Sara Mourato - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Sara Mourato
Sara Mourato
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Licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e mestre em Língua e Cultura Portuguesa – PLE/PL2 pela mesma instituição. Com pós-graduação em Edição de Texto pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, trabalha na área da revisão de texto. Exerce ainda funções como leitora no ISCTE e como revisora e editora do Ciberdúvidas.

 
Textos publicados pela autora

Pergunta:

Tenho duas dúvidas diferentes.

A primeira é: quando estou a falar com uma pessoa extremamente mais velha do que eu, uma senhora de 80 anos, por exemplo, posso utilizar os termos “si, consigo” mesmo que eu saiba o nome da senhora? Caso eu não tenha uma relação próxima com a senhora, seria falta de educação perguntar, por exemplo: «Está tudo bem consigo, Dona Maria?» Gostava de saber se é suficientemente formal.

A segunda dúvida é: Quando estou a falar com duas ou mais pessoas, considerando que eu as trato por “você”, um senhor e uma senhora, por exemplo, seria apropriado dizer termos como “convosco, vosso”? Para expressar alguma formalidade, o correto seria dizer: «Está tudo bem convosco?» ou «Está tudo bem com vocês?» Sei que “os senhores” também seria uma opção, mas não estou a referir-me a uma situação demasiado formal.

Agradeço desde já.

Resposta:

É importante refletirmos, antes de mais, acerca do uso do pronome você em português de Portugal. Ainda hoje, no padrão do português europeu, o uso explícito você no tratamento entre interlocutores pode ser considerado pouco delicado ou ofensivo, nomeadamente pelos falantes mais cultos ou mais velhos. Assim, é mais polido usar formas mais tradicionais, como o senhor ou o nome da pessoa a quem nos dirigimos1.

Contudo, você torna-se forma de tratamento respeitosa em certas regiões e regionalmente ou socialmente marcada; em classes sociais mais altas, é até usado como forma de tratamento de intimidade. Por outro lado, é também verdade que há um alargamento notório do uso deste pronome como forma de tratamento, «principalmente entre as classes menos cultas e entre algumas pessoas das novas gerações, que generalizam o uso de você para se dirigirem, indiscriminadamente, a qualquer pessoa, contribuindo, assim, para atenuar distinções sociais ou geracionais» (Fundação Calouste Gulbenkian, Gramática  do Português, pág, 2710)

Quanto ao uso da forma especial do pronome oblíquo usada com a preposição com – consigo –, ou o uso de si, são formas aceitáveis mesmo no discurso mais polido e sem margem de ofensa. Contudo, alguns falantes acham que são formas, ainda assim, demasiado diretas, e, portanto, preferem associar-lhe as expressões nominais como as ilustradas em (1) e (2):

(1) «Está tudo bem consigo, Dona Maria?»

(2) «Trouxe isto para si, Dona Maria.»

Note-se que o título <...

Pergunta:

Qual a forma correta: «passou a incluir-se» ou «passou-se a incluir»

Resposta:

As duas opções estão corretas.

O que sucede é que estamos perante uma construção infinitiva (verbo auxiliar + infinitivo) com o verbo auxiliar aspetual passar a, e, a não ser que o pronome seja complemento direto ou indireto do verbo pleno (verbo principal), o qual toma por hospedeiro este pronome, o pronome pode ligar-se tanto ao verbo auxiliar, dando-se a subida do clítico1, como ao verbo pleno:

(1) «passou a incluir-se os novos dados que nos deste» – cliticização sem subida do pronome;

(2) «passou-se a incluir os novos dados que nos deste» – subida do clítico. 

Note-se que a preposição a é compatível, normalmente, com esta subida do clítico, mas pode haver construções com outras preposições, como por, que não são compatíveis (Gramática do Português, Fundação Calouste Gulbenkian, pág. 2289):

(3) «O objetivo da reunião passou por dar-lhe a novidade» 

(4) *«O objetivo da reunião passou-lhe por dar a novidade» – esta construção não é aceitável, porque é impossível a subida do clítico. 

