As vogais do português europeu - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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As vogais do português europeu

     Como já tive oportunidade de dizer em um dos meus “e-mails” anteriores, ensino português para estrangeiros junto a uma universidade italiana, não a variante brasileira, mas o português continental e, claro, tenho estudado realmente muito, pois tenho receio de ensinar algo que seja inerente ao português falado no Brasil, ainda que seja um desafio, pois eu sou e serei sempre brasileira.

     Eu tenho algumas dúvidas sobre a fonética, pois já percebi que é normal a supressão de certas vogais ou a transformação da vogal “o” em “u” como, por exemplo, no verbo CORRER [kuRer] e MORRER [muRer], ou ainda no vocábulo NAVEGAR [nav(i)gar], PESSOA [p(i)soa] – não sei se essa seria a transcrição correta, mas é assim que percebo quando ouço a pronúncia européia do português.

     Existe alguma explicação para tal fenómeno fonético? Como poderia explicar aos meus alunos? Existe algum livro de fonética que eu possa consultar? Quem sabe poderia comprá-lo tramite internet.

Agradeço desde já pela vossa disponibilidade.

Cláudia Lopes Itália 8K

Cumprimento-a, prezada consulente, como já fiz noutra ocasião, pois considero que não deve ser nada fácil para si ensinar uma variante diferente da sua língua materna. Cumprimento-a também pela humildade que revela e que só a engrandece.

Relativamente à fonética, há, efectivamente algumas, diferenças entre as duas variantes do português, que se manifestam, por exemplo, através de um número maior de vogais – entenda-se sons vocálicos ouvidos, ou pronunciados. Com efeito, em português europeu existem nove sons vocálicos distintos, sem contarmos com as vogais nasais (na totalidade um sistema vocálico de 14 elementos...). Concentremo-nos nas vogais não nasais. As vogais podem ser descritas tendo em conta

a) a posição, ou abertura dos lábios, e serão arredondadas como o u (se pronunciarmos ao espelho percebemos bem o que significa) ou não arredondadas.

b) o ponto de articulação mais à frente ou mais atrás e serão adiantadas ou recuadas.

c) com o maxilar inferior mais abaixo ou mais acima e serão baixas, médias ou altas. (Porque será que o médico quando nos quer ver a garganta nos pede para pronunciar um a? Porque não nos pede um u ou um i?)

 

  não arredondadas arredondadas
Altas i ɨ (feliz) u
médias e (Pedro) ɐ (para) o (ovo)
baixas ɜ (pedra) a (carro) ɔ (corre)
  adiantadas Recuadas

 

No português europeu, a maioria das vogais átonas eleva-se, ou seja, muda o seu traço de altura, referido em c). É assim que um –o final em vez de se ler [o] se lê [u]; um a átono se lê [ɐ] e não [a] e um e igualmente átono se não lê [e] nem [e], mas sim [ɨ]. Também o i átono tem tendência não a elevar-se, pois que já é alto, mas a recuar ligeiramente, pronunciando-se [ɨ]. Esta tendência é geral, mas há excepções. Uma das situações em que a vogal átona se mantém baixa é o caso de sílabas longas (terminadas em consoante, ou, se preferir, com coda expressa) terminadas em –l: al’madense; El’vira, ol’vidar, etc.

Para uma descrição mais completa e rigorosa aconselho-lhe a Gramática da Língua Portuguesa de Maria Helena Mira Mateus e outras, Lisboa, Editorial Caminho, 2005, parte VI. Poderá encomendá-la através da Internet.

Bom trabalho!

Edite Prada