DÚVIDAS

Quadrilhice e pastelar
Tendo encontrado dicionarizada a palavra quadrilheiro, com sentido de «coscuvilheiro, bisbilhoteiro», estranhei não encontrar "quadrilhice", que é uma palavra de uso corrente na zona oeste [Portugal], e penso que também em Lisboa, pelo menos. Outra situação com algum paralelo talvez seja "pastelar", com o sentido de «preguiçar», ou «demorar a fazer», que não encontro dicionarizada, e me parece de uso generalizado. Estranho sempre a nossa facilidade em adoptar vocabulário estrangeiro, enquanto há tanta resistência em assumir vocabulário deste tipo, que faz parte do léxico de tantos falantes. Gostaria de saber como as classificam quanto à generalização do uso e se consideram aceitável o seu uso escrito.
O plural de social-democrata
A forma de plural com que mais frequentemente deparamos é "sociais-democratas", mas também já li e ouvi a forma "social-democratas". "Social-democrata" pode ocorrer, conforme o contexto, como substantivo ou como adjectivo, o que, de acordo com as regras de formação do plural dos nomes compostos e dos adjectivos compostos que encontramos em Celso Cunha e Lindley Contra, não será indiferente. Na verdade, na Nova Gramática do Português Contemporâneo, pode ler-se: a) relativamente aos substantivos compostos (pág. 189): «geralmente ambos os elementos tomam a forma de plural quando o composto é constituído de dois substantivos, ou de um substantivo e um adjectivo»; b) relativamente aos adjectivos compostos (pág. 253): «Nos adjectivos compostos, apenas o último elemento recebe a forma de plural». De acordo com estas regras, "social-democrata" terá, então, duas formas diferentes de plural, conforme ocorra como substantivo ou como adjectivo?
«Consertar roupas» vs. «arranjar roupas»
Vi na frente de uma casa uma tabuleta com os dizeres: «Conserta-se roupas.» A concordância verbal não se fez, pois o certo é «Consertam-se roupas». Algo, porém, diz-me que o verbo que se empregou não está correto. Acaso podem consertar-se roupas? Não houve um erro de semântica? Consertam-se muitas coisas, sem dúvida. Não há, entretanto, um verbo que se possa usar com mais propriedade nesse caso? Muito grato!
«Documentos desclassificados»
Li no jornal Público de 7 de Janeiro de 2010 o título de uma notícia que dizia: «Documentos sobre a ditadura argentina foram desclassificados.» No contexto da notícia, o que se queria dizer é que os documentos foram mostrados ao público ou que deixaram de estar em segredo. Eu pergunto se o termo desclassificados está devidamente empregado neste contexto ou se se trata de uma adaptação para o português da palavra inglesa declassified e que é portanto incorrecta. Obrigado.
Sobre a palavra chefia
O termo «chefferie» em francês («chiefdom» em inglês, «jefatura» em espanhol) pode ser traduzido como «cheferia» em português? Não encontrei qualquer dicionário que contemplasse essa forma. Será lícito utilizá-la? [É de assinalar que] [o] termo «chefferie» nada tem que ver com chefia. O Dicionário Francês-Português da Porto Editora diz, por exemplo: 1. circunscrição colocada sob a autoridade de um oficial de engenharia militar; 2. território sob a autoridade de um chefe de tribo. [...] na internet [...], na variante brasileira do português existem inúmeras ocorrências. Por exemplo: — No início era apenas uma simples cheferia. Com os anos, os hauças teriam ocupado parcelas da região — O reino teria sido fundado pelo seu ancestral Ntinu-Wene, chefe Kikongo que, chegado do norte, atravessou o grande rio e conquistou a cheferia ambundu — Pouco se sabe sobre suas origens, este estado sucedeu o de Ghana em esplendor e poder, sabe-se que certo senhor de uma cheferia negra (antigo Mandinga) — senhor da mais humilde cheferia — etc. Assim, mantenho a dúvida quanto à possibilidade de utilização do termo na acepção acima exposta.  Obrigado.
ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa