Consultório - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
 
Início Respostas Consultório Campo linguístico: Transcrição Fonética
João Pedro Estudante Portugal 764

Tal como em ministro ("menistro"), vizinho ("vezinho"), feminino ("femenino"), etc., existe fenómeno de dissimilação em litígio ("letígio")?

Jorge Santos Técnico superior Lisboa, Portugal 1K

No fim do período de transição comecei a usar o Acordo Ortográfico de 1990 e, até hoje, que me lembre, no que se refere a consoantes mudas, só tive uma forte discordância com o estabelecido no Acordo: foi a palavra ceptro, em que eu sempre pronunciei o pê e sempre ouvi pronunciar o pê.

É claro também que a palavra ceptro é uma palavra sobretudo escrita e muito pouco dita. Ou seja, encontra-se em livros, jornais e revistas, mas usa-se pouco na oralidade. Lembro-me de que a aprendi com o Tintin em O Ceptro de Ottokar.

Em 20 de dezembro, a propósito da conquista do Mundial pela Argentina, ouvi na CNN a palavra ceptro com o pê bem pronunciado em: «Messi pegou no ceptro», para significar «a taça», ou algo assim.

Creio que, de acordo com as transcrições fonéticas constantes nalguns dicionários, o pê não é pronunciado mas, francamente, e de forma impressiva, acho que é. Já fiz o teste com vários amigos e a opinião largamente generalizada é a de pronúncia do pê. Num universo de umas 12 pessoas, a percentagem deve andar nos 80% a pronunciarem o pê contra 20% a não o pronunciarem.

É possível também que, justamente por ser uma palavra mais escrita que dita, possa ter havido alguma corruptela oral da prolação.

Podem esclarecer?

Obrigado.

J. Nogueira Professor Almada, Portugal 1K

Sabem se haverá algum nome para nos referirmos ao uso da vogal “a”, na oralidade, em “que sa lixe” («que se lixe»)? 

Raquel Santos Estudante Porto, Portugal 3K

Estou a ter alguns problemas para distinguir ditongos crescentes.

Poder-me-ão dizer se é uma situação normal, dado que são muito instáveis e que há quem os considere falsos ditongos. (Já vi quem defenda serem falsos ditongos, outros, porém, chamam-lhes falsas esdrúxulas. Não sei qual seria a designação apropriada.).

O problema é, no momento em que tenho de acentuar graficamente as palavras que os incluem, não sei porque tenho de aplicar a regra.

Como posso justificar a acentuação gráfica em palavras como: contrário, mágoa, tábua, nódoa, ténue, árduo, vácuo, polícia, côdea, cárie, aéreo? Ou a sua ausência em: lavandaria ou geometria?

Agradeço desde já a atenção e parabenizo o sítio do Ciberdúvidas e o vosso labor extraordinário. Bem hajam!

Lucas Tadeus Oliveira Estudante Mauá, Brasil 1K

Estava ouvindo a música Tempo Ruim de Mandi e Sorocaba, cantores paulistas da segunda década do século XX.Eis um trecho:

Eu pegava em dez mirréis
E surtia a minha casa
Pagava tudo vendeiro
Em nada eu atrasava
Quando era fim da sumana
Mantimento sobejava.

Vejam que semana está pronunciado como "sumana". Queria saber se é algo específico do Brasil ou se encontra – ou, no caso, já se encontrou –algo semelhante em Portugal.

Luciana Guimarães Linguista Salvador, Bahia, Brasil 18K

Estou curiosa para saber as possíveis pronúncias atestadas para a letra y em português europeu (somente).

Portal da Língua Portuguesa traz [transcrição fonética] IPA/AFI [ˈip.si.lõ], com vogal nasal no final da palavra como a pronúncia padrão e não padrão de Lisboa.

Eu e meu amigo estávamos discutindo se essa pronúncia estaria competindo com [ˈip.si.lɔn]. Qual a forma ensinada nas escolas em Portugal? Existe variação (que é o que me interessa realmente)?

Encontrei dois links relevantes:

1) https://youtu.be/-Zvp8jPSSSI?t=94

2) https://youtu.be/Jlhxs_s2oz0?t=84

São materiais portugueses usados para ensinar o ABC para crianças. As pronúncias são divergentes e para mim atestam variação linguística aceitável. Qual é a opinião dos senhores?

Muito obrigada!

Felipe Ferreira Analista de Hardware São Paulo, Brasil 44K

A minha dúvida gira em torno da expressão «benza-o Deus». Alguns dizem "benzadeus" coloquialmente, outros dizem, tal como encontrei em alguns sites de dúvidas, "benza ó Deus".

