Passiva sintética em locuções verbais com preposição intermédia
É possível a transposição da voz passiva analítica para sintética em locuções verbais com preposição intermediária?
Isso pode ser feito em locuções verbais sem preposição intermedária, contanto que o verbo + se não forme um outro, em que essa partícula seja integrante dele; consequentemente, é possível rescreever «Os deveres devem ser feitos» como «Os deveres devem fazer-se», e então como «Os deveres devem-se fazer», mas não «Eles devem ser amados» como «Eles devem amar-se», uma vez que o sentido se altera.
Logo, minha dúvida é se existe essa possibilidade para locuções verbais como «ter de ser feito» e «gostar de ser bonificado», exemplificadas em «Os deveres têm de ser feitos até amanhã» e «Os alunos gostam de ser bonificados», mesmo que sem merecimento; ou seja, é possível reescrever a primeira oração como «Os deveres têm de se fazer até amanhã» (ou «Os deveres têm de se fazerem até amanhã»)? e a segunda como «Os alunos gostam de se bonificar, mesmo que sem merecimento» (ou «Os alunos gostam de se bonificarem, mesmo que sem merecimento»)?
Agradeço a atenção.
«De valor» e «com valor»
Que preposição é a mais adequada às frases?
«Ana é uma pessoa COM/DE valor.»
«É um jovem DE/COM bom coração.»
Obrigado
Impacte vs. impacto: ponto da situação
Sempre utilizei o termo impacte ambiental, mas cada vez mais vejo «este impacte» escrito com o.
Para mim impacto está associado a choque/colisão e impacte está associado a questões relacionadas com ambiente. Houve alguma alteração? E quando falamos em termos de efeito, qual usar? Será que depende?
Devendo usar impacte sempre que esse efeito está relacionado com ambiente?
Por exemplo: «...transformar ideias em soluções com impacto social, ambiental, económico, artístico e cultura.»
Obrigada.
Rerruptura ou rerrotura
Existe uma situação na especialidade de cirurgia do ombro que é ocorrer uma "rerruptura" ou "rerrotura" do tendão após seu reparo. Na língua inglesa chama-se retear ou rerupture.
Todavia, no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) da Academia Brasileira de Letras, não existem as palavras "rerruptura" ou "rerrotura".
Existe a possibilidade dessas palavras serem inseridas no VOLP? Como fazer isso? Até isso se resolver, como devemos denominar essa intercorrência na cirurgia do ombro: “recidiva da ruptura”, "ruptura recorrente”, “nova ruptura”?
O verbo acertar, novamente
Li com atenção a dúvida de um consulente e a respetiva resposta do Ciberdúvidas sobre a regência do verbo acertar, quando este é utilizado no sentido de «atingir».
Ora, a verdade é que fiquei pouco esclarecido.
Vejamos, o consulente dá um exemplo de Camilo:
«O poeta Sarmento chamava-lhe cintura à prova de fogo, porque não havia bala que lhe acertasse.»
Daqui podemos inferir a seguinte estrutura da frase com o verbo acertar: «A bala acertou-lhe.» O constituinte «a bala» seria sujeito e o constituinte «lhe» provavelmente complemento oblíquo («a bala acertou no João»), pois há casos em que o pronome lhe não exerce a função de complemento indireto (como em «mexeu-lhe»).
Mas na resposta é dado um exemplo em que se inverte a estrutura do verbo acertar. Diz o Ciberdúvidas: «O lutador acertou um soco no peito do rival.»
Aqui assume-se «um soco» como complemento direto. Esta construção causa-me alguma estranheza. Se fosse com o verbo desferir, não se colocaria a dúvida: «O lutador desferiu um soco no peito do adversário.»
Não me parece que, no caso do verbo acertar, «um soco» deva estar na posição de complemento direto, algo que se pode atestar fazendo a transposição da frase ativa para a forma passiva: «Um soco foi acertado pelo lutador (??)/ Um soco foi desferido pelo lutador.»
O segundo caso é perfeitamente gramatical, o primeiro caso é no mínimo estranho.
Daí que me pareça mais gramatical uma construção do tipo: «O soco [desferido pelo lutador] acertou no peito do rival.» (A bala acertou-lhe/ o soco acertou-lhe)
Não me parece também fiável comparar a regência do verbo acertar com a regência do verbo atingir. Parece-me claro que o verbo atingir seleciona um complemento direto (o alvo) enquanto o verbo acertar, neste sentido de atingir, relaciona-se sintaticamente de forma diferente com o alvo (complemento oblíquo).
