«Nada tem a haver...» e «nada tem a ver...» - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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«Nada tem a haver...» e «nada tem a ver...»

A questão que coloco prende-se com a frase abaixo descrita, num contexto de crítica política:

1 — «... nada tem a haver daí, dado que...», no sentido de não poder retirar dividendos pessoais ou políticos sobre determinada obra.

2 — Está a construção da frase correcta, ou deverá ser — «... ele nada tem a ver daí, dado que...»?

Como defendo a primeira forma, gostaria de ser esclarecido sobre o assunto.

Aproveito a oportunidade para enaltecer o trabalho excelente desenvolvido por essa equipa maravilhosa. Adoro a língua portuguesa e, por essa razão, sou um dedicado leitor do Ciberdúvidas.

Secundino Matos Assistente técnico Barcelos, Portugal 9K

Em primeiro lugar, aconselho-o a ler as respostas do Ciberdúvidas precisamentre sobre a diferença entre Ter a ver e ter a haver, Ainda o ter a haver e o ter a ver e Ainda à volta do ter a ver/ter que ver/ter a haver....

A resposta que formulamos baseou-se no excerto que nos enviou, uma vez que não tivemos acesso a toda frase e à parte do texto em que está inserida para se poder compreender o seu sentido e, a partir daí, não ficar qualquer réstia de dúvida. Mesmo assim, se tivermos em conta a estrutura do enunciado que nos apresenta — «nada tem a haver daí, dado que...» —, devido à presença de «daí» (contracção da preposição de + advérbio de lugar ) seguido de vírgula, parece-nos estarmos em presença de um caso de uso do verbo haver (e da expressão ter a haver), pelas seguintes razões:

1. Ter a haver significa «ter a receber». A haver, expressão usual do domínio da contabilidade = «a receber», obriga a construção a haver de (de quem — da pessoa, de onde — da empresa), isto é, a preposição de vai indicar a origem do objecto a receber, assim como «ter a receber de» (de quem). Celso Pedro Luft, no Dicionário Prático de Regência Verbal, apresenta-nos a frase «De quem houveram tal bem», para exemplificar a obrigatoriedade da preposição de (no complemento indirecto) na construção com o verbo haver, com o sentido de «receber».

2.  Os verbos receberhaver (com sentido de «receber») são transitvos directos e indirectos, que implicam a presença do complemento/objecto directo — o quê (o objecto que se recebe) ou a quantia (o valor monetário) — e do complemento indirecto (de quem — da pessoa ou da empresa/instituição) —, como se pode ver na frase: «Eu tenho a receber esta quantia de tal empresa.»

No excerto que nos apresentou, verificamos a mesma situação: « ... nada tem a haver daí, dado que...», tendo «nada» a função de complemento directo e, por sua vez, «daí», a de complemento indirecto.

Não se aceita, nesse excerto, a expressão ter a ver, pois isso pressupunha uma construção com a preposição com. Dir-se-ia, então «Não tem nada a ver com isso, daí que…». Poder-se-ia, também, aceitar ter a ver, se, no excerto apresentado, «daí» estivesse após a vírgula, o que teria um sentido conclusivo tal como «portanto, logo, então». Se não, vejamos: «Nada tem a ver (com isso), daí que…»

Eunice Marta
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: verbo