DÚVIDAS

Imagem e oração relativa
Venho, por este meio, solicitar a sua ajuda na análise de uma frase de Frei Luís de Sousa. A cena final do ato II, entre Frei Jorge e o romeiro, é a do reconhecimento, tal como acontecia na tragédia clássica. O retrato de D. João de Portugal deixa de ser apenas uma ameaça e passa a ser uma espécie de espelho do passado; ele representa quem agora está tão diferente que é necessário um gesto de identificação: quando Frei Jorge pergunta «Romeiro, romeiro, quem és tu?», o movimento de apontar para o retrato completa a palavra: «Ninguém!». Aquela simples palavra abre caminho à catástrofe. Não sendo reconhecido pela mulher com quem casou, D. João de Portugal fica limitado à imagem que um retrato fixou. REIS, Carlos, 2016. Frei Luís de Sousa. Almeida Garrett. Porto: Porto Editora (pp. 37-38) (Exercício do manual) A dúvida surgiu na identificação da função sintática de «que um retrato fixou». Sendo uma oração adjetiva relativa restritiva, desempenha a função sintática de modificador restritivo do nome. No entanto, «retrato» é um nome icónico. Haverá outra explicação? A oração não é adjetiva relativa?
O complemento do adjetivo merecedor
Venho, por este meio, solicitar a sua ajuda no esclarecimento de uma dúvida que surgiu a partir de um exercício de um manual adotado no ensino secundário, no âmbito da distinção entre complemento do nome e modificador do nome. No exercício em questão, verifica-se uma divergência entre as propostas de correção apresentadas no manual digital e no manual em formato físico. No texto: «Álvaro de Campos assume-se como discípulo de Alberto Caeiro […] Febril e furioso, expressa a sua admiração por todas as coisas contemporâneas, incluindo no seu canto elogioso realidades que poucas vezes haviam merecido registo poético, banais e disfóricas, mas merecedoras de exaltação por integrarem a diversidade do mundo moderno.» Na solução do manual digital surge destacada apenas a expressão «de exaltação», com a função de complemento do nome. Já no manual em formato físico aparece destacada a expressão «merecedoras de exaltação», classificada como modificador apositivo do nome. A dificuldade sentida prende-se com o facto de «merecedoras» funcionar como adjetivo, constituindo o núcleo do grupo adjetival, pelo que a expressão «de exaltação» surge dependente desse adjetivo e não diretamente do nome «realidades». Neste sentido, a classificação de «de exaltação» como complemento do nome acaba por gerar alguma ambiguidade, sobretudo para os alunos que recorrem às soluções do manual como apoio ao estudo. Confesso que também me suscitou alguma dificuldade a interpretação das soluções, o que reforça a importância de uma orientação clara para os alunos Assim, gostaria de solicitar a sua ajuda no esclarecimento desta questão e na orientação a dar aos alunos. Muito obrigada pela sua disponibilidade.
O que explicativo
Numa ficha de trabalho de uma editora surge a frase «Arrumem os livros que a biblioteca vai encerrar». De acordo com as soluções de correção, a oração «que a biblioteca vai encerrar» aparece como coordenada explicativa. Numa saudável discussão com colegas, uns defendem que a sugestão da editora está correta, no entanto, outros acham que a oração é subordinada adverbial causal. Se fizermos o teste da agramaticalidade sugerido por Maria Eugénia Alves (Ciberdúvidas, 2018), a oração iniciada por “que” é agramatical - “* que a biblioteca vai fechar.” -, uma vez que “na coordenação, a oração que é introduzida pela conjunção não pode dar início à frase”. Acresce o facto de que a situação descrita na suposta oração coordenada explicativa não é temporalmente anterior à que se descreve na oração anterior. (Carla Marques, Ciberdúvidas, 2022) Porém, “No que respeita à pontuação, quando a oração é coordenada explicativa, deve levar uma vírgula a separá-la da oração anterior. Quando estamos perante uma oração subordinada causal, não devemos usar vírgula.” (Carla Marques, Ciberdúvidas, 2022). Aqui o "que" não é antecedido de vírgula. Posto isto, tenho dúvidas em relação à classificação desta frase complexa “Arrumem os livros que a biblioteca vai encerrar”. Aproveito para agradecer o excelente trabalho realizado por toda a equipa do Ciberdúvidas ao longo destes anos. Aprendo muito com a vossa generosidade e profissionalismo! Bem hajam!
O complemento do verbo acertar
Qual é a sintaxe do verbo acertar no sentido de «bater, atingir»? O Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa traz: «Acertou com a pedra no vidro da janela.» Seria possível «acertar com a pedra "o vidro da janela"»? Qual a função sintática do complemento «no vidro da janela»? A Academia dá ainda este exemplo de Camilo: «O poeta Sarmento chamava-lhe cintura à prova de fogo, porque não havia bala que lhe acertasse.» Qual a função sintática do lhe? Há alguma relação entre o lhe e o facto de o complemento ser no vidro da janela, em vez de o vidro da janela? Agradecidíssimo!
A sintaxe do verbo deixar
Na frase «Deixava as chaves onde calhava.», a oração subordinada substantiva relativa «onde calhava» desempenha a função de modificador ou de complemento oblíquo? Parece-me que tem uma função similar à que tem na frase «Colocava as chaves onde calhava», ou seja, complemento oblíquo. Porém, já vi a expressão da primeira frase classificada como modificador. Entendo que o verbo deixar implica deixar algo em algum lugar, tal como o verbo colocar. Agradeço os esclarecimentos.
Os auxiliares «haver de» e ir
O Ciberdúvidas é uma pequena (grande) joia. É muito gratificante esclarecer algumas dúvidas nesta página. Parabéns pelo vosso trabalho. Uma pequena dúvida com o verbo haver (presente do indicativo)+ de +infinitivo e ir(presente do indicativo) + infinitivo. «Eu hei de fazer as pazes com o Afonso» e «Eu vou fazer as pazes com o Afonso» transmitem a mesma informação? A dúvida prende-se com o uso do presente do indicativo nas frases. Ao usá-lo estamos a transmitir (em ambas frases) uma certeza, um facto e/ou uma realidade num futuro próximo? Que vou realmente fazer as pazes com o Afonso. Existe alguma nuance? Muito obrigado a todos.
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