Os elementos mórficos -estre e -(á)queo têm funções distintas. O primeiro refere-se a qualquer entidade própria da Terra, enquanto o segundo refere-se unicamente a humanos. Portanto, pode-se dizer que nós, humanos, somos terráqueos, bem como formamos uma comunidade terrestre. Contudo, não há, ainda, evidência de humanos "extraterráqueos", ou seja, humanos nascidos fora da Terra, logo o termo é barrado por restrições pragmáticas (Rocha, 2008; Gandulfo, 2024). O termo extraterrestre se refere a entidades de fora da Terra, o que inclui, também, as formas de vida não humanas que venham a ser encontradas lá. Em alguns contextos, "extraterrestre" significa diretamente "ser (vivo) de fora da Terra", o que pode se enquadrar em um caso de gênero por elisão (Bechara, 2019): "o ser extraterrestre", como em "o rio Amazonas".
Em um contexto metafórico, o termo extraterráqueo pode ser empregado para designar vidas humanas fora da Terra. Ele aparece, por exemplo, no texto "O Malvindo", de Carlos Drummond de Andrade (grifo meu):
«[...] Nada a fazer com este tipo
avesso a qualquer romança
ou ode, apenas terráqueo,
ou nem isso, extraterráqueo,
de quem não se ouve um grito,
mais além do que gemido,
nem uma palavra lúcida [...]»
Logo, a restrição associada a "extraterráqueo" deve-se apenas ao seu uso denotativo, dicionarizado; porém, em contextos metafóricos, seu uso parece possível.
Referências
BECHARA, E. Moderna gramática portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2019.
GANDULFO, R. Megamanual de morfologia do português. Joinville: Clube de Autores, 2024.
ROCHA, L. C. de A. Estruturas morfológicas do português. São Paulo: WMF Martins, 2008.