Sara Mourato - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Sara Mourato
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Licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e mestre em Língua e Cultura Portuguesa – PLE/PL2. 

 
Textos publicados pela autora

Os exemplos corretos são «estás a ver, meu estúpido?!» e «está a ver, seu estúpido?!». A dúvida do consulente passa pela eventual necessidade de o verbo – no caso, estar – e o determinante possessivo incluído no vocativo («meu/seu estúpido») concordarem com o mesmo sujeito, subentendido ou não.

Em «estás a ver, meu estúpido», o verbo e o possessivo não concordam da mesma maneira, pois «estás» remete para um interlocutor tratado por tu, enquanto «meu» remete para o enunciador. Este uso das formas meu e minha em vocativos é adequado e «traduz carinho ou reprovação Ó meu menino, onde é que está o pai? Habitua-te a fazer alguma coisa, meu palerma» (dicionário da Academia das Ciências de Lisboa).

No segundo dos exemplos transcritos, a pessoa visada pela reprovação é tratada por tu, mas é possível ocorrerem os mesmos possessivos associados a formas de tratamento desencadeadoras da concordância na 3.ª pessoa, mais como marca de afeição do que desconsideração; ou seja, aceita-se melhor uma interpelação como «onde é que vai, meu menino?», em que o vocativo «meu menino» pode ser dito em tom carinhoso ou sarcástico, ao passo que, intuitivamente, se afigura insólita a frase «habitue-se a fazer alguma coisa, meu palerma», ao juntar o tratamento de 3.ª pessoa com o vocativo de intenção agressiva (talvez porque o confronto é menos compatível com o tratamento que marca mais distância).

Com formas de tratamento associadas à flexão na 3.ª pessoa, como acontece com você ou outras, os possessivos seu e sua figuram «em apóstrofes (= vocativos] para interpelar pessoas, acentuando ideia de reprovação e sarcasmo: Ó seu idiota! Ó sua besta!» (dicionário da Academia das Ciências de ...

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Um uso nem sempre adequado

Num acidente, como o que aconteceu na ilha da Madeira com um autocarro com turistas alemães, entre  mortos e feridos, todos são vítimas. Um uso, porém, nem sempre acertadamente seguido nos registos  informativos, noutras circunstâncias.

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O género e grafia da denominação oficial

Afinal qual é a forma correta de nos referirmos e de grafarmos o nome da organização fundada pelo australiano Julien Assange, muito citada ultimamente, depois da sua detenção na Embaixada do Equador, em Londres (onde se encontrava asilado há sete anos)? Por vezes, termos novos que nada têm em comum com a língua portuguesa levam a que indiscriminadamente os tornemos femininos ou masculinos e não nos preocupemos com a devida concordância.

A forma "trar-mo-se-á" não está correta. Quanto a trar-se-mo-á, trata-se de uma forma possível, mas com baixa ou nula probabilidade de ocorrência.

Antes de mais, é preciso refletir acerca da posição dos pronomes no fenómeno de mesóclise (ou seja, o caso em que os pronomes surgem no meio do verbo quando este se encontra no futuro do indicativo ou no condicional1). Na pergunta, o consulente propõe a forma "trar-mo-se-á", que apresenta os pronomes na ordem errada. Temos, assim, o verbo trazer, no futuro do indicativo (trará); um complemento indireto (me); um complemento direto (o); e um pronome reflexivo (se), que pode marcar o sujeito indeterminado ou ser uma partícula apassivante. Ora, a ordem correta deveria ser o verbo trazer seguido do pronome reflexivo se, por sua vez, associado ao complemento indireto contraído com o complemento direto2: trar-se-mo-á. 

A sequência pronominal -se-mo- está, pois, correta e encontra exemplos semelhantes atestados (Gramática do PortuguêsFundação Calouste Gulbenkian, vol. II, pág. 2235). No entanto, é uma construção pouco frequente; e, quando ocorre em verbos que se encontram no futuro do indicativo ou no condicional/futuro do pretérito, pode causar estranheza.

Refira-se, ainda, outra questão, que se prende com a contração do pronome reflexo se e o

O vocábulo leite é um substantivo que varia em número, ou seja, no singular temos leite, e no plural, leites. No entanto, esta palavra insere-se na classe dos substantivos não contáveis. Isto é, segundo o Dicionário Terminológico, estamos perante um nome «em que não é possível distinguir partes singulares de partes plurais» e, por essa razão «estes nomes não ocorrem, tipicamente, em construções de enumeração, nem coocorrem com alguns quantificadores e determinantes». As construções no plural, em princípio «designam uma oposição qualitativa, excepto quando se faz contagem relativa a contadores não explícitos». Vejam-se os exemplos:

1. «Tenho vários leites na despensa.»

2. «Comprei dois leites.»

Em (1), referindo-nos a leite no plural, afirmamos que há leite na despensa, mas de qualidades diferentes (posso estar-me a referir às marcas, ao teor de gordura, etc.) – o que temos são «vários tipos de leite». Por outro lado, em (2), ao afirmar-se «comprei dois leites», compreendemos que por «dois leites» está, por exemplo, subentendido o substantivo pacotes; e, mesmo que a qualidade seja diferente, a verdade é que o leite pode vender-se em pacotes, pelo que a frase foca não a qualidade, mas, sim, a quantidade de pacotes.