Fá-lo-ia, pronome hifenizado, «publicar ou morrer», decalques tecnológicos, grafia de locuções e onomatopeias
1. A mesóclise, ou seja, a intercalação de um pronome pessoal numa forma verbal, como ocorre em fá-lo-ia, é frequente na oralidade em Portugal? A resposta faz parte da atualização do Consultório, onde, nos últimos dias, foram tratados diversos aspetos da gramática e do léxico da nossa língua comum: a formação de extraterráqueo; os significados de carioca e fluminense; a colocação de todo numa frase; a expressão «universo expandido»; ambiguidade no uso do pronome relativo; o valor modal de «é urgente»; a contração prò; o grau adjetival de «bastante estranho»; os espaços associados ao asterisco; um caso de oração justaposta (nomenclatura gramatical do Brasil); a função do adjetivo em «figura misteriosa»; e a origem do nome de um bolo, duchese.
2. Escreve-se «ter se chegado», ou é necessário hífen? No Pelourinho, a consultora Sara Mourato recorda que, em Portugal, em construções com o verbo auxiliar ter e particípio passado («ter chegado»), deve hifenizar-se o pronome pessoal e escrever «ter-se chegado».
3. Atualmente, as necessidades de financiamento exercem enorme pressão sobre a atividade académica. Assiste-se à publicação desenfreada de trabalhos nem sempre elaborados com critério e ponderação, comportamento que costuma ser referido pela sinistra frase inglesa «publish or perish», transposta em português como «publicar ou morrer». Nas Controvérsias, a professora universitária e escritora Dora Nunes Gago descreve e critica o ambiente que se instalou nas universidades.
4. O mundo académico em português acusa também outra pressão, a da língua inglesa, a ponto de se fazer sentir na tecnologia da informação por meio de decalques semânticos. O n.º 20 de Linguística, revista publicada pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, foca precisamente esta questão num artigo dos linguistas brasileiros Isabela Casadó Martins e Mário Viaro (Universidade de São Paulo), como se assinala na apresentação deste novo volume em Montra de Livros.
Refiram-se ainda os temas tratados nas restantes rubricas entre 2 e 5/02/2026: "Particularidads do verbo querer" (O Nosso Idioma); e "Um animal com nomes carinhosos noutras línguas" (Diversidades).
5. Novos temas nas rubricas em vídeo do Ciberdúvidas:
– o uso de hífen em locuções substantivas e de outros tipos, no epsódio 54 de "O Ciberdúvidas Vai às Escolas";
– e as expressões que imitam as vozes dos animais, como miau ou ão-ão, ou seja, as onomatopeias, no episódio 58 de "Ciberdúvidas Responde".
6. Tem destaque a atividade que o Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Língua Portuguesa (ILLLP) da Academia das Ciências de Lisboa (ACL) atualmente desenvolve no sentido de apoiar o acesso a informação sobre a atualidade e a história da língua portuguesa. Além do Vocabulário Fundamental, já aqui mencionado, estão igualmente disponíveis as páginas do Acervo Lexicográfico (aqui), «plataforma digital dedicada à preservação, valorização e difusão de documentos que testemunham a tradição lexicográfica portuguesa».
Acresce que a ACL acaba de publicar o volume X dos Portugaliae Monumenta Historica (PMH), o qual reúne as Inquirições Gerais de D. Dinis de 1301, 1303-1304 e 1307-1311. Os PMH constituem uma coleção iniciada por Alexandre Herculano (1810-1877) no intuito de reunir toda a documentação da Idade Média em Portugal.
7. Outro registo ainda, o de uma nova tecnologia de língua eletrónica que usa a inteligência artificial (IA) para identificar rapidamente diferentes bebidas, como água, leite, café e vinhos. É um trabalho de investigadores da Universidade do Minho (UM) e da Universidade de São Paulo (Brasil), em cujo anúncio (28/01/2026) a UM sublinha a possibilidade de esta inovação «vir a ser decisiva em áreas como qualidade alimentar, inspeção aduaneira, enologia, biotecnologia e saúde».
8. Relativamente aos programas Língua de Todos e Páginas de Português, que a Associação Cibedúvidas da Língua Portuguesa produz para a rádio pública de Portugal, toda a informação pode ser consultada na página principal e nas Notícias.
