Carlos Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Carlos Rocha
Carlos Rocha
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Licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Linguística pela mesma faculdade e doutor em Linguística, na especialidade de Linguística Histórica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi leitor do Instituto Camões na Universidade de Oxford e no King's College de Londres. Professor do ensino secundário, coordenador executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pelo autor

A origem do advérbio/conjunção embora é a que se refere na pergunta.

No entanto, a palavra, associada a ir (ou vir), não transmite informação temporal – o que se entende, considerando um caso como «ontem fui-me/vim-me embora mais cedo», em que embora não pode ser sinónimo de agora –, mas aproxima-se de um sentido espacial, de afastamento. Assinale-se, aliás, que embora traduz algumas vezes o advérbio inglês away: «He finished his coffee, stood up, and walked away.» = «Acabou o café, levantou-se e foi-se embora.» (cf. tradução da frase inglês na plataforma Linguee, consultada em 16/10/2018).

A expressão latina in situ significa «no próprio local; (anatomia geral) que está em seu lugar natural ou normal (diz-se de estrutura ou órgão); (oncologia) que permanece confinado ao local de origem, sem invadir os tecidos vizinhos (diz-se de tumor)»  (Dicionário Houaiss). 

Esta locução adverbial, que pode também parecer como modificador de nome ou predicativo do sujeito, não se pluraliza. Veja-se os grupos preposicionais que surgem como modificadores de nome: «trabalho em curso» e «trabalhos em curso». No caso, «em curso» – grupo preposicional que surge como modificador – não se pluraliza, tal como in situ (ou in loco, expressão que pode ter a mesma aceção que in situ). 

A palavra colo passou efetivamente por uma alteração semântica importante, desde a Idade Média até ao século XVI, como aponta o filólogo galego Ramón Lorenzo1, que lhe atribui duas aceções medievais, «pescoço» e «ombro»; o vocábulo evoluiu, até tornar-se sinónimo de regaço. Esta aceção parece exclusiva dos usos locativos do vocábulo, como sejam «no colo» ou «ao colo», bem como do emprego adjetival de «de colo» («criança de colo»).

Bem esclarecedores são Joan Coromines e José Antonio Pascual, no seu Diccionario Crítico Etimológico Castellano e Hispánico (2012), cuja proposta de descrição diacrónica da semântica de colo em galego é, afinal, também a do português2:

«El gallego colo, además de ‘cuello’, ha tomado el sentido de ‘regazo materno’ (Castelao 97.7), lo cual se explica por la locución trager o levar a colo ‘llevar a cuestas’ (también catalán portar a coll); ya aparece así en una CEsc. de Alfonso el Sabio (R. Lapa 31.8; «escud’a colo en que sêve un capon» 57.4; «tragía a seu colo hũa imagen d’almafí» Ctgs. 399.6); y como las mujeres suelen llevar a los niños a cuestas, y así aparece en otra ctga. («de trager, por seu pediolo, / o filio doutro no colo» CEsc. 106.6, 12, 18), o lo tienen en el regazo, se pasó de lo uno a lo otro [...].»2

[tradução: «O galego colo, além de "pescoço", tomou o sentido de "regaço materno (Castelao 97.7), o que se explica pela locução trager3 ou levar a colo "levar às costas (também em catalão portar a coll); já parece assim numa cantiga de escárnio de Afonso [X], o Sábio (R...

Em português, deve usar senhor (com maiúscula, para marcar deferência: Senhor), uma vez que já na Idade Média «senhor» era usado como vocativo. Note que sire era o «tratamento que se dava aos reis de França, senhores feudais, imperadores e outros personagens venerandos» (Dicionário Houaiss) e tem origem no «francês [medieval] sire (c. 980) "senhor, mestre", (c.1050) "título dado a um soberano", (c. 1165) "junto ao nome próprio, título de cortesia dado ao burguês (e depois aos homens do povo)", do latim senior, oris "mais antigo, mais velho"» (idem; os algarismos marcam a datação dos documentos em que ocorre a palavra).

Não foi possível identificar o momento em que perceber passou a significar «compreender, entender» no português de Portugal, uso que se ilustra, por exemplo, com exemplos de Miguel Torga e Júlio Dinis:

1. «Mal apareci em Sendim, intimou-me a comparecer na delegacia, para registar a carta e ser colectado. Tão ignorante que não percebeu o " villaregalensi " do latim. Sem uma palavra de boas-vindas, mesmo hipócrita, deixou-me partir.» (Miguel Torga, A Criação do Mundo)

2. «– Previ essas palavras, prima Madalena; por isso hesitei. Lamento sinceramente ter já perdido no uso do mundo uma tão simpática e adorável boa-fé nos outros, que é a maior prova de candura que se pode dar do próprio carácter.

D. Vitória não percebeu nada deste rápido diálogo; por isso exclamou:

– Mas que estão vocês aí a dizer? De quem falam? Eu, se vos entendo! » (Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais, 1868)

No entanto, é também possível detetar este uso em escritores brasileiros do século XIX:

3. «Félix sentiu pungir-lhe um remorso, e teve ímpeto de cair aos pés da bela viúva. Murmurou algumas palavras – que ela não percebeu ou não ouviu, até que o menino chamou a atenção de ambos, dizendo:

– Vamos, mam...