A vuvuzela dos anglicismos - Pelourinho - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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A vuvuzela dos anglicismos

Gosto da vuvuzela, a palavra. Anteoiço a cacafonia. Se tudo ficasse na oficina artesanal do homem que a inventou, junto aos capacetes de mineiro acrescentados com adornos e cores chibantes, sublimando a escondida e subterrânea saga do ouro, que bela empresa seria! A oportunidade de negócio impôs a sua reprodução em plástico e a vuvuzela inundou o mercado. Quem irá, agora, aos quintais dos artífices, nos subúrbios de Joanesburgo, as townships, saber da sua estória e ver como se faz?

Fica a vuvuzela, a palavra, contributo lexical deste Campeonato do Mundo de Futebol na África do Sul. E sobram os anglicismos. Melhor, nem anglicismos, mas inglês mesmo.

Vejam e oiçam a publicidade de uma certa entidade bancária a que dá rosto e voz o seleccionador  português Carlos Queirós. Suspeito que os criativos fizeram o follow up da escolha da música anunciada, e logo martelada, mais do que difundida, como tema dos "navegadores" da bola. De um grupo norte-americano que também veio actuar em Portugal. Vergonha de pedir uma musiquinha a um cantautor, a uma banda portugalinha?  I've got the feeling que sim, desculpem, que yes. Que não ficava bem, que parecia mal. Dados à melancolia e a rocadas demasiado líricas, sem o beat da pop, o importante era o cherne cosmopolita. Não se imagina navegadores do século XXI, mesmo de bola à bolina, com adufes e tamboretes, pífaros e guizos, a apresentarem-se ao público.

E, afinal, tudo se passa em terras que já pertenceram à velha Albion, a mesma que nos deu tratados, ínclita geração, Lencastres e Lancastres, vinho do Porto e da Madeira, Ultimatum e República. It's ok, its really amazing! Um quase "porreiro, pá!".

Parafraseando Herberto, e que o poeta nos perdoe, estes são os marqueteiros, os que vão cacafonear a língua.

Não há purismo nisto. Mas, que raio, não existiria — e este condicional tem a dimensão agónica de um abismo — não existiria, repito, um raio de um arroubo que nos livrasse desse must que dá pelo nome de estrangeirismo bacoco? Tenho o pressentimento, a sensação, de que não, de que nem se pensou nisso, de que não parecia bem. É um feeling que tenho comigo. E longe, para muito longe, se arredem outros agoiros e premonições. Afastem, pois, de mim esses feelings.

Sobre o autor

Luís Carlos Patraquim (Maputo, 1953), jornalista, poeta, escritor e roteirista moçambicano, com diversificada obra publicada. Por exemplo, Monção (Edições 70 e Instituto Nacional do Livro e do Disco de Moçambique, 1980), A Inadiável Viagem (ed. Associação dos Escritores Moçambicanos, 1985), Mariscando Luas (Editora Vega, 1992), Lidemburgo Blues (Editorial Caminho, 1997), O Osso Côncavo e Outros Poemas (Lisboa, Editorial Caminho, 2005), Pneuma (Editorial Caminho, 2009) e A Canção de Zefanías Sforza (Porto Editora, 2010).