Carlos Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carlos Rocha
Carlos Rocha
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Licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Linguística pela mesma faculdade e doutor em Linguística, na especialidade de Linguística Histórica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi leitor do Instituto Camões na Universidade de Oxford e no King's College de Londres. Professor do ensino secundário, coordenador executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pelo autor

A forma "sumana" (ou "somana") encontra-se em falares populares e regionais de Portugal e também na Galiza.

É resultado da instabilidade das vogais átonas, típico da história do sistema dialetal galego-português, como observa o filólogo galego Manuel Ferreiro1:

«En contacto con consoante labial, a vogal átona [e] sofre unha forte tendencia á labialización, isto é, a sua conversión en [o], na lingua oral popular [...].»

O mesmo autor dá vários exemplos, além de somana: formento (fermento), lovar (levar), romédio (remédio). Estas variantes também se encontram ou encontravam dialetalmente em Portugal, segundo a Revista Lusitana (1887-1943). No dicionário de Caldas Aulete (1881) também se consigna somana como vocábulo arcaico e popular (cf. versão eletrónica). Em fontes mais recentes, refira-se o Dicionário Houaiss, que acolhe a entrada somana, classificada também como arcaísmo de uso informal, sinónimo de semana; e o mesmo ocorre no Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado.

Na língua mirandesa, sumana é igualmente a forma usada (cf. ...

A forma correta é ditatorial.

Como uma consulta da Internet pode revelar, detetam-se efetivamente ocorrências de "ditadurial", mas esta tem configuração discutível quer morfológica quer ortográfica – ou seja, trata-se de um erro. Com efeito, em relação àquilo que é típico de uma ditadura ou de um ditador, emprega-se ditatorial1.

Poderá considerar-se a possibilidade de construir um derivado adjetival de ditadura ou de ditador, mas nestes casos os resultados mais prováveis (mas não atestados) seriam, respetivamente, "ditadural" e "ditadoral", e não "ditadurial". Seja como for, as formas apontadas como aceitáveis ou corretas são apenas casos teóricos, porque, como foi dito, a forma que está ativa é ditatorial, que vai buscar a sua base derivação ao radical do latim dictatorius. As fontes consultadas também registam ditatório, «do ou relativo ao ditador», sinónimo de ditatorial.

 

1 Foram consultados os vocabulários ortográficos atualizados: o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras, o vocabulário eletrónico da Academia das Ciências de Lisboa e o Vocabulário Ortográfico Comum do Instituto Internacional da Língua Por...

A palavra sumo é um adjetivo variável em género, como comprova a expressão «(de) suma importância».

Sendo assim, a expressão correta é «suma sacerdotisa», como o mesmo que «sacerdotisa suprema».

A forma incontestavelmente correta é dióspiro, mas pode aceitar-se diospiro, que não é propriamente um regionalismo.

Respondendo às perguntas pela mesma ordem:

1- Pode afirmar-se que dióspiro é a forma correta, que se encontra registada, pelo menos, desde 1940, no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa. Diospiro (sem acento) é forma popular, a que Vasco Botelho de Amaral dedica um comentário no seu Dicionário de Dificuldades e Subtilezas... (1958), sem a condenar e até justificando-a por uma tendência de uso.

2- Diospiro (sem acento) é forma popular, mas está de tal maneira difundida, que não se identifica com nenhuma região – pelo menos, em Portugal – e, portanto, não constitui um regionalismo1.

3- Entendendo étimo como a forma que uma palavra tinha numa língua qualquer imediatamente antes de ser introduzida no léxico português, pode dizer-se que o étimo é latino, na sua modalidade científica, mais recente, e não propriamente grego, como indicam alguns dicionários.

Com efeito, embora a origem da palavra seja grega – διόσπυρον ( «grão/fruto de Zeus») –, a sua transmissão ao português faz-se pelo latim científico, como se anota no Dicionário Houaiss (foram desenvolvidas as abreviaturas e as referências):

Parece tratar-se de expressão relativamente recente.

Os contextos identificados numa consulta de páginas da Internet são semanticamente semelhantes aos exemplos mencionados na pergunta e sugerem que os significados oscilam entre «vai acontecer de certeza, felizmente» (ex. 1) e, já em tom irónico, «era o que faltava (ou seja, não é o que devia acontecer»; ex. 2). Tanto num caso como no outro, a expressão, que é metafórica, alude ao escrutínio decidido pelo processo de retirar bolas de um saco opaco: entre várias bolas pretas, que determinam a eliminação, há uma bola branca, que dá a vitória. Como a probabilidade de escolher uma bola preta é maior do que a probabilidade de sair bola branca, compreende-se que se encontrem várias ocorrências da expressão que remetem para um acontecimento indesejável:

(1) «Há duas semanas [Ferro Rodrigues] ouviu as preocupações do CDS sobre o “enclave” Chega que tem na sua bancada. Ferro ainda ponderou obras, mas isso foi posto de parte. Nem assim o problema parece estar resolvido. Foi, aliás, a primeira bola a sair do saco no início da sessão.» ("'"Desculpe, como é que se entra?' O regresso ao Parlamento", Observador, 25/10/2019)

Em suma, a expressão denota um acontecimento que se produz ou pode produzir-se para sorte ou azar de alguém.