Carlos Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carlos Rocha
Carlos Rocha
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Licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Linguística pela mesma faculdade e doutor em Linguística, na especialidade de Linguística Histórica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi leitor do Instituto Camões na Universidade de Oxford e no King's College de Londres. Professor do ensino secundário, coordenador executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pelo autor

O tópico não é inequívoco, ou seja, não tem uma única solução.

A expressão «álcool em gel» está correta sem sombra de dúvida. O seu plural é «álcoois em gel».

Quanto a «álcool gel», não sendo obrigatória a hifenização, esta seria adequada, já que se trata da associação de dois substantivos: «álcool-gel».

O plural deste composto pode ser duplo, porque gel tem dois plurais, géis e geles:

(i) álcoois-gel = um tipo de álcool

(ii) álcoois-geis ou álcoois-geles = um produto que é ao mesmo tempo álcool e gel.

Como, neste caso, se trata de álcool e da forma como se apresenta –é álcool em gel – a forma de plural indicada em (1) parece a mais congruente com a realidade em referência.

Observe-se ainda que gel é uma palavra que tem origem no elemento de composição com a mesma forma:

«pospositivo, depreendido de gelatina (francês gélatine, italiano gelatina, donde o português), introduzido em 1864 por [Thomas] Graham para exprimir o estado gelatinoso de um coloide, por oposição a[o elemento] -sol [...], depreendido de solução, o que lhe permitiu constituir 'termos de formação irregular', a saber, hydrosol (hidrossol) e hydrogel (hidrogel), designando o último 'hidrato gelatinoso, de ácido silícico'; em português, a par do anteriormente citado, ocorre em: aerogel, argel, coagel, xerogel; notar também. que gel

Ambas as construções estão corretas, mas pode dizer-se que a forma mais enraizada no uso é a que exibe a preposição de – «estar de quarentena» –, tal como acontece com outros casos em que figura a mesma preposição: «estar de licença», «estar de férias», «estar de cama».

Acrescente-se, aliás, que «de quarentena» é a forma que figura como subentrada de quarentena em dicionários como o da Porto Editora (em linha na Infopédia), o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, Dicionário Houaiss e o dicionário da Academia das Ciências de Lisboa. Neste último, por exemplo, regista-se «de quarentena», e não «em quarentena», como locução adverbial com o significado de «em observação, à espera do desenrolar de uma situação», a que se juntam ainda as seguintes expressões:

«estar/ficar de quarentena. 1. Ficarem, viajantes ou mercadorias, isolados por quarenta dias, devido a suspeita de possível contágio de doenças oriundas de outros lugares. 2. Como medida de precaução ficar sob reserva.»1

«pôr de quarentena, pôr em observação, à espera, à espera de confirmação ou do desmentido de alguma coisa.»

Assinale-se, mesmo assim, que não está errado dizer/escrever «em quarentena», atendendo a que também ocorre «estar em férias» ou «estar em isolamento». Tendo em conta que «estar de quarentena» pode ser concebido como uma forma de «estar em isolamento», aceita-se, portanto, «estar em quarentena».

 

1 Anote-se que, no contexto da pandemia de coronavírus, se usa quarentena para referir um que período de isolamento que pode não chegar a 40 dias (ler

A construção parece ser uma transposição do inglês: «he tested positive for steroids during the race» (= «ele teve resultado positivo no exame/análise (feito/feita) aos esteroides durante a corrida» – cf. Lexico.com). Este verbo é geralmente transitivo em inglês, mas também pode ele ocorrer como intransitivo com um "complemento" (conforme a classificação da fonte consulta; cf. idem, ibidem): «[no object, with complement] Produce a specified result in a medical test, especially a drugs test or AIDS test» (tradução livre: «[sem objeto, com complemento] Apresentar um dado resultado num exame médico, em especial, na deteção de consumo de drogas ou num exame à sida.»)

Trata-se de uma construção típica da língua inglesa e, à partida, não teria adaptação ao português. Contudo, a verdade é que, talvez, pela sua capacidade de síntese, este uso de testar, que é discutível, tem-se popularizado em português, tanto no Brasil como noutros países de língua portuguesa, incluindo Portugal.

Em português, não parece claro o processamento desta construção, o que talvez seja razão para, numa análise sintática e semântica, se aceitar que o verbo testar é tratado como o verbo abrir, que, além de transitivo («ele abriu a porta»), também pode ocorrer intransitivamente («a porta abriu/abriu-se»)1; além disso, positivo é interpretável adverbialmente, como «positivamente» (não se trata, portanto, de um complemento), ainda que o uso adverbial de adjetivos seja condenado por vários autores prescritivistas.

Note-se que, em português, entre as construções compatíveis com a ideia de «fazer um exame médico cujo resultado se revela positivo/negativo», se contam «alguém ter resultado positivo no exame ao coronavírus» (ou no Brasil «para o coronavírus», ou «o exame a [nome da doença] de X [pessoa sujeita ao exame] deu/teve re...

A forma correta da locução prepositiva em questão é «de acordo com».

Embora «de acordo com» não tenha registado como subentrada de acordo em fontes dicionarísticas brasileiras (pelo menos, nas consultadas para elaboração desta resposta), pode confirmar-se que a locução integra a preposição com, por exemplo, nas definições de segundo e conforme, quando estas palavras ocorrem como preposições sinónimas (sublinhado nosso):

(1) «segundo2  se•gun•do prep De acordo com; conforme, consoante» (Dicionário Michaelis)

O mesmo acontece, quando se procura conforme, que pode empregar-se como preposição:

(2) «conforme [...] preposição de acordo com; segundo, consoante [...]» (Dicionário Houaiss; ver também Dicionário UNESP do Português Contemporâneo, 2003)

Mesmo assim, assinale-se que em dicionários portugueses a locução figura como subentrada de acordo,  como se verifica no dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, que dá abonações:

«de acordo com alguma coisa ou alguém, loc. prep., em consonância, em conformidade com; segundo alguma coisa ou alguém. "Não que numa viagem ou outra não houvesse problemas sérios, ou pessoas aborrecidas. Mas não eram os da terra. Eram outros, e tinham de ser resolvidos de acordo com as leis do mar." (J. de Sena, Sinais de Fogo, p. 448). "Apesar disso e como 'medida cautelar' – de acordo com [o Secretário de Estado] – o Ministério da Agricultura 'está a fazer um levantamento dos efeitos da seca" (Expresso, 14.3.1992).»

Também os dicion...

Por razões históricas (etimológicas), poesia escreve-se com s, visto que provém de uma palavra latina que já apresentava essa consoante, conforme se anota em várias fontes dicionarísticas, por exemplo, no Dicionário Houaiss:

«lat. poēsis, is "poesia, obra poética, obra em verso" < gr. poíēsis, eōs "criação; fabricação, confecção; obra poética, poema, poesia"; segundo José Pedro Machado [Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa], por intermédio do italiano poesia (1321) "arte e técnica de exprimir em verso uma determinada visão de mundo"»