Sara Mourato - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Sara Mourato
Sara Mourato
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Licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e mestre em Língua e Cultura Portuguesa – PLE/PL2. Leitora no ISCTE.

 
Textos publicados pela autora

Tanto o Portal da Língua Portuguesa como o Dicionário Michaelis atestam parafraseável, adjetivo de duplo género, que tem como significado «que se pode parafrasear». Este adjetivo é formado por derivação sufixal: ao verbo parafrasear agrega-se o sufixo -ável, que tem o valor semântico de «possibilidade de praticar ou sofrer uma ação» (Cintra, Lindely e Cunha, Celso. Nova Gramática do Português Contemporâneo. 1984, pp. 101).

Quanto ao verbo parafrasear, usado nas aceções de «interpretar ou explanar através de paráfrase» e «expor detalhadamente; desenvolver», é ele derivado de paráfrase, «interpretação, explicação ou nova apresentação de um texto (entrecho, obra etc.) que visa torná-lo mais inteligível ou que sugere novo enfoque para o seu sentido» (cf. Dicionário Houaiss).

O dicionários atestam o substantivo tramontana utilizada em sentido figurado na expressão «perder a tramontana», que significa geralmente «perder o rumo/direção» e «perder  a cabeça, perder a paciência, ficar perturbado». Este substantivo – tramontana – vem do italiano e pode também significar «estrela polar», portanto, aquilo a que em português se designa estrela polar, em italiano é stella tramontana, a estrela que se situa além dos montes.

Em português, podemos verificar que transmontana/o significa «situado além dos montes», pelo que até se poderia pensar que a expressão «perder a transmontana» constituísse uma variante legítima de tramontana. Não obstante, a falta de registos de «perder a transmontana» em dicionários e coleções de textos1 leva a aceitar que "perder a transmontana" mais não é que uma deturpação de «perder a tramontana», esta, sim, expressão correta, que terá a seguinte  origem, de acordo com uma nota  etimológica do Dicionário Houaiss (2001, 1.ª edição brasileira):

«[do] italiano tramontana (a1321) "vento frio que sopra do norte", do latim medieval da Calábria tramontana (1094) "estrela polar", i. e. "a que está além, do outro lado dos montes", do latim transmontanus, a, um "que está além, do outro lado do monte"; a acepção calabresa explica a locução perdere la tramontana "perder o rumo, ficar perdido", que se traduziu para o português "perder a tramontana" [...].»

 

1 Foram consultados os dicionários da Infopédia

O diminutivo de saliência, no caso salienciazinha, não é acentuado. Todos os substantivos acentuados perdem este acento na forma diminutiva, nomeadamente café, que se grafa cafezinho, e boné, cujo diminutivo é bonezinho. Esta regra foi estabelecida, já no que tocava à noma de 1945,  pelo Decreto n.º 32/73 de 1973 de 06 de fevereiro, que refere: «São eliminadas da ortografia oficial portuguesa os acentos circunflexos e os acentos graves com que se assinalam as sílabas subtónicas dos vocábulos derivados com o sufixo mente e com os sufixos iniciados por z.» O Acordo Ortográfico de 1990 (Base XIII: Da supressão do acentos nas palavras derivadas) não alterou esta disposição.

Ao que tudo indica as expressões idiomáticas são anteriores aos anos 30 do século passado. No Corpus do Português de Mark Davies, encontramos:

(1) «Com este almoço dois coelhos mato de uma só cacheirada1» [em O Badejo (1898), de Artur Azevedo, escritor brasileiro];

(2) «E matamos assim, querido anjo, dois coelhos com uma só cacheirada» [em O Crime do Padre Amaro (1875), de Eça de Queirós, escritor português];

(3)« Panno para mangas forneceu o publico namoro de Gracias [...]» [em Ao Entardecer (1901) , de Afonso d'Escragnolle Taunay, escritor brasileiro]. 

(4) «[...]  disse ao filho do corregedor se estava ajustado o casamento, que não havia pano para mangas [...]» [em Amor de Perdição (1862), de Camilo Castelo Branco, escritor português]. 

 

1 Há duas variantes desta expressão idiomática: «matar dois coelhos de uma só cacheirada» e «matar dois coelhos de uma só cajadada». Ambas estão corretas. Enquanto na primeira se faz referência à cacheira (moca, pau, cajado, etc), na segunda há referência ao cajado.

Nas situações dos exemplos apresentados – «a Miguela acompanha com um rapaz estranho» e «a feijoada é um prato português e acompanha com laranja e arroz branco»  o verbo acompanhar segue-se da preposição com. Este uso está associado ao registo informal, o que leva a que não o consideremos errado. Com efeito, o Guia Prático de Verbos com Preposições, de Maria Helena Ventura e Manuela Caseiro regista o seguinte: «acompanhar com  relacionar-se com, conviver com, associar-se a (ex.: A filha do Jaime só gosta de se acompanhar (com) rapazes mais velhos que ela), ser servido juntamente com (ex.: Esse prato de peixe acompanha com batata e legumes)». Aqui percebemos que este uso está atestado, apesar de, no primeiro exemplo  «a filha do Jaime só gosta de se acompanhar (com) rapazes mais velhos que ela» –, o uso do com ser facultativo, daí estar entre parêntesis.

No entanto, a ausência da descrição deste uso noutras fontes aconselha a que num registo mais formal se opte por uma frase alternativa, como seja «A Miguela é acompanhada por/de um rapaz estranho». Ainda em relação ao exemplo «a Miguela acompanha-se com um rapaz estranho», oração construída com a partícula se, as fontes consultadas também não registam este tipo de construção. Talvez se trate de uma simplificação do emprego causativo do verbo fazer – «a Miguela faz-se acompanhar de um rapaz estranho»