A vírgula associada a orações subordinadas adverbiais condicionais - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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A vírgula associada a orações subordinadas adverbiais condicionais

Já fiz uma pesquisa exaustiva em diferentes gramáticas e em muitas entradas do Ciberdúvidas, mas continuo sem chegar a uma resposta conclusiva. Percebo que a utilização da vírgula é um tema movediço, mas a minha dúvida tem que ver com uma utilização específica, ou, pelo menos, circunscrita.

Nas orações condicionais e estando a subordinada depois da subordinante, a vírgula antes da conjunção se é obrigatória?

Se em frases como:

«Se amanhã ele não vier, vou procurá-lo.»

«Se ele não tivesse chegado a tempo, ela ter-se-ia zangado.»

A inserção da vírgula é obrigatória e não me causa dúvidas, já em frases como as seguintes o mesmo não é tão óbvio.

«Seria agradável aceitar a teoria da mãe, se não tivesse uma falha crucial.»

«A estratégia dela ficou clara — desconfiava que ele adiaria qualquer confronto agendado, se lhe dessem hipótese.

Consultando Rodrigo de Sá Nogueira, vemos que ele defende a inclusão da vírgula. Mas, por exemplo, o consultor do Ciberdúvidas Carlos Rocha na entrada «Sobre valores da conjunção se» já sente necessidade de justificar a sua inclusão por não ser obrigatória.

Posso contar com a sua prestimosa ajuda para resolver esta dúvida com todas as explicações que achar necessárias e pertinentes?

Sónia Nascimento Lisboa, Portugal 118

Esqueçamos as regras do tratado sobre a pontuação de Rodrigo Sá Nogueira, que na prática aconselhava sempre a vírgula a separar orações; esqueçamos mesmo o apreciável rigor na virgulação que usa a empresa que me faz a correção de texto e invoquemos, antes, o meu saudoso mestre na língua Neves Henriques: «A vírgula não separa só, a vírgula pode mudar o sentido». Lembrava o exemplo canónico: “Cristo morreu, não está aqui”, oposto a: “Cristo morreu, não, está aqui”. É preciso sentir a língua, dizia ele, deixar correr o rio entre as margens ...também critério que tem sido desta nossa Ciberdúvidas «no contributo que tem prestado aos falantes de língua portuguesa», nas suas palavras, com mais razão aqui aplicadas.

Assim, nesta orientação NH, vejamos como interpreto a sua questão.

1.   Não há dúvida de que, quando as condições para que se realize uma ideia de base antecedem a sua expressão, é necessária a vírgula, para marcar uma pausa significando que deve ser memorizado o que foi dito, aguardando-se a completude.  “Se ele não vier," (fixemos e aguardemos que se explique o que é que acontece) "vou procurá-lo."

2.  O que é normal é que a uma ideia de base se sigam os esclarecimentos e condicionantes para que ela se realize. No caso de nada ser preciso acrescentar, a ideia não é incoerente se isolada. "Vou procurá-lo". Nesta afirmação, assim isolada, não haveria condições. Contudo, há e são taxativas:  só "se amanhã ele não vier”. Na forma como sinto a língua, e a menos que quisesse fazer uma pausa de sublinhado, eu escreveria a restrição sem separação da ideia base, porque lhe está intimamente ligada.: "Vou procurá-lo se amanhã ele não vier." É assim, sem pausa, que a expressão seria naturalmente dita.

Com vírgula, seria equivalente a "Vou procurá-lo ...se amanhã ele não vier...”. Há uma subtil diferença: parece que, com pausa, ele teria mesmo a obrigação de vir. Para mim, estilisticamente, esta expressão com vírgula é equivalente ao caso do ponto 1, no qual a condição aparece como primordial.

Quanto aos outros dois casos que apresenta, os critérios poderão ser diferentes. Na frase: Seria agradável aceitar a teoria da mãe, se não tivesse uma falha crucial, eu virgularia para desligar bem a “falha” da palavra “mãe”. Contudo, na frase: A estratégia dela ficou clara – desconfiava que ele adiaria qualquer confronto agendado, se lhe dessem hipótese., para mim, agora, a decisão de ele adiar só é terminante sem a vírgula.

Ao seu dispor,

D´Silvas Filho
Tema: Uso e norma
Áreas Linguísticas: Ortografia/Pontuação; Semântica; Sintaxe Campos Linguísticos: Pontuação; Orações