Complementos oblíquos: «veio de Lisboa, partiu para Madrid»
Na frase «O Pedro veio de Lisboa no dia em que Maria partiu para Madrid.», os segmentos «de Lisboa» e «para Madrid» constituem complementos oblíquos ou, antes, modificadores do grupo verbal, uma vez que «O Pedro veio no dia em que Maria partiu» é gramatical?'
Obrigada.
Sobre a análise de orações identificadoras: Brasil vs. Portugal
Estou com dificuldades para encontrar uma estratégia coerente para identificar o predicativo do sujeito e o sujeito em frases copulativas “equativas” ou “identificadoras”.
Em pesquisas antigas pelo Ciberdúvidas julguei ter encontrado um critério sólido, que me satisfez, principalmente pela sua simplicidade e clareza. Assim, nas frase «A personagem principal é a sementinha» e «Descobrir o verdadeiro assassino era uma tarefa para Sherlock», os sujeitos são, respetivamente, «A sementinha» e «Descobrir o verdadeiro assassino».
O Ciberdúvidas chega a esta conclusão, na minha opinião bem (não sou especialista na matéria), através da estrutura clivada. Vejamos:
«É a sementinha que é a personagem principal?»
Esta clivagem mostra bem que o sujeito é «A sementinha», pois se invertermos a clivagem:
«É a personagem principal que é a sementinha?», a frase não soa muito gramatical.
O mesmo se passa com a frase composta por uma substantiva completiva:
«Era descobrir o verdadeiro assassino que era a tarefa se Sherlock?» (perfeitamente gramatical) versus «Era uma tarefa para Sherlock que era descobrir o verdadeiro assassino?» (agramatical).
O outro teste utilizado nestas respostas também me parece muito adequado: «A sementinha, essa é a personagem principal» (em vez de «A personagem principal, essa é a sementinha»); ou «Descobrir o verdadeiro assassino, isso era a tarefa de Sherlock», e não «A tarefa de Sherlock, isso era descobrir o verdadeiro assassino».
Contudo, fiquei baralhado com a última publicação do Ciberdúvidas a respeito da matéria, nomeadamente na análise da frase «Nosso compromisso é garantir o atendimento sem discriminação ou preconceito». Aqui, a conclusão do Ciberdúvidas é que “Nosso compromisso” é o sujeito. Ora, fazendo os testes anteriores não me parece que seja essa a conclusão a que se chega.
Vejamos:
«É o nosso compromisso que é garantir o atendimento sem discriminação ou preconceito?» (Pouco gramatical)
«É garantir o atendimento sem discriminação ou preconceito que é o nosso compromisso?» (mais gramatical).
Até poderíamos substituir por uma frase mais simples:
«A nossa missão é salvar o mundo»
«É a nossa missão que é salvar o mundo?» (agramatical)
«É salvar o mundo que é a nossa missão?» (gramatical).
Vejamos agora o segundo teste:
«Garantir o atendimento sem discriminação ou preconceito, isso é o nosso compromisso» (perfeitamente gramatical)
«O nosso compromisso, isso é garantir o atendimento sem discriminação ou preconceito» (estranho).
Por outro lado, o critério utilizado pelo Ciberdúvidas para discernir o sujeito nesta frase é a substituição do predicativo do sujeito pelo pronome demonstrativo o.
Vejamos:
«O nosso compromisso é garantir o atendimento sem discriminação ou preconceito mas o compromisso dele não o é.»
Não me parece que esta substituição seja mais gramatical que a inversa:
«Garantir o atendimento sem discriminação ou preconceito é o nosso compromisso, tratar mal as pessoas não o é.»
Pergunto também se esta discrepância nos critérios utilizados para encontrar o sujeito tem a ver com o facto de o título desta última entrada ter entre parêntesis a palavra Brasil. Ou seja, os critérios em português do Brasil seriam distintos dos critérios do português de Portugal? Não me parece que nesta matéria houvesse razão para essa divergência…
Ou seja, parece-me que as razões para a divergência têm a ver sim com as diferentes opiniões de especialistas sobre este assunto, o que, dada a complexidade do mesmo, será perfeitamente natural.
Votos de continuação de bom trabalho e, mais uma vez, obrigado pela atenção dispensada.
Vírgula e gerúndio
Tenho uma dúvida quanto à pontuação e à relação sintática entre orações na frase «Dou de ombros, meus olhos mal passando da curva do seu nariz.»
Gostaria de saber se é gramaticalmente adequado justapor essas duas estruturas apenas por vírgula, ou se elas configuram orações com relativa autonomia sintática, exigindo outra forma de pontuação (como ponto final, ponto e vírgula ou o uso de um conector).
Em outras palavras, a segunda construção («meus olhos mal passando…») pode funcionar como uma oração reduzida com valor descritivo ligada à primeira, ou trata-se de uma estrutura independente que não deve ser separada apenas por vírgula?
