Carlos Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Carlos Rocha
Carlos Rocha
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Licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Linguística pela mesma faculdade e doutor em Linguística, na especialidade de Linguística Histórica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi leitor do Instituto Camões na Universidade de Oxford e no King's College de Londres. Professor do ensino secundário, coordenador executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pelo autor

As palavras em questão não são derivadas. Para falar de derivação a propósito das palavras garagem e manada, seria preciso identificar as palavras que estão na base de derivação. Acontece que tal não é possível, porque se trata de empréstimos – garagem, do francês garage, e manada talvez do castelhano (cf. Dicionário Houaiss) – e, portanto, são unidades lexicais autónomas que não foram formadas em português.

Poderia objetar-se que nas palavras em questão são reconhecíveis sufixos,– -agem em garagem e -ada em manada –, pelo que seria legítimo considerá-las vocábulos derivados. Mesmo assim, os radicais isolados pela análise encontrariam dificuldades para encontrar as formas autónomas correspondentes: *gara não é uma palavra do português, e man- , de manada, não parece ter o mesmo significado que man- em manejar ou em manar. Diz-se, então que palavras como garagem e manada são palavras complexas derivadas (ou não construídas), isto é, trata-se de palavras «[...] não apresentam uma relação de derivadas com um lexema do português» (M. Graça Rio-Torto et al., Gramática Derivacional do Português, 2016, pág.  75).

No português de Portugal padrão, o ditongo grafado ei soa aproximadamente como "âi", ou seja, o a é fechado, mais próximo do -a final de missa ou leva. Não se confunde com os sons associados a ai, pois é perfeitamente audível a diferença entre pares como sei  e sai, ou ceia e saia. Não se trata, portanto, do ditongo [aj], que em alemão, como bem diz o consulente, se representa por ei, como em frei («livre»), que se pronuncia "frai". Assim, feira, maneira e deixei soam, respetivamente, como "fâirâ", "mânâirâ" e "dâixâi" – em transcrição fonética, [fˈɐjɾɐ ], [mɐnˈɐjɾɐ], [dɐjʃˈɐj] (cf. Portal da Língua Portuguesa ou Dicionário de Língua Portuguesa da Porto Editora, disponível na Infopédia). Sugere-se a audição de palavras em que ei ocorra, por exemplo, nas páginas do sítio eletrónico Forvo.

O nome próprio Antioquia tem motivado o envio de algumas perguntas (ver Textos Relacionados) ao Ciberdúvidas, mas a agora feita aborda um tópico ainda não tratado aqui.

Como já aqui foi dito, em português, o nome da cidade turca é Antioquia, cuja sílaba tónica é qui, como em maquia. Quanto ao timbre da vogal correspondente ao grafema o, é ele o de um [u] átono, em consequência da regra do vocalismo átono do português europeu. O nome tem, portanto, a seguinte pronúncia: [ɐ̃tiu'kiɐ], no discurso pausado, ou, num registo de débito normal ou rápido, [ɐ̃tju'kiɐ], com formação de ditongo crescente – [ju] – em posição pré-tónica.

No português do Brasil, a referida vogal átona corresponderá geralmente a um o fechado: [ɐ̃tio'kiɐ] ou, com palatalização de [t] antes de [i] ou [j], [ɐ̃tʃio'kiɐ].

Recomendam-se as formas eudemonia, «sensação de bem-estar ou felicidade»1, e eudemónico, «relativo a eudemonia ou a eudemonismo»2, vocábulos registados quer no Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa, quer no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras3. São palavras que encerram o mesmo radical que dois termos há mais tempo registados em dicionário – eudemonismo, « doutrina filosófica segundo a qual a moralidade consiste na procura da felicidade, tida como o bem supremo» (Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, na Infopédia), e eudemonista, «relativo ao eudemonismo ou seu partidário» (cf. idem).

O radical eudemon- tem a seguinte história, segundo o Dicionário Houaiss (2001):

«antepositivo, do grego eudaimonía,as 'felicidade', derivado de eudaímón 'de destino feliz'; ocorre já em vocábulos originalmente gregos, como eudemonia e eudemonismo (eudaimonismós), já em cultismos cunhados no século XX: eudêmone, eudemônico, eudemonista, eudemonística, eudemonístico, eudemonologia, eudemonológico, eudemonólogo

É de realçar que o ditongo grego ai passa a e em português, de acordo...

Agradecemos as suas palavras de apreço.

O constituinte «às escaramuças» é um complemento do adjetivo costumado, variante de acostumado e sinónimo de habituado. Tal como acostumado e habituado, pode ocorrer frequentemente como predicativo do sujeito, a construir regência com a preposição a:

(1) «Está tão costumado ao café que já nem lhe tira o sono!» (Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia das Ciências de Lisboa, 2001, s. v. costumado).

Assim como em  (1) «ao café» é complemento de «costumado», também «às escaramuças» é complemento do adjetivo na frase em questão.

Costumado pode também aparece como modificador do nome, também como variante de acostumado ou sinónimo de habitual:

(2) «No costumado dia do mês há de ter lugar a assembleia de sócios.» (idem, ibidem)

E, ainda à semelhança de acostumado, ocorre como nome, na aceção de «aquilo que é costume, usual»:

(3) «O costumado nas reuniões desta casa é ninguém se sentar à frente e preferirem os lugares lá para trás.» (idem, ibidem)