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Carlos Rocha
Carlos Rocha
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Licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e mestre em Linguística pela mesma faculdade. Foi leitor do Instituto Camões na Universidade de Oxford e no King's College de Londres. Professor do ensino secundário, é o editor executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pelo autor

A preposição usada é de facto de, e não sobre:

1. «Rastreios do cancro da pele e observação de sinais»

Compreende-se que seja de a preposição selecionada, uma vez que rastreio é verbo derivado de rastrear, que é verbo transitivo. Os substantivos derivados de verbos (deverbais) têm geralmente regência construída com a referida preposição.

No entanto, pode também ocorrer a:

2. «A importância do rastreio ao cancro da mama continua a ser muito ignorada pela maioria das mulheres [...]» (Diário de Leiria, 10/10/1997, in Corpus do Português)

Neste caso, a preposição selecionada deve-se ao facto de o uso de rastreio subentender «o rastreio (que é feito) a alguma coisa».

Nas fontes consultadas para elaboração desta resposta, não se acha «galeria de tiro» como termo da prática de tiro, muito embora a sua transparência seja de molde a interpretá-lo facilmente e até a prever-lhe já algum uso em Portugal.

Contudo, os termos que se encontram em documentos que regulam o tiro como modalidade desportiva são «complexo de tiro» e «carreira de tiro», sendo esta última expressão a que parece corresponder melhor a «galeria de tiro», se se pensar num espaço interior:

«Carreira de tiro» a instalação, interior ou exterior, funcional e exclusivamente destinada à prática do tiro com arma de fogo carregada com projéctil único; [...]» (cf. Regulamento técnico e de funcionamento e segurança dos complexos, carreiras e campos de tiro, art.º 1, Definições).

Para a elaboração desta resposta, não se encontrou explicação cabal da origem das expressões «ter um tacho», «arranjar um tacho» e outras semelhantes, em que tacho ocorre na aceção de «emprego muito bem pago mas pouco ou nada trabalhoso» (dicionário de português da Porto Editora, na Infopédia). No entanto, sendo tacho interpretável, por metonímia (ou melhor sinédoque), como «(toda) a comida», é de inferir que «ter o tacho» acaba por ser depois, por metáfora, o mesmo que «ter um privilégio por mera sorte ou sem grande merecimento». Estas observações são confirmadas pelo que, sobre tacho, Afonso Praça diz no seu Novo Dicionário de Calão (Lisboa, Casa das Letras, 2005; manteve-se a ortografia original):

«Diz-se de uma boa posição profissional (bem paga), insinuando por vezes que se chegou a ela de forma suspeita. [Aquele gajo é que arranjou um belo tacho, desde que se inscreveu no partido]; comida; refeição. [O que ganho é muito pouco, mal dá para o tacho]; [«(...) andava de redacção em redacção a espalhar artigos que às vezes não saíam porque, segundo ele, os gajos que estavam agarrados ao tacho faziam as suas manobras. (...), Dinis Machado, O que Diz Molero.]

O verbo deixar tem um alto grau de polissemia e, portanto, é natural que, entre os seus vários usos sintáticos, possam ocorrer certas interferências. No sentido de «dar, entregar», os dicionários de verbos (p. ex. Dicionário Houaiss) indicam que o destinatário é marcado como um objeto indireto, isto é, como um complemento introduzido pela preposição a, o que faz de «deixei à Joana recado à Maria» uma frase indiscutivelmente correta.

No entanto, há dois pontos a considerar:

1. Sobre a aceitabilidade de a preposição com poder substituir a na frase em questão, observe-se que, se o objeto direto for realizado por uma expressão nominal que refira uma pessoa, é correto empregar com, sendo o complemento preposicionado interpretável como o mesmo que «na companhia de»:

(a) « Também pensara que o menino se acabasse, morresse. Voltando para o Araticum, quis trazê-lo para junto de si. A mulher metera na cabeça deixá-lo com o padre. E que ele ficasse por lá mesmo» (José Lins do Rego, Pedra Bonita, 1938, in Corpus do Português).

Esta construção pode ser transposta de modo a realizar o objeto direto com um substantivo de denotação abstrata e o objeto indireto com um substantivo concreto aplicável a pessoas:

(b) «O senhorio perseguia-o; ele fugia e deixava com a mulher o encargo de explicar os atrasos» (Lima Barreto, Clara dos Anjos, idem).

Não se pode dizer que esteja errado este uso, não atestável em textos de Portugal a partir da consulta do Corpus de Portugu...

As línguas e as famílias de línguas têm padrões categoriais próprios e, portanto, cada qual pode revelar a sua lógica interna. Quer isto dizer que, no português, como noutras línguas românicas, sentir-se tem um se que não tem função reflexiva, tal como acontece em enervar-se, irritar-se ou lembrar-se. Nestes casos, os gramáticos e linguistas consideram que o se é antes a marca de um estado emocional ou de uma atividade mental se limitarem ao sujeito que os experimenta, fazendo os verbos perderem a sua transitividade.

Esta perda de transitividade fica patente, quando se observa que este se – que se pode chamar pseudorreflexo – não é totalmente compatível com o seu reforço por expressões como «a si próprio/mesmo», ao contrário do que acontece com os verbos verdadeiramente reflexos:

1. ? sinto-me bem a mim próprio

2. OK, lavo-me bem a mim próprio

Em 1, o ponto de interrogação indica que a conjugação pronominal de sentir-se mostra dificuldade em combinar-se com «a mim próprio», enquanto em 2 a mesma associação é totalmente aceitável, apontando para que apenas lavar tem um uso verdadeiramente reflexivo, isto é, um uso em que o agente da frase é também paciente da ação expressa pelo verbo. Além disso, note-se que 2 se presta a traduzir-se em inglês como «I wash myself» (pelo menos, em certos contextos1, se não se preferir «I shower/bathe», que parecem mais frequentes), enquanto «eu sinto-me» não encontra construção reflexa correspondente em inglês e transpõe-se nesta língua intransitivamente («I feel well/good»).

1 N. E. (3/...