Sara Mourato - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Sara Mourato
Sara Mourato
5K

Licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e mestre em Língua e Cultura Portuguesa – PLE/PL2. 

 
Textos publicados pela autora

O verbo transferir, enquanto verbo transitivo indireto, faz-se acompanhar das preposições e para. Veja-se:

1. «Transferir o trabalho para o João» 

2. «Transferir direitos a alguém».

Em 1 percebemos que transferir é utilizado no sentido de «passar, incumbir», enquanto em 2 o verbo significa «ceder, transmitir». 

Refira-se que este verbo não é um verbo somente transitivo indireto, mas sim transitivo direto e indireto porque seleciona sempre complemento direto e complemento indireto ou oblíquo. Nos exemplos apresentados temos os seguintes complementos diretos: «o trabalho», em 1, e «direitos», em 2. 

O verbo mirar é classificado como sendo:

1. transitivo direto quando significa: «fixar os olhos em; fitar, olhar» (ex.: mirou as estrelas), «dirigir os olhos para alguém/algo; olhar» (ex.: mirou de relance a porta), «olhar longamente à distancia; observar, espreitar» (ex.: o homem mirava as pessoas da rua), «fazer pontaria a um alvo» (ex.: mirou a presa) e  (ex.: mirou (a) uma gratificação);

2. transitivo indireto quando significa: «fazer pontaria a um alvo» (ex.: mirou no alvo), «ter em vista, aspirar a; visar, pretender, desejar» (ex.: mirar ao desenvolvimento do país) e, num sentido figurado, «estar voltado para, dar, olhar» (ex.: a janela mira para o jardim);

3. intransitivo: «fazer pontaria a um alvo» (ex.: ele estar a aprender a mirar);

4. pronominal quando significa: «fixar os olhos em; fitar, olhar» (ex.: as pessoas miravam-se atentamente), «olhar ou contemplar a sua própria imagem refletida» (ex.: ele mira-se no espelho a toda a hora), «refletir-se, espelhar-se, reproduzir-se», em sentido figurado (ex.: as árvores miram-se no lago).

No exemplo apresentado pelo consulente, o verbo mirar é transitivo direto, como se conforma pelas abonações em 1. Contudo, quando significa «ter em vista, aspirar a; visar, pretender, desejar», pode ocorrer também como transitivo indireto, construindo regência com a preposição a, à semelhança de

O advérbio eis é usado com significado semelhante a «aqui está», em referência a algo ou alguém que se encontra ou se quer apresentar no momento da enunciação. Pode, à semelhança dos verbos, ser seguido pelos pronomes pessoais átonos correspondentes ao complemento direto, isto é, me, te, o, a, nos, vos. É, portanto, correto e comum encontrarmos formas como ei-lo, eis-nos, etc.

No entanto, sequências como «ei-no-lo» ou mesmo «ei-vo-lo» são construções agramaticais, porque eis não é compatível com as forma pronominais átonas de complemento indireto (me, te, lhe, nos, vos, lhes): uma sequência como «eis-lhe o livro que procurava» não é, portanto, aceitável. Por este motivo, tal como se rejeita «eis-nos o livro» e «eis-vos o livro», também não se aceita as sequências totalmente pronominalizadas «eis-no-lo» e «eis-vo-lo». Talvez a pergunta do consulente advenha da posição dos pronomes no fenómeno de mesóclise, ou seja, o caso em que os pronomes surgem no meio do verbo, quando este se encontra no futuro do indicativo ou no condicional – apresentar-no-lo-á ou apresentar-vo-lo-ia –, construção que aqui não se aplica. 

Importa referir que, à semelhança dos verbos, antes dos pronomes pessoais a, cai o s ao advérbio e acrescenta-se um l ao pronome: «ei-la», em vez de *«eis-la» (o * indica agramaticalidade).

No enunciado «nem por sombras!» temos uma polaridade negativa, porque expressa uma asserção negativa. A verdade é que, assumindo que nem é um advérbio de negação, este vai conferir à oração um valor negativo, o que leva a que a sua polaridade seja negativa.

Note-se que, apesar de se atribuir a nem o estatuto de advérbio de negação, muitas são as gramáticas que consideram nem unicamente como uma conjunção coordenativa. 

Por «polaridade de um enunciado», entende-se o seu valor afirmativo ou negativo, conforme a definição do Dicionário Terminológico, documento que lista os termos a aplicar no estudo da gramática no ensino não universitário em Portugal.

Assumindo que se trata da associação de um nome – preto – e um adjetivo – velho – que formam juntos uma terceira palavra complexa com sentido próprio, por denotar uma entidade religiosa da umbanda, então, este composto é hifenizado. Consequentemente, se não se fizer referência ao domínio dos cultos e das religiões, mas, sim, a um homem que se designa por preto e se caracteriza como velho  «estava um preto velho sentado à porta» , então não se hifeniza porque estamos perante a associação livre de duas palavras que juntas não constituem uma unidade lexical.

Relativamente à flexão em número, pluralizamos tanto o substantivo como o adjetivo: pretos-velhos.