Maio e giesta, o eufemismo "colaborador", protoindo-europeu, «pedir emprestado», deíticos e ponto e vírgula
1. Em 2026, o 1.º de Maio, Dia do Trabalhador, assume renovado significado político em Portugal, onde é tema candente o «pacote laboral» proposto pelo governo, com vista a uma nova lei laboral. Além da dimensão cívica, de luta por direitos, a data tem tradicionalmente um alcance simbólico muito antigo, pois evoca ritos arcaicos que vão perdurando. Um deles, em várias regiões portuguesas, é o de pendurar um ramo de giestas – as maias – para afastar a influência de almas e seres nefastos. Acerca de maio, recorde-se que tem origem na expressão latina maius mensis, literalmente, o «mês de Maia», sendo Maia uma deusa romana, mulher de Vulcano. Em latim, Maia remonta à raiz indo-europeia *méǵh₂s, associada à noção de «grande», sugerindo que o nome significasse «aquela (deusa) que é grande». Crê-se também que a forma latina convergiu com outro nome de uma divindade (hierónimo) em grego antigo: Μαῖα (Maîa), ou seja, Maia, filha de Atlas e mãe de Hermes, cujo nome virá de μαῖα (maîa, “senhora, dama”), relacionável com a mesma raiz de μήτηρ (mḗtēr, «mãe) – cf. Wiktionary (em inglês). Relativamente a giesta, que designa «diferentes plantas arbustivas e subarbustivas, da família das Leguminosas (sobretudo dos géneros Cytisus, Genista e Spartium)» (Infopédia), é, em português, o resultado do latim genēsta ou genīsta, que tinha o mesmo significado e partilhava a mesma raiz que o verbo gignere, «gerar, criar, parir» (Dicionário Houaiss). Parece haver, portanto, uma relação semântica entre maio e giesta por via etimológica, em provável conexão com as ideias de fertilidade, tão caras ao mundo rural de antanho.
Na imagem, uma aguarela do ilustrador e professor de Desenho Pedro Salvador Mendes.
2. Voltando à celebração do 1.º de Maio na atualidade, nota-se que, no discurso empresarial, se prefere frequente e eufemisticamente o termo colaborador a trabalhador. Não é uma substituição vantajosa nem inocente, como observa a consultora Inês Gama num apontamento sobre este tema, disponível em Controvérsias.
3. E, a propósito de etimologia e raízes lexicais, a consultora Sara Mourato dá uma sugestão de leitura em Montra de Livros: a de Proto. Uma História da Linguagem, tradução do original em inglês de Laura Spinney, que faz a história do protoindo-europeu e das línguas que dele descendem.
4. Diz-se e escreve-se «ele pediu emprestado as canetas» ou «ele pediu emprestadas as canetas»? Ou seja, na expressão «pedir emprestado», emprestado concorda ou não com «canetas»? A dúvida é esclarecida no Consultório, onde, entre 27 e 30 de abril, igualmente se responde a perguntas sobre os seguintes tópicos: o japonesismo otaku; os complementos do nome reconhecimento; a expressão «a quanto...?»; o advérbio já em construções coordenadas; oxalá e a colocação dos pronomes átonos; as orações concessivas; o verbo recuperar; a análise de orações identificadoras no Brasil e em Portugal; siglas e aposto; e os conceitos de referente e antecedente.
5. Temas dos projetos em vídeo do Ciberdúvidas: a distinção entre aspeto habitual e aspeto iterativo no episódio 59.º de "O Ciberdúvidas Vai às Escolas"; e o uso do ponto e vírgula, numa republicação do episódio 66.º de "Ciberdúvidas Responde".
6. Recorde-se que, a respeito dos programas Língua de Todos e Páginas de Português, produzidos pela Associação Ciberdúvidas da Língua Portuguesa para a rádio pública de Portugal, toda a informação se encontra na página principal e nas Notícias.
7. A presente Abertura foi antecipada devido ao feriado do 1.º de Maio, dia em que não haverá atualização de conteúdos. O Ciberdúvidas retoma a atividade normal já na segunda-feira, 4 de maio.
