Sara Mourato - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Sara Mourato
Sara Mourato
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Licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e mestre em Língua e Cultura Portuguesa – PLE/PL2. Com pós-graduação em Edição de Texto, trabalha na área da revisão de texto. Exerce funções como leitora no ISCTE.

 
Textos publicados pela autora

Ao contrário do que pretende a consulente, não existe omissão do o na frases interrogativa «Que tipo de coisa você faz nos fins de semana?", por comparação com «O que você faz nos fins de semana?». Trata-se de duas questões semelhantes, mas introduzidas por pronomes interrogativos diferentes1.

Em «O que você faz nos fins de semana?», aparece o pronome substantivo interrogativo o que, que tem como finalidade «dar maior ênfase à pergunta, em lugar de que pronome substantivo»2.

Por outro lado, e«Que tipo de coisa você faz nos fins de semana?», ocorre o pronome adjetivo interrogativo que, semelhante a qual («qual tipo?»). Neste segundo caso, não há omissão do determinante o, pois ele não faz parte do uso de que como pronome adjetivo. Por outras palavras, não alternando o pronome adjetivo interrogativo que com a forma o que, não é possível *«o que tipo de coisa você faz?»2

 

O grau superlativo absoluto sintético do adjetivo cortês é, como refere o consulente, cortesíssimo

Ao adjetivo cortês, agrega-se somente o sufixo -íssimo, marca do grau superlativo absoluto sintético1. Encontra-se confirmação deste procedimento num outro exemplo mais comum, o de português, que, no grau superlativo absoluto sintético, tem a forma portuguesíssimo1.

Importa referir que que o adjetivo em análise, cortês, é usado preferencialmente no grau normal ou no grau superlativo absoluto analítico: «ele é muito cortês». Daí talvez suscitar dúvidas quanto à sua forma no superlativo absoluto sintético.

 

1 Na Nova Gramática do Português Contemporâneo, (Lisboa, Edições João Sá da Costa, 1984, pp. 259/259), de Celso Cunha e Lindley Cintra, o adjetivo cortês não se insere em nenhumas das exceções aí descritas – não termina em vogal (belo + -íssimo > belíssimo), nem em -z (capaz + -íssimo > capacíssimo), nem em -vel (amável + -íssimo > amabilíssimo), nem em vogal nasal (comum + -íssimo > comuníssimo), nem em ditongo -ão (vão + -íssimo > vaníssimo).

De facto, na frase apresentada – «Viajar é bom, mas nem todos temos dinheiro para isso» –, não é possível substituir nem por não. Não se aceita, portanto, «"não todos" temos dinheiro»1.

Sobre a sequência «nem todos», como negação do quantificador universal todos, observa-se na Gramática do Português (Fundação Calouste Gulbenkian, p. 482) que ela só ocorre em posição inicial de frase ou oração: «Nem todos temos dinheiro para isso»; «Viajar é bom, mas nem todos temos dinheiro para isso» (neste caso, nem todos figura logo após a conjunção mas). A gramática em referência acrescenta:

«[Um] constituinte de negação de universalidade com nem [nem todos, nem sempre] só pode surgir em posição não inicial numa oração se outro constituinte for topicalizado, como em o livro, nem todos os estudantes o tinham lido (no caso, o constituinte inicial o livro está deslocado para a posição inicial).

Trata-se de uma construção cuja  motivação nem a fonte consultada esclarece cabalmente nem outras gramáticas chegam a registar 2.

 

1 É, no entanto, possível ocorrer «não todos» como negação com escopo somente sobre o quantificador, antes de uma construção adversativa (geralmente marcada por mas): «Li livros de Eça de Queirós,

De acordo com o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado, e com o Dicionário Houaissfrente fronte tem origem no latim fronte-: «fronte, testa, rosto, semblante, cara».

Apesar da mesma origem, o substantivo frente – com registos desde o século XVIII, de acordo com o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa  chegou até nós pelo castelhano frente, forma mais tardia de fruente, também com origem no latim fronte-.

Já fronte é palavra patrimonial, pois chegou ao português por via direta do latim, com registos desde o século XIII (ibidem). 

Estes dois substantivos estão, atualmente, dicionarizados com significados próximos: fronte, nas aceções de «testa; cabeça; rosto; parte da frente de algo, dianteira»; frente, com os significados de «parte anterior, lado frontal; testa; rosto, face; frontaria, fachada». Como substantivos, portanto, são sinónimos, mas em locuções adverbiais e prepositivas, é quase sempre frente que ocorre: «em frente(de)», «à frente (de)», «para a frente (de)», «de frente». Contudo, a forma mais antiga, fronte, mantém-se, por exemplo, no advérbio defronte (de + fronte): «ela mora ali defronte» (Dicionário Houaiss).

De acordo com o Dicionário Gramatical de Verbos Portugueses (Texto Editora, 2007)1, ao verbo denominar, no sentido de «chamar», pode, realmente, associar-se um grupo preposicional introduzido pela preposição de e desempenhando a função de predicativo do complemento direto:

(1) «O armador denominou a nau de "Ulisses"».

No exemplo (1) temos uma frase na voz ativa em que a preposição de introduz o predicativo do complemento direto «de "Ulisses"».

No entanto, em vez de começar um predicativo do complemento direto, a preposição de pode introduzir um predicativo do sujeito no uso de denominar na voz passiva:

(2) «A nau foi denominada de "Ulisses" pelo armador.»

Note-se ainda que, na Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra, apesar de não se incluir denominar na lista de verbos presentes na secção «Regência verbal» (pág. 512), regista-se chamar, sinónimo do verbo em questão. Este caso valida o anteriormente exposto: se  chamar tem regência construída pela preposição de – «chamava-lhe sempre de miúdo» –, então, o mesmo ocorre com denominar.

 

1 O