1. A linguagem não binária é uma questão política e ora é eixo de promoção, ora alvo de ataque de governos, em função das opções ideológicas das forças que exercem o poder. Um exemplo de como a linguagem neutra suscita reações contrárias fortes vem da Itália, país onde o Ministério da Educação (em italiano, Ministero dell'Istruzione e del Merito) determinou a proibição do uso de símbolos de linguagem neutra nas escolas ("Itália proíbe símbolos de linguagem neutra nas escolas e incendeia debate cultural", Executive Digest-Sapo, 21/03/2025). A decisão do Ministério de Educação italiano foi tornada pública em 21/03/2025, através da "Nota protocollare n. 1785" (literalmente «nota protocolar»), e visa diretamente dois dos símbolos usados em italiano, para evitar a distinção binária de género gramatical: o asterisco (*) e o schwa (ə), símbolo do Alfabeto Fonético Internacional que se pode aportuguesar como xevá (Infopédia). A referida nota ministerial apoia-se em três pareceres da famosa Accademia della Crusca, instituição que intervém na norma do italiano e que já anteriormente se tinha pronunciado sobre o uso destes símbolos, tendo considerado em 2024 que «a língua jurídica e burocrática não é a sede adequada para experiências inovadoras que transmitem falta de homogeneidade e comprometem a linearidade da compreensão dos textos». Em Portugal, como noutros países de língua portuguesa, têm sido usados os símbolos @ e, por vezes, x, em situações como "tod@s" e "todxs" (= «todas e todos»), além de haver falantes que realizam fonética e morfológicamente o marcador neutro como e – "todes". Diga-se, no entanto, que, ainda em Portugal, tanto quanto é dado a observar, estes símbolos não ocorrem em textos administrativos nem se aceitam nas escolas, pelo que uma nota similar da parte do ministério homólogo português, o Ministério da Educação, Ciência e Inovação, seria muito de admirar.
Sobre este assunto, sugere-se a leitura dos vários artigos que se encontram identificados na lista do subtema "Linguagem inclusiva". Na imagem, "Mês de Abril", tela datada de 1669, da autoria de Baltazar Gomes Figueira e Josefa de Óbidos (Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa).
2. Em O Nosso Idioma, a consultora Inês Gama faz uma breve apresentação de alguns dos provérbios mais emblemáticos relacionados com o mês de abril. Na mesma rubrica, o gramático brasileiro Fernando Pestana lembra num apontamento que facto e fato são variantes legítimas da língua portuguesa, tal como registo e registro, acrescentando: «Cada norma linguística (seja no português, seja no espanhol, seja no inglês, seja no francês) tem as suas peculiaridades, pelo que, quanto mais estudamos a língua, menos sobranceiros e mais compreensivos ficamos.»
3. Continuando a surpreender confusões e velhas incorreções no que se ouve e lê nos media portugueses, o consultor Carlos Rocha regista quatro ocorrências no Pelourinho.
4. No Consultório, volta-se à Mensagem de Fernando Pessoa por causa das metáforas de um dos poemas dessa obra, "Fernão de Magalhães". Outras questões abordadas no conjunto de seis dúvidas da presente atualização: a locução «nos idos de», o verbo frequentar, o modo associado à conjunção enquanto e a distinção entre derivados afixais e não afixais.
5. A respeito dos projetos em vídeo do Ciberdúvidas, cabe mencionar O Ciberdúvidas Vai às Escolas*, cujo 24.º episódio é dedicado às regras do hífen em palavras derivadas e compostas, e Ciberdúvidas Responde (29.º episódio), onde o tópico é desta vez o uso das formas empregado e empregue, particípios passados do verbo empregar.
* Com a participação dos estudantes e docentes do Instituto Politécnico de Lisboa.
6. Dois registos à volta lusofonia: o projeto “Jovens Leitores”, que foi lançado na Guiné-Bissau e inclui uma formação para 20 jovens artistas do país, para ilustrarem uma nova coleção de contos destinada aos mais novos (in 7 Margens, 02/04/2025); o relato do tradutor e divulgador de temas linguísticos Marco Neves, sobre a sua experiência numa Escola Oficial de Idiomas em Badajoz, capital da Estremadura espanhola, uma região em que o ensino do português tem vindo a crescer (in Pilha de Livros, 02/04/2025);
7. Em dois dos programas em que, na rádio pública de Portugal, se trata de temas da língua portuguesa, são temas em foco:
– em Língua de Todos (RDP África, sexta-feira, 04/04/2025, às 13h20*; repetido no dia seguinte, c. 09h05*), a professora Sandra Duarte Tavares aborda alguns problemas relacionadas com o funcionamento do português, nomeadamente, o uso da preposição de junto do verbo avisar, e inclui-se um comentário sobre o sentido da expressão «fizeram bicos de rouxinóis para o meu jantar», no poema "O Falso Mendigo" de Vinicius de Moraes.
– em Páginas de Português (Antena 2, domingo, 06/04/2025, às 12h30*; repetido no sábado seguinte, 12/04/2025, 15h30*), a professora universitária Helena Carvalhão Buescu (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa) apresenta os dois volumes da obra Mundos em Português e a consultora Inês Gama esclarece o provérbio «Entrudo borralheiro, Páscoa soalheira».
8. Coincidindo com a interrupção letiva no ensino básico e secundário em Portugal, na época da Páscoa, o Ciberdúvidas faz uma pausa até 21 de abril. Durante este período, não funcionará o Consultório, mas, sempre que o interesse ou a atualidade o justifiquem, não se deixará de incluir novos conteúdos nas restantes rubricas (Na 1.ª Pessoa, Atualidades, Outros). A próxima atualização fica agendada para 22 de abril, e, até lá, ficam os votos de boas leituras sobre os temas e as questões da nossa língua comum.