Web Summit, start-up e feature: como usar em português? - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Web Summit, start-up e feature:
como usar em português?

«A Web Summit Lisboa é a nossa melhor oportunidade depois da Expo-98», era o título da entrevista publicada na Revista do Expresso do passado dia 9/01 ao secretário de Estado da Indústria e (assim identificado) ex-diretor executivo da Startup Lisboa, João Vasconcelos. E, mais adiante: «(...) O poder montar um negócio em Portugal e na semana seguinte ter um cliente no Japão era uma coisa que dantes não era possível. É importante sublinhar que nem todas as startups se tornarão empresas: muitas delas estão a desenvolver um produto, uma feature, e esse produto ou feature será comprado por alguma empresa para os incorporar na sua oferta. (...)» Web Summit, startup, feature. Pergunto: nenhuma destas palavras tem tradução portuguesa, ou trata-se só de mais um (mau) exemplo de um governante português preferir o inglês ao idioma nacional?

Armando Dias Reformado Lagos, Portugal 3K

1. Web Summit1

Web Summit é o nome de um encontro internacional organizado anualmente por empresas irlandesas (em 2015, Connected Intelligence Limited). Trata-se de um nome próprio resultante da conversão da expressão «web summit», que literalmente é o mesmo que «cimeira da/na rede», «cimeira da/na Web» ou «cimeira da/na Internet»; pode ainda sugerir-se «cimeira web», com web empregado adjetivalmente e em itálico (ou aspas). Como Web Summit se comporta como nome próprio, não tem, em princípio, tradução. Mesmo assim, esse estatuto não o dispensa de se ligar a outro nome próprio, seguindo a sintaxe portuguesa: «a Web Summit de Lisboa» (apesar de, em certos eventos, se observar a omissão da preposição, como sucede com o Moda Lisboa).

2. Start-up

Uma tradução recorrente é «empresa emergente» (existe solução homóloga em espanhol), no sentido de empresa que procura inovar no mercado, apoiando-se na tecnologia.2

3. Feature

É palavra traduzível de diferentes formas, mas, no contexto das empresas emergentes, encontra equivalente em recurso (ver Proz.com) e funcionalidade (Linguee). Este último termo português é polissémico (vários significados) e, revertendo ao inglês, pode encontrar outras traduções (por exemplo, functionality; cf. Linguee).

1 N. E. (21/09/2016) – Foram feitas ligeiras alterações no primeiro ponto da resposta.

2 N. E. (14/10/2016) – Sobre start-up, convém acrescentar que a grafia com hífen se encontra registada, por exemplo, em três grandes dicionários de língua inglesa, a saber, o Oxford English Dictionary (OED), o Cambridge Dicitionary e o Merriam-Webster Dictionary. Contudo, a forma startup, sem hífen e com a aglutinação dos elementos constituintes, também é aceite, conforme se indica no OED. Além disso, apesar de os dicionários sugerirem que a forma hifenizada é preferível, observa-se que é startup que tem maior uso (ler discussão nas páginas em inglês da Company Warehouse). Uma consulta por meio da ferramenta Google Ngram revela, aliás, que o uso de startup  ultrapassa o de  start-up. Em suma, seria mais correto escrever start-up, com hífen, por porvir de um verbo preposicional, start up «arrancar, começar» (cf. outros casos em inglês de nomes derivados de verbos preposicionais: blow up, «insuflar, aumentar» → blow-up, «ampliação (de fotografia)»), mas a génese e o uso da palavra impuseram a grafia startup, que predomina e se aceita.

Carlos Rocha
Tema: Uso e norma
Campos Linguísticos: Estrangeirismos