Carlos Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carlos Rocha
Carlos Rocha
134K

Licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Linguística pela mesma faculdade e doutor em Linguística, na especialidade de Linguística Histórica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi leitor do Instituto Camões na Universidade de Oxford e no King's College de Londres. Professor do ensino secundário, coordenador executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pelo autor

O verbo usa-se nos dois casos:

(1) «Faz dez anos.» (construção típica do Brasil)

(2) «No Alentejo, faz muito calor.» (usa-se em ambas as variedades)

Há várias respostas no Ciberdúvidas, umas mais conservadoras e outras mais atualizadas.

Segundo o Portal da Língua Portuguesa e o dicionário Michaelis, temos protónes ou prótons como plural de próton, nêutrones ou nêutrons como plural de nêutron, e elétrones como plural de elétron.

Note-se que estes termos, utlizados nos estudos da física, com a grafia apresentada pelo consulente, são comuns em português do Brasil. No entanto, em português de Portugal a grafia que prevalece é distinta e, por isso, também o seu plural é distinto: com efeito, protão pluraliza como protões; neutrão tem o plural neutrões; e a eletrão corresponde eletrões como plural. 

Atendendo aos casos de cristalino («de cristal»), nordestino («do nordeste»), levantino («do levante») ou ultramarino, («do ultramar») – todos adjetivos relacionais deivados de nomes (denominais)1 – torna-se legítima a formação de horizontino, «relativo ao horizonte». Esta forma já ocorre como gentílico de Horizonte (Ceará) e formante de outro gentílico, belo-horizontino, correspondente a Belo Horizonte (Minas Gerais). No entanto, como -ino é sufixo tido por erudito2 e pouco produtivo, muitas palavras com ele derivadas são mais itens que se fixaram pelo uso do que lexemas que existam em latência, acessíveis a qualquer falante (como acontece por exemplo com os diminutivos formados por -inho e os advérbios em -mente).

Em suma, pode empregar-se horizontino, mas este é um vocábulo que tem, por enquanto, uso episódico para não dizer nulo.

1 Um adjetivo relacional encontra a sua base de derivação num nome e marca uma relação de agente ou posse relativamente à entidade denotada ou referida por esse nome (ver Dicionário Terminológico). Por exemplo, em «fidelidade canina», o adjetivo canino é parafraseável por «dos cães, que é própria dos cães, que pertence aos cães». Ver Textos relacionados.

<...

O caso apresentado é o de um nome próprio que constitui um composto, e não uma palavra prefixada. A hifenização dos compostos não se confunde com as regras enunciadas para os prefixos1.

Se com a denominação em questão se pretende referir uma região que é simultaneamente de serra e se encontra no centro de um território, então, a expressão adequada é Centro-Serra, à semelhança dos casos enumerados no fim da pergunta, os quais, no entanto, são exemplos não de compostos, mas de encadeamentos vocabulares ocasionais (p. ex. «a estrada Rio de Janeiro-Petrópolis»)2. Mesmo assim, atendendo a que Centro-Serra é um nome próprio que parece ter origem num encadeamento vocabular que se cristalizou, um pouco como combinação histórica  Áustria-Hungria, não é descabido apor-lhe um hífen3.

Observe-se que há efetivamente oscilações gráficas na escrita do nome em questão, como se observa nas páginas do sítio eletrónico da Secretaria de Desenvolvimento Económico e Turismo do Estado do Rio Grande do Sul. Contudo, considerando casos de outros geónimos brasileiros formados por composição como Centro-Oeste, a grafia Centro-Serra salienta-se, entre outras variantes, como boa solução, até

 

1 A hifenização de compostos é definida pela Base XV do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 (AO 90). Note-se que a norma brasileira anterior, a do Formulário Ortográfico de 1943, era ...

Em Portugal, a pronúncia padrão de ferroviário, «relativo a caminhos de ferro»,  a que é vista, portanto, como correta, é com e e o abertos, ou seja, o elemento ferro- mantém o e aberto do nome correspondente (ferro) e o aberto que se ouve na palavra que está na base da sua derivação ferrovia, «caminho de ferro», um composto de ferro e via. Note-se que, neste caso, o formante ferro tem o o aberto que ocorre noutro tipo de compostos, sobretudo os que combinam nomes pátrios hifenizando-os: afro-asiático, latino-americano, luso-espanhol.

A pronúncia alternativa descrita na pergunta será, portanto, ou erro de perceção ou uma variante muito marginal, pelo menos em Portugal. Note-se, porém, que no Brasil, não será impossível articular ferrovia e ferroviário com e átono fechado, visto que em sílabas átonas pretónicas é esse o timbre que muitos falantes produzem para e nessa posição (ver no Vocabulário Ortográfico do Português ferroviaferroviário , nas transcrições fonéticas correspondentes ao Rio de Janeiro e São Paulo).