Por uma campanha de alfabetização de economistas, gestores e deputados - Pelourinho - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Início Português na 1.ª pessoa Pelourinho Artigo
Por uma campanha de alfabetização de economistas, gestores e deputados
Por uma campanha de alfabetização de economistas, gestores e deputados

A propósito da audição, na comissão de inquérito do parlamento português, dos três principais envolvidos no caso do Banco Espírito Santo (caso BES) – Ricardo Salgado, José Maria Ricciardi e Pedro Queiroz Pereira –, o comentador Daniel Oliveira critica o jargão opaco e anglicizado de economistas, gestores e deputados numa discussão que, sendo pública, deveria tornar-se linguisticamente transparente e acessível ao comum dos cidadãos. E, já agora, imune a imprecisões muito comuns no meio quando se trocam os biliões pelos mil milhões...

[Texto publicado no jornal Expresso em 11/12/2014, a seguir transcrito com a devida vénia.]

 

 

Os emigrantes com menor instrução são os que mais facilmente vão misturando a língua do seu país de origem com a do país de acolhimento. Porquê? Porque tendo, à partida, menos vocabulário disponível vão assimilando o que aprenderam tardiamente na língua do país onde vivem. Pelo contrário, os emigrantes ou estrangeirados mais instruídos tendem a separar de forma mais clara os vários idiomas e a usarem um ou outro conforme as circunstâncias em que se encontram. Essa é uma das razões pelas quais não consigo deixar de sorrir quando alguém, para exibir o seu nível cultural, usa palavras estrangeiras para as quais existem traduções praticáveis na sua língua materna. É sinal de uma de duas coisas: ou pouco conhecimento da língua portuguesa ou puro exibicionismo provinciano.

O jargão profissional é uma espécie de língua estrangeira. Quase todas as profissões que exigem maior preparação técnica têm o seu. Juristas, médicos, cientistas sociais, informáticos... Mas ninguém consegue ultrapassar os economistas e os gestores. Até porque, tal como os informáticos, o jargão profissional é internacional. Ou seja, é mesmo uma língua estrangeira. Os Gato Fedorento têm, aliás, uma rábula a este hábito do "gestorês" usar expressões inglesas para tudo e um par de botas. Do downsizing ao merchandising, do factoring ao outsourcing, do benchmarking ao renting, passando por mais umas tantas coisas acabadas em ing.

O uso de expressões codificadas, apenas compreensíveis pelos conhecedores de um determinado ramo de atividade, é natural. Além de ser, como em geral a linguagem é, uma forma dos pares se reconhecerem uns aos outros, permite uma economia de tempo, já que estas palavras têm significados acordados pelo conhecimento acumulado que só poderiam ser traduzidos para a linguagem comum (e nacional) de forma imperfeita e mais demorada. Mas isto é quando a conversa é de profissionais para profissionais. Outra coisa é quando se está a falar numa comissão parlamentar de inquérito, em direto para o país inteiro. Quem está a ser esclarecido é o País, quem os deputados representam são os portugueses. E a transparência da linguagem faz parte da condição de representação democrática. Uma comissão parlamentar não é uma reunião de especialistas. É um momento de esclarecimento público.

Dizer, para o País inteiro, que a governance de Ricardo Salgado nunca permitiria que o ring fence decidido pelo Banco de Portugal funcionasse é, para a maioria dos portugueses, mais ou menos o mesmo do que missas em latim. A coisa chega a um ponto que até temos erros factuais, quando os inquiridos, que aprenderam a falar em reuniões de negócios, usam, sem ser corrigidos, «um "bilião"» para dizer «mil milhões». Não espanta que a correção não venha, quando vários deputados explicam que vão «fazer "questões"» aos inquiridos. Vários deputados seguiram o exemplo e começaram a falar numa língua diferente da que se estipulou ser a oficial do País e, por isso, a que deve ser usada na Assembleia da República. Terão ficado muito orgulhosos por exibirem o seu grau de conhecimento, mas as suas intervenções tiveram, para a maioria dos cidadãos, uma utilidade nula no esclarecimento da verdade.

Conheci um assessor de um político que o aconselhava a dizer sempre muitos números. Quanto mais ininteligíveis fossem, melhor. As pessoas não compreenderiam nada mas ficariam esmagadas pelo seu impressionante conhecimento dos dossiers. Toda a gente ficou maravilhada pelo conhecimento que vários deputados do parliamentary committee of inquiry exibiram do mundo das finanças e da banca. A esmagadora maioria ficou mais ou menos na mesma sobre o BES. Porque havia frases inteiras incompreensíveis para mais de 90% dos portugueses. Incluindo muitos dos jornalistas ali presentes, que não se deram ao trabalho de fazer a devida tradução. Ou por não saberem (para traduzir o jargão para linguagem corrente é preciso saber mais do que para usar o jargão sem tradução) ou por também eles gostarem de manter a distância que a linguagem técnica nos dá dos restantes mortais.

Na realidade, a generalidade dos portugueses ficou com a ideia de que havia um primo bom e um primo mau. Parece acontecer com tudo em que o Espírito Santo se mete. Fora isso, quase tudo foi para quase todos "incompreensiting". Esta é uma das minhas batalhas: que os agentes do Estado, a começar pelos eleitos, falem para serem entendidos e não para exibirem o seu poder cultural. É uma das condições para se exercer a democracia e se garantir a transparência. Nem que para isto tenhamos de voltar às saudosas campanhas de alfabetização. O português é rico em vocabulário. Usem-no, que ainda não paga IVA. Quando for para importar estrangeirismos, que seja para enriquecer a língua.

Sobre o autor

Daniel Oliveira (Lisboa, 1969), político, também é jornalista e autor do coluna Antes pelo contrário no jornal Expresso. Integra o painel de comentadores do programa de debate Eixo do Mal, na SIC Notícias. Venceu o Prémio Revelação Gazeta, do Clube de Jornalistas, em 1998 com uma reportagem sobre a Primavera de Praga, publicada na revista Vida Mundial.