DÚVIDAS

Imagem e oração relativa
Venho, por este meio, solicitar a sua ajuda na análise de uma frase de Frei Luís de Sousa. A cena final do ato II, entre Frei Jorge e o romeiro, é a do reconhecimento, tal como acontecia na tragédia clássica. O retrato de D. João de Portugal deixa de ser apenas uma ameaça e passa a ser uma espécie de espelho do passado; ele representa quem agora está tão diferente que é necessário um gesto de identificação: quando Frei Jorge pergunta «Romeiro, romeiro, quem és tu?», o movimento de apontar para o retrato completa a palavra: «Ninguém!». Aquela simples palavra abre caminho à catástrofe. Não sendo reconhecido pela mulher com quem casou, D. João de Portugal fica limitado à imagem que um retrato fixou. REIS, Carlos, 2016. Frei Luís de Sousa. Almeida Garrett. Porto: Porto Editora (pp. 37-38) (Exercício do manual) A dúvida surgiu na identificação da função sintática de «que um retrato fixou». Sendo uma oração adjetiva relativa restritiva, desempenha a função sintática de modificador restritivo do nome. No entanto, «retrato» é um nome icónico. Haverá outra explicação? A oração não é adjetiva relativa?
Valência
Eu gostaria de tirar uma dúvida em relação a uma expressão, cuja forma correta não sei escrever. Qual é o correto (não estou seguro quanto a escrita correta)? a). «Um senhor teve convulsão dentro do trem. À valência dele, havia um médico ali». b). «Um senhor teve convulsão dentro do trem. À valença dele, havia um médico ali». A expressão “à valência (ou: à valença)” equivale a “por (para) sorte”: «Um senhor teve convulsão dentro do trem. Por (para) sorte dele, havia um médico ali». Eu ouço mais a letra “b”, porém acho que a “a” seja a correta. Antecipadamente, obrigado.
Brasil e Portugal: porquê diferentes nomenclaturas gramaticais?
Por que Brasil e Portugal possuem certas diferenças quanto a denominações, entendimentos e categorizações gramaticais (como, por exemplo, a diferença entre o «futuro do pretérito do modo indicativo» brasileiro e o «modo condicional» português)? Há alguma razão para tais distinções e discordâncias que vá além dos fatores educacionais ou histórico-tradicionais já consabidos e estudados, tendo em vista que as primeiras normatizações oficiais de cada país a tratarem do assunto foram publicadas – pelo que sei até agora, e peço o perdão caso eu desconheça iniciativas anteriores – com um intervalo de quase uma década separando uma da outra (a Nomenclatura Gramatical Brasileira foi instaurada em 1959 e a Nomenclatura Gramatical Portuguesa, em 1967)? Sinceramente, nunca entendi totalmente a situação e esta sempre me "aturdiu", especialmente após eu ter começado a pesquisar e a cotejar livros sobre a nossa língua, dicionários e gramáticas. Desde já, agradeço a compreensão!
O que explicativo
Numa ficha de trabalho de uma editora surge a frase «Arrumem os livros que a biblioteca vai encerrar». De acordo com as soluções de correção, a oração «que a biblioteca vai encerrar» aparece como coordenada explicativa. Numa saudável discussão com colegas, uns defendem que a sugestão da editora está correta, no entanto, outros acham que a oração é subordinada adverbial causal. Se fizermos o teste da agramaticalidade sugerido por Maria Eugénia Alves (Ciberdúvidas, 2018), a oração iniciada por “que” é agramatical - “* que a biblioteca vai fechar.” -, uma vez que “na coordenação, a oração que é introduzida pela conjunção não pode dar início à frase”. Acresce o facto de que a situação descrita na suposta oração coordenada explicativa não é temporalmente anterior à que se descreve na oração anterior. (Carla Marques, Ciberdúvidas, 2022) Porém, “No que respeita à pontuação, quando a oração é coordenada explicativa, deve levar uma vírgula a separá-la da oração anterior. Quando estamos perante uma oração subordinada causal, não devemos usar vírgula.” (Carla Marques, Ciberdúvidas, 2022). Aqui o "que" não é antecedido de vírgula. Posto isto, tenho dúvidas em relação à classificação desta frase complexa “Arrumem os livros que a biblioteca vai encerrar”. Aproveito para agradecer o excelente trabalho realizado por toda a equipa do Ciberdúvidas ao longo destes anos. Aprendo muito com a vossa generosidade e profissionalismo! Bem hajam!
A sintaxe do verbo deixar
Na frase «Deixava as chaves onde calhava.», a oração subordinada substantiva relativa «onde calhava» desempenha a função de modificador ou de complemento oblíquo? Parece-me que tem uma função similar à que tem na frase «Colocava as chaves onde calhava», ou seja, complemento oblíquo. Porém, já vi a expressão da primeira frase classificada como modificador. Entendo que o verbo deixar implica deixar algo em algum lugar, tal como o verbo colocar. Agradeço os esclarecimentos.
Os auxiliares «haver de» e ir
O Ciberdúvidas é uma pequena (grande) joia. É muito gratificante esclarecer algumas dúvidas nesta página. Parabéns pelo vosso trabalho. Uma pequena dúvida com o verbo haver (presente do indicativo)+ de +infinitivo e ir(presente do indicativo) + infinitivo. «Eu hei de fazer as pazes com o Afonso» e «Eu vou fazer as pazes com o Afonso» transmitem a mesma informação? A dúvida prende-se com o uso do presente do indicativo nas frases. Ao usá-lo estamos a transmitir (em ambas frases) uma certeza, um facto e/ou uma realidade num futuro próximo? Que vou realmente fazer as pazes com o Afonso. Existe alguma nuance? Muito obrigado a todos.
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