A métrica em «Ó que lindo, os navios» (poema de Afonso Lopes Vieira) - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
A métrica em «Ó que lindo, os navios»
(poema de Afonso Lopes Vieira)

A propósito de um poema de Afonso Lopes Vieira, trabalhado com os alunos, gostaria que me esclarecessem relativamente à divisão de sílabas métricas do verso «Ó que lindo, os navios», se a vírgula é impeditiva da junção das vogais.

Obrigada.

Maria Ribeiro Professora Porto, Portugal 42

Não cremos que a vírgula instale uma rutura na junção destas vogais átonas, uma vez que, ao pronunciá-las, as juntamos numa só sílaba e esse é o fator que determina a divisão da métrica. Fundem-se conforme a pronúncia corrente (o que constitui a sinalefa)É a fonética que define o critério da contagem das sílabas métricas, a que se chama escansão do verso.

O verso tem, assim, 6 sílabas métricas «Ó /que / lin /do, os/ na /vi / os». 

Para haver a ocorrência de hiato, tinham de estar presentes duas vogais tónicas lado a lado, não podendo haver contração das duas, ou seja, mantêm-se em sílabas independentes, ainda que uma das sílabas tónicas enfraqueça. O hiato diminui a fluidez do verso, razão que leva os autores a evitá-lo (Ex.: di/rá / ao ).

Exemplificamos com um soneto de Camões, de versos decassílabos, o que dissemos acima. Veja-se o 1º verso, com vírgula  a separar as  vogais átonas a e a e que as elide numa sílaba métrica: De/ quan/ tas/ gra/ ças/ ti/ nha, a/ Na/ tu/ re/ za

As duas sílabas gramaticais /nha, a/ podem ser pronunciadas numa única emissão de som e a vírgula não o impede, nem as separa como nas sílabas gramaticais.

De quantas graças tinha, a Natureza

Fez um belo e riquíssimo tesouro,

E com rubis e rosas, neve e ouro,

Formou sublime e angélica beleza.

 

Pôs na boca os rubis, e na pureza

Do belo rosto as rosas, por quem mouro;

No cabelo o valor do metal louro;

No peito a neve em que a alma tenho acesa.

 

Mas nos olhos mostrou quanto podia,

E fez deles um sol, onde se apura

A luz mais clara que a do claro dia.

 

Enfim, Senhora, em vossa compostura

Ela a apurar chegou quanto sabia

De ouro, rosas, rubis, neve e luz pura.

 

Fonte: Amorim de Carvalho, Tratado de Versificação Portuguesa, Edições Almedina,1991, Lisboa

 

N.E.– O poema referido na pergunta  é o seguinte:

Bartolomeu Marinheiro

Era uma vez
um capitão português
chamado Bartolomeu
que venceu
um gigante enorme e antigo.
Bartolomeu, em menino
pequenino,
ia para o pé do mar...

e ficava a olhar
o mar...
E Bartolomeu cismava...
Ó que lindo, ó que lindo,
o mar, e a sua voz profunda e bela!
Uma nuvem no céu, era uma caravela
que novos céus andava descobrindo...

Ó que lindo, os navios,
que vão suspensos entre a água e o céu,
com velas brancas e mastros esguios,
e com bandeiras de todas as cores!
Bartolomeu cismava
porque ouvia
tudo o que o mar contava
e lhe dizia.

 Afonso Lopes Vieira (1912)

Maria Eugénia Alves
Campos Linguísticos: Transcrição Fonética