AO90, a fórmula do desastre - Acordo Ortográfico - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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AO90, a fórmula do desastre
AO90, a fórmula do desastre

«(...) Este Acordo [Ortográfico] surgiu da ingénua convicção de que a grafia do português europeu era ordenável a nosso bel-prazer. Não é. Mas podem, e devem, atalhar-se desordens maiores. Hoje. Já. Cada dia perdido, o desastre aumenta. (...)»

[in jornal Público de 1 de agosto de 2016. Uma referência ao Ciberdúvidas e outro ponto igualmente menos rigoroso do autor justificaram duas notas da nossa responsabilidade editorial.]

 

 

1. Alguma vez um anti-acordista disse sobre o Acordo Ortográfico de 1990 qualquer coisa boa, mesmo boa? Pois aqui vai uma magnífica. O AO90, ao qual se deseja uma rápida e humana morte, terá deixado um precedente deveras valioso. Pela primeira vez no nosso secular debate ortográfico, a Pronúncia é feita critério decisivo da grafia, assim destronando a Etimologia do topo do pódio, invertendo beneficamente a hierarquia. Mas foi mais sorte que esperteza, já que nunca os autores e promotores do Acordo reivindicaram o cometimento. Só que, no momento de ser aplicada a Portugal essa sã primazia da Pronúncia, as coisas correram mal. Já lá iremos.

2. Houve um momento, por 1990, em que fomos colectivamente patetas. Ou, em versão atenuada, deixámos a patetice à solta. Tínhamos tido, é certo, o discernimento de rejeitar sem perdão o Ortográfico de 1986. Era um produto desconchavado, a pingar óleo por todos os lados, um absurdo de alto requinte. Mandava, pois, a mais singela chispa de inteligência que lembrássemos bem alto, a quem de direito, que nem um só dos artífices da façanha pensasse em propor mais o que quer que fosse. Quem concebera o monstro de 86 jamais seria de confiar. Sabe-se o que aconteceu. Aos mesmos exactos e impreparados senhores foi estendida de novo a passadeira vermelha, só se lhes pedindo, por deferência, que apresentassem qualquer coisinha menos repugnante. Pagámo-lo como se viu.

3. A coisa ortográfica é, hoje, gerida por duas instituições de que não se conhecem mútuos entendimentos: o ILTEC (Instituto de Linguística Teórica e Computacional), encarregado pelo Estado de definir as formas a adoptar, e a ACL (Academia das Ciências de Lisboa), que se declara instância competente para «elaboração e publicação» do Vocabulário Ortográfico do idioma. As suas propostas divergem, às vezes do modo mais arbitrário. Dois exemplos por recente consulta online.

Ambos os institutos admitem as grafias (e pronúncias) perfeccionismo, perfeccionista, perfectível, mas só o ILTEC patrocina perfecionismoperfecionistaperfetível. Os dois dão a cara por conceptistaconceptual e conceptualizar, os dois negam a variante concepcional, mas conceptualmenteconceptível admitem-se só no ILTEC e conceptivo só na ACL.

4. Não resolvendo nenhum real problema, o Acordo veio agravá-los. Mais alguns exemplos, sempre em estrito cenário europeu.

O vocabulário do ILTEC e o da ACL avançam conectar como forma única (excluindo portanto conetar). Mas, surpreendentemente, permitem conectividade e conetividadeconectivo e conetivoconector e conetor. Não existirá, então, conetar? Os bem informados dicionários online da Priberam e da Porto Editora acham que sim, e neles figuram conectar e conetar.

Para nos orientarmos neste sombrio mundo, tomamos o Dicionário da ACL, organizado por João Malaca Casteleiro (um «dicionário de autor», no fino dizer de Ivo Castro), que fornece pronúncias e se pretende "normalizador", publicado em 2001, com o AO90 já no terreno. Aí achamos, sempre com som k, só conectarconectivoconector.

Agora em movimento contrário, pesquisamos os casos de séptico e asséptico. O dicionário de Malaca Casteleiro grafa-os assim, mas só em séptico o p aparece audível. A ACL de hoje apadrinha asséptico e assético, mas só inculca séptico. O oficial ILTEC, esse, avaliza todas as grafias (e portanto pronúncias): séptico e assépticosético e assético.

