DÚVIDAS

Asterisco e espaços

Antes de mais, gostaríamos de agradecer o empenho da vossa equipa em promover a utilização correta e consistente da língua portuguesa.

Na empresa onde trabalhamos, por vezes, os textos de partida incluem asteriscos que precisam de ser replicados nos textos de chegada. No entanto, ainda não conseguimos chegar a um consenso sobre a necessidade de deixar um espaço após o asterisco nas notas de rodapé.

Sabemos que não deve haver espaço antes do asterisco no corpo do texto, mas existe uma divergência entre os tradutores/as: alguns utilizam o espaço após o asterisco, enquanto outros/as não. Gostaríamos de uniformizar esta prática na nossa empresa, visando maior consistência nos textos.

Já realizámos uma pesquisa no vosso site, mas não encontramos uma resposta direta para esta questão.

Agradecemos desde já a vossa colaboração e ficamos a aguardar a vossa orientação.

Continuem com o excelente trabalho!

Resposta

Não existe – que conheçamos – doutrina assente sobre essa questão, mas, do ponto de vista do uso generalizado, a prática mais adotada parece-nos ser a de utilizar um espaço depois do asterisco em nota de rodapé. Tal como se refere na consulta, no corpo do texto o asterisco surge sobrelevado e sem espaço, ou seja, encostado à palavra, frase ou trecho a que se refere a nota, tal como:

Corpo do texto*

Corpo do texto**

Corpo do texto1

O que tem como equivalente, de forma generalizada, na nota de rodapé:

   * Nota de rodapé

   ** Nota de rodapé

   1 Nota de rodapé

A opção prende-se sobretudo com a estética e a legibilidade. Apesar de o asterisco ou número surgirem sobrelevados, o espaço em branco utilizado a seguir cria um bloco gráfico menos compacto e mais legível. Do mesmo modo, quando fazemos um qualquer elenco deixamos um espaço em branco, quer usemos ponto, meia-risca ou parêntesis.

Ex:

   1 – Texto

   1. Texto

   1) Texto

   a) Texto

O mesmo acontece quando usamos bullets:

Ex.

   · Texto

O uso do espaço parece-nos ser a solução mais alinhada com as melhores práticas editoriais e/ou tipográficas consolidadas em editoras, organismos públicos e universidades.

Por exemplo, o Código de redação interinstitucional da União Europeia, na parte relativa às notas de rodapé, coloca o asterisco entre parêntesis, acrescentando-lhe um espaço.

Sem usar parêntesis, o Manual de estilo da Imprensa Nacional-Casa da Moeda também adota o espaço a seguir ao asterisco ou ao número da nota de rodapé (2009, p. 51).

NP ISO 690:2024 «Informação e documentação – Diretrizes para a redação de referências bibliográficas e citações de recursos de informação» utiliza, nas notas de rodapé, igualmente o parêntesis, mas aqui simples e não duplo, a seguir ao asterisco, e, após este, também lhe acrescenta um espaço.

Ex.:

   *) Na versão portuguesa […]1

Por sua vez, o manual A metodologia nas humanidades: subsídios para o trabalho científico, de João Soares Carvalho (Lisboa: Inquérito, 1994), utiliza igualmente o espaço a seguir ao asterisco (p. 78). Na sua esteira, o pequeno manual Iniciação à bibliofilia, de João José Alves Dias, publicado em 1994, pela Pró-Associação Portuguesa de Alfarrabistas, também usa, nas notas de rodapé, o espaço a seguir ao número sobrelevado.

Já o conhecido New Oxford style manual (Oxford University Press, 2016), no subcapítulo dedicado ao layout das notas de rodapé, define:

   40 Mokyr, Why Ireland Starved, 26.

   40. Mokyr, Why Ireland Starved, 26

Ou seja, espaço, a seguir ao ponto, no caso do número da nota na linha, e espaço sem ponto, com ele sobrelevado (p. 335).

Também o processador de texto Word, no qual faço este texto, cria, de forma automática. um espaço ao introduzirmos uma nota de rodapé. Se o quisermos suprimir, teremos de efetuar deliberadamente essa ação.

Embora exista uma NP/ISO, ou seja, uma norma portuguesa decalcada de uma norma da Organização Internacional de Normalização (International Organization for Standardization relativa à referenciação bibliográfica, citada acima, coexistem – como sabemos – várias regras e formas de a fazer. Com bastante pragmatismo, o Manual de estilo da Imprensa Nacional-Casa da Moeda refere, relativamente a isso, «podem fazer-se de múltiplas maneiras, devendo sempre procurar-se uniformidade de critérios […]» (2009, p. 25). A palavra-chave é aqui «uniformidade»

Sendo, como vimos, o uso do espaço a seguir ao asterisco ou ao número na nota de rodapé consensual nos manuais que consultámos, deverá – parece-nos – ser o preferível. Porém, a opção sem espaço também pode ser usada, desde que o seja de forma consistente e uniforme. Há apenas que ter em conta que a mesma não segue o uso maioritário previsto em manuais de estilo e outros instrumentos normativos, e em editoras, organismos públicos e universidades. A ser usada, porém, deverá sê-lo de forma consistente dentro do mesmo documento e idealmente da mesma empresa. 

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa