DÚVIDAS

Dúvidas sobre conjugação verbal
Ao ler o romance Rosa Brava deparei-me com algumas formas verbais que me suscitaram confusão, por, talvez erradamente, as ter considerado como sendo imperativo. Eis alguns exemplos: 1 – «Mas peço que NÃO VOS APOQUENTAIS.» 2 – «NÃO TENTAIS pedir o que não posso dar.» 3 – «NÃO VOS ESQUECEIS de que o tempo...» Por outro lado, surgem algumas translineações que, me parecendo correctas, não deixam de me causar estranheza: «continu-ava», «rece-ava». Peço-vos, assim, que me elucidem: estão as formas verbais correctas? Os verbos acima estão mesmo no imperativo ou será outro o tempo? Se é o imperativo, a conjugação está correcta? Muito obrigada desde já.
A questão do príncipe: do latim ao português
Numa consulta de algum tempo atrás, o estudante Miguel de Góis Silva questionou a forma de se escrever a palavra "príncipe" baseando-se em três pontos: a pronúncia (em Portugal, que daria margem a uma forma "príncepe"), o feminino "princesa" (e não "princisa") e a origem latina em "princeps" (e não "princips"). Os dois primeiros pontos foram esclarecidos (um sendo devido à dissimilação causada pelo i de "prín-", e o outro, a antigo galicismo – o qual, segundo o Houaiss, remonta ao século XV); no entanto, creio que se poderia também dar uma explicação sobre o motivo de o étimo latino apresentar um e ao invés de um i, uma aparente "contradição". Na evolução natural da língua portuguesa, o caso lexicogênico (isto é, o caso de onde as palavras se originam) é, como regra geral, o acusativo (com a queda do eme no singular, além das outras transformações fonológicas que podem ser estudadas em bons livros de lingüística românica histórica), e não o nominativo: – "gente": do acusativo "gentem", e não do nominativo "gens"; – "parte": do acusativo "partem", e não do nominativo "pars"; – "árvore": do acusativo "arborem", e não do nominativo "arbor"; – "noite": do acusativo "noctem", e não do nominativo "nox", etc. Bem, segundo Napoleão Mendes de Almeida, em sua Gramática Latina, o radical de palavras da 3.ª declinação que possuía um i breve tinha esse i transformado em e no nominativo se este terminava em ps. Ou seja, em "princeps", o e surge como transformação do i breve do radical "princip-"; como é sobre esse radical que a declinação se baseia, temos que o acusativo singular de "princeps" é "principem" (e não "princepem"), o qual, com a queda do eme final, nos leva regularmente ao "príncipe" da língua portuguesa. O acusativo plural, aliás, é "principes", que também nos dá o plural português "príncipes". Não sou, porém, um latinista, e também sei que a língua não pode jamais ser tratada como ser plano e regular (mesmo em suas irregularidades), de modo que seria bom ter uma confirmação ou mesmo uma correção de um dos doutos membros que compõem esta excelente comunidade virtual do Ciberdúvidas. Por ser esta minha primeira mensagem enviada à comunidade, aliás, aproveito para parabenizá-los pelo excelente e dedicado trabalho.
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