Obrigado.
O predicativo do sujeito em «está bem onde não cabe»
Recentemente, foi lançado um álbum (de Ricardo Ribeiro) intitulado A alma só está bem onde não cabe. Curiosamente, lembrei-me logo de um verso de uma música mais antiga, de António Variações: «só estou bem aonde não estou».
Gostaria de saber qual a função sintática das respetivas orações subordinadas substantivas relativas («onde não cabe» / «aonde não estou»). Pergunto isto porque o verbo estar tanto pode selecionar predicativos do sujeito com valor de estado (neste caso «bem») como com valor locativo/espacial («onde não cabe»), o que abre a possibilidade de estarmos na presença de dois predicativos do sujeito.
Tentando explicar o cerne da minha dúvida, importaria analisar outras frases:
1) Ele está bem.
O constituinte «bem» é predicativo do sujeito.
2) Ele está em casa.
O constituinte «em casa» é predicativo do sujeito.
Pesquisei e não encontrei frases com dois predicativos do sujeito a não ser quando separados por e.
Exemplo:
3) «Ele está bem e em casa.»
Mas aqui compreende-se, pois parece existir uma elipse: «Ele está bem e [ele está] em casa.» Ou em «Ele está feliz e calmo» («Ele está feliz e [ele está] calmo»).
Ora, semanticamente, «Ele está bem em casa» é diferente de «ele está bem e em casa», pois no primeiro caso subentende-se uma relação “simbiótica” entre as tuas predicações, inseparáveis uma da outra.
Assim, estas frases deveriam ser analisadas de forma diferente? Um dos constituintes seria modificador ou complemento oblíquo e o outro predicativo do sujeito? A questão é como fazer essa escolha.
Concluindo, queria apenas que me esclarecessem se na frase em apreço («A alma só está bem onde não cabe») estamos perante a presença de dois predicativos do sujeito («bem» e «onde não cabe») ou se existe outra análise possível.
Parabéns ao Ciberdúvidas.
Ainda rir vs. rir-se
Muito obrigada pelas suas respostas anteriores.
Podiam explicar, por favor, qual é a diferença entre os verbos rir e rir-se?
Como é correto dizer?
«Ele riu da piada» ou «Ele riu-se da piada»? (Verbo com o objeto do riso).
«Naquele dia ele riu muito» ou «Naquele dia ele riu-se muito»? (Verbo que designa o processo como tal).
Ou todas as quatro variantes são aceitáveis? Qual, então, é a diferença entre elas (se há)?
Desde já agradeço.
Análise de uma frase identificadora (Brasil)
Na frase «Nosso compromisso é garantir atendimento sem discriminação ou preconceito.», qual seria o sujeito?
Li em um livro didático que o sujeito, no caso, seria «nosso compromisso», mas me pareceu tratar-se de hipótese de sujeito oracional, com «garantir atendimento sem discriminação ou preconceito» funcionando como sujeito.
Agradeço antecipadamente.
Conjuntivo: pretérito perfeito vs. pretérito mais-que-perfeito
Antes de mais nada, desejo-vos uma Feliz Páscoa! E agradeço o trabalho que a equipa de Ciberdúvidas faz.
A minha dúvida de hoje tem a ver com duas formas compostas do modo conjuntivo, a saber o pretérito perfeito (composto) do conjuntivo e o pretérito mais-que-perfeito do conjuntivo. Será que, exprimindo anterioridade em relação a uma ação já realizada no passado, estas duas formas são sinonímicas, significam o mesmo?
Por exemplo:
a) Embora eles tenham estudado, não conseguiram passar no exame que fizeram ontem. (Exemplo tirado do livro “Gramática Aplicada 2”, p. 60).
b) Embora eles tivessem estudado, não conseguiram passar no exame que fizeram ontem.
É igual o sentido das frases a) e b)? Ou é diferente?
Se é diferente, qual é a diferença?
Obrigada.
Contextos hipotéticos: indicativo vs. subjuntivo (Brasil)
Na frase abaixo, qual seria a conjugação correta do verbo poder, ou ambas são aceitáveis?
«Nem em sonhos doces imaginaria que algo assim [poderia/pudesse] acontecer.»
Também gostaria de saber a justificativa caso uma das conjugações seja errada no contexto da frase.
Obrigado.
Novamente «ter a» + infinitivo (Brasil)
Na frase «Escuta o que eu tenho a te dizer», a sequência «a te dizer» é objeto indireto do verbo tenho?
Ou é oração subordinada adverbial final?
Obrigado
O significado do verbo estacionar
Tem sentido dizer que as tropas estão "estacionadas" em determinado sítio?
De início pareceu-me uma tradução direta do inglês, mas entretanto verifiquei os vários significados da palavra em português e fiquei na dúvida.
Obrigado.
