Controvérsias // Português do Brasil
«Chegar em casa» vs. «chegar a casa»
Um caso de non sequitur
Há quem goste de ser driblado...
E há quem já viu o drible tantas vezes, que não cai mais.
Uma das estratégias mais matreiras de quem toca para cá olhando para lá é o non sequitur.
Conhece, pequeno gafanhoto?
Venha cá, que eu lhe explico.
O non sequitur é uma expressão que representa um erro lógico no qual a conclusão não decorre das premissas apresentadas, ou seja, o raciocínio tem aparência válida, mas o passo entre a premissa e a conclusão — ah... — é ilegítimo.
– Pestana, mas por que você está falando disso?
Por causa do mais novo texto de Sérgio Rodrigues na Folha de São Paulo (10/06/2026), intitulado "Só chega em casa quem é brasileiro":
O jornalista parte da seguinte premissa: a norma culta não deve ser inimiga das formas orais vernaculares.
Beleza. Ninguém discorda. Mas adivinha?
Isso mesmo. A conclusão dele «não se segue» (non sequitur), pois crê no seguinte: como a escrita culta do português brasileiro já assimilou historicamente traços da oralidade, a pessoa que escolhe usar alguma construção linguística tradicional está sustentando um «padrão mítico», incorrendo em «artificialismo» ou «arremedando a regência estrangeira», em suas palavras.
Vamos aos fatos? Nem sempre a fala do brasileiro (inclusive culto) converge com a sua escrita. Há níveis e escolhas. A escrita monitorada exige filtros de estabilidade que a fala dispensa. Confundir essa fronteira funcional é o primeiro drible do artigo.
Ora, uma coisa é dizer que o falante brasileiro não deve ser estigmatizado por dizer «chegar em casa» – inclusive, em seu ótimo dicionário de regência verbal, Celso P. Luft registra que essa construção com a palavra casa («chegar em casa») já faz parte da norma culta escrita do português brasileiro. Quanto à fala, nem se fala.
Agora... outra coisa, inteiramente diferente, é tomar por norma culta ESCRITA a regência «chegar em» quando o núcleo do complemento circunstancial for outra palavra que não casa. Quer provas? Abra o Guia de Uso do Português, no qual a linguista Maria Helena de Moura Neves registra o seguinte: 80% das vezes se usa a regência «chegar a» na escrita culta do português brasileiro. Pelo visto, «chegar em» não é lá tão brasileiro assim em circunstâncias monitoradas de comunicação escrita. Na minha dissertação de mestrado, comprovei o mesmo grau estatístico, atestando que a escrita culta real do português brasileiro está longe de refletir o que Rodrigues considera, mesmo sem fundamentação empírica, como algo já próprio e generalizado da nossa norma culta.
Resumo da ópera: o brasileiro fala «chegar em«, mas escreve «chegar a», predominantemente... ainda hoje, mesmo depois de ter saído da escola e de ter fugido do compromisso de agradar a professora.
A língua materna do português brasileiro tem diferentes coloridos: uns se manifestam na fala, outros na escrita. Mas há quem não aguente o sanhaço de apertar o botão para acelerar as mudanças [...]. O bom é que a força centrípeta é bem prudente e nada emocionada, porque fatos são coisas teimosas.
Sobre a referência que Rodrigues faz a José de Alencar, sugiro este belo trabalho de Gladstone Chaves de Melo: Alencar e a "língua brasileira" – ah, e o livro imprescindível de Celso Cunha Língua portuguesa e realidade brasileira. Ambos desmentem a ideia de que Alencar advogava por norma culta uma espécie de emulação da língua falada, tampouco fazia de sua prosa uma fonte normativa idiossincrática.
Sobre a referência que Rodrigues faz a Mário de Andrade, sugiro os ótimos livros de Raimundo Barbadinho Neto Sobre a norma literária do modernismo" e "Tendências e constâncias da língua do modernismo". Spoiler? Barbadinho resume a questão dizendo que havia mais rebeldia nos gestos do que nas obras dos modernistas e que o próprio Mário de Andrade admitiu que sua luta por "emancipação" linguística foi um exagero, um projeto experimentalista, ou algo assim.
Sobre Rachel de Queiroz, é de aplaudir a postura dela diante do editor português. Já divulguei essa história noutros tempos aqui, no meu perfil.
