resposta.

O anglicismo jeans é geralmente classificado como nome dos dois géneros (masculino e feminino) nos registos dicionarísticos – são casos recentes os registos do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa e do Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa.

Poderá, como propõe o consulente, atribuir-se à palavra importada o género que terá o seu sinónimo, processo conhecido como atração sinonímica. Sob este prisma, sendo jeans a denominação de um tipo de vestuário que se chama calças, do género feminino («as calças») então, lógico será atribuir ao estrangeirismo o mesmo género.

Contudo, importa também ter em conta a história da palavra, e neste caso não só não é despicienda a via por que foi transmitida ao português, como também não são de descurar certas tendências (que podem ser contraditórias) da própria língua de chegada. Neste sentido, observa-se que, em português, os anglicismos têm tendido a receber o género masculino, como já apontava um estudo de 20052:

«Normalmente, aos nomes comuns do inglês é atribuído o género masculino, podendo dizer-se que esse género é atribuído por defeito. É por essa razão que nomes como flash, ketchup e software têm género masculino.»

E os autores do estudo acrescentam:

«[...] a respeito da atracção sinonímica, encontramos vários contra-exemplos no próprio corpus REDIP, : os estrangeirismos bookshelf, goal-average e helpdesk ocorrem com o género masculino, não obstante poderem ser associados às palavras vernáculas [do género feminino] prateleira, média e secretária, respectivamente.»

Cabe tam...

As duas construções estão corretas, mas «ao pescoço», no sentido de «pendurado à volta do pescoço», pode ter uso mais frequente do que «no pescoço» em certos contextos.

No Dicionário Estrutural, Estilístico e Sintáctico da Língua Portuguesa, de Énio Ramalho, regista-se a locução «ao pescoço»:

«pescoço, ao: depois de ter as mãos cortadas, mandaram à cidade com um escrito ao pescoço. – Vieira, Cartas, Clássicos Sá da Costa, I, 28).»

A mesma obra inclui a expressão «pôr ao pescoço»:

«pôr ao pescoço: pôs um colar ao pescoço e mirou-se ao espelho (adornou o pescoço com, enrolou à volta do pescoço).»

Uma consulta da secção histórica do Corpus do Português, de Mark Davies, permite observar que a locução «ao pesçoço» é mais frequente depois de nome (214 ocorrências) do que «no pescoço» no mesmo contexto (148 ocorrências). Esta diferença pode não ser significativa porque pode decorrer do contexto sintático: com efeito, ocorrerá «ao pescoço» se o verbo for, por exemplo, atar («atar alguma coisa a outra»).

Mesmo assim, importa assinalar também que «trazer ao pescoço» conta mais exemplos (45) no referido corpus do que «trazer no pescoço» (2). Acrescente-se, em contrapartida, que, entre vários dicionários consultados1 , a maioria regista «(estar) com a corda no pescoço», o mesmo que «estar numa situação complicada», mas no Dicionário Priberam acolhe-se esta forma a par de «com a corda ao pescoço» e de «com a corda na garganta».

Poderá aqui propor-se que a escolha entre «ao pescoço» e «no pescoço» decorre de um contraste semântico-referencial, entre conceber a suspensão de algo ...

A palavra regressível não tem registo em dicionários aqui consultados, mas é uma palavra bem formada e, portanto, correta.

Porém, o facto de irregressível («que não admite regresso») ter presença em vários dicionários (por exemplo, Priberam e Infopédia, com o sentido de «que não pode regressar») é indicativo da possibilidade de empregar regressível, com significado equivalente ao de reversível, «que pode voltar atrás».

Regressível tem, de resto, uso, como ilustra a seguinte passagem:

«[...] [A]s populações [...] procuraram nos populismos crescentes reformulações inspiradas pela memória das antigas soberanias, parecendo ignorar que a circunstância mundial não é de regra regressível.» (Adriano Moreira, "A dúvida", Diário de Notícias, 15/02/2017).