A diferença entre o pretérito perfeito do indicativo e o pretérito imperfeito do indicativo - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
A diferença entre o pretérito perfeito do indicativo e o pretérito imperfeito do indicativo

Esta questão foi-me colocada por um estrangeiro que está a aprender português.

Na frase «tu nunca _____ fome», o verbo ter pode ser conjugado tanto no pretérito perfeito (p.p.) como no pretérito imperfeito (p.i.), tendo as frases resultantes significados diferentes:

«Tu nunca tinhas fome.»(p.i.) – entendo esta frase como: «Nesse período em particular tu não passaste fome» – vs «Tu nunca tiveste fome» (p.p.) – entendo esta frase como: "Tu nunca passaste fome na vida."

Neste caso, aparentemente, o pretérito imperfeito define um período específico, enquanto o pretérito perfeito se refere a um período indefinido de tempo. Tenho, portanto, bastante dificuldade em explicar o que se está aqui a passar gramaticalmente.

Podem esclarecer-me esta dúvida, por favor?

João Rocha Investigador Lisboa, Portugal 67

Sem outro contexto, que poderia determinar uma interpretação distinta das frases apresentadas, procuraremos indicar algumas diferenças basilares entre os usos dois tempos verbais, pretérito imperfeito do indicativo e pretérito perfeito do indicativo, em frases simples.

O pretérito perfeito do indicativo é um tempo usado sobretudo para localizar a situação descrita pelo verbo no passado, ou seja, num tempo anterior ao momento da fala. Para além desta localização temporal, o pretérito perfeito apresenta a situação como concluída, terminada. Assim, a frase (1)

(1) «Tu nunca tiveste fome.»

pode ser interpretada como afirmando que, num momento passado, o interlocutor não teve em nenhuma ocasião fome, sendo a situação descrita como concluída, pelo que se poderia acrescentar à frase o sintagma «até ao momento».

O pretérito imperfeito do indicativo é normalmente um tempo que se associa a uma referência temporal ou a uma outra oração. Sendo utilizado de forma independente, o imperfeito pode traduzir um valor habitual, ou seja, descrever uma dada situação como repetida num momento anterior ao da enunciação. Assim, a frase (2)

(2) «Tu nunca tinhas fome.»

pode estar associada à descrição do tu como sendo alguém que, no passado, nunca viveu a situação de ter fome, o que se repetiu em diversas ocasiões.

Deste modo, a frase (1) perspetiva a situação como um todo já concluído e localizado no passado. A frase (2) perspetiva a situação como um conjunto de situações que se repetiram de igual forma num tempo passado.  

Relativamente à diferença entre estes dois tempos, ver também «O pretérito perfeito e o pretérito imperfeito».

Disponha sempre!

Carla Marques
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: verbo
Áreas Linguísticas: Discurso/Texto; Semântica Campos Linguísticos: Tempo/Modo/Pessoa/Número (verbos)