Rimas interpolada e emparelhada
Venho pedir a vossa ajuda quanto à classificação de tipos de rima consoante os esquemas rimáticos.
Assim:
1) ABBA. Neste esquema considera-se que existe apenas rima interpolada, ou é igualmente defensável a ideia de que temos rima interpolada nos As (A_ _A) e emparelhada nos Bs (_BB_)?
2) ABCA. Aqui podemos considerar rima interpolada (A_ _A), ou o facto de os dois versos do meio apresentarem rima diferente (B distinto de C) invalida essa classificação?
3) ABBACC Podemos considerar aqui, além da rima interpolada (ABBA) uma rima emparelhada (CC)?
Ou, para ser emparelhada têm de existir necessariamente pelo menos dois pares (ou trios) iguais seguidos (CCDD ou CCCDDD)?
Finalmente, pergunto se a mudança de estrofe invalida a continuidade de uma sequência rimática. (Por exemplo em dois tercetos com a sequência ABB ABB, podemos considerar rima interpolada nos As)?
Analisei várias respostas do Ciberdúvidas a estas questões, não tendo ficado inteiramente esclarecido. Gostaria também de saber se existem regras definidas ao nível do Ensino básico e secundário, ou se, pelo contrário, várias interpretações são possíveis.
Agradeço ao Ciberdúvidas, parabéns pelo vosso trabalho.
Massudo e maçudo
Na frase «O autor fica com raiva porque a inspiração varia; por isso, prefere aviar pastéis a escrever textos massudos», em que o texto é metaforicamente visto como um pastel pesado e compacto, deve escrever-se "massudos" ou "maçudos"?”
«Deste lado» vs. «neste lado»
1) Estou deste lado.
2) Estou neste lado.
Qual opção é a gramaticalmente correta e esteticamente bonita?
E por quais motivos também no caso?
Muitíssimo obrigado e um grande abraço!
Ambiguidade de mais: «e mais jogou bola na vida»
Li a seguinte manchete: «Neymar mostra rua no litoral de SP onde deu o 1° beijo e mais jogou bola na vida.»
Algo soa estranho na frase. Creio que isso se dê por conta da ausência de um segundo onde antes de «mais jogou bola na vida».
Gostaria de saber se a construção - como vai no jornal - está correta ou, caso não esteja, se há forma mais clara e agradável de escrevê-la.
Obrigado.
Paradoxo vs. oxímoro
Agradecia que, se possível, me pudessem esclarecer quanto à diferença entre oxímoro e paradoxo.
O que eu achava que sabia: a antítese apresenta uma oposição entre dois termos sem contradição lógica e o paradoxo ou oxímoro combinam essa mesma oposição com uma contradição lógica evidente. Ou seja, nunca distingui paradoxo de oxímoro ou, se quisermos, encarei sempre o oxímoro como outra palavra, mais apropriada em contexto literário ou estilístico para o termo paradoxo, este mais filosófico e abrangente.
Mas eis então o que consta no dicionário terminológico e que me sobressaltou:
“Oxímoro: Figura retórica de pensamento que associa duas palavras com significados logicamente opostos ou incompatíveis. Tem afinidades com o paradoxo e com a antítese, mas, enquanto esta figura encerra uma oposição lógico-semântica, o oxímoro é uma associação de palavras contrária à lógica. “Aquela triste e leda madrugada”“ (Camões).
Paradoxo: Figura retórica de pensamento que consiste em associar construções semânticas que aparentemente são contraditórias, irreconciliáveis e absurdas, mas que podem iluminar, de modo inédito e surpreendente, o significado do real e da vida. “Muito estranho é ver as pontes / por sob os rios correr / mais ainda ouvir as fontes / sua própria água sorver” (Manuel Alegre).”
Ora, fiquei confuso. Pareceu-me que o critério de distinção é obscuro e, nessa medida, concentrei-me nos aspetos formais da distinção, procurando alguma iluminação: o oxímoro referir-se-ia “à oposição de “palavras”, enquanto o paradoxo sinalizaria a oposição entre “construções semânticas”. Isto significaria que em frases como “na sala reinava um silêncio ensurdecedor” estaríamos perante um oximoro, enquanto noutras construções como “na sala os miúdos estavam tão calados que se faziam ouvir de forma ensurdecedora”, já se exprimiria um paradoxo? Estranhei, pois, nesse sentido, podemos definir oxímoro como uma versão condensada do paradoxo e o paradoxo como um desdobramento ou expansão do oxímoro, o que me parece curto para distingui-los como recursos expressivos.
Não satisfeito, revisitei algumas publicações do Ciberdúvidas que, na sua maioria, estão de acordo com a minha intuição inicial (oxímoro e paradoxo são termos intercambiáveis no contexto das figuras de estilo). A explicação dominante é que o oxímoro constitui uma espécie de versão estilística ou literária do paradoxo. Assim, por exemplo “andar sem sair do lugar” é um oxímoro ou paradoxo literário, “hipocrisia tão santa” (apesar da condensação) é considerado um paradoxo, sendo que, noutra publicação, oxímoro é considerado apenas um «aproveitamento estilístico de um paradoxo».
