Carlos Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Carlos Rocha
Carlos Rocha
89K

Licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Linguística pela mesma faculdade e doutor em Linguística, na especialidade de Linguística Histórica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi leitor do Instituto Camões na Universidade de Oxford e no King's College de Londres. Professor do ensino secundário, coordenador executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pelo autor

 A forma correta é hemóstase – «ação ou efeito de estancar uma hemorragia» –, do grego haimóstasis, eós 'medicamento para reter o sangue', o que significa que o termo português mantém, do grego, também a acentuação proparoxítona (isto é, esdrúxula).

Mesmo assim, existem oscilações, como observa o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2001):

«[...] sendo breve a vogal radical grega, há o pressuposto de que tais compostos devam ser proparoxítonos, mas em verdade muitos deles, por uso, são preferentemente usados como paroxítonos, sobretudo na linguagem médica em geral, havendo, porém, dentro da própria área, esforços em favor da proparoxitonia: algóstase, anástase, antiparástase, antiperístase, apocatástase, apóstase, bacterióstase, catástase, diástase, epístase, halístase, hemóstase, hipóstase, isóstase, mesóstase, metástase, perióstase, perístase, próstase, zigóstase [...].»

De qualquer forma, hemóstase é a forma que há muito se fixou em português, pelo menos, numa perspetiva erudita, fundada na filologia (cf. Vocabulário da Língua Portuguesa, 1966, de Rebelo Gonçalves, que era um classicista).

A palavra em questão pode efetivamente ser atestada, com o significado indicado pelo consulente, no português de Portugal, como termo especializado em textos da área das chamadas ciências exatas e experimentais. Exemplo (sublinhado nosso):

(1) «Computacionalmente os   métodos   divisivos são   geralmente   exigentes.   No   caso particular  das  variáveis  serem  binárias, os métodos  divisivos,  conhecidos  por  métodos monotéticos, são computacionalmente mais eficientes.» (António da Costa Fernandes, Análise de conglomerados: comparação de técnicas e uma aplicação a dados de fluxo migratório em Portugal, tese de mestrado, Universidade de Aveiro/Departamento de Matemática, 2017, p. 34)

Noutras áreas de estudo, sem parecer um termo especializado, surge como neologismo usado como sinónimo de monolítico, rígido, inflexível, palavras que se apresentam em alternativa. Exemplo (sublinhado nosso; manteve-se a ortografia do original citado):

(2) «Assim, assumimos que  a  nossa  postura  é  informada  pela  perspectiva  feminista  crítica defendida por Nogueira, Saavedra e Neves (2006) –pautada por um olhar contextualizado, que se  afasta  de  generalizações  abusivas,  homogeneizadoras  e  monotéticas  que  constituem  a perpetuação  de  assimetrias  sociais –informada pela  teoria  crítica,  construccionismo  social  e análise de discurso.» (Sara Isabel Almeida Magalhães, Como ser uma Ragazza – Discursos de sexualidade numa revista para raparigas adole...

Deve dizer-se «nomeado para (cargo/prémio)», e não «nomeado a (cargo/prémio)».

Em referência a uma pessoa selecionada para ocupar um cargo ou função, receber um prémio ou candidatar-se a um concurso, emprega-se o verbo nomear (e o seu particípio passado, nomeado) de acordo com o esquema «nomear alguém para», salientando a finalidade da nomeação, como se pode confirmar, por exemplo, pelo dicionário da Academia das Ciências de Lisboa (ACL), na entrada nomeado: «Foram três os filmes nomeados para o grande prémio» (ver também o Dicionário Gramatical de Verbos Portugueses, Texto Editores 2007 e Dicionário Sintático de Verbos Portugueses, Livraria Almedina, 1994).

É igualmente possível falar dos «nomeados dos óscares de Hollywood» (dicionário da ACL), utilizando a preposição de, para subentender a relação entre o referido prémio e a lista de candidatos.

Menos aceitável se torna a expressão «nomeado a dez óscares», uma tentativa de encurtar a sequência mais extensa «nomeado para candidato a óscares». Conclui-se que «nomeado a» resulta da confusão com o uso de candidato, substantivo cuja regência é construída com a preposição a («candidato a»).

O caso relatado pelo consulente é próprio da variação regional da língua e pode ser exemplificativo de como nem sempre é possível atribuir a palavras semântica e referencialmente próximas definições válidas para o conjunto de comunidades que falam a mesma língua. É o que parece acontecer com persiana e estore nos territórios de Portugal, situação provavelmente generalizável a outros países de língua portuguesa.

A definição que o consulente dá de persiana é a que ressalta talvez mais familiar em Portugal: um painel protetor colocado no exterior de uma janela e constituído por lâminas imbricadas, de modo a facilitar a sua recolha, geralmente, por um mecanismo existente no interior da casa. Note-se, porém, que esta descrição é apenas uma das possibilidades de identificar uma persiana, atendendo à definição que dá o dicionário da Porto Editora (versão em linha, na Infopédia):

«1. peça composta por lâminas paralelas, fixas ou móveis, colocada no interior ou no exterior das janelas, que se destina a resguardar da luz do Sol e a impossibilitar a visão do exterior 2. peça constituída por lâminas de metal ou plástico que se enrolam e desenrolam por meio de um mecanismo adequado, e que se desce para tapar a luz»

Mesmo assim, querendo identificar protitipicamente aquilo a que, em Portugal, se tem chamado persiana, dir-se-ia que a imagem ao lado esquerdo seria um bom exemplo.

O termo estore é definido pelo referido dicionário de um modo mais vago, que permite identificá-lo à denotação de persiana:

«...

A expressão «avião divergido» é uma alternativa a «avião desviado» pouco frequente e muito discutível na perspetiva da norma-padrão.

A forma divergido indicia uma tradução (demasiado) literal do inglês diverted, verbo inglês que ocorre no sentido de «desviar o rumo». Por exemplo, diz-se e escreve-se «the flight was diverted to Chicago», traduzível geralmente por «o voo foi desviado para Chicago», e não por «o voo foi divergido....» (cf. Linguee, s.v. diverted).

Compreende-se que a forma divergido até tenha utilidade, já que a expressão «avião desviado» pode ter dois significados: «que mudou de rota por questões de segurança» e «que mudou de rota por causa de assalto». Note-se, porém, que, apesar desta ambiguidade, continua a preferir-se a expressão «avião desviado», mesmo quando a causa em referência são as condições atmosféricas, como uma rápida consulta pela Internet pode confirmar. No momento em que se redigiu esta resposta, uma pesquisa Google facultava 3370 resultados para a expressão "avião desviado", enquanto "avião divergido" se ficava pelos 29 resultados.