DÚVIDAS

O predicativo do sujeito em «está bem onde não cabe»
Recentemente, foi lançado um álbum (de Ricardo Ribeiro) intitulado A alma só está bem onde não cabe. Curiosamente, lembrei-me logo de um verso de uma música mais antiga, de António Variações: «só estou bem aonde não estou». Gostaria de saber qual a função sintática das respetivas orações subordinadas substantivas relativas («onde não cabe» / «aonde não estou»). Pergunto isto porque o verbo estar tanto pode selecionar predicativos do sujeito com valor de estado (neste caso «bem») como com valor locativo/espacial («onde não cabe»), o que abre a possibilidade de estarmos na presença de dois predicativos do sujeito. Tentando explicar o cerne da minha dúvida, importaria analisar outras frases: 1) Ele está bem. O constituinte «bem» é predicativo do sujeito. 2) Ele está em casa. O constituinte «em casa» é predicativo do sujeito. Pesquisei e não encontrei frases com dois predicativos do sujeito a não ser quando separados por e. Exemplo: 3) «Ele está bem e em casa.» Mas aqui compreende-se, pois parece existir uma elipse: «Ele está bem e [ele está] em casa.» Ou em «Ele está feliz e calmo» («Ele está feliz e [ele está] calmo»). Ora, semanticamente, «Ele está bem em casa» é diferente de «ele está bem e em casa», pois no primeiro caso subentende-se uma relação “simbiótica” entre as tuas predicações, inseparáveis uma da outra. Assim, estas frases deveriam ser analisadas de forma diferente? Um dos constituintes seria modificador ou complemento oblíquo e o outro predicativo do sujeito? A questão é como fazer essa escolha. Concluindo, queria apenas que me esclarecessem se na frase em apreço («A alma só está bem onde não cabe») estamos perante a presença de dois predicativos do sujeito («bem» e «onde não cabe») ou se existe outra análise possível. Parabéns ao Ciberdúvidas.
Conjugação verbal e verbos auxiliares
Vejo sempre em livros o ensino de conjugação dos tempos composto com o auxílio do verbo ter . Ex.: «Tenho estudado bastante.» Nunca vi, todavia, exemplos com o verbo vir , apenas na linguagem falada do dia a dia. Ex.: «Venho estudando bastante nos últimos dias.» Assim, gostaria de saber se esta última construção é abrangida pela norma culta ou é fruto de coloquialismo. Desde já agradeço pelo apoio de sempre!
O valor imperfetivo de «começou a fazer...»
Gostaria que me esclarecessem quanto ao valor aspetual configurado no seguinte enunciado: «O João começou a fazer os trabalhos de casa depois do almoço.» A minha dúvida prende-se com o valor aspetual presente no complexo verbal «começou a fazer». Por um lado, parece poder ser imperfetivo; mas a utilização do pretérito perfeito deixa-me a pensar se deverá ser considerado perfetivo. Obrigado.
«Estar diretor» x «ser diretor»
Ultimamente, tenho visto em textos a construção «estou diretor», em vez de «sou diretor», buscando exprimir que o cargo de diretor é transitório: hoje, ele "está" diretor, mas amanhã já poderá não "estar" mais (pode ser despedido). Esse uso também procura demonstrar humildade do sujeito, como se a posição pudesse ser ocupada por qualquer um, que assim "estará" nela. Essa substituição do verbo ser pelo verbo estar é válida e correta? Nessa situação, o verbo estar deve ser seguido por uma preposição específica ou pelo advérbio como (na função de preposição acidental, por exemplo, «estou como diretor»)? Outra informação: no Houaiss, na acepção 1.2, o verbo ser é explicado como «[...] pred. ter ou apresentar-se em determinada condição ou situação, permanente ou temporária». Há alguma bibliografia que eu possa consultar para verificar a questão da diferença de usos dos verbos ser e estar nesse contexto?
«Estive a ler» (perfeito) vs. «estava a ler» (imperfeito)
Podia dizer-me a diferença entre «estive a ler durante 2 horas» e «estava a ler durante 2 horas», do ponto de vista do significado? Para mim, são frases idênticas, porque na combinação de «estar a» + infinitivo há um aspeto de continuidade e, embora estive não seja um verbo na forma do imperfeito («estive a» infinitivo), a frase tem um sentido de duração, pois o verbo não precisa de estar na forma do imperfeito para transmitir a continuidade da ação. E, formulando a questão de outra forma: 1. Estava a ler quando a Maria chegou 2. Estive a ler quando a Maria chegou Há alguma diferença entre as duas frases do ponto de vista do significado?
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