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O presente do indicativo em orações condicionais de valor genérico

Eu leio há muito tempo em textos técnicos de Matemática construções do tipo «Se um conjunto é finito, então qualquer subconjunto deste também é». Ou, quando muito, «Se um conjunto for finito, então qualquer subconjunto deste também é.» Essas parecem-me erradas (um erro aparentemente oriundo de um anglicismo). A que me parece correta é a seguinte: «Se um conjunto for finito, então qualquer subconjunto deste também será.»

Assim, tenho esta dúvida: em uma frase condicional do tipo «Se (...), então (...)», o verbo na oração subordinada deve necessariamente estar conjugado no modo conjuntivo? Ademais, pode-se estabelecer alguma relação a priori entre os tempos nos quais os verbos das orações principal e subordinada são conjugados?

Agradeço desde já.

Jorge Hamsten Matemático Niterói, RJ, Brasil 697

Em português, usa-se o presente do indicativo em enunciados genéricos, como são os da matemática ou de outra disciplina científica.

O presente do indicativo figura como tempo característico das frases genéricas, como observa a Gramática do Português (GP), da Fundação Calouste Gulbenkian (2013, pág.. 516)

«O presente do indicativo é também usado em frases genéricas, que representam características típicas ou essenciais de espécies ou outros tipo de entidades [...] como se ilustra em (8):

(8) a. Os tigres são animais ferozes.

b. O embondeiro está em vias de extinção. [...]»

Este valor genérico pode também estar associado a orações condicionais que têm o verbo no indicativo e são interpretadas factualmente, também como se assinala na GP (pág. 2021):

«[...] [A]s construções condicionais podem ser classificadas consoante a proposição expressa pelo antecedente (ou seja, a oração introduzida pelo conector condicional) tenha tido lugar, possa vir a ter lugar ou não tenha tido efetivamente lugar. Assim, o primeiro do seguintes exemplos tem uma interpretação factual ou real; o segundo tem uma interpretação hipotética – o João pode vir a estar doente ou não; e o terceiro tem um interpretação contrafactual ou irreal, ou seja, depreende-se que o Rui não esteve doente:

(147) a. Se o Rui estava doente, a mãe telefonava-lhe todos os dias.

         b. Se o Rui estiver doente, a mãe telefonar-lhe-á todos os dias.

         c. Se o Rui estivesse doente, a mãe ter-lhe-ia telefonado todos os dias.

Como se pode verificar, às diferentes leituras estão associados diferentes tempos e modos verbais. Assim, nas condicionais factuais encontramos sempre o modo indicativo:

(148) Se eles não vieram, então não vão perceber a matéria.

Nalguns casos, estas orações são equivalentes a orações subordinadas temporais com quando, principalmente quando a oração condicional tem uma interpretação habitual ou genérica, como se ilustra em (149) e (150):

(149) a. Se o Rui chegava tarde, a mulher ficava preocupada.

         b. Se a água atinge a temperatura de 100º C, começa a ferver.

(10) a. Quando o Rui chegava tarde, a mulher ficava preocupada.

        b. Quando a água atinge a temperatura de 100º C, começa ferver. [...]»

O uso do presente do indicativo nas orações condicionais não constitui, portanto, um reflexo da influência sintática do inglês, sendo antes característico da construção da genericidade em português, ou seja, da propriedade que certos enunciados têm de denotar uma classe de entidades ou situações, e não entidades ou situações específicas ou situações localizadas num tempo específico (cf. genericidade no Dicionário Terminológico). Por exemplo, sobre:

1. Os professores trabalham muito.

Pode dizer-se que «esta frase é verdadeira, porque remete para a classe dos professores» e que «[é] verdadeira, mesmo que haja um professor específico que não trabalha muito» (idem, ibidem). Típico das frases com valor genérico é «o uso do artigo definido, do presente do indicativo ou a presença de advérbios como geralmente» (idem, ibidem).

Carlos Rocha
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: verbo