O uso de eufemismos no mundo empresarial
Sobre a troca gradual da palavra trabalhador por colaborador
Esta sexta-feira, dia 1 de Maio, é dia de sair à rua. Sair para celebrar a dignidade de quem vive do seu trabalho. É dia de celebrar o trabalhador. No entanto, começam a surgir sinais preocupantes de que a realidade laboral se vai afastando progressivamente do respeito por quem trabalha e vive do seu esforço. Um dos sinais mais subtis, mas também dos mais eficazes nessa transformação, está na linguagem usada no mundo empresarial. Convém reparar que as palavras que usamos, incluindo no contexto laboral, não são inocentes. Servem para moldar perceções, diluir conflitos e tornar aceitável aquilo que, dito de forma direta, provocaria incómodo ou resistência.
Um dos exemplos mais evidentes é a gradual substituição da palavra trabalhador por colaborador. À primeira vista, colaborador soa mais simpático, mais moderno, evocando cooperação e espírito de equipa. Contudo, a escolha deste termo em detrimento de trabalhador está longe de ser neutra. Chamar colaborador a quem vende a sua força de trabalho em troca de um salário contribui para disfarçar a relação de dependência económica e hierárquica que continua a existir. Mas será que colaborador pode, de facto, ser um sinónimo de trabalhador?
Do ponto de vista linguístico, a resposta a esta pergunta é não. De acordo com a grande maioria dos dicionários, trabalhador e colaborador não têm a mesma aceção. O Dicionário da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa, por exemplo, define trabalhador, enquanto nome comum, como uma «pessoa que recebe salário por serviços prestados a outrem». Já colaborador é descrito como uma «pessoa que participa com outra ou outras na realização de uma obra, tarefa ou trabalho comum; pessoa que ajuda outra nas suas funções». Todavia, esta diferença não é meramente semântica. Nestas definições, percebe‑se que a palavra trabalhador está inserido numa relação de dependência, enquanto o termo colaborador pressupõe uma relação mais horizontal, assente numa participação voluntária e, em princípio, entre iguais. No fundo, não se pode colaborar em pé de igualdade quando uma das partes detém o poder de definir horários, salários, condições de trabalho e despedimentos.
Também as origens destas palavras contam histórias distintas. Trabalhador está ligado ao verbo trabalhar, que chegou ao português através do latim vulgar tripaliāre, um termo associado à tortura. A etimologia pode causar estranheza, mas revela como o trabalho sempre esteve ligado ao esforço, à dureza e à submissão. Já colaborador deriva do latim collaborāre, que significa «trabalhar em conjunto», remetendo para uma ideia de cooperação voluntária entre partes.
Em síntese, a substituição de trabalhador por colaborador não altera a natureza das relações laborais, mas altera a forma como as percebemos e discutimos. Ao suavizar a linguagem, suaviza‑se também o conflito, tornando menos visíveis as desigualdades e fragilizando a reivindicação de direitos. No Dia do Trabalhador, mais do que aceitar palavras que adoçam a realidade, importa recuperar o significado do trabalho enquanto relação social e económica marcada por direitos, deveres e assimetrias de poder, pois, enquanto essas assimetrias existirem, mudar as palavras não torna o trabalho mais digno, mas apenas o torna mais difícil de questionar.
