As eleições em Espanha e os castelhanismos no português - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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As eleições em Espanha e os castelhanismos no português
As eleições em Espanha e os castelhanismos no português
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1. Em Espanha, voltam a realizar-se eleições legislativas em 26 de junho p. f., para definir uma nova representação parlamentar e permitir – espera-se – a formação de novo governo*. Sem esquecer a diversidade linguística de Espanha, dê-se, no entanto, a devida atenção à língua castelhana – a que também se chama espanhola –, senhora de uma longa e admirável história. À sua tendência hegemónica na Península Ibérica, também não escapou o português, e, entre os muitos castelhanismos naturalizados e, portanto, sem história de censura normativa, contam-se botija, cabecilha, cavalheiro, granizo, guerrilha e novilho (sobre estes vocábulos, ler aqui). Mas há também os castelhanismos menos ou nada aceitáveis: basta referir o controverso uso de desde com valor espacial, mas fora da correlação com as preposições até, como acontece em «estamos a transmitir desde Madrid», frase que é necessário corrigir, substituindo desde por de: «estamos a transmitir de Madrid»**. Causa de muitos mal-entendidos entre falantes de português e falantes de espanhol, faça-se ainda breve referência aos falsos amigos oficina/oficina, talher/taller, oferta/oferta, esquisito/exquisito, entre muitos outros pares traiçoeiros.

É de registar o papel ativo e dinâmico da Fundación del Español Urgente – Fundéu BBVA a respeito dos mais variados aspetos do uso do espanhol, apresentando listas de formas recomendadas para a redação sobre a atualidade (claves de redacción). Consulte-se a lista de formas que dedica, em 24/06/2016, às eleições legislativas espanholas.

** Sobre este tema da influência do castelhano e de outras línguas de Espanha no português, (re)leia-se ainda: Saramago, o Ibérico + Castelhanismos, a propósito de Saramago + Como reconstituir a pronunciação do português antigo + O novo Acordo Ortográfico e o galego + Língua preciosa + A farsa galega: sobre a implementação da “Lei Paz-Andrade”

2. O Reino Unido continua na ordem do dia, agora que, com o resultado do referendo de 23 de junho p. p., a sua saída da União Europeia ficou decidida e vai mesmo concretizar-se. A nova situação torna a União Europeia uma incerteza, enquanto promete manter a bom ritmo a exportação de criações do mesmo tipo que Brexit* (forma já aqui comentada), bem como da fraseologia e do estilo do discurso anglófono. Dê-se o caso de uma frase escrita no jornal português Diário de Notícias (DN): «No último comício da campanha, em Londres, Farage defendeu que no final do dia esta é uma decisão sobre que bandeira os eleitores querem ter: a britânica ou a europeia.» ("Brexit. Aconteça o que acontecer, 'keep calm and carry on'", DN, 23/06/2016). Ainda que a «no final do dia» seja atribuível sentido literal – com efeito, o referendo terminou às 22h00 –, reconheça-se que a expressão faz eco da locução inglesa «at the end of the day», usada informalmente para marcar uma conclusão e equivalente a «no fim de contas». Não teria sido mais português escrever «... Farage defendeu que, no fim de contas,...»? Parece-nos que sim.

* Pela sua importância histórica, o Brexit de 23 de junho de 2016 é já um nome próprio e, portanto, pode dispensar o itálico ou as aspas, como acontece com nomes próprios estrangeiros. Sobre os anglicismos em geral, sugere-se leitura dos seguintes textos: Anglicismos; Anglicismos desenfreados; A vuvuzela dos anglicismos; Anglicismos escusados e sem tradução; Web Summit, start-up e feature: como usar em português?; Por uma campanha de alfabetização de economistas, gestores e deputados; Acerca dos estrangeirismos; Lisbon South Bay; É o lifestyle, stupid; Estrangeirismos sem freio; Excessiva utilização de anglicismos; E o humor foi também em inglês?; Estrangeirismos nos jornais; A mania de se pronunciar à inglesa tudo e nadaA Champions de José MourinhoWelcome!?Contra a "ditadura" do inglês na produção científica.

3. Em Angola, anuncia-se a elaboração de um atlas linguístico por técnicos angolanos formados por uma investigadora norte-americana, segundo informação do diretor do Instituto de Línguas Nacionais, José Domingos Pedro. Este projeto lançado pelo Governo angolano visa dar a conhecer melhor a realidade linguística de Angola, país onde, além do português, se falam quase duas dezenas de línguas nacionais, entre as quais já se encontram oficializados, por exemplo, o umbundo, o quimbundo e o quicongo. Sobre as línguas de Angola, leia-se a entrevista que, em 10/10/2013, Edno Pimentel fez a Amélia Mingas, professora da Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto, em Luanda.

4. Quanto aos programas produzidos pelo Ciberdúvidas na rádio pública portuguesa, assinalamos que, no Língua de Todos de sexta-feira, 24 de junho (às 13h15*, na RDP África; com repetição no sábado, 25 de junho, depois do noticiário das 9h00*), se fala de pluricentrismo do português no contexto da III Conferência Internacional sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial, que decorreu em Díli de 15 a 17 de junho p. p. O Páginas de Português de domingo, 26 de junho (Antena 2, às 12h30*, com repetição no sábado seguinte às 15h30*), dá relevo às atividades que, em Portugal, o Plano Nacional de Leitura tem levado a cabo, entre elas o programa Ler Mais..., dirigido a adultos.

 * Hora de Portugal continental.

5. Como oportunamente já anunciado, o consultório do Ciberdúvidas volta em setembro f.p.