Etimologia e pronúncia do apelido Albuquerque - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Etimologia e pronúncia do apelido Albuquerque

Saudações cordiais de além-mar! Há algum tempo que estou a acompanhar vosso sítio de esclarecimentos sobre o português. Agradeço-vos imensamente pela riqueza linguística que é apresentada aqui.

Sei que a maioria, senão quase todas as apalavras iniciadas por (AL) têm origem árabe, tanto é que meu sobrenome se grafa desta forma:

«Albuquerque». Estudo português europeu, desde que adquiri o livro de professor António Emiliano: «Fonética do Português Europeu - Descrição e Transcrição». Esse fenómeno de abertura da vogal (A) átona nessas palavras ocorre por quê? (algodão, alqueire, alfazema). É tradição da língua pronunciá-las abertas devido a origem árabe? De qualquer modo, em «nacional, estadual, especial», etc. Ocorre o mesmo. Obs.: Coloquei as setinhas («») no lugar das aspas porque estava a aparecer um código estranho. Muito obrigado!

Gabriel Albuquerque Santos Estudante de Letras (Português e Espanhol) Jaboatão dos Guararapes, Brasil 419

É verdade que muitas palavras começadas por al- foram transmitidas pelo árabe, mas tal não significa, em relação às que têm essa história, que elas sejam inteiramente árabes.

Sobre Albuquerque - que antes de ser apelido era e é um topónimo da Estremadura espanhola, da província de Badajoz, onde tem a forma Alburquerque1 –, afigura-se muito duvidosa a ideia de ser inteiramente árabe. No dicionário onomástico do filólogo brasileiro Antenor Nascentes (1886-1972)2, defende-se que este topónimo tem origem na expressão latina alba quercus, ou seja, «carvalho branco». Esta tese é muito discutível e, dada a prolongada presença árabe na referida região espanhola, há quem considere que o topónimo evidencia essa influência, embora não completamente.

Com efeito, o historiador e arabista espanhol Vallvé Bermejo3 considera-o um híbrido resultante da interação do árabe com uma forma latina, por sua vez adaptação de um topónimo pré-romano. Alburquerque corresponde portanto a al- (artigo árabe), a burj («torre» em árabe; cf. o topónimo português Alvorge) e a uma forma pré-romana e pré-indo-europeia *karka, em que se distinguirá uma raiz remota *kal- ou *kar, que denotaria de modo muito genérico a noção de «pedra». Esta raiz parece igualmente encontrar-se em topónimos peninsulares como Cárquere" (Resende, Viseu), Valcarque (em Leão), Vallcarca (Sitges, Barcelona), Caracuel e Carrión (estes dois últimos em Aragão).

Quanto ao a que, no português europeu, se mantém aberto em al- mesmo em sílaba átona, trata-se de uma exceção, classificada como «regular» na Gramática da Língua Portuguesa (Lisboa, Editorial Caminho, 2003, p. 1013), de M.ª Helena Mira Mateus et al.:

«As vogais átonas de (7) não manifestam alteração em relação às acentuadas por pertencerem a sílabas terminadas por /l/ ([i] fonético), contexto que impede a alteração do timbre:

(7) salto [á] saltar [a]

       mal [á] maldade [a]»4 

Agradecimentos pelas calorosas palavras iniciais. 

1 Cf. José Pedro Machado, Dicionário Onomástico Etimológico, 2003, s. v. Albuquerque. Segundo este autor, em Portugal documenta-se o apelido Albuquerque a partir do século XV.

2 Citado por Machado, op. cit.

3 Citado por Antonio M. Castaño Fernández, Los Nombres de Extremadura. Estudios de Toponimia Extremeña, Mérida, Editora regional Extremadura, 2004, pp. 26-28).

4 O sinal [á] é a representação fonética do chamado a aberto em sílaba tónica, e [a] representa a mesma vogal, mas em sílaba átona.

Carlos Rocha
Tema: Origem de nomes próprios Classe de Palavras: nome próprio
Áreas Linguísticas: Fonética; Léxico