Carlos Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Carlos Rocha
Carlos Rocha
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Licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Linguística pela mesma faculdade e doutor em Linguística, na especialidade de Linguística Histórica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi leitor do Instituto Camões na Universidade de Oxford e no King's College de Londres. Professor do ensino secundário, coordenador executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pelo autor

Não foi possível encontrar fontes impressas que refiram o uso mencionado pelo consulente. Na Internet, as ocorrências são praticamente nulas; no entanto, merece registo um caso talvez ilustrativo da locução em apreço, no contexto de uma discussão à volta do Vitória Sport Clube de Guimarães:

(1) «Aqui também assume que fala “à táxi”. Não conhece, mas a nossa é melhor. É como o nosso centro histórico [Guimarães]. É o mais bonito do mundo, ainda que não se conheça outro.» (comentário do blogue D. Afonso Henriques, 25/08/2010)

Da leitura da frase (1) pode inferir-se que quem fala «à táxi» fala do que «não conhece», ou seja, «falar à táxi» será o mesmo que «falar à toa» ou «dizer o (lhe) que apetece». Como o blogue que faculta o exemplo reúne textos de pessoas que manifestam reiteradamente o seu vínculo à cidade de Guimarães, igualmente é lícito supor que a locução seja efetivamente característica do português que se fala no norte de Portugal. Ainda assim, um único exemplo constitui prova escassa, e o mais prudente será considerar que a frase (1) atesta apenas o uso da locução «falar à táxi» no português de Portugal, sem haver certezas quanto a uma distribuição geográfica mais precisa.

A dúvida apresentada diz respeito a uma expressão que o uso fixou e que os dicionários registam.

Terá  origem no galicismo tout le reste, pelo menos, como tradução literal convergente com a locução «tudo o mais»: da sinonímia de «o mais» com «o resto» terá resultado «tudo o resto», expressão que é ou foi discutível1, mas que ocorre há bastante tempo no nosso idioma, como abonam exemplos de uso até por escritores portugueses:

(1) «O amor-próprio já eu o tinha perdido há muito tempo. E o orgulho, a vergonha, tudo o resto! » (David Mourão-Ferreira, Tal e Qual o que Era, 1963)

(2) «Venho a parte principal de minha família e bagagens em Londres tudo o resto disperso e sem ordem.» (Almeida Garrett, Cartas, 1835)

São de notar, porém, que, também, entre escritores, ocorre a expressão «todo o resto» como variante de «tudo o resto»:

(3) «O meu Deus enche o mundo. Só o meu Deus existe, e todo o resto no universo é tão pequeno e tão fútil, que reclamo mais dor, mais sofrimento, mais fome.» (Raul Brandão, Húmus...

A palavra gig – pronuncia-se aproximadamente como "guigue" – é um nome que constitui um empréstimo proveniente do inglês (anglicismo), e significa «atuação ao vivo de um músico ou de um grupo musical que tocam música pop ou jazz.

Trata-se de um termo que ainda não tem uso estável no português, não estando sequer dicionarizado como estrangeirismo, o que significa que o género a atribuir-lhe depende da tradução que os falantes subentenderem. Sendo assim, a palavra gig pode ser usada nos dois géneros – por enquanto – e mantém a ortografia original, pelo que se recomenda que figure em itálico ou entre aspas em textos escritos em português.

Acrescente-se que, em inglês, gig, «concerto», terá origem desconhecida (ver Online Etymology Dictionary). Existe também nessa língua um vocábulo homónimo que merece referência, gig, que significa «carruagem de duas rodas puxada a cavalo» e «barco pequeno», cuja origem se relacionará com o antigo norueguês geiga, «virar de lado» (idem). Daqui provém o português guiga, «barco a remos, estreito e comprido, usado em regatas» (Dicionário Priberam da Língua Portuguesa; ver também Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, 2001).

Observe-se, por último, que gig é facilmente substituível por concerto ou atuação.

As associações de nome e adjetivo não são necessariamente escritas com hífen.  A hifenização destes casos não é imposta por uma regra ortográfica, mas, sim, pela tradição de registo dicionarístico1. Por outras palavras, uma sequência de nome+adjetivo terá hífen se for considerado um composto; se não, então não se hifeniza. Existe, portanto, uma tarefa classificatória cujos critérios formais e semânticos são anteriores às regras ortográficas.

No caso de «príncipe consorte», não há lugar a hífen, tal como não se usa este sinal em «príncipe regente», «príncipe real» ou «príncipe imperial». Deste uso, é possível inferir que se tem considerado que estas sequências de nome+adjetivo são associações livres (ou quase) que ainda não têm significado verdadeiramente autónomo – por muito subjetivo que seja este juízo. Acrescente-se que consorte é um adjetivo dos dois géneros, equivalente a sócio, parceiro, cônjuge

1 A Base XV do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, assim como a norma de 1945, refere compostos de nome+adjetivo, mas não deixa explícitos os critérios que permitem distinguir estes compostos das associações livres de nome+adjetivo. 

FontesDicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2002), dicionário de ...

Já tivemos ocasião de nos referir indiretamente às formas hipertensor e hipertensivo na resposta "Anti-hipertensor, anti-hipertensivo ou hipotensor?". Contudo, procurando completar o que aí se expôs, diga-se que as duas formas derivadas adjetivais anti-hipertensor e anti-hipertensivo, ambas com o significado de «que combatem a hipertensão», se escrevem com hífen1 estão bem formadas e têm uso legítimo, de acordo com o registo de ambas no dicionário de termos médicos da Porto Editora na Infopédia e no glossário do sítio eletrónico Médicos de Portugal. Igualmente corretas são as bases de derivação destes termos, hipertensor e hipertensivo.

Note-se, porém, que uma busca no Google revela que na literatura académica a forma hipertensivo é mais comum do que hipertensor. Não quer isto dizer que esta seja, do ponto de vista linguístico, menos correta que aquela2; e, na verdade, voltando aos derivados anti-hipertensor e anti-hipertensivo, ocorrem estes sem claro contraste semântico em diferentes documentos disponibilizados por uma mesma entidade da área da saúde (exemplos extraídos de documentos em linha da Infarmed – Autoridade Nacional do Medicamento e Produto de Saúde, I. P.):

(1) «ECAMAIS é um medicamento anti-hipertensor que consiste...