DÚVIDAS

Se e infinitivo (norma do Brasil)
Lendo uma tradução feita por Brenno Silveira de um dos contos de Edgar Allan Poe, me deparei com a seguinte construção: «possuir-se boa memória e proceder-se de acordo com as regras do jogo são coisas que constituem etc.» Estaria correto o emprego do pronome se? De acordo com Napoleão Mendes de Almeida não se deve usar se quando o sujeito é um infinitivo. Ele cita na sua gramática: «"é proveitoso ler-se esse livro” o correto é "é proveitoso ler esse livro".» No trecho que me causou dúvida não seria mais correto dizer «possuir boa memória e proceder de acordo…», já que é um sujeito infinitivo? Obrigado.
«Que morreu D. Sebastião» (Mensagem, Fernando Pessoa): análise sintática
Os dois últimos versos do poema “O Quinto Império” do livro Mensagem, de Fernando Pessoa, suscitam-me algumas dúvidas, tanto semântica como sintaticamente. Ora, os dois versos são: «Quem vem viver a verdade/Que morreu D.Sebastião?» Por seu turno os versos anteriores desta quintilha são: «Grécia, Roma, Cristandade, /Europa – os quatro se vão/ Para onde vai toda a idade» Achei curiosa a musicalidade do verso «Quem vem viver a verdade», que junta a assonância do e e a aliteração do v. Contudo, a minha dúvida prende-se com a classificação da oração «Que morreu D.Sebastião». Terá um valor restritivo (que tipo de verdade é essa: a verdade que é [consiste no facto de] ter morrido D.Sebastião/ o facto que é ter morrido D.Sebastião), ou de complemento (que facto é caraterizado como verdadeiro, ou seja:«É verdade que morreu D.Sebastião/ Que morreu D.Sebastião é a verdade»), ou de explicação (o motivo do apelo para viver a verdade [do quinto império] é a constatação da morte física de D.Sebastião, ou seja: «quem vem viver a verdade, já que morreu D.Sebastião»)? Assim, a oração em causa será adjetiva relativa restritiva, substantiva completiva, ou coordenada explicativa? Ainda assim, nenhuma das hipóteses que avancei parece ser inteiramente coerente com o sentido global do poema e da obra. O contexto é o da crença na perenidade do espírito de D. Sebastião, apesar da sua morte física em Alcácer Quibir, e na necessidade de fundar o tal quinto império, posto que os outros quatro já terminaram. Talvez nos queira transmitir o poeta que devemos assumir a morte física do Rei para acreditarmos na sua presença espiritual? Bem sei que a poesia dá azo a uma grande maleabilidade semântica e sintática, mas gostaria de ter a vossa opinião. Parabéns a toda a equipa do Ciberdúvidas pelo vosso excelente trabalho.
Ênclise no subjuntivo (frases optativas)
É sabido que os tempos do subjuntivo são quase invariavelmente precedidos de partículas atrativas (conjunções integrantes, condicionais ou teporais), o que impõe a próclise. Todavia, em contextos de exclamação optativa ou em construções elípticas, seria gramaticalmente aceitável o uso da ênclise? Por exemplo, num contexto de fala ou de escrita literária, em vez de «Oxalá o pudesse (fazer)!» ou «Quem me dera que o pudesse!», seria lícito dizer «(Eu) Pudesse-o!»? Existe algum registo histórico ou norma que autorize a ênclise no subjuntivo quando este inicia a frase sem a presença de partícula atrativa? Obrigado.
Imagem e oração relativa
Venho, por este meio, solicitar a sua ajuda na análise de uma frase de Frei Luís de Sousa. A cena final do ato II, entre Frei Jorge e o romeiro, é a do reconhecimento, tal como acontecia na tragédia clássica. O retrato de D. João de Portugal deixa de ser apenas uma ameaça e passa a ser uma espécie de espelho do passado; ele representa quem agora está tão diferente que é necessário um gesto de identificação: quando Frei Jorge pergunta «Romeiro, romeiro, quem és tu?», o movimento de apontar para o retrato completa a palavra: «Ninguém!». Aquela simples palavra abre caminho à catástrofe. Não sendo reconhecido pela mulher com quem casou, D. João de Portugal fica limitado à imagem que um retrato fixou. REIS, Carlos, 2016. Frei Luís de Sousa. Almeida Garrett. Porto: Porto Editora (pp. 37-38) (Exercício do manual) A dúvida surgiu na identificação da função sintática de «que um retrato fixou». Sendo uma oração adjetiva relativa restritiva, desempenha a função sintática de modificador restritivo do nome. No entanto, «retrato» é um nome icónico. Haverá outra explicação? A oração não é adjetiva relativa?
