Oração participial: «Chegada a casa, os colegas começaram a ajudar a Ana a preparar a festa.» - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Oração participial: «Chegada a casa, os colegas começaram a ajudar a Ana a preparar a festa.»

Tenho uma pergunta em relação ao uso do particípio passado, quando este funciona como modificador da frase, por exemplo:

(0) Atropelada pelo carro, aquela mulher caiu ao chão.

A minha pergunta é se as seguintes 2 frases são ambas corretas ou não e porquê?

(1) Chegados a casa, os colegas começaram a ajudar a Ana a preparar a festa.

(2) Chegada a casa, os colegas começaram a ajudar a Ana a preparar a festa.

No caso de a frase (2) não estar correta, é porque o particípio passado do verbo ‘chegar’ só se pode modificar o sujeito da frase principal, neste caso, ‘os colegas’? Então, porque é que a outra frase (3) está correta?

(3) Conferidos por duas pessoas, não deve haver mais erros nos dados.

Na frase (3), ‘conferido’ modifica ‘os dados’ que não funcionam como sujeito na frase principal.

Aguardo pela resposta e agradeço imenso!

Maria João Professora Beijing, China 58

As orações subordinadas não finitas participais (doravante, orações participiais) seguem um conjunto de regras de concordância que importa rever para analisar as situações apresentadas pela consulente.

Para proceder a esta análise, deve considerar-se a frase ativa com a qual se relaciona a oração participial e o tipo de verbo presente na oração participial.

I. Orações participiais com verbos transitivos

A frase ativa em (1) relaciona-se com as orações participiais (2) e (3), mas não com a (4):

(1) «A rapariga ofereceu três livros.»

(2) «Oferecidos pela rapariga, os três livros foram catalogados.»

(3) «Oferecidos os três livros, a rapariga sentiu-se feliz.»

(4) «*Oferecida a rapariga, os três livros foram catalogados1

Na frase (1), «a rapariga» é sujeito e «três livros» complemento direto. Na transformação da frase ativa numa oração participial, quando o verbo é transitivo, verificamos o seguinte:

(i) o constituinte com função de complemento direto

a. determina a concordância em género e número do particípio (cf. (2) e (3));

b. pode surgir no interior da oração participial (cf. (3));

c. pode ser sujeito da oração subordinante (cf. (2));

(ii) o constituinte com função de sujeito

                a. não determina a concordância do particípio do verbo (cf. (2) e (3));

                b. não pode ocorrer dentro da oração participial (cf. (4)).

 

II. Orações participais com verbos inacusativos:

Os verbos inacusativos são um tipo de verbo intransitivo que permite formar uma oração participial2.

A frase ativa (5) relaciona-se com as orações participiais (6) e (7):

(5) «Os erros desapareceram do documento.»

(6) «Desaparecidos os erros, o trabalho pôde continuar.»

(7) «Desaparecidos, os erros não foram mais motivo de atenção.»

Neste caso, estamos perante um verbo inacusativo, o verbo desaparecer, que tem como sujeito «os erros», o que permite concluir que, quando o verbo é inacusativo,

(iii) o constituinte com a função de sujeito

                a. determina a concordância em género e número com o particípio (cf. (6) e (7));

                b. pode ocorrer no interior da oração participial (cf. (6)).

 

Atentemos, agora, nas frases apresentadas pela consulente. Na frase (8), existe concordância entre o particípio e «aquela mulher», porque este constituinte é complemento direto do verbo transitivo atropelar, como se verifica em (9):

(8) «Atropelada pelo carro, aquela mulher caiu ao chão.»

(9) «O carro atropelou aquela mulher.»

Na frase (10), o verbo inacusativo chegar tem como sujeito «Os colegas», como se verifica na frase (11), pelo que o particípio concorda com este constituinte:

(10) «Chegados a casa, os colegas começaram a ajudar a Ana a preparar a festa.»

(11) «Os colegas chegaram a casa.»

Para além destas situações mais comuns, é possível, como afirma Maria Lobo, identificar «situações em que o sujeito omisso tem uma referência distinta da do sujeito da oração principal» (Gramática do Português. Fundação Calouste Gulbenkian, p. 2039). Parece ser essa a situação presente na frase (12), na qual o particípio conferidos tem como sujeito correferente o constituinte «nos dados».

(12) «Conferidos por duas pessoas, não deve haver mais erros nos dados.»

Note-se que esta frase evoca a frase ativa em (13), na qual o constituinte «os dados» é complemento direto:

(13) «Duas pessoas conferiram os dados.»

 A frase (14), por seu turno, só será possível se o constituinte «a Ana» for o sujeito do verbo inacusativo chegar (como em (15)), o que levará o particípio a concordar com este constituinte.

(14) «Chegada a casa, os colegas começaram a ajudar a Ana a preparar a festa.»

(15) «A Ana chegou a casa.»

Note-se, todavia, que esta frase tem uma sintaxe enviesada, pelo que poderá oferecer dificuldades de interpretação, sendo preferível uma formulação mais transparente como:

(16) «Chegada a casa, a Ana viu que os colegas se preparavam para a ajudar a preparar a festa.»

 

Disponha sempre!

 

*assinala a impossibilidade da frase no contexto em análise.

1. Esta oração participial relacionar-se-á com a frase ativa «Alguém ofereceu a rapariga.»

2. Note-se que há verbo intransitivos que não permitem a formação de orações participais, como acontece, por exemplo, com o verbo tossir: «O João tossiu.» - «*Tossido o João». Estes verbos designam-se inergativos.

Carla Marques
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: verbo
Campos Linguísticos: Concordância