Carlos Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Carlos Rocha
Carlos Rocha
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Licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Linguística pela mesma faculdade e doutor em Linguística, na especialidade de Linguística Histórica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi leitor do Instituto Camões na Universidade de Oxford e no King's College de Londres. Professor do ensino secundário, coordenador executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pelo autor

As duas formas estão corretas.

Sobre a construção por + expressão nominal + fora1, não há dúvidas quanto à sua correção e observa-se que tem frequência significativa. No entanto, também ocorre suprimir a preposição, ficando a construção reduzida a expressão nominal + fora1, que aparece mais raramente, mas não está incorreta – pelo contrário, pois dá realce à expressão do movimento de forma bastante concisa. A mesma omissão é possível com outros advérbios com verbos de movimento e nomes que denotam as noções de caminho, passagem ou recinto: «foi pela casa dentro»2 vs. «foi casa dentro»; «foi pela ladeira acima» vs. «foi ladeira acima»; «veio pela rua abaixo» vs. «veio rua abaixo».

Há exemplos literários deste uso de fora, sobretudo da locução «estrada fora», isto é, «pela estrada fora», tanto entre escritores portugueses, como em autores brasileiros (abonações recolhidas no Corpus do Português, de Mark Davies; sublinhados nossos):

(1) «Por isso é que quando ela arrancava estrada fora, PUF.. PUF.. os rapazitos, aqueles diabos, corriam a acompanhá-la, rindo e acenando com os braços [...]» (José Cardoso Pires, A República dos Corvos, 1999)

(2) «Noite fora, duas, três vezes, não pôde impedir-se de verificar se lá continuava: de cada vez o mesmo sorriso e o mesmo gesto do dedo a rodopiar, convidando-a...

Não foi possível encontrar registo da forma em questão em fontes dicionarísticas, mas deve tratar-se de variante por deturpação de frenar, sinónimo de enfrear e travar, mas não de estacionar (a não ser que se conceba estacionar como parar).

Apesar de, para elaboração desta resposta, não se ter achado dicionário impresso ou digital que consigne o verbo em causa, uma busca Google permite detetar formas como "freinar" ou "freinou", interpretáveis como adaptação (aportuguesamento) do galicismo freiner, «travar» (sublinhado nosso):

(1) Vês aquela gentil chaffeur femenino que freinou agora mesmo o carro num gesto teatral e que pulou para o passeio?» ("As portas falsas do atelier de Madame Z", Repórter X. Semanário das Grandes Reportagens, n.º 32, 14/05/1932, pág. 12)

(2) «Freinou o carro no local indicado – mas C... F... não saiu.» ("Existe entre nós um individuo...", Repórter X. Semanário das...

Não se encontra atestação do uso de hífen com bem, quando este vocábulo ocorre como adjetivo com o significado de «pertencente às classes elevadas, da elite, de boa família».

Em contextos como «menino bem», «família bem», «gente bem», o que os dicionários registam é bem empregado como adjetivo invariável, portanto, sem flexão de número ou género (cf. dicionário da Porto Editora na Infopédia, Dicionário Priberam da Língua Portuguesa; Dicionário Houaissdicionário da Academia das Ciências de Lisboa, s.v. bem3).

Há também abonações para este uso de bem em fontes dicionarísticas do Brasil. É o caso de «gente bem», atestação que ilustra o uso de bem como adjetivo dos dois géneros e dos dois números, conforme registam o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (que diz ter sido «considerado galicismo pelos puristas») e a versão eletrónica do dicionário de Caldas Aulete. O Dicionário Michaelis também contempla esta aceção, abonando-a com a expressão «família bem», em que bem significa «que pertence à alta sociedade, que faz parte da elite, bem-nascido». Não confundir o emprego adjetival de bem com o da locução «de bem», que tem o significo de «correto, honesto, bom»: «homem de b...

No português de Portugal, não se recomenda a pronúncia "acròbata", isto é, com o aberto em sílaba pré-tónica. Existiu, contudo, a forma acróbata, pronunciando e escrevendo a palavra como esdrúxula, com o tónico aberto – não se trata de um erro, mas recuperá-la pode ser um preciosismo.

A forma que se impôs na pronúncia e na ortografia é acrobata – a qual soa "acrubata", palavra que tem -ba- como sílaba tónica, ou seja, rima com a forma verbal combata, constituindo, portanto, uma palavra grave ou paroxítona. Porém, ao longo da sua história, já se considerou que a palavra era esdrúxula, segundo nota etimológica no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (edição de 2001):

«[do] grego akróbatos, os, on "que anda na ponta dos pés", provavelmente por influência do francês acrobate (1751) "espécie de dançarinos na corda"; a influência do francês explica tanto a terminação em -a quanto a acentuação paroxítona; o grego postularia (diretamente) um português *acróbato, donde a recomendação purista de acróbata [...].»

Com efeito, acrescente-se, o filólogo português Gonçalves Viana, no seu Vocabulário Ortográfico e Remissivo da Língua Portuguesa (1913), registava as duas formas, colocando acróbata à frente de acrobata, sugerindo assim que es...

As duas opções estão corretas, atendendo aos critérios que defendem cada uma.

Mas, dado que se trata de um coletivo, até se poderia dizer e escrever «obrigados», no plural, ou, revelando preocupações com as questões da igualdade de género, «obrigadas e obrigados» (ou «obrigados e obrigadas»). Para simplificar, nada impede o uso de obrigado, atendendo a que esta palavra já é uma fórmula fixa, ficando de certo modo alheia às regras gerais da concordância. Na verdade, sobretudo neste caso, a ocorrência de obrigado torna-se mais natural do que o emprego de obrigada em referência ao coletivo turma.

Outras soluções para esquivar dilemas:

– recorrer à formulação «o nosso obrigado», ainda mais descomprometida com a questão da concordância, uma vez que aí se usa o nome obrigado, que é do género masculino;

– empregar a fórmula de agradecimento «bem haja», que é corrente no centro de Portugal e também pode aparecer como nome nesta outra fórmula: «o nosso bem-haja».