A minha pergunta é a seguinte: o que realmente significa esta expressão e qual dessas versões [apresentadas] é a  correta?

Uma outra dúvida é porque nenhuma leva [a] vírgula do vocativo. Por exemplo, "benza, ó Deus" e "benza-o, Deus". O "ó" junto ao vocativo também é correto se fosse preciso?

Maria Ribeiro Professora Porto, Portugal 5K

A propósito de um poema de Afonso Lopes Vieira, trabalhado com os alunos, gostaria que me esclarecessem relativamente à divisão de sílabas métricas do verso «Ó que lindo, os navios», se a vírgula é impeditiva da junção das vogais.

Obrigada.

Marcos Helena Estudante Lisboa, Portugal 9K

[A] propósito da definição, produção e percepção de ditongos, [recebi uma resposta vossa, com exemplos, que]* foi assaz taxativa: «Não sabemos de quem diga que não há ditongos em português.» Ora bem, a meu ver, os exemplos que o(a) prezado(a) consultor(a) listou mais não são que evidentes provas da impropriedade lexical que flutua em torno do conceito ditongo, o qual uso deturpado se generalizou. Em abono da verdade, o Dicionário da Língua Portuguesa – sem Acordo Ortográfico da Porto Editora define ditongo como sendo uma «sequência, numa sílaba, formada por uma vogal e uma semivogal». O verbete enciclopédico da Infopédia vai mais longe, afirmando que o vocábulo inglês fire se pronuncia [‘fajE].

Claro que estas afirmações incorrectas só podem vingar numa língua em que não existem verdadeiros ditongos, mas tão-somente combinações de vogal + semivogal. Nesta linha de pensamento, acresce citar duas fontes: uma informal, extraída de um fórum em linha (1), e outra formal, extraída do Précis de phonétique historique, de Noëlle Laborderie (2).

(1) «Ditongos em diferentes línguas? ■ Eu queria tirar uma dúvida: na língua portuguesa, os ditongos são formados pelo encontro de uma vogal + uma semivogal. em [sic] inglês e em outras línguas germânicas, por exemplo, os ditongos, por sua vez, são formados pelo encontro de duas vogais, sendo a mais forte o núcleo silábico. Foneticamente, existe alguma diferença entre os ditongos formados com as semivogais [j] e [w] e as vogais fracas [i] e [u]?»

(2) On remarque que y se vocalise (devient voyelle) en iꞈ diphtongal, c’est-à-dire un i qui n’est pas centre de syllabe (…).

N.B. – Noëlle Laborderie utiliza o Alfabeto Fonético de Bourciez nas suas transcrições, em oposição com as restantes fontes já citadas.

Conclui-se, pelos exemplos dados, que pronunciar [aj] não é o mesmo que pronunciar [aiꞈ], pois só a última transcrição é um ditongo. Para além do mais, em algumas evoluções fonéticas do latim para o francês, dá-se conta da fase em que o encontro de sons era um ditongo e daquela em que, pela consonantização de um dos elementos desse encontro, passou a ser uma sequência de vogal + semivogal.

Para concluir, não podia deixar de transcrever algumas correctas definições de ditongo, bem como a certa transcrição fonética de fire – /ˈfʌɪə/ (in Oxford Dictionaries).

Oxford «■ a sound formed by the combination of two vowels in a single syllable, in which the sound begins as one vowel and moves towards another (as in coin, loud, and side).»

Larousse «■ Voyelle complexe dont le timbre se modifie graduellement une fois au cours de son émission (par exemple en anglais [ei] day, [ou] nose ; en allemand [au], Haus ; en
espagnol [ue] muerte; en italien [uo] cuore). [En français moderne, il n’existe plus de diphtongues : les graphies eu, au, ou correspondent à des voyelles simples [ø], [o] et [u].]»

[...]

* N. E. – O consulente refere-se a uma resposta que lhe foi enviada diretamente, sem ter sido posta em linha no consultório.

João Tapada Revisor Sesimbra, Portugal 10K

Li em tempos, julgo que aqui nas Ciberdúvidas, que o som /x/, em palavras provenientes de línguas que não usam o alfabeto latino, se deve grafar x, e não ch. Assim, a palavra que em inglês se escreve shisha, que provém do persa (designação de um tipo de tabaco e, por extensão, do cachimbo de água com que é fumado), não deverá em português escrever-se "xixa", e não "chicha", como encontro em algumas páginas da Internet?

Gostava ainda, caso a primeira asserção esteja correcta, que me indicassem bibliografia para o mencionado preceito de transcrição.

Muito grato pela atenção.