Black Friday em 100% Português, pronomes átonos no Brasil, a revista ex aequo, "à séria", género dos nomes e «fim de semana»
1. O desafio 100% Português, que decorre semanalmente no mural do Ciberdúvidas no Facebook, propôs nos últimos dias a apreciação de duas expressões: pharming e a famosa Black Friday. Atualmente, o primeiro termo* aparece sobretudo em referência a fraudes informáticas e, no jargão respetivo, com o significado de «atividade criminosa que consiste em direcionar o utilizador para um site falso que imita a aparência de um site legítimo, com o fim de obter informação pessoal confidencial como palavras-chave, números de contas, etc.» (Infopédia). Esta palavra não será muito conhecida fora dos círculos especializados, e, portanto, para não confinar a linguagem científica ao inglês (cf. Margarita Correia, "O inglês é mais apto do que o português em termos lexicais", 01/09/2020), talvez ainda se vá a tempo de difundir a solução vernácula do Glossário da Sociedade da Informação (APSDI): «falsificação do destino (dos dados)». Relativamente a Black Friday, que é a última sexta-feira do mês de novembro e abre a temporada de compras de Natal, refira-se que, literalmente, a expressão equivale a «sexta-feira negra, dia aziago» (Infopédia). Está por esclarecer o motivo porque, em inglês, se apelida esta sexta-feira de black, «negra»**, mas, em português, observa-se uma enorme resistência a adotar a alternativa portuguesa de "Sexta-feira Negra". Talvez aos falantes não pareça nome de bom augúrio, e o comércio, não querendo espantar clientes, opta eufemisticamente pelo inglês, porque é língua estrangeira e sempre falará menos a afetos e superstições.
* Pharming surgiu como amálgama de «pharmaceutical farming» (literalmente, «criação farmacêutica de animais»), ou seja, «produção de substâncias farmacêuticas ativas a partir de animais ou plantas geneticamente alterados (transgénicos), conforme se registava em 1998 no boletim A folha, onde uma tradutora se interrogava sobre a possibilidade de formação de "farmacuária" e "medicuária", palavras que não vingaram no uso (cf. Susana Gonçalves, "Procura-se tradução", A folha, primavera 1998, p. 17). Tudo indica que, entretanto, pharming ganhou novo significado, provavelmente como extensão semântica desenvolvida a partir da ideia de «alteração genética», relacionável com a de «falsificação».
** É uma tradição de origem norte-americana, associada à celebração do Dia de Ação de Graças (Thanksgiving) na última quinta-feira de novembro. Cf. em inglês, "Black Friday", Online Etymology Dictionary.
2. No Consultório, retoma-se o tema da colocação dos pronomes átonos na perspetiva do Brasil: numa locução verbal como «deve dizer», onde inserir o pronome se? "Deve-se dizer", "deve se dizer" ou "deve dizer-se"? De Portugal, uma jovem pergunta qual é o deítico espacial que figura na sequência «lá na missa onde eu estava». E no grupo nominal «memórias armazenadas no cérebro», qual é a função sintática de «no cérebro»? Outras questões tratadas entre 24 e 27/11: a grafia de Internet; um caso de predicativo do objeto direto; os nomes próprios de pessoa; as aspas altas e aspas baixas; o infinitivo pessoal (ou flexionado); a regência do nome procura; um predicativo do sujeito de valor locativo; um exemplo de anáfora no "Sermão de Santo António aos Peixes"; as orações reduzidas de particípio; e um modificador do nome com preposição.
3. Na Montra de Livros, apresenta-se o n.º 51 da ex aequo – Revista da Associação Portuguesa de Estudos sobre as Mulheres (2025), que oferece um contributo particularmente relevante para debate sobre a relação entre língua e sociedade, reunindo estudos que, direta ou indiretamente, interrogam a forma como as palavras participam na construção das realidades de género.
4. Em Portugal, os debates entre candidatos às eleições presidenciais, marcadas para 18/01/2026, são espaço de luta política e de vários deslizes no bom uso da língua, como evidenciam dois comentários disponíveis no Pelourinho: um trata de uma incorreção recorrente no emprego do verbo intervir; e outro diz respeito à expressão popular "à séria", nada compatível com contextos mais formais. Na rubrica Literatura, a professora universitária e poeta Dora Nunes Gago dedica uma nota de leitura ao livro Nada Mais Havendo a Acrescentar, do escritor alentejano Vítor Encarnação. Em O Nosso Idioma, explica-se por que razão «olá a todos» não tem vírgula e revela-se a etimologia da palavra aula.
5. Acerca dos projetos em vídeo do Ciberdúvidas: no episódio n.º 51 de "Ciberdúvidas Responde", comenta-se a arbitrariedade na atribuição de género a nomes que denotam realidades não animadas como coisas e produtos («a caixa», «o leite»); e, no episódio n.º 46 de "Ciberdúvidas Vai às Escolas", fala-se de hifenização a propósito de nomes compostos que integram preposições (p. ex., «fim de semana»)
6. Quanto aos programas de rádio que a Associação Ciberdúvidas da Língua Portuguesa produz para a rádio pública de Portugal, toda a informação pode ser consultada nos Destaques da página principal e nas Notícias.
7. Recordamos que foi lançado o n.º 3 dos Cadernos de Língua Portuguesa. Esta publicação resulta da colaboração entre o Ciberdúvidas da Língua Portuguesa e o Laboratório de Competências Transversais do Iscte-IUL (LCT-Iscte). Mais informação nos Destaques e nas Notícias.
