Carlos Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carlos Rocha
Carlos Rocha
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Licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Linguística pela mesma faculdade e doutor em Linguística, na especialidade de Linguística Histórica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi leitor do Instituto Camões na Universidade de Oxford e no King's College de Londres. Professor do ensino secundário, coordenador executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pelo autor

O nome da cidade canadiana de Vancouver pode ser pronunciado [vɐ̃'kuvɛr] ou [vɐ̃'kuvɐr] no português de Portugal1, portanto, num aportuguesamento fonético que procura aproximar-se da prolação da palavra em inglês: [vanˈkuːvə] (transcrição do Lexico.com da Oxford University Press).

Contudo, há registo de um aportuguesamento gráfico e fonético – Vancôver –, que está consignado no Vocabulário da Língua Portuguesa (1966) de Rebelo Gonçalves e se articula como se lê: [vɐ̃'kovɛr].

1 No Brasil, [vɐ̃'kuver], com a pronúncia da nasal e do /r/ final a variar consoante a região (comunicação pessoal do consultor Luciano Eduardo de Oliveira).

O Dicionário Houaisso descreve ror como «forma aferética de horror», informação confirmada pelo Dicionário Etimologico da Língua Portuguesa de José Pedro Machado e pelo dicionário da Academia das Ciências de Lisboa. A palavra ror significa «grande porção de coisas ou de pessoas; quantidade» (Dicionário Houaiss) e usa-se como marcador de quantificação sob a forma «um ror de...», equivalente a «um monte de...»: «a Guilhermina comprou um ror de coisas no supermercado».

Observe-se que uma forma aferética é um forma resultante de um proceso de aférese, isto é, de um processo fonológico que consiste na supressão de um segmento fónico em posição inicial de palavra. Exemplos: estar> "tar" (coloquial), espera > "pera" (coloquial, como em "pera aí").

A forma tradicional de pronunciar o nome Isaac é [izak]. Isto mesmo sugerem as variantes ortográficas o nome: Isac, Isaque e Isá (cf. Vocabulário da Língua Portuguesa de 1966 e Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa de 1940). A pronúncia [izaak], sendo aceitável1, não é preferível: será uma pronúncia afetada, induzida pela grafia.

 

1 No entanto, no caso de Aarão, que exibe dois aa, considera-se que os dois a são articulados (ver Textos relacionados). Mesmo assim, é de notar a variante Arão (cf. Rebelo Gonçalves op. cit.), a qual sugere a tendência para simplificar a dupla ocorrência da vogal numa só.

Trata-se de palavras do registo familiar, com eventuais intrusões do nível calão, pelo que é difícil identificar a forma correta, no sentido de mais fiel a um uso mais antigo. Na verdade, podem até conhecer-se outras variantes, explorando a expressividade das palavras. Parece ser este o caso.

No Novo Dicionário de Calão (2005), de Afonso Praça, registam-se as duas formas escanifobético e escaganifobético, sem indicação sobre se uma tem precedência histórica sobre a outra; e no Dicionário de Expressões Populares Portuguesas (1999), de Guilherme Augusto Simões, consignam-se as variantes menos comuns escalafobético" e escagalifobético. O dicionário Priberam regista a palavra escanifobético como variante de escaganifobético, mas ao remeter aquela para esta, sugere que dá prioridade à que tem mais sílabas, ainda que o critério não seja claro.

Acrescente-se que as fontes consultadas pouco adiantam sobre a origem desta palavra tão variável: diz-se que terá génese obscura ou que é vocábulo expressivo, com a sonoridade a sugerir a própria estranheza denotada.

Em suma, perante os dados recolhidos, não se afigura possível confirmar que a forma original da palavra fosse escaganifobético.

O adjetivo participativo existe, quer porque é usado há já algum tempo, quer porque está dicionarizado, quer ainda porque se forma de acordo com as regras da morfologia da língua portuguesa e é, portanto, legítimo. Mas pode levantar-se a questão de saber se a palavra tem usos que configuram uma situação de impropriedade vocabular, como o consulente parece considerar.

No entanto, os dados históricos e interpretativos não confirmam tal perspetiva: é verdade que participativo não consta do Vocabulário da Língua Portuguesa (1966), de Rebelo Gonçalves, mas fontes lexicográficas mais tardias já o consignam – é o caso do Vocabulário Ortográfico (2001), de José Pedro Machado. Por outro lado, a definição de participativo, mesmo considerada composicionalmente, isto é, pela soma dos seus constituintes (o tema verbal participa- e o sufixo -tivo), não é incompatível com os usos descritos na questão enviada: «1 que se refere a participação; 2 que se caracteriza por ou propicia a participação Ex.: movimento participativo» (Dicionário Houaiss).

Sendo assim, respondendo diretamente à pergunta, embora já tenha sido um neologismo, participativo constitui hoje uma palavra que se enraizou no uso, sem que se conheça nenhuma restrição de caráter normativo. Poderá objetar-se que os adjetivos sufixados por -tivo e -ivo são causativos, o que se confirma pela interpretação de casos como desenjoativo («que faz desenjoar») ou vomitivo («que faz vomitar»)1. Quanto à expressão «orçamento participativo», também não se vislumbra erro, visto que o sufixo -tivo pode marcar genericamente a noção de «relativo à participação».

 

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