DÚVIDAS

Até (com valor de inclusão)
«Até às 10 horas»; «até dia 15»... A questão, por mais básica que seja, é a seguinte: Quando utilizamos a palavra "até", devemos considerar que estamos a falar inclusive ou exclusivamente? Pessoalmente, acho que devemos falar exclusivamente, no entanto, já me questionaram se não devia de ser inclusivamente. Em última análise, após a frase, podemos sempre colocar "inc. ou exc.", mas não me parece que seja o mais correcto.
Substantivos: concretos e abstractos
Sou professora de Língua Portuguesa, e admito que a distinção entre o que é um nome abstracto ou concreto está rodeada de alguma indefinição. Em determinadas gramáticas, música é um substantivo abstracto, noutras já é concreto. Qual é a vossa opinião? Outras palavras que levantam dissidência são: hora, século, ano. Gostaria que me fornecessem algumas indicações. Antecipadamente grata.
Porquê vendem-se e porquê vende-se
Nas várias respostas em que o Ciberdúvidas se ocupou com a opção entre «vende-se» e «vendem-se» («bolotas», p. ex.), não encontrei qualquer tentativa de justificar uma ou outra opção, nem, pelo menos, de explicar por que motivo os gramáticos mais antigos ou mais conservadores criticavam tão veementemente o uso do verbo no singular. O Ciberdúvidas limita-se a registar as duas ocorrências, esclarecendo que a forma com o verbo no singular corresponde a uma interpretação do «se» como sujeito indefinido e que a forma com o verbo no plural decorre da interpretação do «se» como partícula apassivante. Ora, julgo que os leitores pretendiam mais do que isso. Pretendiam saber qual das duas formas é mais vernácula, qual delas obedece melhor ao ideal - sem dúvida, muitíssimo discutível, para não dizer mais - do «português correcto». Não sugiro que os colaboradores do Ciberdúvidas adiram a uma concepção normativa da gramática, não sugiro sequer que se adopte o conceito de «português correcto», mas, neste como noutros temas que têm aparecido, só é possível responder às perguntas feitas se houver uma intenção (ainda que limitada) de procura desse vernáculo. Na opção entre o «se» apassivante e o «se» sujeito indefinido, caberia, pois, ponderar a origem desta palavrinha e a sua inserção no conjunto dos pronomes, a que originariamente pertencia. Este «se» era, em latim, um pronome, e assim começou por ser em português. Um pronome com duas características relevantes: reflexo e, também por isso, oblíquo. Assim, o «se», à partida, nunca desempenharia a função de sujeito (para isso temos os pronomes rectos). E ainda menos poderia ser um pronome indefinido, visto que os pronomes reflexos têm o mesmo referente que o sujeito da oração. O uso do «se», nestes casos, surgiu necessariamente como alternativa à voz passiva: na verdade, os pronomes reflexos e a voz passiva têm em comum fazerem a acção recair sobre o sujeito. Portanto, numa construção vernácula, o «se» é, com certeza, uma partícula apassivante. Hoje é claro, porém, que o «se» tem muitas vezes o valor de pronome indefinido. Como a forma vernácula era um modo cómodo de omitir a indicação do agente, ter-se-á estendido a verbos que não a permitiriam, os verbos intransitivos (e, portanto, sem voz passiva). Daí, já com a natureza de pronome indefinido, veio «contaminar» os verbos transitivos, de maneira que, nos nossos dias, tanto se admite a forma «vendem-se bolotas», quanto a forma «vende-se bolotas». A primeira, ainda assim, tem melhores pergaminhos.... Ou estarei demasiado longe da razão?
Ainda o ter a ver e o ter a haver
Com o devido respeito, as minhas dúvidas não ficaram dissipadas. Isto porque se "justificou" pela negativa o emprego do verbo “ver", sonegando o comentário ao pertinente argumento de Rui Prior para o emprego do verbo "haver" no sentido de "receber". Acresce que "haver" significa, em primeira linha, "ter", para além de múltiplos outros sinónimos. Acontece que a expressão «isto nada tem a (ha)ver com aquilo» é sempre algo redundante, já que é um mero reforço da afirmação «isto nada tem com aquilo», não merecendo dúvidas, neste último caso, o emprego do ver "ter". Ora na frase «isto nada tem a ter com aquilo», o verbo "ter" é utilizado exactamente no mesmo sentido as duas vezes, só que a frase soaria demasiado mal para ser utilizada. Ouso admitir que a justificação para a utilização do verbo "haver" passe por aqui, por um lado assim se evitando a desagradável repetição de "ter" e, por outro, alargando o sentido do verbo para "receber", "colher".... Desta forma, estaria justificado, pela positiva, o emprego do verbo "haver", outro tanto não parecendo ser passível de ser feito quanto ao verbo "ver", em face dos sinónimos do mesmo. Correndo o risco de ser impertinente pela insistência, solicito se dignem esclarecer de vez este assunto, justificando pela positiva o emprego de "ver" e comentando os argumentos aduzidos, ainda que os mesmos não mereçam acolhimento. P.S. - Porque as dúvidas terão origem, também, na igual sonoridade das duas "versões", dúvidas deverão existir, também, na língua francesa, onde a situação é idêntica quanto aos verbos "voir" e "avoir"....
À volta do patético
A propósito da resposta Patético, sempre ouvi dizer aos meus professores de Cultura Clássica e Latim que que a palavra derivava da palavra grega pathos (um dos constituintes da tragédia clássica) e que significava o sofrimento do herói, de onde o seu significado «que comove». De facto, como explica o Dicionário Etimológico Nova Fronteira (Antônio Geraldo da Cunha), a palavra grega pathetikós , que deu origem à palavra do latim tardio patheticus. Por isso, parece-me que é mais importante assinalar que a sua origem é, na verdade, grega (o latim é que pediu a palavra “emprestada” e a trouxe para o português), uma vez que é nessa medida que o seu significado é mais facilmente explicado.
O gerúndio flexionado no Sul de Portugal
Grande parte da minha família é do Algarve, e estou bastante habituado a ouvir construções do tipo (embora pense que também seja comum no Alentejo): “Em fazendes isso, podes-te ir embora.” “Em comendem a sopa, podem comer as batatas fritas.” Parece uma espécie de flexão do gerúndio (que se nota na 2.ª pessoa do singular e 3.ª do plural) e que parte, penso eu, de expressões com o gerúndio como: "Em tendo o dinheiro, posso comprar um carro novo" = "Quando tiver o dinheiro, posso comprar um carro novo", mas adaptadas consoante a pessoa: "Em tendes o dinheiro..." = "Quando tiveres…" "Em tendem o dinheiro..." = "Quando tiverem..." Isto é tão comum que toda a gente, dos mais pequenos aos mais velhos, o usam. Está errado no português padrão, mas poder-se-á considerar correcto como regionalismo? Isto é, será aceitável o seu uso? Se tiverem mais informações sobre este interessante “gerúndio flexionado”, agradecia imenso!
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