DÚVIDAS

«Até aí, morreu o Neves»
Gostaria de perguntar-lhes sobre a origem de duas expressões usadas no Brasil (e talvez também em Portugal): 1. «Até aí morreu Neves...» — significando «Isso já é sabido e não acrescenta nada de importante». 2. «Foi a alma do Cunha» — empregada quando se ouve em casa algum ruído de origem desconhecida e não passível de fácil determinação. O máximo que já consegui, depois de muita pesquisa, foi saber que, segundo João Ribeiro, citado por Antenor Nascentes, em seu Tesouro da Fraseologia Brasileira (terceira edição revista por Olavo Aníbal Nascentes. [Rio de Janeiro]: Editora Nova Fronteira, [1986], s. v. Neves), a frase «Até aí morreu Neves» poderia ter origem em algum entremez, vaudeville ou comédia. E nada mais diz sobre a data, local e origem da pretensa peça... Continuo, portanto, curioso sobre quem teriam sido os tais Neves e Cunha (personagens reais ou imaginárias?, portugueses ou brasileiros?...). Agradeceria muito se algum dos senhores pudesse lançar maiores luzes sobre a distinta dupla.
Poema do afinal
«Poema do afinalNo mesmo instante em que eu, aqui e agora,Limpo o suor e fujo ao Sol ardente,Outros, outros como eu, além e agora,Estremecem de frio e em roupas se agasalham.Enquanto o Sol assoma, aqui, no horizonte,E as aves cantam e as flores em cores se exaltam,Além, no mesmo instante, o mesmo Sol se esconde,As aves emudecem e as flores cerram as pétalas.Enquanto eu me levanto e aqui começo o dia,Outros, no mesmo instante, exactamente o acabam.Eu trabalho, eles dormem; eu durmo, eles trabalham.Sempre no mesmo instante.Aqui é Primavera. Além é Verão.Mais além é Outono. Além, Inverno.E nos relógios igualmente certos,Aqui e agora,O meu marca meio-dia e o de além meia-noite.Olho o céu e contemplo as estrelas que fulgem.Busco as constelações, balbucio os seus nomes.Nasci a olhá-las, conheço-as uma a uma.São sempre as mesmas, aqui, agora e sempre.Mas além, mais além, o céu é outro,Outras são as estrelas, reunidasNoutras constelações.Eu nunca vi as deles;ElesNunca viram as minhas.A Natureza separa-nos.E as naturezas.A cor da pele, a altura, a envergadura,As mãos, os pés, as bocas, os narizes,A maneira de olhar, o modo de sorrir,Os tiques, as manias, as línguas, as certezas.Tudo.AfinalQue haverá de comum entre nós?Um ponto, no infinito.» Acerca deste poema de António Gedeão, queria saber qual o significado das duas últimas estrofes. Obrigado e continuação de um bom trabalho.
Figuras de linguagem em Memorial do Convento
«Sentaram-se todos em redor da merenda, metendo a mão no cesto, à vez, sem outro resguardar de conveniências que não atropelar os dedos, agora o cego que é mão de Baltazar, cascosa como um tronco de oliveira, depois a mão eclesiástica e macia do padre Bartolomeu Lourenço, a mão exata de Scarlatti, enfim Blimunda, mão discreta e maltratada, com as unhas sujas de quem veio da horta e andou a sachar antes de apanhar as cerejas.» José Saramago, Memorial do Convento. Qual é a figura de linguagem que o narrador utiliza para marcar as diferenças de nível e grupo social das personagens?
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