ex aequo
Revista da Associação Portuguesa de Estudos sobre as Mulheres
Nos últimos anos, o debate sobre a relação entre língua e sociedade tem vindo a ganhar crescente notoriedade no espaço público, ainda que, por vezes, marcado por tensões, mal-entendidos e posições polarizadas. Contudo, polémicas à parte, importa reconhecer que o público em geral tem procurado estar mais atento à forma como a língua espelha a evolução dos modos de pensar e de organizar as comunidades em que vivemos. Nesta perspetiva, poder-se-á assumir que a edição n.º 51 da ex aequo – Revista da Associação Portuguesa de Estudos sobre as Mulheres, publicada em junho de 2025, oferece um contributo particularmente relevante para este diálogo, reunindo um conjunto de estudos que, direta ou indiretamente, interrogam a forma como as palavras participam na construção das realidades de género.
Entre os vários trabalhos publicados neste número, destaca-se o ensaio da linguista e professora universitária Antónia Coutinho, cujo olhar ponderado e atento ao funcionamento discursivo da língua merece lugar de destaque. Neste artigo, a autora revisita o percurso da chamada «linguagem sensível ao género», expressão que designa um conjunto de práticas discursivas orientadas não apenas para a visibilidade feminina ou não binária, mas sobretudo para uma responsabilização mais consciente dos falantes face aos efeitos sociais das suas escolhas linguísticas. Neste sentido, relaciona norma, uso e evolução, lembrando que a língua é simultaneamente um sistema estruturado e um espaço vivo, moldado pelos falantes e pelos contextos socioculturais. A sua reflexão, sustentada em análises linguísticas e na observação pragmática do discurso mediático, apoia algumas das análises que vão sendo feitas sobre as alternativas ao masculino genérico.
No entanto, o interesse linguístico desta edição não se esgota apenas neste ensaio. Outros artigos, ainda que partam de áreas como os estudos de género, a sociologia ou os media, trazem contributos importantes para a compreensão dos discursos contemporâneos. O estudo sobre comunidades “Red Pill” no YouTube brasileiro, da autoria de Verónica Ferreira, revela mecanismos de construção de masculinidades extremadas através de estratégias retóricas próprias do ambiente digital, como, por exemplo, a simplificação dicotómica, a repetição emocional e o uso de um léxico marcadamente ideológico. Ao analisar estes fenómenos, o artigo mostra como a linguagem digital, fluida, viral e altamente performativa, pode reforçar discursos de ódio ou exclusão.
Também o trabalho dedicado às colunas de opinião na imprensa portuguesa, realizado por Bárbara Carvalho e Maria João Cunha, permite observar como as escolhas retóricas e os enquadramentos discursivos influenciam a presença (ou ausência) de perspetivas femininas e minoritárias no espaço mediático. A forma como se constrói autoridade textual, como se gerem vozes e citações e até a seleção lexical utilizada para caracterizar fenómenos sociais mostram que o discurso jornalístico continua a ser um terreno fértil para a análise das relações entre língua, poder e representação.
Este volume inclui ainda estudos que, embora centrados em espaços institucionais, têm uma dimensão discursiva evidente. As perceções dos estudantes sobre casas de banho e balneários escolares, investigado num trabalho assinado por Marcus Pereira Junior, Filomena Teixeira e Ana V. Rodrigues, constitui um exemplo de como os comportamentos sociais são inseparáveis das palavras que utilizam para nomear identidades e experiências. A discussão sobre pronomes, categorias e expressões revela como a língua funciona, para muitos jovens, como instrumento de afirmação, mas também de conflito e incerteza. No mesmo sentido, os textos sobre violência interseccional sublinham a importância de nomear de modo preciso realidades sociais complexas, lembrando que, sem palavras adequadas, certos fenómenos permanecem invisíveis ou mal compreendidos.
No seu conjunto, o n.º 51 da ex æquo constitui uma leitura particularmente estimulante para quem acompanha o diálogo das relações que existem entre a língua e a sociedade. Com efeito, aqui se demonstra que as discussões sobre género não se fazem apenas nos jornais, nos discursos ecoados nos parlamentos ou redes sociais, mas também, e talvez sobretudo, nas escolhas linguísticas que moldam a forma como pensamos, representamos e habitamos o mundo.
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