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«Não con­sigo com­pre­en­der como é tão neces­sá­rio recor­rer a estran­gei­ris­mos (…) para expor ideias e opi­niões. (…) Com­pro o jor­nal e não per­cebo o que lá vem escrito.» À queixa-crítica de um leitor do diário português “Público”, responde o respetivo provedor, na sua crónica de 27/11/2011, que a seguir se transcreve na íntegra, com a devida vénia.

 

 

1. «As yields das obri­ga­ções espa­nho­las a 10 anos encos­ta­ram aos 6,5%, e o spread ou dife­ren­cial face às bunds ale­mãs, que ser­vem de refe­rên­cia para os inves­ti­do­res, atin­giu os 462 pon­tos base, acima do limiar de 450 pon­tos exi­gi­dos pela LCH Cle­ar­net» (“Público”, Des­ta­que de 17 de Novem­bro). «(…) Não haverá con­di­ções para incluí­rem no rácio Core Tier 1, que terá de che­gar a 9% no final do ano, os resul­ta­dos que pode­rão vir a exi­gir, ou não, neces­si­da­des adi­ci­o­nais de capi­tal» (outro texto do mesmo Des­ta­que). São dois exem­plos recen­tes, e nem sequer dos mais agres­si­vos, que desa­fi­a­rão a boa com­pre­en­são das notí­cias por mui­tos lei­to­res menos fami­li­a­ri­za­dos com a lin­gua­gem téc­nica uti­li­zada. Em ambos os casos, o sig­ni­fi­cado exacto das fra­ses cita­das não pode ser alcan­çado pelo con­texto em que estão inseridas.

«Infor­mar é comu­ni­car e fazer com­pre­en­der», lê-se no Livro de Estilo deste jor­nal, para defen­der que a cla­reza é um valor essen­cial do jor­na­lismo de qua­li­dade. Notí­cias que não tor­nem inte­li­gí­vel para a gene­ra­li­dade dos lei­to­res o que rela­tam, qual­quer que seja a com­ple­xi­dade do assunto, são notí­cias falhadas.

Citei dois exem­plos da área da infor­ma­ção finan­ceira por serem dos que terão maior visi­bi­li­dade num tempo em que a tur­bu­lên­cia dos cha­ma­dos “mer­ca­dos” mais inter­fere na vida de todos, levando mui­tos lei­to­res sem conhe­ci­men­tos espe­ci­a­li­za­dos neste domí­nio a pro­cu­rar com­pre­en­der todos os dados das notí­cias que lhes são for­ne­ci­das. É ver­dade, e é um mérito que deve ser reco­nhe­cido ao”Público”, que se nota uma pre­o­cu­pa­ção dos jor­na­lis­tas da área da Eco­no­mia em des­co­di­fi­car com frequên­cia con­cei­tos, expres­sões ou ter­mos estran­gei­ros de uso menos cor­rente, atra­vés de expli­ca­ções colo­ca­das nos tex­tos entre parên­te­ses, ou de peças des­ti­na­das a esclarecê-los. As recla­ma­ções que me che­gam indi­cam, porém, que deve­riam fazê-lo de forma sis­te­má­tica – é errado par­tir do prin­cí­pio que o lei­tor viu e recorda uma expli­ca­ção ante­ri­or­mente publi­cada —, ou mesmo obri­ga­tó­ria, quando, como hoje acon­tece mui­tas vezes por razões óbvias, os seus tex­tos são cha­ma­dos a inte­grar a área de Des­ta­que que o jor­nal dedica aos temas de inte­resse geral mais actuais.

2. Ques­tão dife­rente, mas rela­ci­o­nada com a ante­rior, é a do recurso, que mui­tos lei­to­res con­si­de­ram exces­sivo, ao uso de vocá­bu­los estran­gei­ros nas pági­nas do jor­nal. Dois exem­plos, de entre quei­xas que me che­ga­ram: «Por­que insiste o “Público”em usar ter­mos em inglês, até mesmo para des­cre­ver o que é per­fei­ta­mente alcan­çá­vel em por­tu­guês?» (Car­los Coim­bra, a pro­pó­sito de um título do Des­porto em que se falava de “final four” em vez de meias-finais de uma com­pe­ti­ção). «Não con­sigo com­pre­en­der como é tão neces­sá­rio recor­rer a estran­gei­ris­mos (…) para expor ideias e opi­niões. (…) Com­pro o jor­nal e não per­cebo o que lá vem escrito» (Manuel Dinis, agas­tado com o uso de expres­sões como opting out ou level playing field no texto de um colunista).

