DÚVIDAS

A frase bíblica «Eu sou o pão vivo, que desci do céu»
A frase «eu sou o pão vivo, que desci do céu» [João 6, 51] soa-me sempre mal, mas fico na dúvida se em português é possível fazer esta construção ou se, pelo contrário, seria obrigatório que o verbo da oração relativa ficasse na terceira pessoa, concordando com o antecedente do relativo – «o pão vivo». Fico com a ideia de que em latim, por exemplo, esta frase não resultaria problemática porque o que declinado indicaria a sua relação com o eu da oração subordinante, equivalendo a «eu, que desci do céu, sou o pão vivo», sendo então esta a única formulação em português que se poderia aceitar como correcta, obrigando a que o relativo esteja mesmo sempre a seguir ao seu antecedente. É assim?   N. E. (07/04/2020) – Manteve-se a forma correcta, que é da norma anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.
A concordância temporal de e faz na frase «não trabalhava...»
Carlos Nougué em sua Suma Gramatical da Língua Portuguesa escreve: “ «"Não trabalhava faz dois anos" nem remotamente nos soa correta. E, no entanto, tão incorreta como "Não trabalhava faz dois anos" é "Não trabalhava há dois anos". Pois bem, use-se o verbo fazer ou o verbo haver, não se infrinja nunca o devido paralelismo ou correspondência verbal, e escreva-se corretamente: "Não trabalha há/faz dois anos" ou "Não trabalhava havia/fazia dois anos".» Apesar de clara, a explicação não contém tantos exemplos. Fiquei, portanto, com certas dúvidas. Estariam corretas construções como estas – «Aquelas ideias já foram esquecidas há tempos» e «Estive nos Estados Unidos há dois anos»–, porquanto Nougué prefere, por exemplo, «Decorreram dois anos que se casaram» a «Há/Faz dois anos que se casaram», considerando esta última como figura anômala? Obrigado.
Concordância adjetival com nomes de géneros diferentes
(«As obras e o respetivo valor»)
Uma questão de importância; corrija-me se estiver errado. «As obras e seu respectivo valor haviam de ser avaliados» (avaliadas as obras, como também o valor; não havendo ambiguidade na sentença) ou «As obras e seu respectivo valor haviam de ser avaliadas» (avaliadas só as obras)? Nesse caso, havendo a possibilidade de se subentender que seriam avaliadas as obras e o valor, haveria então ambiguidade, cabendo ao leitor interpretar o contexto? ) [creio que nessa sentença o termo «avaliadas» só pode se referir a «obras»]. Uma questão de importância do termo a concordar, ou uma restritiva de concordância? Agradeço logo pela resposta. E parabenizo mais uma vez esse belíssimo trabalho do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa.
«Faltar alguma coisa para...»
Frases a ter em conta: (1) Faltavam alguns dias para a Ana casar. (2) Só lhe falta ser benzida para que a ponham num altar. Vi, num trabalho em linha, os constituintes «alguns dias» (frase (1)) e «ser benzida» (frase (2)) classificados como «complemento direto». Não serão antes o «sujeito» do verbo «faltar»? No mesmo texto, classificava-se como subordinadas adverbiais finais as orações introduzidas por «para», nas frases acima transcritas. Afigura-se-me equívoca esta classificação, porque: 1. as orações iniciadas por «para» não me parecem ser modificadores da oração subordinante; 2. é o verbo «faltar» que rege a preposição «para» (à semelhança de esforçar-se para),. As orações «para a Ana casar» (frase 1)) e «para que a ponham num altar» (frase 2)) não são antes subordinadas substantivas completivas, com a função de complemento oblíquo? Parabéns pelo excelente serviço público, que é o vosso trabalho no Ciberdúvidas. Obrigado. AHV
Um nome no plural modificado por dois adjetivos no singular: na frase
«...nos domingos anterior e posterior ao Natal»
Trabalho numa casa comercial. No período natalício afixei o seguinte aviso à vista dos clientes:   «À semelhança de anos anteriores, vamos prolongar o horário de funcionamento nos domingos anterior e posterior ao Natal até às 20 horas.» Vários clientes comentaram que havia alguns erros linguísticos. Como não quero ter razão só porque insisto ou falo mais alto, gostava que me dissessem se está devidamente bem escrito, ou não, o dito aviso. Obrigado.
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