O pretérito perfeito e pretérito imperfeito - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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O pretérito perfeito e pretérito imperfeito

O que nos permite misturar os pretéritos perfeito e imperfeito quando contamos uma estória e, ainda assim, entendermos tudo que se passa? Por exemplo:

«Quando eu era criança, eu nadei muito.»/ «Quando fui criança, eu andava de bicicleta.»

«Comi pamonha e bebia suco.»

Quando devo obrigatoriamente usar o pretérito imperfeito?

Outra pergunta: por que quando digo «Todas as vezes em que ia a Angola, gostava de passear pelas ruas» e «Todas as vezes em que fui a Angola, gostei de passear pelas ruas», na primeira frase eu tenho um sentido implícito de que já não vou mais a Angola?

Espero ter sido claro. É difícil mesmo usar a língua, e o desafio é algo fantástico.

Obrigado.

Vinicius Penteado Professor Boston, USA 302

O pretérito perfeito é um tempo verbal que descreve uma situação passada, ou seja, anterior ao momento da enunciação. Pode marcar o momento em que uma dada situação terminou:

(1) «Ele leu o livro.» («O livro já está lido.»)

Este tempo verbal, associado a vários verbos organizados sequencialmente, traduz uma sequência temporal:

(2) «Ele chegou, abriu a porta e entrou em casa.»

 Por seu turno, o pretérito imperfeito aponta para um valor temporal do passado, mas não tem a capacidade de descrever sozinho uma situação localizada no passado, facto que justifica a agramaticalidade de (3):

(3) «*Ele comia um bolo.»

A inaceitabilidade da frase mostra que o imperfeito precisa de um enquadramento, que poderá ser feito por uma oração temporal (4) ou por uma expressão de quantificação temporal (5):

(4) «Ele comia um bolo quando vinha a esta pastelaria.»

(5) «Às quintas-feiras, ele comia um bolo.»

O imperfeito apresenta, assim, um tempo alargado que se sobrepõe total ou parcialmente a um tempo do passado, podendo ainda estar incluído neste. 

Relativamente às frases apresentadas pelo consulente, passamos em revista cada uma delas:

(6) «Quando eu era criança, eu nadei muito.»: o imperfeito na oração subordinada descreve uma situação estativa localizada no passado, ou seja, um estado passado; o perfeito descreve um evento que se repetiu no passado, enquanto o locutor foi criança.

(7) «Quando fui criança, eu andava de bicicleta.»: esta frase parece menos aceitável porque o uso do perfeito na oração subordinada localiza a ação no passado, mas não parece conferir-lhe a duração que a ação de «ser criança» tem, ou seja, não descreve a duração da situação. Por esta razão, parece mais natural o uso do imperfeito em ambas as orações, o que permite descrever um valor habitual associado a «andar de bicicleta», que ocorreu no intervalo de tempo de «ser criança»;

(8) «Comi pamonha e bebia suco.»: esta frase também parece pouco aceitável porque se trata de uma coordenação de duas orações, o que leva a que seja mais natural a coordenação de duas situações descritas por meio do imperfeito («Comia pamonha e bebia suco.») ou por meio do perfeito (Comi pamonha e bebi suco.»).

A diferença patente nas duas últimas frases está presente na forma como se descrevem as situações:

(9) «Todas as vezes em que ia a Angola, gostava de passear pelas ruas.»

(10) «Todas as vezes em que fui a Angola, gostei de passear pelas ruas.»

Em (9), a situação é descrita como um evento passado repetido, em que «ir a Angola» está associado a «gostar de passear nas ruas». Em (10), a situação é descrita como um evento passado já concluído e que, portanto, é apresentado como não passível de repetição a partir do momento de enunciação. 

Disponha sempre!

Carla Marques
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: verbo