Situações destas multiplicam-se por dezenas. E recordemos que o panorama brasileiro (que o leitor português frequenta, mesmo quando só lhe cai sob os olhos) está longe de coincidir com qualquer destes. Que teria feito, pois, gente sensata? Não teria feito nada. Manter-se-ia longe deste vespeiro, e nunca certamente se meteria a esgaravatar nele.

Tudo isso se fez invocando uma "pronúncia culta", outra novidade conceptual do AO90, não decerto disparatada, mas de aplicação factualmente leviana. A simples realidade é esta: o sistema português das consoantes etimológicas encontra-se, desde há séculos, em profunda instabilidade, digamos tudo, em estado caótico, e não se lhe vislumbra melhoria. Podemos lamentá-lo, podemos tentar abrir aqui e ali corta-fogos, mas a instabilidade veio para ficar. E que fez este AO? Tirou-nos duma situação em si suportável, e introduziu-nos, sem ganho nenhum, num emaranhado de perplexidades.

5. A indecisão da nossa pronúncia não pára no articular de consoantes. As vogais, também elas, e sobretudo o a, podem comportar-se caoticamente. Veja-se o caso da primeira vogal do prefixo para- no vocabulário do ILTEC. É aberta em para-brisaspara-choquespara-raiospara-sol, mas fechada (e repare-se na grafia) em paraquedas. O fechamento em paramédico ou paranormal, podendo explicar-se, continua da ordem do especioso.

Também as vogais que precedem consoantes etimológicas vêm sendo historicamente afectadas. De modo lento, decerto pontual, mas irreversível, mostram um processo de fechamento (de elevação, dizem os linguistas), também ele de tipo caótico. Pronunciamos àtor, mas âtuar e crescentemente âtriz. Dizemos olfáto mas olfâtivoexáto mas exâtidão. O próprio dicionário de Malaca Casteleiro ensina as pronúncias àção e àcionamento, mas âcionadoâcionarâcionista.

Mas há mais extraordinário ainda. Mesmo quando articulamos a consoante, a vogal precedente pode, contra toda a expectativa, fechar-se. Assim, a nossa pronúncia "culta" pede (são meros exemplos) lácteo mas lâcticíniocàpturarcàptura mas câptarbàctéria (ou já bâctéria?) mas bâcterianofácto mas fâctual. É, de novo, o caos em todo o esplendor. Pois bem, num raro pronunciamento público, os fabricadores do AO mostram-se aqui triunfantes. «Estão a ver? As consoantes não fazem serviço nenhum». É uma elaborada forma de cinismo. Em vez de reconhecerem que em sistemas caóticos, ou não se interfere, ou se o faz com tino, apenas esfregam sal na ferida, numa satisfação alarve.

6. Como se tudo isto não bastasse, a aplicação do AO entrou numa dinâmica perversa. Mal informados, desorientados, os utentes refugiam-se no excesso de zelo, cortando consoantes a torto e a direito, em patéticas violações do Acordo em nome do próprio Acordo. De dezenas de casos documentáveis, citem-se atidãocócixhelicóteronúciasoçãoóviorétilsuçãotenológico. Nem faltam as soluções invencivelmente criativas como "os fatos consumados", "em idade proveta", "travagem abruta", "pato com o diabo" (em reedição de Saramago), "catação de investimento",  "o entusiasmo elipsou-se", "a mulher latente". 

E que fazem os procriadores do Acordo? Encolhem os ombros, sorriem distantes, não é com eles. Há-de passar. Hipercorrecções sempre as houve e haverá. Tirando isso o Acordo é um sucesso. Não lhes ouvimos um público e curial «Não foi isto o que quisemos!», como se até isso os humilhasse.

7. Ao fim de anos e anos de queixas, denúncias, ataques, implorações, os inventores do AO continuam, pois, a festejá-lo. Nunca, porém, a protegê-lo. A sério: jamais se viu defenderem materialmente o seu produto.* Não existe um simples artigo em que o AO90 veja defendidas as suas concretas opções, esclarecidas naturais dúvidas, expostas vantagens. Em horas de aperto, vêm promessas de não se negar uma revisãozinha, não senhor, mas só com todas as ratificações no bolso. É a mais transparente das chantagens. Se o empenho numa revisão deveras existisse, o racional seria oferecê-la desde já em troca das ratificações em falta. Mas a questão não se lhes põe sequer. Os guardiães do AO sabem que a mais ténue fresta conduziria à implosão do edifício. Chamem-lhes parvos. 