Continuei a minha busca e consultei quatro gramáticas, tendo notado que uma delas (Cristina Serôdio, Dulce Pereira, Esperança Cardeira e Isabel Falé, Nova Gramática didática de português, conforme o dicionário terminológico, Santillana, 2011, pg 300) apenas inclui o oxímoro, considerando-o uma figura retórica que expressa um paradoxo (portanto, não há distinção), sendo que nas outras aparecem como recursos expressivos distintos, essencialmente baseadas na tal distinção palavras/frases, seja oposição lógica entre palavras (“choro e rio”) versus oposição lógica entre construções semânticas (“dói e não se sente”) (M.ª Carmo Azevedo Lopes et al. Da Comunicação à Expressão. Gramática Prática de Português, Raiz editora. 2022, pag 424/425 –), ou na oposição lógica entre termos (“um grito de silêncio”) versus oposição lógica entre construções semânticas (“tornar o fogo frio”) (Vasco Moreira e Hilário Pimenta, Gramática de Português, Porto Editora, 2017, pg 293/294), ou ainda na oposição lógica entre palavras (“disseram o indizível”) versus oposição lógica entre frases (Zacarias Santos Nascimento e Maria do Céu Vieira Lopes, Domínios. Gramática da Língua Portuguesa, Plátano Editora, 2011, pg 338/339 - note-se que aqui a terminologia usada na distinção concetual é a mesma que a do DT). Concluindo, não descortino nenhuma diferença semântica entre as duas figuras de estilo nem na definição do DT nem nas das diversas gramáticas, mas apenas em algumas uma diferença formal (distinção palavras/frases).
O problema é que o dicionário terminológico opera a distinção. Independentemente de considerarmos a fundamentação mais ou menos arrazoada, importaria perceber os motivos que levam o DT a fazê-lo, de modo a compreendermos o critério operativo em exercícios concretos.
Agradecendo antecipadamente, gostaria da vossa ajuda para, parafraseando a definição de paradoxo do DT, nos iluminarmos, surpreendentemente ou não, sobre o verdadeiro alcance desta distinção.
Pelo no começo de oração de infinitivo (arcaísmo)
Na tradução de António Feliciano de Castilho (1800-1875) das Metamorfoses, no episódio de Io, há essa passagem:
«Olha em torno de si, não vê o esposo; e suspeitosa, pelo haver colhido já vezes cento em amorosos furtos, não o achando nos céus, — Ou eu me engano, ou lá me agravam — diz.»
Parece que pelo aqui é per mais o pronome o, e não o artigo definido o. Isso é possível? Ou seria melhor "pelo o haver colhido"?
Obrigado.
Monóstico
O monóstico deve ser, ou não, considerado para efeitos de esquema rimático e tipos de rima? Sempre achei que sim, mas há manuais escolares que o desconsideram, sobretudo quando os versos são soltos.
A origem do nome Iracema
Qual a origem (etimologia) do nome próprio Iracema, muito usado pelo Brasil?
Muitíssimo obrigado e um grande abraço!
Rima dos tercetos de um soneto
Num soneto de Camões, com o esquema ABBA ABBA, e CDE, CDE, como classifica a rima nos tercetos?
Sempre pensei que seria cruzada, e já vi em manuais apontando para esta, mas agora , também acho interpolada.
Podem ajudar-me?
Obrigada.
«Que morreu D. Sebastião» (Mensagem, Fernando Pessoa): análise sintática
Os dois últimos versos do poema “O Quinto Império” do livro Mensagem, de Fernando Pessoa, suscitam-me algumas dúvidas, tanto semântica como sintaticamente.
Ora, os dois versos são:
«Quem vem viver a verdade/Que morreu D.Sebastião?»
Por seu turno os versos anteriores desta quintilha são:
«Grécia, Roma, Cristandade, /Europa – os quatro se vão/ Para onde vai toda a idade»
Achei curiosa a musicalidade do verso «Quem vem viver a verdade», que junta a assonância do e e a aliteração do v.
Contudo, a minha dúvida prende-se com a classificação da oração «Que morreu D.Sebastião».
Terá um valor restritivo (que tipo de verdade é essa: a verdade que é [consiste no facto de] ter morrido D.Sebastião/ o facto que é ter morrido D.Sebastião), ou de complemento (que facto é caraterizado como verdadeiro, ou seja:«É verdade que morreu D.Sebastião/ Que morreu D.Sebastião é a verdade»), ou de explicação (o motivo do apelo para viver a verdade [do quinto império] é a constatação da morte física de D.Sebastião, ou seja: «quem vem viver a verdade, já que morreu D.Sebastião»)?
Assim, a oração em causa será adjetiva relativa restritiva, substantiva completiva, ou coordenada explicativa?
Ainda assim, nenhuma das hipóteses que avancei parece ser inteiramente coerente com o sentido global do poema e da obra. O contexto é o da crença na perenidade do espírito de D. Sebastião, apesar da sua morte física em Alcácer Quibir, e na necessidade de fundar o tal quinto império, posto que os outros quatro já terminaram.
Talvez nos queira transmitir o poeta que devemos assumir a morte física do Rei para acreditarmos na sua presença espiritual?
Bem sei que a poesia dá azo a uma grande maleabilidade semântica e sintática, mas gostaria de ter a vossa opinião.
Parabéns a toda a equipa do Ciberdúvidas pelo vosso excelente trabalho.
