DÚVIDAS

A mesóclise na oralidade em Portugal

Gostava de saber se existem estudos sobre o uso e a frequência da mesóclise na fala em português europeu.

Nos debates presidenciais, ouvi, por exemplo, por parte dum candidato: «claro, fá-lo-ia, se...»

Encontro mesóclises na escrita, mas muito raramente na fala.

Obrigado.

Resposta

Sim, «existem estudos sobre o uso e a frequência da mesóclise na fala em português europeu» (PE). Por exemplo:

1. Martins, A. M. (2016). A colocação dos pronomes clíticos em sincronia e diacronia. In A. M. Martins & E. Carrilho (Eds.), Manual de Linguística Portuguesa (Vol. 16, Cap. 15, pp. 401–430).

Neste trabalho, Ana Maria Martins, para além de descrever a colocação dos pronomes clíticos no PE contemporâneo, pondo em destaque as especificidades do PE no quadro das línguas românicas, oferece uma perspetiva diacrónica que identifica os pontos de estabilidade e de mudança no sistema de colocação dos pronomes clíticos e mostra como, ao longo do tempo, o português divergiu sintaticamente de outras línguas ibéricas com as quais partilhava, no período medieval, um padrão idêntico de distribuição da próclise e da ênclise. Aborda, ainda, a questão da interpolação (i.e. a descontinuidade entre clítico e verbo) e esclarece que a interpolação dialetal observável no português europeu contemporâneo não é a continuação da interpolação medieval. Ana Maria Martins faz uma referência breve à mesóclise, sublinhando que, «na norma padrão do português europeu é obrigatória, nos contextos de ênclise, se o verbo estiver no futuro ou no condicional (quer dizer: sintaticamente a mesóclise é uma variante da ênclise que decorre da especificidade da morfologia de futuro e condicional). A mesóclise existe hoje apenas no português europeu (tendo desaparecido do português brasileiro e do galego) e é própria da escrita ou da oralidade formal, estando em geral ausente da fala espontânea. Em registos menos monitorados, não é raro ver emergir variantes não normativas, com ênclise em lugar da mesóclise. Poderia pensar-se que está em causa uma mudança recente, de expressão ainda limitada, no sentido da substituição da mesóclise pela ênclise, paralelamente ao que aconteceu noutras variedades românicas. Ora quando lemos textos medievais verificamos que a variação entre ênclise e mesóclise está presente no português desde o século XIII, sugerindo uma linha de continuidade até às produções não normativas do português contemporâneo. De novo, a estabilização da mesóclise na produção escrita é o resultado da pressão normativa e esconde a variação que a língua tem mantido ao longo do tempo.»

2. Costa, Ana Luísa (2012). A mesóclise: uma espécie linguística em vias de extinção, ms.

3. Santos, Nascimento dos, M. F. (2002). Os Pronomes Pessoais Átonos no Português Europeu. Descrição de Problemas que Ocorrem no 3.º ciclo e Proposta de Actividades Didácticas. Dissertação de Mestrado, FLUL.

Para além dos trabalhos referidos, não foi possível encontrar um que refletisse um estudo quantitativo sistemático sobre a frequência da mesóclise na fala espontânea do português europeu2.

A construção «fá-lo-ia» – com o pronome pessoal (-lo-), colocado no meio1 do radical do verbo (far-) e do sufixo de pessoa-número (-ia) –, ouvida pelo consulente da parte de um dos candidatos a Presidente da República, está correta, revela um conhecimento linguístico que nem todos os falantes dominam (ou conhecem) e, muitas vezes, substituem-na por um complexo verbal, com valor temporal «de futuro próximo»: ia ou iria fazê-lo (verbo auxiliar ir, flexionado no pretérito imperfeito do indicativo ou no condicional + verbo principal fazer, flexionado no infinitivo). A complexidade da estrutura mesoclítica faz com que muitos falantes encontrem outras soluções linguísticas (algumas erradas, outras perfeitamente aceitáveis, corretas).

A título de curiosidade, uma breve explicação sobre como se forma fá-lo-ia:

Quando a forma verbal se encontra no futuro do indicativo ou no condicional (como é o caso), o pronome assume a posição mesoclítica, ou seja, no meio da forma verbal, entre o radical (far-) e o sufixo de pessoa-número (-ei, -ás, -áemos, -eis e -ão, no futuro, ou -ia, -ias, -ia, -íamos, -íeis e -iam, no condicional).

Justifica-se tal colocação por terem sido estes dois tempos formados pela justaposição do infinitivo do verbo principal e das formas reduzidas, respetivamente, do presente e do pretérito imperfeito do indicativo do verbo haver. O pronome empregava-se depois do infinitivo do verbo principal, situação que, em última análise, ainda hoje conserva. E, como todo o infinitivo termina em -r, também nos dois tempos em causa desaparece esta consoante e o pronome assume as formas lo, la, los, las. Assim:

No futuro:

Eu *far-(h)ei                   >   fá-lo-ei
Tu *far-(h)ás                   >   fá-lo-ás
Ele/Ela *far-(h)á          >   fá-lo-á    
Nós *far-(h)emos       >   fá-lo-emos
Vós *far-(h)eis              >   fá-lo-eis
Eles/Elas *far-(h)ão     >   fá-lo-ão

No condicional:

Eu *far-(h)ia              >   fá-lo-ia
Tu *far-(h)ias              >   fá-lo-ias
Ele/Ela *far-(h)ia          >   fá-lo-ia    
Nós *far-(h)íamos            >   fá-lo-íamos
Vós *far-(h)íeis          >   fá-lo-íeis
Eles/Elas *far-(h)iam      >   fá-lo-iam

É importante referir o que a História da Língua nos ensina: as formas antigas do pronome oblíquo de complemento direto eram lo(s) e la(s), provenientes do acusativo do pronome demonstrativo latino ille, illa, illud («aquele, aquela, aquilo»). Quando surgem depois de formas verbais terminadas em -r, -s ou -z, o seu l- inicial assimilou estas consoantes que, depois, desapareceram.3

1 Do grego mésos (μέσος): «médio, central, colocado no meio».

2 Por uma questão de rigor, refira-se que, para a produção desta resposta, foram consultadas as Professoras Ana Madeira e Alexandra Fiéis, da NOVA FCSH.

3 CUNHA, Celso e CINTRA, Lindley (1992). Nova Gramática do Português Contemporâneo (pp. 279-281).



ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa