Sobre a análise de orações identificadoras: Brasil vs. Portugal
Estou com dificuldades para encontrar uma estratégia coerente para identificar o predicativo do sujeito e o sujeito em frases copulativas “equativas” ou “identificadoras”.
Em pesquisas antigas pelo Ciberdúvidas julguei ter encontrado um critério sólido, que me satisfez, principalmente pela sua simplicidade e clareza. Assim, nas frase «A personagem principal é a sementinha» e «Descobrir o verdadeiro assassino era uma tarefa para Sherlock», os sujeitos são, respetivamente, «A sementinha» e «Descobrir o verdadeiro assassino».
O Ciberdúvidas chega a esta conclusão, na minha opinião bem (não sou especialista na matéria), através da estrutura clivada. Vejamos:
«É a sementinha que é a personagem principal?»
Esta clivagem mostra bem que o sujeito é «A sementinha», pois se invertermos a clivagem:
«É a personagem principal que é a sementinha?», a frase não soa muito gramatical.
O mesmo se passa com a frase composta por uma substantiva completiva:
«Era descobrir o verdadeiro assassino que era a tarefa se Sherlock?» (perfeitamente gramatical) versus «Era uma tarefa para Sherlock que era descobrir o verdadeiro assassino?» (agramatical).
O outro teste utilizado nestas respostas também me parece muito adequado: «A sementinha, essa é a personagem principal» (em vez de «A personagem principal, essa é a sementinha»); ou «Descobrir o verdadeiro assassino, isso era a tarefa de Sherlock», e não «A tarefa de Sherlock, isso era descobrir o verdadeiro assassino».
Contudo, fiquei baralhado com a última publicação do Ciberdúvidas a respeito da matéria, nomeadamente na análise da frase «Nosso compromisso é garantir o atendimento sem discriminação ou preconceito». Aqui, a conclusão do Ciberdúvidas é que “Nosso compromisso” é o sujeito. Ora, fazendo os testes anteriores não me parece que seja essa a conclusão a que se chega.
Vejamos:
«É o nosso compromisso que é garantir o atendimento sem discriminação ou preconceito?» (Pouco gramatical)
«É garantir o atendimento sem discriminação ou preconceito que é o nosso compromisso?» (mais gramatical).
Até poderíamos substituir por uma frase mais simples:
«A nossa missão é salvar o mundo»
«É a nossa missão que é salvar o mundo?» (agramatical)
«É salvar o mundo que é a nossa missão?» (gramatical).
Vejamos agora o segundo teste:
«Garantir o atendimento sem discriminação ou preconceito, isso é o nosso compromisso» (perfeitamente gramatical)
«O nosso compromisso, isso é garantir o atendimento sem discriminação ou preconceito» (estranho).
Por outro lado, o critério utilizado pelo Ciberdúvidas para discernir o sujeito nesta frase é a substituição do predicativo do sujeito pelo pronome demonstrativo o.
Vejamos:
«O nosso compromisso é garantir o atendimento sem discriminação ou preconceito mas o compromisso dele não o é.»
Não me parece que esta substituição seja mais gramatical que a inversa:
«Garantir o atendimento sem discriminação ou preconceito é o nosso compromisso, tratar mal as pessoas não o é.»
Pergunto também se esta discrepância nos critérios utilizados para encontrar o sujeito tem a ver com o facto de o título desta última entrada ter entre parêntesis a palavra Brasil. Ou seja, os critérios em português do Brasil seriam distintos dos critérios do português de Portugal? Não me parece que nesta matéria houvesse razão para essa divergência…
Ou seja, parece-me que as razões para a divergência têm a ver sim com as diferentes opiniões de especialistas sobre este assunto, o que, dada a complexidade do mesmo, será perfeitamente natural.
Votos de continuação de bom trabalho e, mais uma vez, obrigado pela atenção dispensada.
