O verbo usar e o modificador do grupo verbal
Na frase «O vapor é inglês, usam-no para atravessar o Atlântico», o segmento «para atravessar o Atlântico» classifica-se como modificador do grupo verbal, ou trata-se de um complemento oblíquo?
Agradeço a vossa ajuda sempre oportuna.
Processos de coesão, correferência não anafórica
Quais são os processos de coesão?
Ainda se fala de correferência não anafórica?
Obrigada.
A expressão «como se fosse ontem»
Venho perguntar qual a forma correta de se dizer a seguinte expressão:
«Lembro-me como se fosse ontem...», ou «lembro-me como se fosse hoje...»
O significado de aceiro na toponímia
Qual a significação da palavra aceiro na designação de ruas?
Na Margem Sul [na região de Lisboa], já encontrei exemplos do referido uso da palavra: veja-se «Aceiro Francisco Silvestre», nos arredores de Pinhal Novo. Quer dizer que houve lá uma clareira?
Obrigado.
A locução conjuntiva adversativa «só que»
Comumente, ouço construções do tipo «fiz de tudo pra te ver, só que não deu tempo». Obviamente, vemos que tal locução substitui a conjunção porém ou outra qualquer adversativa.
Assim, gostaria, por gentileza, de saber se algum gramático já incluiu referida expressão em lista de conjunções?
Oração condicional contrafactual e imperfeito do conjuntivo
Gosto muito do Rúben Amorim e vejo todas as conferências de imprensa dele.
Tenho uma dúvida sobre uma frase que ele disse hoje, ou seja (minuto 10:32, Youtube):
«O contexto é completamente diferente. Quando jogámos aqui, acho que tínhamos os mesmos pontos ou, se o Porto ganhasse, apanhava-nos na classificação.»
Tendo em conta que foi um evento relativo ao passado e hoje não poderia acontecer, não deveria ter dito: «Se o Porto tivesse ganhado, ter-nos-ia apanhado/tinha-nos apanhado na classificação»?
Obrigado.
Valores de pois
Antes de qualquer coisa, quero aqui expressar meus agradecimentos aos responsáveis pelo sítio, bem como aos seus colaboradores, pois muitas vezes foi somente aqui que consegui obter esclarecimentos para várias dúvidas acerca do nosso querido português.
A pergunta é em relação ao uso da conjunção pois em início de frase, que em minha vasta pesquisa, inclusive aqui neste sítio, trouxe-me respostas que afirmam não ser possível tal uso. Contudo, transcrevo aqui dois exemplos de Machado de Assis, dentre muitos que encontrei na obra deste autor, os quais atestam esse tipo de uso:
Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, capítulo 15:
«Primeira comoção da minha juventude, que doce que me foste! Tal devia ser, na criação bíblica, o efeito do primeiro sol. Imagina tu esse efeito do primeiro sol, a bater de chapa na face de um mundo em flor. Pois foi a mesma coisa, leitor amigo, e se alguma vez contaste dezoito anos, deves lembrar te que foi assim mesmo.»
Quincas Borba, capítulo 6:
«– Humanitas é o princípio. Há nas coisas todas certa substância recôndita e idêntica, um princípio único, universal, eterno, comum, indivisível e indestrutível, — ou, para usar a linguagem do grande Camões: Uma verdade que nas coisas anda, Que mora no visíbil e invisíbil. Pois essa substância ou verdade, esse princípio indestrutível é que é Humanitas. Assim lhe chamo, porque resume o universo, e o universo é o homem. Vais entendendo?»
[O Dicionário Houaiss regista o uso de pois com o valor adversativo: «1.3 conj.advrs. introduzindo o segmento que denota basicamente uma oposição ou restrição ao que já foi dito; mas, porém, no entanto ‹– Você está tranquilo? P. eu estou na maior ansiedade› ‹afirmava que a tudo se afeiçoara, p. qual o motivo da partida antecipada?›»]
[Contudo], nos dois exemplos de Machado que transcrevi, o pois em ambos os começos de frase não poderiam, de maneira alguma, ser trocados por mas [...], visto que se fosse feita a alteração, as frases deixariam de fazer sentido no contexto em que estão inseridas.
Se o pois no começo de frase funciona como conjunção coordenativa explicativa ou subordinativa causal, ou de alguma outra forma, não saberia dizer com certeza [...].
