Carlos Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Carlos Rocha
Carlos Rocha
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Licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Linguística pela mesma faculdade e doutor em Linguística, na especialidade de Linguística Histórica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi leitor do Instituto Camões na Universidade de Oxford e no King's College de Londres. Professor do ensino secundário, coordenador executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pelo autor

É preferível redoutrinar, derivado que tem por base o verbo doutrinar, genericamente «instruir numa doutrina», de tradição dicionarística mais sólida e mais contrastante com o inglês indoctrinate do que a forma endoutrinar.

A forma doutrinar é a forma com que o verbo em apreço tem entrada nos dicionários – por exemplo, no dicionário eletrónico da Porto Editora, no dicionário Priberam, no dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, no Grande Dicionário da Língua Portuguesa de José Pedro Machado, no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2001 e 2009), na versão eletrónica do dicionário Aulete e no dicionário Michaelis. Alguns destes dicionários também registam adoutrinar, e alguns outros (menos ainda) apresentam endoutrinar; mas trata-se de formas que remetem sempre para doutrinar, donde se infere que é esta a variante considerada mais corrente ou aquela a que se deve dar preferência. Esta concl...

Não é descabido manter o uso das expressões em questão. Na verdade, a palavra lume e as expressões que a incluam continuam a ser empregadas em alusão à atividades na cozinha, mesmo no contexto da promoção de placas elétricas ou outras. É o que se pode confirmar pelos textos de alguns sítios eletrónicos de fabricantes destes equipamentos; por exemplo:

(1) «Aquece mais depressa do que qualquer outro tipo de placa e o controlo preciso do nível de aquecimento permite alternar entre lume brando e lume forte num instante.» (sítio eletrónico da Electrolux)

Mas, querendo ir ao encontro de critérios de coerência com a realidade, é possível criar fórmulas que ainda não estão fixadas (lexicalizadas) na língua. Uma sugestão, com base no exemplo (1):

(2) «Aquece mais depressa do que qualquer outro tipo de placa e o controlo preciso do nível de aquecimento permite alternar entre baixa temperatura e alta temperatura num instante.»

Além de sulano, o vocábulo são-pedrense é outra forma legítima do gentílico correspondente a São Pedro do Sul. O mesmo não se pode dizer da grafia "sampedrense", que, apesar de enraizada no uso, deveria ser substituída por sã-pedrense, mais coerente com os princípios das normas ortográficas dos últimos cem anos. 

A respeito de gentílicos derivados de topónimos que incluem nomes de santos (hagiotopónimos), o Tratado da Ortografia da Língua Portuguesa (1947, págs. 130-131), do filólogo português Rebelo Gonçalves (1907-1982)1, atribuía a São Brás (de Alportel) o gentílico são-brasense, e à variante toponímica Sã Brás, a forma mais popular sã-braseiro, cuja grafia se devia preferir a "sambraseiro". Tomando este caso por modelo, infere-se que a grafia "sampedrense" também não se recomenda e que sã-pedrense constitui a grafia mais adequada ao gentílico derivado de Sã Pedro, esta, por sua vez, variante de São Pedro, donde provém a forma são-pedrense. Este raciocínio encontra apoio no Vocabulário da Língua Portuguesa (1966), também de Rebelo Gonçalves, que regista sã-pedrense como variante de são-pedrense, deixando entender que estas duas palavras são os gentílicos relativos aos t...

As construções em causa têm uso, conforme o consulente atesta, mas, tal como se apresentam, dificilmente se aceitam no contexto da norma-padrão. Procuremos justificar este juízo:

1. É possível que certos falantes produzam  uma sequência «esqueceu-se-me de fazer alguma coisa», mas as formas tidas como corretas são «esqueceu-me comprar o pão» e «esqueceu-me de comprar o pão», embora esta última pareça menos apreciada pela escrita literária, conforme descreve a Nova Gramática do Português Contemporâneo (p. 522) de Celso Cunha e Lindley Cintra. A construção «alguma coisa esquecer a alguém » é uma construção alternativa a «alguém esquecer alguma coisa» e «alguém esquecer-se de alguma coisa» (no Brasil, também é possível «alguém esquecer de alguma coisa», apesar da censura normativa – cf. ibidem). Consiste em tratar o verbo esquecer como o verbo agradar, que se usa de acordo com o esquema «alguma coisa agradar a alguém»: deste modo, assim como se afirma «agradou-me comprar pão», também se diz «esqueceu-me comprar pão», sem criar problemas à análise gramatical convencional.

Note-se, porém, que a construção com preposição – «esquecer a alguém de alguma coisa» –, que parece impessoal, já é de aceitabilidade mais discutível, pela dificuldade de a analisar de maneira coerente, de acordo com as regras sintáticas da língua padronizada. É ainda mais difícil aceitar a construção em que esquecer  ocorre não só impessoalmente mas também como verbo reflexo, segundo o esquema «esquecer-se a alguém de alguma coisa», que está subjacente...

O adjetivo propício, que tem o significado geral de «que tem as características adequadas e necessárias para; bom, favorável» (Dicionário Houaiss), constrói regência com ambas as preposições, a e para.

O uso destas preposições parece ter distribuição complementar: a ocorre antes de nomes ou expressões nominais, e para introduz orações reduzidas de infinitivo – se considerarmos o exame das abonações recolhidos por Francisco Fernandes, para o seu Dicionário de Regimes de Substantivos e Adjetivos (São Paulo, Globo, 1995; sublinhado nosso):

(1) «Em matéria lexicográfica, de índole tão delicada e sobretudo tão propícia a controvérsias, errar é facílimo.» (Mário Barreto, Através do Dicionário e da Gramática)

(2) «Rui era o orador,e a oportunidade foi propícia para iniciar o ataque contra Saraiva.» (Luiz Viana Filho, A Vida de Rui Barbosa)

Nota-se, contudo, que a preposição para ocorre também antes de expressão nominal, associação que nã...