O complemento do adjetivo merecedor
Venho, por este meio, solicitar a sua ajuda no esclarecimento de uma dúvida que surgiu a partir de um exercício de um manual adotado no ensino secundário, no âmbito da distinção entre complemento do nome e modificador do nome. No exercício em questão, verifica-se uma divergência entre as propostas de correção apresentadas no manual digital e no manual em formato físico. No texto: «Álvaro de Campos assume-se como discípulo de Alberto Caeiro […] Febril e furioso, expressa a sua admiração por todas as coisas contemporâneas, incluindo no seu canto elogioso realidades que poucas vezes haviam merecido registo poético, banais e disfóricas, mas merecedoras de exaltação por integrarem a diversidade do mundo moderno.» Na solução do manual digital surge destacada apenas a expressão «de exaltação», com a função de complemento do nome. Já no manual em formato físico aparece destacada a expressão «merecedoras de exaltação», classificada como modificador apositivo do nome. A dificuldade sentida prende-se com o facto de «merecedoras» funcionar como adjetivo, constituindo o núcleo do grupo adjetival, pelo que a expressão «de exaltação» surge dependente desse adjetivo e não diretamente do nome «realidades». Neste sentido, a classificação de «de exaltação» como complemento do nome acaba por gerar alguma ambiguidade, sobretudo para os alunos que recorrem às soluções do manual como apoio ao estudo. Confesso que também me suscitou alguma dificuldade a interpretação das soluções, o que reforça a importância de uma orientação clara para os alunos Assim, gostaria de solicitar a sua ajuda no esclarecimento desta questão e na orientação a dar aos alunos. Muito obrigada pela sua disponibilidade.
O que explicativo
Numa ficha de trabalho de uma editora surge a frase «Arrumem os livros que a biblioteca vai encerrar». De acordo com as soluções de correção, a oração «que a biblioteca vai encerrar» aparece como coordenada explicativa. Numa saudável discussão com colegas, uns defendem que a sugestão da editora está correta, no entanto, outros acham que a oração é subordinada adverbial causal. Se fizermos o teste da agramaticalidade sugerido por Maria Eugénia Alves (Ciberdúvidas, 2018), a oração iniciada por “que” é agramatical - “* que a biblioteca vai fechar.” -, uma vez que “na coordenação, a oração que é introduzida pela conjunção não pode dar início à frase”. Acresce o facto de que a situação descrita na suposta oração coordenada explicativa não é temporalmente anterior à que se descreve na oração anterior. (Carla Marques, Ciberdúvidas, 2022) Porém, “No que respeita à pontuação, quando a oração é coordenada explicativa, deve levar uma vírgula a separá-la da oração anterior. Quando estamos perante uma oração subordinada causal, não devemos usar vírgula.” (Carla Marques, Ciberdúvidas, 2022). Aqui o "que" não é antecedido de vírgula. Posto isto, tenho dúvidas em relação à classificação desta frase complexa “Arrumem os livros que a biblioteca vai encerrar”. Aproveito para agradecer o excelente trabalho realizado por toda a equipa do Ciberdúvidas ao longo destes anos. Aprendo muito com a vossa generosidade e profissionalismo! Bem hajam!
O complemento do verbo acertar
Qual é a sintaxe do verbo acertar no sentido de «bater, atingir»? O Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa traz: «Acertou com a pedra no vidro da janela.» Seria possível «acertar com a pedra "o vidro da janela"»? Qual a função sintática do complemento «no vidro da janela»? A Academia dá ainda este exemplo de Camilo: «O poeta Sarmento chamava-lhe cintura à prova de fogo, porque não havia bala que lhe acertasse.» Qual a função sintática do lhe? Há alguma relação entre o lhe e o facto de o complemento ser no vidro da janela, em vez de o vidro da janela? Agradecidíssimo!
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