O Livro de Estilo do “Público” reco­menda «bom gosto» e «bom senso» no uso de estran­gei­ris­mos. Segue a lição do filó­logo Rodri­gues Lapa, para quem o estran­gei­rismo era «um fenó­meno natu­ral» – atra­vés do qual os povos adop­tam, «com os pro­du­tos e ideias vin­das de fora, cer­tas for­mas de lin­gua­gem que lhes não são pró­prias» –, e até van­ta­joso para a comu­ni­ca­ção, desde que «não exceda os limi­tes do razoá­vel e não afecte a pró­pria essên­cia do idi­oma naci­o­nal». O autor da Esti­lís­tica da Lín­gua Por­tu­guesa defen­dia tam­bém que, “quando o estran­gei­rismo assen­tou já raí­zes na lín­gua naci­o­nal», se deve­ria «vesti-lo à por­tu­guesa» (a este res­peito, remeto os inte­res­sa­dos para uma men­sa­gem de José Mário Costa, dis­po­ní­vel em blogues.publico.pt/provedordoleitor, em que este res­pon­sá­vel pelo site Ciber­dú­vi­das da Lín­gua Por­tu­guesa explica, à luz des­tes prin­cí­pios e a pro­pó­sito do tema tra­tado na minha cró­nica ante­rior – o uso do verbo “tuitar” – , as regras reco­men­da­das para o apor­tu­gue­sa­mento ou não de estran­gei­ris­mos que já entra­ram no nosso voca­bu­lá­rio comum).

O jor­nal deve guiar-se por cri­té­rios cla­ros e coe­ren­tes que asse­gu­rem na medida do pos­sí­vel a uni­for­mi­za­ção da gra­fia dos ter­mos de ori­gem estran­geira. O Livro de Estilo aceita nume­ro­sos estran­gei­ris­mos já aco­lhi­dos na nossa lín­gua (numa lista alfa­bé­tica que vai de apartheid a zap­ping), esta­be­le­cendo que devem ser sem­pre gra­fa­dos em itá­lico (abre excep­ção para alguns ter­mos “recor­ren­tes” sem “cor­res­pon­dente em por­tu­guês”, como design ou jazz).

Julgo que os pri­mei­ros cri­té­rios a obser­var são o da com­pre­en­são (um termo estran­geiro gra­fado na lín­gua ori­gi­nal deve ser de uso cor­rente, sendo pre­fe­rí­vel em caso con­trá­rio recorrer-se à tra­du­ção ou, quando neces­sá­rio, à expli­ca­ção do seu sig­ni­fi­cado) e o da neces­si­dade ou uti­li­dade (“não faz sen­tido” escre­ver tsu­nami em vez de mare­moto, defende por exem­plo o lei­tor Manuel Pinheiro, que estende a sua crí­tica ao uso de outros ter­mos que vai encon­trando regu­lar­mente nes­tas pági­nas, como por exem­plo upgrade). Con­ven­cido de que têm razão os lei­to­res que cri­ti­cam o excesso de estran­gei­ris­mos, Auré­lio Moreira, da equipa de revi­so­res do “Público”, cri­tica por seu lado que se escreva check­point em vez de posto de con­trolo, ou sni­per em vez de ati­ra­dor furtivo.

3. A rapi­dez com que pala­vras estran­gei­ras entram hoje no nosso voca­bu­lá­rio cor­rente desac­tu­a­liza em pouco tempo qual­quer lista nor­ma­tiva exis­tente numa redac­ção, obri­gando mui­tas vezes a deci­dir caso a caso a uti­li­za­ção do vocá­bulo ori­gi­nal, o seu apor­tu­gue­sa­mento ou uma pos­sí­vel tra­du­ção. A direc­tora do ”Público”, Bár­bara Reis, explica que essas situ­a­ções são «muito deba­ti­das na redac­ção», mas «não há, depois, um pro­cesso de fixa­ção». Penso, no entanto, que seria útil à coe­rên­cia da escrita no jor­nal que esse pro­cesso fosse levado a cabo peri­o­di­ca­mente, actualizando-se a lista de estran­gei­ris­mos e neo­lo­gis­mos con­tem­pla­dos no Livro de Estilo.

Esse esforço seria espe­ci­al­mente útil no que res­peita à tor­ren­cial entrada no voca­bu­lá­rio comum de ter­mos liga­dos ao uni­verso dos com­pu­ta­do­res e da Inter­net. Em rela­ção a cada um deles, deve­ria ser esta­be­le­cido quais terão de ser tra­du­zi­dos (como ser­ver para ser­vi­dor, para não falar de aber­ra­ções como “dele­tar” em vez de apa­gar), quais deve­rão man­ter a gra­fia inglesa (cer­ta­mente nomes pró­prios como Twit­ter e Face­book, mas tam­bém expres­sões como online?), quais os que devem ser con­si­de­ra­dos neo­lo­gis­mos já per­fei­ta­mente apor­tu­gue­sa­dos (como blo­gue e tal­vez cli­car), e quais os casos em que deva ou não aceitar-se a con­vi­vên­cia do estran­gei­rismo com a forma por­tu­guesa (brow­ser e nave­ga­dor, link e hiper­li­ga­ção, site e sítio?). Devendo ter-se em conta que a adap­ta­ção grá­fica à foné­tica por­tu­guesa de neo­lo­gis­mos impor­ta­dos de outras lín­guas tende a ser mais lenta e con­ser­va­dora no por­tu­guês euro­peu do que na sua vari­ante ame­ri­cana (“saite”, “tui­tar”, etc.).

Não pode­ria o “Público” dotar-se de um “glos­sá­rio da Inter­net” que garan­tisse a nor­ma­li­za­ção lin­guís­tica e grá­fica desta terminologia?

Fonte

In jornal “Público” de 27 de Novembro de 2011

Sobre o autor

José Queirós, jornalista português, provedor do leitor do matutino Público.