DÚVIDAS

«Quando couber»
«A instituição de que trata o caput deste artigo deverá aplicar anualmente, em gratuidade, pelo menos 20% (vinte por cento) da receita bruta proveniente da venda de serviços, acrescida da receita decorrente de aplicações financeiras, de locação de bens, de venda de bens não integrantes do ativo imobilizado e de doações particulares, respeitadas, quando couber, as normas que disciplinam a atuação das entidades beneficentes de assistência social na área da saúde.» Flexiona-se ou não a expressão "quando couber" no texto acima? A propósito: quando devemos flexionar as expressões «onde couber» ou «quando couber»?
Ainda o uso do hífen
Na “Nova Gramática do Português Contemporâneo”, de Celso Cunha e de Lindley Cintra, em página de que já me não recordo, encontrei um hífen a medear estes dois termos: “morfo-sintáctico”. Vacilante, tentei ancorar-me no «Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa», em que Rebelo Gonçalves, na página 250, reputa “inadmissível o uso do hífen nos compostos em que um elemento de origem substantiva, proveniente do grego ou do latim e terminado em 'o', se combina com um ou mais substantivos ou adjectivos”. Perante esta asserção, questionei-me se seria eu quem não teria interpretado bem a regra ou se a «Gramática» estaria em colisão com o «Tratado». Será, pois, em Rebelo Gonçalves que deverei sustentar os meus argumentos em favor da supressão do hífen em “morfossintáctico” ou em “morfossintaxe”? Ou deverei seguir antes o que este mesmo autor escreve (pág. 216) para “fonético-sintáctico”? P.S. – De acordo com a regra supratranscrita, não deveria A. Tavares Louro rever o que escreveu sobre “ovário-histerectomia”, em 6 de Outubro de 2003? É que, para este caso, Rebelo Gonçalves não deixa margem para dúvida: impõe-se a “elisão do 'o' final de um elemento, antes de vogal ou 'h' + vogal (suprimindo-se o 'h')”: "ovaristerectomia".
Novo acordo (de 1990), resistências
Porque sou contra a revisão do acordo ortográfico Gostaria que este texto fosse publicado e respondido no Ciberdúvidas, uma vez que só têm apresentado os argumentos a favor, apresentado a questão de uma forma incompleta. 1. Porque a língua escrita não tem de ser um espelho da expressão oral Muitos portugueses dominam o inglês e o francês e sabem que nestas línguas chega a haver duas consoantes seguidas mudas. E contudo não consta que os países francófonos e anglófonos façam revisões ortográficas. Porque não actualizam os franceses «disent» para «disã», ou «business» em inglês por «biznes»? 2. Porque não aproxima os países lusófonos O afastamento entre o Brasil e Portugal é cultural. Infelizmente não é pela omissão de letras que se omitem as causas dessa distância cultural. Para mais, o uso das palavras é por vezes inteiramente diverso nos dois países. O que quero dizer é que o que pode tornar um texto de um país difícil de compreensão noutro não é a falta de uma letra, mas o uso de palavras inexistentes num país ou usadas num contexto cultural diferente. 3. Porque não é universal Continuam a manter-se as diferenças nas acentuações esdrúxulas do Brasil e as tónicas agudas dos restantes países, como em «económico»/«econômico». Mantêm-se as diferenças tipográficas, como a capitalização dos meses, estações e dias de semanas em Portugal, e a mesma grafia em minúscula no Brasil. Por esse motivo, além das diferenças culturais, continuarão a distinguir-se as edições brasileiras das portuguesas e a sentir-se a necessidade dessas diferentes versões. 4. Porque afasta países lusófonos Ao alterar a ortografia em Portugal, afastamo-nos da ortografia dos países africanos de expressão portuguesa se estes não o ratificarem, assim como da língua portuguesa da Galiza que não o fará. 5. Porque não é útil Esta revisão não causa uma relação uniforme entre a pronúncia das palavras e a sua ortografia. Pelo contrário, mas a título de exemplo, existe uma sugestão bastante curiosa, por António Manuel Dias. 6. Porque altera a pronúncia Se a revisão serve para ajustar a ortografia à pronúncia, esta tem um efeito no sentido contrário quando retira as palavras compostas por justaposição hifenizadas. «Bem-aventurança» passaria a dividir-se silabicamente por «be.ma.ven.tu.ran.ça». «Pára-quedas», por exemplo, escrever-se-ia «paraquedas» e ler-se-ia de forma diferente. 7. Porque sai caro As revisões ortográficas obrigam os portugueses a comprar novos dicionários e prontuários. Os livros estarão todos automaticamente desactualizados, tal como manuais de escola, encliclopédias em papel e suporte digital, processadores de texto, programas de correcção ortográfica, sinalética pública e todo e qualquer suporte de escrita. 8. Porque as pessoas resistem-no Se a língua é, como dizem, do povo, deve-se prestar atenção às reacções emocionais dos cidadãos e cidadãs sobre esta matéria.
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