Retomando... É de aplaudir a postura de Rachel de Queiroz diante do editor português. Afinal, a norma culta escrita do português brasileiro realmente difere em alguns pontos da do português europeu. Nada mais natural a defesa pela norma culta brasileira – o que não significa que a nossa literata defendesse por norma culta escrita um espelhamento da modalidade falada. Non sequitur.
Sobre Gregório de Matos (século XVII) ser usado qual trampolim para o salto de que nós brasileiros de hoje usamos sistematicamente na escrita culta a próclise em início de período, fiz um levantamento exaustivo, que pode ser replicado pelos céticos: a ênclise em início de período no registro culto escrito do português brasileiro é extremamente alta [— eis a fonte: Fernando Pestana, O (pseudo)abismo entre a norma-padrão contida nas gramáticas normativas do português e a norma culta escrita do português brasileiro contemporâneo, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2023.
Quando um dia isso mudar, OK. Por ora, entre os brasileiros verdadeiramente cultos, fala-se com próclise e escreve-se com ênclise nesse contexto formal de uso. E é aquilo: uma andorinha só não faz verão; não é porque Rodrigues joga para a torcida aqui e ali a próclise em início de período que os escritores de sua geração fazem o mesmo. Ademais, o argumento da antiguidade histórica, sem verificação de frequência no corpus culto escrito contemporâneo, é exatamente o tipo de raciocínio driblante – um duplo twist lógico que usa o passado colonial para forçar um presente que a realidade dos textos escritos em elevado grau de monitoramento desmente.
Diz Rodrigues em seu desfecho: «É suficiente compreender que a imprescindível norma culta, se por definição não se confunde com as oralidades, tampouco pode agir como sua inimiga. Quer dizer, não se quiser ter alma.»
Parece bom, não é? O problema é que, ao prefaciar a obra Gramática do português brasileiro escrito (Faraco e Vieira, 2023), chancelando com anel de sinete tudo que nela se encontra, acabou por abonar uma norma culta escrita paradoxalmente salpicada de traços de oralidade, sabotando a sua própria premissa de que a norma «por definição não se confunde com as oralidades».
Sugiro a leitura deste artigo para entender os problemas dessa obra tomada como referência irrefutável por Rodrigues.
Pondo uma pá de cal nesta postagem, que já está avançada, existe ainda um último descompasso lógico no desfecho do texto de Rodrigues: apesar de admitir que a norma culta, «por definição, não se confunde com as oralidades», diz que ela perde a alma se «agir como inimiga das formas orais».
Ora, se a função intrínseca e definidora de qualquer norma-padrão é justamente servir de filtro, garantindo a estabilidade e a unidade referenciadora da língua escrita ao longo do tempo e do espaço – o que exige que ela não se confunda com o fluxo organicamente caótico da fala –, o ato de rejeitar certas formas orais não é hostilidade" ou "falta de alma". É apenas a norma cumprindo a sua própria função. O autor cobra da norma uma atitude de acolhimento que sabota a própria definição de norma que ele mesmo aceitou linhas acima.
Quer uma dica de zagueiro?
Não se deixe driblar.
P.S.¹: Para entender muito melhor essas questões, recomendo muito este livro.
P.S.²: Visando apagar um fogo causado por ele próprio em artigo anterior a este, Rodrigues faz no artigo de ontem um afago no seu público português, chamando-o agora de "irmãos" enquanto santifica um dos ídolos lusitanos: Fernando Pessoa. Veja: «Nos entendemos, ainda bem, em meio aos ruídos morfossintáticos e lexicais —mais do que isso, somos irmãos, e no altar aqui de casa Fernando Pessoa é santo graduado.» Sim, pedágio pago, Portugal (os portugueses) volta a deixar de ser aquele «país europeu que vai mais atrasado na autocrítica do colonialismo», consoante escrito em seu artigo anterior a este, que se confirma aqui.
Boa leitura.
[N. E. – Título e subtítulo da responsabilidade editorial do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa]
Publicação do gramático brasileiro Fernando Pestana (Facebook, 11/06/2026). Fonte da imagem: cabeçalho do artigo criticado no texto aqui transcrito, na edição digital da Folha de S. Paulo em 10/06/2026.
