Sara Mourato - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Sara Mourato
Sara Mourato
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Licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e mestre em Língua e Cultura Portuguesa – PLE/PL2 pela mesma instituição. Com pós-graduação em Edição de Texto pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, trabalha na área da revisão de texto. Exerce ainda funções como leitora no ISCTE e como revisora e editora do Ciberdúvidas.

 
Textos publicados pela autora

Pergunta:

«É de salientar que o grafíti necessita de...» = é importante destacar, salientar que...

Como classificar a estrutura ser de + infinitivo? Qual é o valor da preposição de?

Muito obrigada!

Resposta:

A locução «ser de»1 antes de um verbo no infinitivo, como o exemplo aqui apresentado – «é de salientar» – ajuda num texto a enfatizar a importância, relevância ou natureza de uma determinada ação ou qualidade em relação ao tema em discussão. 

Esta ênfase na importância ou relevância da ação é reforçada pelo valor modal deôntico associado à expressão «ser de», que, no caso, veicula uma modalidade deôntica com valor de obrigação. Isto significa que ao dizer «é de salientar», se transmite a ideia de que é necessário, esperado ou até mesmo obrigatório salientar algo em particular, como se pode ver nas seguintes paráfrases:

(1) «Devemos salientar que o grafíti necessita de...»

(2) «Temos de salientar que o grafíti necessita de...».

 Relativamente ao uso da preposição de, deve-se ao facto de esta ser «usada em perífrases verbais com valor modal» (Fundação Calouste Gulbenkian, Gramática do Português, pág. 1550).

 

1 «O verbo ser não é utilizado como verbo pleno, mas faz parte de uma construção gramaticalizada que é usada para exprimir o valor modal deôntico e em que o acontecimento linguístico construído na enunciação se localiza, relativamente à relação predicativa, num tempo posterior ao tempo da enunciação.» (Mafalda Frade. Sobre a construção ser + de + infinitivo no livro dos oficios do infante D. Pedro).

Tudo em prol da prole
A subtil confusão entre os dois nomes

Uma notícia da SIC Notícias relata que Serpa se demitiu «em prole do equilíbrio familiar», quando a expressão correta seria «em prol do equilíbrio familiar». Trata-se de um deslize ortográfico ou confusão entre termos que a consultora Sara Mourato discute neste texto. 

Pergunta:

Gostaria se saber se as frases «de cima até abaixo na escala social» e «de cima até embaixo na escala social» estão ambas corretas e, a ser este o caso, qual a menos corrente na atualidade de Portugal.

Muito obrigado.

Resposta:

As duas frases apresentadas –  «de cima até abaixo na escala social» e «de cima até embaixo na escala social» – estão corretas. Contudo, a diferença reside sobretudo na variante do português em que se utiliza uma locução ou a outra. 

Em Portugal, a construção adverbial é geralmente com abaixo: «de cima até abaixo». Quanto a «de cima até embaixo», deve assinalar-se que embaixo, sinónimo de abaixo, tem uso sedimentado em português do Brasil, como o regista o dicionário Infopédia. Os dicionários elaborados em Portugal também atestam a locução adverbial «em baixo», equivalente a embaixo, e, portanto, a forma correta da locução é «de cima até em baixo». 

Note-se, porém, que uma consulta do Corpus do Português (secções histórica e dialetal), apesar de facultar poucas ocorrências das duas construções (no total, 14 ocorrências), revela que «de cima até abaixo» provém de textos de Portugal, enquanto «de cima até embaixo» (ou «de cima até em baixo», apesar da grafia correta brasileira embaixo) só figura em textos do Brasil.

Além destas locuções, são tão ou mais correntes, pelo menos, em Portugal, «de cima a baixo» e de «alto a baixo» (melhor que «de cima/alto abaixo), conforme se pode consultar no dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, na Infopédia e no Vocabulário da Língua Portuguesa

Pergunta:

Quando usar gigante e quando usar gigantesco?

Resposta:

Os adjetivos gigante (do latim gigas, -antis) e gigantesco (do italiano gigantesco) são sinónimos na medida em que descrevem algo «excessivamente grande; colossal, enorme», ou, em sentido figurado, «admirável, grandioso» (ex.: «A conferência teve um sucesso gigante/gigantesco») (Dicionário Houaiss).

Contudo, não é errado afirmar que a gigantesco se dá uma ênfase ou dramaticidade ao tamanho descrito, enquanto gigante é mais comum em descrições objetivas. É nesta subtileza que reside o critério para o uso de um ou outro adjetivo.

Acresce um aspeto diferenciador, que é o gigantesco ser apenas adjetivo, enquanto gigante também ocorre como nome, nas aceções de «figura mítica de estatura imensa» ou de «homem muito alto, corpulento»: «Era uma vez um gigante que...».

Pergunta:

Gostaria de saber se «Imposição de insígnias», sendo uma cerimónia, se escreve com maiúsculas ou só com maiúsculas na palavra insígnias?

Grata.

Resposta:

Não há regras que obriguem a que os nomes de cerimónias sejam grafados com inicial maiúscula.

De acordo com a Academia das Ciências de Lisboa, «recomenda-se um uso prudente da maiúscula e apenas quando tal se justifique». Contudo, a mesma fonte destaca que os nomes de eventos culturais ou desportivos devem ser escritos com inicial maiúscula. Diante disso, é apropriado escrever «Imposição de Insígnias», visto que este é o nome do evento/cerimónia que acontece pela altura das queimas das fitas dos estudantes universitários portugueses.