Africadas, fricativas e galego-português - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Africadas, fricativas e galego-português

Tenho lido que o antigo galego-português fazia uma diferenciação na pronúncia das palavras paço, passo e entre cozer e coser, o que explicaria as diferentes grafias. No português actual restaria somente a diferenciação entre [s] e [z]. Em Trás-os-Montes tal sistema ainda subsistiria. Gostaria de saber, especificamente, como eram esses quatro fonemas, que se perderam na língua-padrão. Haveria a possibilidade de comparação desses sons com alguma outra língua, como se processou a evolução fonética?

Muito obrigado.

Victor Villon Pós-graduando em História Rio de Janeiro, Brasil 6K

Já aqui se disse que, no período galego-português, a língua opunha um par de fricativas a outro constituído por africadas. O ponto de articulação das fricativas era apicolaveolar (já explicarei o que isto é) e o das africadas, predorsodental:

1. Fricativas apicoalveolares:
a) surda: pa sso;
b) sonora: co ser.

2. Africadas predorsodentais:
a) surda: pa ço
b) sonora: co zer.

O som das apicoalveolares dá impressão de se encontrar, por assim dizer, a meio caminho entre os sons fricativos predorsodentais de caçar e azar e os fricativos palatais de baixar e viajar. Calculo que, no Brasil, possam ser ouvidos a alguns imigrantes portugueses provenientes do Centro-Norte e do Norte de Portugal e talvez também a italianos que tenham origem na Emília Romanha e no Véneto. Como o nome indica, na articulação destes sons, o ápice da língua fica junto dos alvéolos dentais; em termos práticos, é como pronunciar um [s] ou um [z] do português actual, só com a diferença de aproximar a ponta da língua da parte interior da gengiva logo acima dos dentes incisivos.

Quanto aos sons africados acima referidos, a consoante surda era pronunciada como [ts], e a sonora, como [dz]; portanto, no período galego-português, paço seria pa[ts]o, e cozer, co[dz]er. Mais tarde as africadas evoluíram para fricativas predorsodentais por perderem a oclusão como modo de articulação, ou seja, perderam os elementos oclusivos [t] e  [d]; isto quer dizer que as fricativas paço e de cozer já soariam como os sons [s] e [z] que ouvimos nessas palavras nos actuais padrões de Portugal e do Brasil. No século XVI, teríamos, portanto, dois pares de fricativas na norma-padrão: as apicoalveolares de passo e coser, e as predorsodentais de paço e cozer.

Entretanto, durante o século XVI, se não antes, muitos falantes foram deixando de contrastar tais pares. Assim, no português europeu-padrão, em todo o litoral e no Centro-Sul, as fricativas passaram a ser sempre articuladas como predorsodentais; no interior centro e em partes do Douro Litoral e do Minho, prevaleceu a articulação apicoalveolar. A pronúncia predorsodental tornou-se mesmo predominante em todo o espaço de língua portuguesa, porque parece não haver vestígios da articulação apical nas antigas colónias portuguesas. Quanto ao interior nordeste de Portugal (e, acrescente-se, numa pequeníssima região galega, a Baixa Límia, junto da serra do Gerês), pode afirmar-se que se conservou o sistema de dois pares de fricativas do século XVI, reflectindo uma oposição ainda mais antiga, a das africadas e fricativas no galego-português.

Fonte: Esperança Cardeira, O Essencial sobre a História do Português, Lisboa, Editorial Caminho, 2006.

Carlos Rocha
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