Claro que utilizado noutro sentido o verbo acertar pode selecionar complemento direto («acertar as horas/o relógio»).
Assim, vejo pelo menos três possibilidades para a regência do verbo acertar:
1) O lutador acertou com um soco no peito do rival.
Nesta hipótese o verbo acertar seleciona um sujeito (o lutador - aquele que desencadeia a ação), um meio/projétil (seta/soco/bala/pedra/bola – neste caso «com um soco», a minha dúvida aqui é se seria complemento oblíquo ou modificador do grupo verbal) e um alvo («no peito do rival» – complemento oblíquo substituível por lhe).
2) A bala acertou-lhe no peito.
Nesta hipótese o sujeito selecionado pelo verbo acertar é o próprio projétil/meio (bala/bola/soco), sendo este lhe um dativo de posse (acertou no peito do João) e é selecionado igualmente um alvo («o peito») como complemento oblíquo.
3) A bala acertou-lhe.
Nesta hipótese o sujeito selecionado pelo verbo é igualmente o projétil/meio, sendo o alvo o complemento oblíquo (acertou no João).
Resumindo, o que me causa estranheza é a gramaticalidade da frase «O lutador acertou um soco no peito do rival» ou «ele acertou um seta no alvo» ou «o jogador acertou a bola na trave». E o principal motivo de estranheza é a questionável gramaticalidade da voz passiva [«Uma seta foi acertada no alvo» (???)]. Talvez haja outros casos de verbos transitivos diretos em que ocorra a mesma estranheza na voz passiva, mas penso que sejam raros. [Por exemplo «O João pregou um susto ao Rui»/ «Um susto foi pregado pelo João ao Rui(??)»; «Ele apanhou uma bebedeira»/«Uma bebedeira foi apanhada por ele»(???)]
Mais uma vez parabéns pelo vosso site e pelo serviço público que disponibilizam.
Conjugação verbal e verbos auxiliares
Vejo sempre em livros o ensino de conjugação dos tempos composto com o auxílio do verbo ter .
Ex.: «Tenho estudado bastante.»
Nunca vi, todavia, exemplos com o verbo vir , apenas na linguagem falada do dia a dia.
Ex.: «Venho estudando bastante nos últimos dias.»
Assim, gostaria de saber se esta última construção é abrangida pela norma culta ou é fruto de coloquialismo.
Desde já agradeço pelo apoio de sempre!
Já a começar oração
Tenho visto muitas vezes a palavra já usada em início de oração de uma forma que me parece inadequada, mas gostaria de saber se tenho razão nesta interpretação.
Para mim, já em início de oração introduz uma oposição relativamente à oração anterior. Por exemplo, se eu disser «O autor A escreve romances, já o autor B escreve poesia», esta frase é lógica. Mas se eu disser: «O autor português A escreve em inglês, já o autor português B escreve numa língua estrangeira», esta frase não tem sentido (não há nenhuma oposição entre as duas orações).
No entanto, constato que já é muitas vezes usado em início de oração, como nos exemplos dados, apenas para introduzir uma informação nova ou complementar, sem que haja nenhuma oposição entre a primeira e a segunda oração.
É este uso correto?
Se e infinitivo (norma do Brasil)
Lendo uma tradução feita por Brenno Silveira de um dos contos de Edgar Allan Poe, me deparei com a seguinte construção:
«possuir-se boa memória e proceder-se de acordo com as regras do jogo são coisas que constituem etc.»
Estaria correto o emprego do pronome se?
De acordo com Napoleão Mendes de Almeida não se deve usar se quando o sujeito é um infinitivo. Ele cita na sua gramática: «"é proveitoso ler-se esse livro” o correto é "é proveitoso ler esse livro".»
No trecho que me causou dúvida não seria mais correto dizer «possuir boa memória e proceder de acordo…», já que é um sujeito infinitivo?
Obrigado.
«É de mais» vs. «É demais»
Na frase, «Eu não aceito isso, é de mais!», «de mais» é junto ou separado?
Muito obrigado!
A expressão «fungagá da bicharada»
Gostaria de saber a origem da expressão «fungagá da bicharada», popularizada por José Barata Moura no seu famoso programa infantil e canção que lhe dá título.
