DÚVIDAS

Mecanismos de coesão e os relativos que e onde
Os pronomes relativos (especialmente o pronome que) e advérbios relativos (nomeadamente onde) que introduzem orações adjetivas relativas devem ser considerados marcadores de coesão interfrásica ou de coesão referencial anafórica? Por exemplo, na frase «A praia onde estive ontem é linda» o constituinte onde substitui o grupo nominal «a praia», refere-se a «a praia». Nesse sentido, retoma o termo anterior, parece um processo anafórico. Por outro lado, introduz uma nova oração, contribuindo deste modo para a coesão interfrásica. Outro exemplo: «O livro que comprei é interessante.» Analisando as duas orações que deram origem à frase complexa: «O livro é interessante/ Comprei o livro.» O pronome relativo que substitui o constituinte «o livro», pelo que tem valor referencial. Por outro lado, é o eixo de ligação entre as duas orações, garantindo a coesão interfrásica. Nas gramáticas de que disponho não encontrei estes exemplos nem na coesão interfrásica (aqui são referidos apenas conectores e conjunções, mas não pronomes ou advérbios relativos) nem na coesão referencial (aqui são referidos pronomes pessoais, demonstrativos, possessivos bem como advérbios com valor de lugar, mas não pronomes e advérbios relativos), pelo que peço a vossa ajuda para esclarecer esta questão. Muito obrigado e votos de continuação de bom trabalho.
Análise de «Soas-me na alma distante» (Fernando Pessoa)
Ontem estive a reler o belo poema de Fernando Pessoa “Sino da minha aldeia” e deparei-me com uma frase que me deixou dúvidas quanto à sua análise sintática, pelo que peço a vossa ajuda. A frase em questão é: «Soas-me na alma distante» (referindo-se o poeta ao sino) Ora, parece-me que o constituinte «distante» predica o sujeito («o sino», sujeito subentendido), sendo por isso predicativo do sujeito (embora tenha dúvidas sobre o verbo soar: será copulativo? Por exemplo, em construções como «soou-me mal», parece que mal qualifica a forma como soou, e não o próprio sujeito. mas a verdade é que no caso em apreço o constituinte distante é um adjetivo…) Quanto ao constituinte «na alma» questiono se será complemento oblíquo ou modificador do verbo. E quanto a «me», seria complemento indireto ou apenas um dativo de interesse (equivalente a «para mim»)? O verso em causa é precedido de outro verso que importaria ter em conta: «És para mim como um sonho.» Aqui penso que «como um sonho» desempenha também a função sintática de predicativo do sujeito. E este «para mim» parece afigurar-se como dativo de opinião ou ético/de interesse, como em «Ele era-nos muito querido», embora o Ciberdúvidas, neste caso, admita que numa versão simplificada seria complemento indireto. Ora, na sequência, «Soas-me distante» equivaleria a «Para mim, soas distante», o que levante essa hipótese do dativo. O mesmo poema termina com duas frases que me parecem ter também uma estrutura predicativa (neste caso transitivo-predicativa), do tipo verbo + complemento direto + predicativo do complemento direto: «Sinto mais longe o passado / Sinto a saudade mais perto.» Agradeço desde já a vossa ajuda na clarificação destas funções sintáticas. Muito obrigado e mais uma vez parabéns ao Ciberdúvidas pelo excelente trabalho.
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