Transcrevo aqui mais exemplos deste tipo de uso do pois, de dois escritores acima de qualquer dúvida, para corroborar minha "tese":
Prefácio de Sagarana, escrito por Paulo Rónai em 1946.
«As nove peças que formam o volume Sagarana continuam a grande tradição da arte de narrar. O gênero peculiar do autor é, aliás, a novela, e não o conto. A maioria das narrativas reunidas no livro são novelas, menos por sua extensão relativamente grande do que pela existência, em cada uma delas, de vários episódios – ou “subistórias”, na expressão do escritor –, aliás sempre bem concatenados e que se sucedem em ascensão gradativa. O gênero, em suas mãos, alcança flexibilidade notável, modifica-se conforme o assunto, adapta-se às exigências do enredo. Pois esta maleabilidade é justamente uma das características da novela moderna.»
Entendo que a conjunção em destaque poderia ser substituída pela conjunção porque ou «visto que», porém, certamente, não cabe a substituição por mas [...].
Livro Sagarana, autor Guimarães Rosa, novela “Duelo”:
«– Você conhece o Turíbio Todo, o seleiro, aquele meio papudo?... Pois é um... (Aqui, supostas condições de bastardia e desairosas referências à genitora.)
Apesar do uso da reticência, como o pois vem depois de ponto de interrogação, necessariamente está começando uma frase e, novamente, não caberia a substituição por mas [...].
Livro Sagarana, novela “Minha Gente”:
«– Que é que você está olhando, José?
É o rastro, seu doutor... Estou vendo o sinal de passagem de um boi arribado. A estrada-mestra corta aqui perto, aí mais adiante. Deve de ter passado uma boiada. O boi fujão espirrou, e os vaqueiros decerto não deram fé... Vigia: aqui ele entrou no cerrado... Veio de carreira... Olha só: ali ele trotou mais devagar...
– Mas, como é que você pode saber isso tudo, José? – indagou Santana, surpreso.
– Olha ali: o senhor não está vendo o lugarzinho da pata do bicho? Pois é rastro de boi de arribada. Falta a marca da ponta. Boi viajado gasta a quina do casco... Eles vêm de muito longe, vêm pisando pedra, pau, chão duro e tudo... Ficam com a frente da unha roída... É diferente do pisado das reses descansadas que tem por aqui...
Acima, novamente, não poderíamos fazer a substituição [por mas]?
Referência a seleção de textos de um mesmo autor
Estou a fazer um trabalho académico, e tenho uma dúvida acerca do modelo correto para a Secção Bibliográfica.
Para ser mais prático:
Tenho um nome (Henry David Thoreau), e título (Walden): costumo escrever Thoreau, Henry David, Walden.
Mas, agora, surgiu uma coletânea, com as suas citações. Posso escrever Thoreau, Henry David, The Quotable Thoreau...?
A minha dúvida é que esse livro, embora seja com citações de Thoreau, é editado (com autorização) das várias obras de Thoreau.
Muito obrigado.
Anáfora, enumeração, repetição
Gostaria de saber que recursos expressivos estão presentes nas seguintes frases, retiradas da obra Vanessa vai à luta de Luísa Costa Gomes (texto dramático):
1) «Oh, pobre de ti... nem um par de jeans... nem uma camisolinha de caxemira... nem um par de sabrinas douradas...»
2) «Que fixe! [...] Obrigada Pai! Obrigada Mãe! Obrigada Rodrigo! Que bom dia de anos! Que grande festa!»
Eu penso que tanto na 1.ª como na 2.ª existe uma anáfora. Na 1.ª, a anáfora é relativa à repetição do vocábulo nem, e na 2.ª a anáfora deve-se à repetição do que.
No entanto, parece-me que na frase 1 podemos assumir que existe igualmente uma enumeração, neste caso, de peças de roupa que a personagem não tem para vestir. No caso da frase 2, não sei se existe mais algum recurso para além daquele que já referi previamente.
Por fim, gostaria de esclarecer uma dúvida: existe algum recurso expressivo denominado repetição e, se sim, como se distingue da anáfora?
Obrigada pela vossa atenção!
Fico a aguardar uma resposta!
Obrigada.
A expressão «sendo que»
Li uma explicação vossa acerca da expressão «sendo que», que também me parece ser um outro "bordão linguístico" questionável.
Na frase apresentada, é aceitável que se use tal expressão? É que não estou a associá-la a um valor de causa...
«As pessoas confundem amor e paixão, SENDO QUE são coisas diferentes.»
Obrigado.