 

1 Denomina-se «subida do clítico» quando se pode agregar o clítico ao verbo auxiliar, num complexo verbal

Pergunta:

Gostava de saber a legitimidade/origem do termo "cardência", quando me refiro a um móvel antigo com espelho pois, apesar de encontrar referências na Internet, não encontro o termo dicionarizado (pelo menos no Priberam).

Obrigado!

Resposta:

A forma correta é credência, e não "cardência".

De facto, se pesquisarmos na Internet por cardência, percebemos que se trata de um móvel que pode ou não ter espelho e gavetas, e diríamos que se assemelha a uma consola ou aparador. Contudo, os dicionários não atestam este substantivo.

Aquilo que se encontra é credência, que provém do italiano credenza (século XVIII), e denota vários tipos de móvel: na liturgia, uma «pequena mesa junto ao altar, onde se colocam as galhetas, o cálice, o missal, às vezes paramentos, acessórios necessários à missa e demais ofícios religiosos», uma «mesa em que se recebiam as ofertas dos fiéis, nas basílicas antigas», um «nicho de pedra ou madeira, com mesa para escrever, nos corredores de alguns conventos»; além disso, um «aparador ou mesa onde se provavam os pratos preparados para o rei ou para outros dignitários da corte, a fim de verificar se não continham veneno»; uma «espécie de armário onde se depositavam iguarias, vidros, objetos que deviam servir à mesa do rei»; e, por extensão de sentido, de um «aparador ou mesa em sala de jantar e onde se põem objetos que se devem utilizar durante a refeição; bufete» (Dicionário Houaiss). 

Portanto, apesar de haver quem chame "cardência" a este móvel, esta forma constitui uma deturpação de credência, denominação correta e atestada tanto em português de Portugal como em português do Brasil. 

Pergunta:

As gírias massa e fofo são sinônimas equivalentes?

Caso não, quais as diferenças exatamente?

Tipo assim: «Ah, mas ele é muito fofo!», e: «Ah, mas ele é muito massa!» (não como ofensas... mas como elogios!).

Muitíssimo obrigado e um grande abraço!

Resposta:

Perceba-se, primeiro, o significado destes adjetivos nos contextos apresentados. 

Por um lado, massa é regionalismo de uso informal, do nordeste do Brasil, usado com o sentido de (i) «que atrai (diz-se de pessoa)» (Dicionário Houaiss), ou tratar-se de um regionalismo, também de uso informal, da zona de Minas Gerais, Bahia, usado com o sentido de (ii) «muito bom ou especial; bacana, excelente» (ibidem). Assim, «Ah, mas ele é muito massa!» pode ter duas leituras:

(1) «Ah, mas ele é muito atraente»;

(2) «Ah, mas ele é muito bom/bacana/especial».

Por outro lado, fofo pode ser entendido como: (i) «cheio de presunção e arrogância; convencido, jactancioso» (em sentido figurado); (ii) «muito vaidoso; cheio de si; ancho, concho» (uso informal); (iii) «que encanta pela aparência bela e graciosa» (dicionário Michaelis); ou (iv) «amoroso, adorável» (Infopédia). Assim, «Ah, mas ele é muito fofo!» pode ter as seguintes leituras:

(3) «Ah, mas ele é muito convencido!»;

(4) «Ah, mas ele é muito vaidoso!»;

(5) «Ah, mas ele é muito bonito!»;

(6) «Ah, mas ele é muito amoroso!».

Ora, olhando para as aceções (i) de massa e (iii) de fofo, percebemos que os adjetivos podem ser sinónimos. É a mensagem que se pretende transmitir que dita esta sinonímia.

Note-se que fofo, no sentido (iv), tem registo em Os Maias de

<i>Mortágua</i> com <i>o</i> aberto ou [u]?
A pronúncia em discussão

Como se pronuncia o apelido da líder do Bloco de Esquerda: M[ó]rtágua ou M[u]rtágua? A consultora Sara Mourato reflete acerca das circunstâncias em que se pode ou não "abrir" a vogal átona o.