* N. E . –  Só no arquivo do Ciberdúvidas sobre o Acordo Ortográfico e toda a sua querela de há 20 anos a esta parte, encontram-se disponíveis variadíssimos artigos, registos e tomadas de posição que contrariam, de todo, o que o autor afirma neste ponto 7. Por exemplo, e entre muitos outros: Malaca Casteleiro: «Desde 1911 que andamos nisto» + «Acordo Ortográfico é uma medida pragmática», diz Malaca Casteleiro + Para desfazer confusões sobre a nova ortografia + Amnésia ou ignorância + Evanildo Bechara: uma visão sénior sobre o Acordo + Evanildo Bechara na Rio TV Câmara, 2013 + «As divergências ortográficas só podem gerar confusões no público» + ABL reage às críticas ao Acordo + Devemos alterar o Acordo Ortográfico de 1990? + O português na encruzilhada + Sobre o que (não) trata o Acordo Ortográfico + Parecer do ILTEC sobre a aplicação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, de 1990 + Porquê um acordo ortográfico e porquê este? + Uma boa decisão + Acordo Ortográfico: para além de Portugal + Sobre a aplicação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 + O abastardamento da língua, segundo Pacheco Pereira + Sobre a natureza fonológica da ortografia portuguesa + Sobre a aplicação do Acordo Ortográfico + A língua como "ovo das galinhas de ouro" + Da ortografia com estratégia + A falsa unidade ortográfica + Erros no texto do novo Acordo + Discricionariedades e incongruências nos vocabulários portugueses pós-Acordo Ortográfico + Sobre as críticas mais recentes ao Acordo Ortográfico + Critérios para um vocabulário adequado ao português europeu + Os cinco critérios-base para a elaboração dum vocabulário segundo o Acordo Ortográfico + Sobre algumas dúvidas de interpretação do novo Acordo Ortográfico + Novos argumentos a favor do Acordo Ortográfico + etc., etc.

8. Hoje, e de há muito, a eficaz resistência ao Acordo é devedora a autores, a tradutores, a jornalistas e, sim, também a editores. É devedora a ensaístas como António Emiliano (O fim da ortografia, 2008) e Francisco Miguel Valada (Demanda, deriva, desastre, 2009), mais o saudoso Vasco Graça Moura, que puseram em crua luz os abismos de absurdo a que, em matéria de economia linguística, este AO conduzirá. É devedora a professores, gente na primeira linha de fogo, e a muitos, muitos cidadãos. É devedora a activistas na rede como o tradutor João Roque Dias e o colectivo "Tradutores contra o Acordo Ortográfico", que vêm cartografando desmandos, incongruências, arbitrariedades. É devedora ao Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, que, mesmo acordizante**, se fez repositório de quanto sobre o AO se publica.

Este Acordo surgiu da ingénua convicção de que a grafia do português europeu era ordenável a nosso bel-prazer. Não é. Mas podem, e devem, atalhar-se desordens maiores. Hoje. Já. Cada dia perdido, o desastre aumenta.

** N. E. – Sobre a referência ao Ciberdúvidas, neste último ponto, justifica-se lembrar o que, por variadas vezes e por alusões igualmente menos rigorosas, aqui se clarificou quanto ao assunto trazido de novo à colação: O Ciberdúvidas e o Acordo Ortográfico + Ainda o Ciberdúvidas e o Acordo Ortográfico + Novamente a posição do Ciberdúvidas quanto ao Acordo Ortográfico + Contra o Acordo Ortográfico + A razão da dupla ortografia no Ciberdúvidas [antes do AO].

Fonte

Texto transcrito do jornal Público de 1 de agosto de 2016, conforme a norma ortográfica do original.

Sobre o autor

Fernando Venâncio (Mértola, 1944) formou-se em 1976 em Linguística Geral, na Universidade de Amesterdão. Aí se doutorou em 1995, com um estudo sobre as «ideias de língua literária em Portugal no século XIX». Publicou estudos sobre «brasileirismos em Portugal», as reformas ortográficas e o Português Fundamental. Tem escrito no Jornal de Letras (JL), no semanário Expresso e na revista Ler. É autor dos romances Os Esquemas de Fradique (1999) e El-Rei no Porto (2001) e da antologia Crónica Jornalística. Século XX (2004).