Carlos Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carlos Rocha
Carlos Rocha
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Licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Linguística pela mesma faculdade e doutor em Linguística, na especialidade de Linguística Histórica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi leitor do Instituto Camões na Universidade de Oxford e no King's College de Londres (entre 1992 e 1997). Professor do ensino secundário, coordenador executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pelo autor

Do ponto de vista dos atuais padrões de formação de palavras em português, não há unanimidade sobre a formação de floresta.

Com efeito, do ponto de vista histórico, este vocábulo aparece inicialmente como palavra simples (foresta), mas este é um aspeto do passado da língua, a que os falantes só acedem por conhecimento extralinguístico. Sendo assim, do ponto de vista sincrónico, parece um derivado de flor. Contudo, uma classificação ajustada será considerá-la uma palavra complexa não derivada1, isto é, não se trata de um vocábulo suscetível de ter sido integralmente construído em português, visto que a terminação -esta não configura um sufixo ativo no atual uso da língua portuguesa.

Em Portugal, este tipo de formações vocabulares não é abrangido pelos conteúdos programáticos do ensino básico e secundário. É, portanto, um caso que pode ser mencionado em contexto pedagógico, por exemplo, quando se aborda a família de palavras, mas sem constituir exemplo que se deva selecionar para exercícios estruturais com vista a uma avaliação.

 

1 Cf. Graça Rio-Torto et al. Gramática Derivacional do Português, Coimbra,2016, p. 262).

A forma "ligera", que é com toda a probabilidade uma variante por monotongação1 de ligeira, tem efetivamente registo no Dicionário inFormal, um recurso em linha «onde as palavras são definidas pelos usuários», segundo se lê numa das suas páginas.

Contudo, como substantivo (comum de dois), não há entrada nos dicionários referidos pelo consulente nem noutros. Também não foi possível encontrar registo de "ligera" em relação a outros países de língua portuguesa.

Note-se, porém, que parece plausível que "ligeira", como nome, tenha origem na locução «à ligeira» – p. ex., «(viajar/andar) à ligeira», no sentido de «(andar) sem aparato, de maneira simples e informal»2 –, embora não seja de excluir a interferência de ligeiro empregado como substantivo, na aceção de «indivíduo que viaja a pé, seguindo os trilhos de vias férreas». Deste uso, pode ter-se desenvolvido, por extensão metonímica – ao caminho de ferro associa-se o comboio (no Brasil, trem) –, a aceção de «pessoa sem dinheiro nenhum», por se tratar de indivíduos que, supostamente, nem sequer conseguiriam suportar a despesa de um bilhete de comboio.

Conviria também confirmar se "ligeira" surgiu como expressão irónica, entendendo «viajar à ligeira» como «viajar sem pagar». No entanto, para a elaboração desta resposta, faltaram fontes que facultassem dados para fundamentarem tal hipótese.

1monotongação consiste na redução de um ditongo a uma vogal simples. Assim, a passagem do ditongo ei a e (e fechado) fenómeno que ocorre na pronúncia de maneira

É um provérbio que se refere às pessoas que não sabem o que fazer com o que têm ou que desperdiçam oportunidades. É próximo do dito «Deus dá nozes a quem não tem dentes».

Nas fontes consultadas para elaboração da presente resposta1, não se recolheram outros provérbios com a palavra em questão. Contudo, há ditos e expressões idiomáticas que incluem a palavra gaveta. São exemplos2:

gaveta aberta (gíria): «negócio rendoso»;

gaveta de sapateiro (popular): «vários objetos em confusão, em desordem»;

dar um murro/sopapo na gaveta (popular): «roubar dinheiro, principalmente numa firma»(sinónimo: «dar um murro/sopapo na carteira»);

ser metido na gaveta (familiar): «ser dado como inútil; ser relegado para posição desprezível; ser esquecido, abandonado» (sinónimo de «ser posto a/para um canto» e «ser posto na prateleira»).

Acresce ainda a expressão «comer na gaveta», usada na descrição psicológica, geralmente preconceituosa e infundada, dos habitantes de uma região ou cidade (ler aqui).

 

1 José Ricardo Marques da Costa, O Livro dos Provérbios Portugueses, Lisboa, Editorial Presença, 2004; M. Madeira Grilo, Dicionário de Provérbios, Pinhel,Município de Pinhel/Madeira Grilo, 2009. Ver também Provérbios Portugueses, Wikiquote.

2 Recolhidos António Nogueira Santos,

A opção pelo termo segurês pode ser adequada para referir de forma sintética a linguagem especializada dos seguros.

Trata-se de uma palavra bem formada, mais precisamente um nome derivado de outro nome, neste caso, seguro (diz-se que é um nome denominal), de acordo com o modelo de outros derivados pelo mesmo sufixo -ês: economês (a linguagem ou gíria dos economista), eduquês (a linguagem dos profisionais da educação), jornalês (a linguagem dos jornalistas), maternalês (a linguagem das mães quando falam aos bebés e crianças pequenas), mimalhês (a linguagem infantilizada), sociologuês (a linguagem dos sociólogos)1, termos a que se pode juntar ainda futebolês.

Contudo, ao uso de economês, eduquês e jornalês não é estranha uma atitude crítica, pois trata-se de palavras que visam muitas vezes a excessiva especialização da linguagem usada em certos ramos de atividade ou aos tiques e modismos que a caracterizam.

Talvez se possa contornar essa (eventual) dificuldade usando a perífrase «a linguagem de seguros e planos de saúde» e, depois, como nota irónica ou quase humorística, falar do segurês (ex: «os mistérios do "segurês"» ou «como decifrar o "segurês"», colocando a palavra entre aspas, como indicação de distanciamento crítico). Mas , se os problemas apontados não são de molde a criar equívocos, a forma segurês pode de facto constituir a maneira mais simples e direta de identificar o tema.

 

1 Cf. Graça Rio-Torto et al. Gramática Derivacional do Português, 2.ª ed., Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimb...

Não se trata da voz passiva, mas sim de uma construção antiga (um arcaísmo) do verbo chegar, equivalente ao pretérito perfeito simples do indicativo:

(i) «É chegada a hora da partida.» = «Chegou a hora da partida.»

O verbo é intransitivo e, portanto, não tem voz passiva.

Sobre este uso, frequente com chegar e outros verbos na Idade Média, dizia a filóloga e linguista brasileira Rosa Vírgínia Mattos e Silva (1940-2012) o seguinte1:

«Com um subconjunto de verbos classificados como intransitivos, ocorriam no período arcaico e até, pelo menos, no século XVI, sequências constituídas de ser + PP [= particípio passado], para expressão do "acto consumado" [...], ou seja, do aspecto concluído ou perfectivo. São verbos tais como: nascer, morrer, falecer, passar (= "morrer"), chegar, ir, correr (= "passar o tempo"). Veja-se, por exemplo, o refrão desta cantiga de Pai Gomes Charinho:

Idas som as frores
d'aqui bem com meus amores!

e o início desta de Pedr'Amigo de Sevilha [...]:

Quand'eu um dia fui em Compostela
em romaria, vi ũa pastor
que, puis fui nado, nunca vi tan bela.

A autora citada apresenta, entre outros exemplos medi...